Quarta-feira, 22 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1038
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DILEMAS DA IMPRENSA > Redes filantrópicas

15 milhões para ética: Craig Newmark quer restaurar a confiança no jornalismo

Por Lívia de Souza Vieira em 26/02/2019 na edição 1026

Publicado originalmente em objETHOS.

No início deste mês, a Craig Newmark Philanthropies anunciou investimento de US$ 15 milhões em dois projetos para fortalecer a ética do jornalismo na era digital: US$ 10 milhões serão destinados ao lançamento do “Centro Craig Newmark de Ética e Segurança em Jornalismo” e à “Cátedra Craig Newmark de Jornalismo” na Columbia Journalism School. Os outros US$ 5 milhões irão para a criação do “Centro de Ética e Liderança Craig Newmark”, no Instituto Poynter.

Antes de detalhar os dois projetos, vale fazer uma breve recuperação da biografia de Craig Newmark. Em 1995, Newmark criou o Craigslist, que se tornou o maior site de classificados gratuitos da internet. Sem publicidade e sem abrir o capital até hoje, o negócio vai na contramão das grandes empresas da internet, que fez alguns grandes milionários ao longo dos últimos 20 anos. Esta matéria da revista Época de 2008 chama Newmark de “zen” e destaca a vida modesta que ele e o CEO Jim Buckmaster levavam:

“Falar ao telefone com esse CEO nada ortodoxo é uma experiência no mínimo inusitada. A sensação é ter do outro lado da linha um membro perdido da geração “Paz & Amor”. Esse ex-programador que ainda mora de aluguel mais parece um hippie teletransportado direto dos anos 1960. “O lucro não é uma questão que ocupa meus pensamentos”, afirma Buckmaster num tom entediado. Segue-se um longo suspiro, e o executivo responde pela enésima vez, com uma calma zen-budista, à pergunta que não quer calar. Ele se arrepende de não ser bilionário? “Não tenho aversão ao lucro, mas não quero obtê-lo à custa dos usuários. Poderíamos aumentar a receita, mas não me vejo embolsando os resultados. O dinheiro iria acabar esquecido num banco.”

Apesar do caráter praticamente não-comercial da Craigslist (eles cobram pelos anúncios de emprego de algumas poucas empresas), este negócio estremeceu a mesma indústria que Newmark está se esforçando para salvar agora: a do jornalismo. Desde o início do Craigslist no final dos anos 90, as receitas geradas pelos classificados de jornais caíram significativamente nos EUA. Para se ter uma ideia, só de 2000 a 2010 a queda foi de US$ 19,6 bilhões para US$ 6 bilhões, ou seja, 70%. “Embora muitos fatores tenham contribuído para esse declínio, a associação acredita que sites como o Craigslist tiveram um papel importante na redução das receitas dos jornais. Isso faz sentido, considerando que não custa nada para o consumidor postar no Craigslist, enquanto os anúncios de jornal podem ser muito caros”, diz esta matéria do jornal Houston Chronicle.

Em recente entrevista para o site Quartz, Newmark foi questionado se sua filantropia para ajudar o jornalismo viria de uma espécie de culpa. Ao que ele respondeu:

“Meu interesse em ajudar o jornalismo resulta de uma aula de história em que Anton Schulzki, meu professor, me ajudou a entender que uma imprensa confiável é o sistema imunológico da democracia. Se você olhar para os números dos especialistas que li, como Thomas Baekdal, Ken Doctor e Jeremy Littau, os problemas começaram nos anos 50 com os noticiários da TV e continuaram em linha reta até o presente. Agora vemos as plataformas tendo um efeito, mas quando você olha para os fatos reais, o que realmente vemos é apenas uma linha reta na perda de receita de circulação. Intuitivamente, acho que Craigslist teve um efeito, mas veja também o efeito dos grandes.”

A filantropia de Newmark tem quatro eixos principais: jornalismo confiável, proteção de eleitores, mulheres na tecnologia, e veteranos e famílias de militares. No que diz respeito ao primeiro eixo, ele direciona majoritariamente seus investimentos a iniciativas acadêmicas. Além da Universidade de Columbia e do Poynter, Newmark doou em 2018 US$ 20 milhões para a CUNY University, que está trabalhando no Trust Metrics Project (Projeto de Métricas Confiáveis).

No Poynter, o Centro Newmark será liderado por Kelly McBride, especialista em ética na mídia. Além de treinamento, consultoria e educação continuada, o Centro servirá como uma rede de boas práticas. Haverá também uma bolsa anual para um jornalista profissional conduzir pesquisas e compartilhar conhecimentos com organizações jornalísticas.

De acordo com este comunicado na Universidade de Columbia, “o Centro ajudará a fortalecer o currículo de ética na universidade e permitirá à Escola de Jornalismo equipar jornalistas emergentes com ferramentas para abordar os dilemas éticos e de segurança enfrentados nas redações modernas”.

Os “novos barões” da imprensa vão salvar o jornalismo?

Embora haja outros exemplos de milionários investindo no jornalismo norte-americano (os chamados “barões da imprensa”), é interessante observar o foco de Newmark na ética e na qualidade do jornalismo. Ao invés de investir em gadgets, ele se volta para as bases da profissão.

Mas quais são as consequências desse movimento? Eles ajudam ou acabam sendo prejudiciais ao jornalismo? Alex Pareene, jornalista e ex-editor do site Gawker, defende o segundo ponto de vista. Para ele, uma indústria que depende dos milionários do mundo para se sustentar está em sérios apuros.

“Os “barões da imprensa” compram meios de comunicação por dinheiro ou por influência. Depois de comprar o The Washington Post, Jeff Bezos recebeu muito crédito por investir em jornalismo investigativo e dar ao jornal os recursos para alcançar um grande crescimento digital, como dizem os releases.”

O professor Jeff Jarvis é ainda mais pragmático. Para ele, simplesmente não há filantropia suficiente dos ricos para pagar o que o jornalismo precisa. “Existe um limite finito de generosidade. A caridade não vai nos salvar”, afirma.

Aqui no Brasil, o Nexo Jornal recebeu recentemente uma doação de US$ 920 mil da Luminate, a organização filantrópica do fundador do Ebay, Pierre Omidyar. E uma das fontes de financiamento da Agência Pública vem de doações de fundações privadas nacionais e internacionais, como a Fundação Ford.

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Lívia de Souza Vieira é professora de Jornalismo na Faculdade IELUSC e pesquisadora associada do ObjETHOS.

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