A crise de identidade dos jornais de prestígio | Observatório da Imprensa - Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito
Quinta-feira, 16 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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DILEMAS DA IMPRENSA > Impactos do digital nos impressos

A crise de identidade dos jornais de prestígio

Por Luis Sérgio Santos em 07/08/2018 na edição 999

É certo que os jornais impressos no suporte papel enfrentam a competição “desleal” das plataformas digitais de distribuição de informação. O marco da anarquia digital é 1996, ninguém previu o novo ciclo e ele se inicia para o implantar o caos e desorganizar a segurança conservadora principalmente dos grandes grupos de comunicação. A dicotomia rico x oportunidade ampliou um enorme gap, para alguns, literal abismo. A incerteza passou a ser a regra e os oráculos começaram a errar na sequência da derrocada de um castelo de cartas.

Atualizaram-se conceitos, a ideia de ‘sociedade líquida’ ganhou consistência nos textos de Zygmunt Bauman. Eles dialetizam, Marx, W. Benjamin, Marshall Berman. Criaram-se neologismos e novas dicotomias: velha mídia x nova mídia. Algo altamente edipiano como vemos em Freud porque trata-se principalmente de um conflito de gerações.

Mas o grande conflito ganhou relevo quando foi colocado em xeque o papel como suporte de produtos editoriais. De repente, o papel era o inferno, traduzia literalmente a ideia de velha mídia. O papel é analógico é nada mais velho que suportes analógicos. O surgimento da “impressão” virtual, na extensão PDF, metaforizava e substituia o papel como suporte. Agora podíamos “imprimir” sem enviar o documento para nenhuma suporte analógico.

A tecnologia encerrava-se em si mesma. Não à toa, PDF é a sigla de Portable Document Format (documento em formato portátil) que consolida em um documento todos os elementos de um layout (texto, desenhos, cores, fotografias, gráficos) imitando um documento impresso. Ele pode ser visualizado, impresso e transmitido eletronicamente. Representou um enorme avanço na produção gráfica no mundo todo e era uma ameaça real ao papel analógico. A palavra “documento” era chave. A ideia tradicional de documento como algo analógico estava em xeque.

O ano era 1993 a nascia o digital paper, ameaça real e imediata ao velho papel do jornal. Em 1985, dois anos depois, Bill Gates lança ‘The road ahead’ e ataca visceralmente o conceito tradicional de documento como algo estritamente analógico: “Quando você pensa em um “documento”, provavelmente visualiza pedaços de papel com alguma coisa impressa neles, mas essa definição é limitada.” Até a massificação do ambiente Windows criado por Bill Gates em 1985 o computador era uma torre de marfim. Este é o marco do PC, o personal computer, computador pessoal.

Até então, ninguém imaginava que uma gigantesca bola de neve iria se formar projetando-se rumo ao jornal impresso em papel. Gates inaugurava um marco tecnológico revolucionário como fora a invenção dos tipos móveis — a primeira linha de montagem de que se tem notícia — criada pelo visionário alemão Johannes Gutenberg.

Ainda Gates, em 1995: “Embora os jornais de hoje tenham um longo futuro pela frente, o jornalismo enquanto negócio se alterará fundamentalmente quando o consumidor tiver acesso à estrada. Nos Estados Unidos, os jornais diários dependem de anúncios locais para a maior parte de sua receita.”

Gates vaticinava que a internet seria o novo mediador nas relações de compra e venda: “A estrada proporcionará maneiras alternativas e mais eficientes para que vendedores e compradores individuais se encontrem.” E isso valeria para quase tudo. A perda da força mediadora comercial impactou também na perda de influência local. Ao mesmo tempo, proliferaram novas fontes de emissão de informação e, principalmente, de opinião.

Pronto, aqui temos o calcanhar de Aquiles, a perda de receita publicitária. No Brasil, essa perda foi avassaladora. A maior queda de receita aconteceu junto aos anunciantes não somente corporativos mas também de varejo. Os anúncios classificados evaporaram. Desse modo, e por exclusão, houve um aumento na participação dos assinantes e da venda avulsa na composição do faturamento mas, no geral, isso sequer fez cócegas e a queda total no faturamento continuou desnorteadora.

Quando um negócio é atacado em seu ponto mais sensível, a receita líquida, cria-se uma enorme vulnerabilidade. Uma alternativa era compensar a perda cobrando pelo acesso ao conteúdo na distribuição via internet. Faltava combinar com o internauta.

A reação — tardia para alguns — foi tentar se apropriar dessa nova tecnologia, uma estrada desconhecida e volátil onde a informação parecia jorrar gratuitamente, como uma nascente brota ao sopé de uma duna.

Nesse cenário, um problema de natureza simbólica ganhou relevo: a crise de identidade e a perda da consciência da natureza do jornal impresso notadamente no formato ‘standard’.

Notadamente no Brasil esse conflito foi — e está sendo — demasiado acentuado. A plasticidade dos jornais ‘standard’ tem mudado repetidamente. O intervalo de redesenho dos jornais tem diminuído num auto atestado — potencialmente inseguro — de obsolescência. Mudanças drásticas vão numa única direção, a tentativa de assemelhar o desenho dos jornais aos ambientes digitais. Há uma ênfase nos espaços negativos, o uso dos brancos. Há uma quebra no paradigma do eyetrack da página impressa. A manchete, sempre nas margens externas das páginas agora migram para as margens internas, como nas webpages. Os desenhos ficam cada vez mais “revistizados”, fotos estouradas, sangradas, ao modo de tablóides sensacionalistas.

Felizmente, jornais de prestígio (prestige papers) como The Washington Post, Los Angeles Times, The New York Times, The Wall Street Journal e os jornalões alemães de um modo geral parecem passar ao largo desta “crise de identidade”. Continuam com seus desenhos “conservadores”, com enorme ganho de produtividade nos espaços editoriais, sem ostentarem espaços negativos — afinal, o que o jornal tem para vender, senão espaço?

De qualquer modo a tentação “minimalista” é só mais um capítulo na busca de uma luz no fim do túnel, enquanto luz houver.

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Luis Sérgio Santos é professor de “Desenho Editorial” no Curso de Jornalismo na Universidade Federal do Ceará.

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