Domingo, 15 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1054
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DILEMAS DA IMPRENSA > Justiça social

Brumadinho. O Jornalismo agradece

Por Gabriel Bocorny Guidotti em 05/02/2019 na edição 1023

Note, de prontidão, que não atribuo o “agradecimento” a nenhuma pessoa específica, mas a uma área específica. Talvez o título pudesse se estender a outras áreas também. Advogados farão fila em Brumadinho em busca de polpudas indenizações para seus clientes. Engenheiros revisarão seus procedimentos. Administradores vão incorporar, aos seus cálculos financeiros, o investimento necessário para garantir a segurança de suas operações. Ou não…

Pessoas sãs sentem o peso de um fato que vitimou dezenas de inocentes. O Jornalismo, por outro lado, aprecia tragédias. Oxigena o noticiário, abre espaços para suítes de diferentes naturezas. O número de histórias que nascem de ocorrências como essa é incontável. Uma mais marcante que a outra. E hoje, com cada pessoa dotada de um celular sendo um potencial jornalista, a amplitude de Brumadinho se torna ainda mais latente.

Dizem que o Jornalismo, por natureza, não é propositivo. Não é, sem dúvida. O foco são os meandros do poder: a sujeira, a corrupção, a notícia que choca e indigna. A notícia boa, da alegria à superação, ganha espaço nas últimas páginas dos jornais ou nos últimos blocos dos telejornais. Os veículos costumam massacrar o espectador. No final, amaciam a carne para tentar vender a ideia de que um broto pode nascer em meio a um incêndio.
Mas o Jornalismo real, aquele que perscruta a natureza humana, não deve ser propositivo mesmo. É responsabilidade da reportagem destrinchar as estruturas criminosas de poder, apurar e pressionar as responsabilidades das pessoas que negligenciaram a segurança de sua empresa. É inaceitável que, depois de um precedente perigoso como Mariana em 2015, algo do tipo aconteça de novo.

Ninguém perdoa negligência

Façamos outro raciocínio. O Jornalismo pode ser propositivo em sua negatividade. Na medida em que repórteres procuram respostas às perguntas que surgem após os fatos… normalmente mudanças acontecem. Mas ele também pode ser propositivo em sua positividade. Há belos exemplos de pessoas que arriscaram suas vidas em busca de sobreviventes entre a lama de Brumadinho.

A partir de agora, as atenções se concentram nas ações da Vale. Do outro lado do balcão, a assessoria de imprensa da empresa agiu rápido para tentar que “provar” que o foco não é a busca incessante pelo lucro. Doações de R$ 100 mil reais foram anunciadas aos parentes de vítimas. Executivos tiveram suspensas suas polpudas bonificações. A assessoria até pode se esforçar, ainda que infrutiferamente. Negligência é a palavra do momento.

E a sociedade não tem o costume de perdoar os negligentes. Ainda mais quando a negligência custa vidas. O Jornalismo baterá nessa tecla durante meses, até que o noticiário esfrie em função da morosidade do Judiciário. Por parte da imprensa, serão requentadas informações sobre o andamento dos processos, até que aconteça outra grande a tragédia para oxigenar novamente as capas dos veículos.

Ademais, expor na mídia esse tipo de caso combate os expedientes espúrios das pessoas que detém o poder e o dinheiro. O Jornalismo é uma ferramenta, sim, que busca a justiça social. Pode estar enfraquecido, mas jamais desaparecerá enquanto existirem pessoas dispostas à revelação dos fatos. Dinheiro indenizatório se produz aos montes. Revelar os fatos, todavia, é a melhor forma de homenagear os mortos de uma evitável tragédia.

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Gabriel Bocorny Guidotti é escritor.

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