Quarta-feira, 17 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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DILEMAS DA IMPRENSA >

Choro de jornalistas por futebol na TV: tragédia ou farsa?

Por Ronaldo Lages em 17/07/2018 na edição 996

Imigrantes irrompem barreiras ao redor do mundo todos os anos, segundo as Nações Unidas (ONU) são mais de 200 milhões, procuram principalmente emprego nas economias bem estabelecidas do Capitalismo como Estados Unidos, Alemanha e França.

Contrariamente do que pregam as grandes democracias liberais, esses visitantes são hostilizados e barrados nas fronteiras, quando não, são torturados longe dos olhos da imprensa mundial, pouca comoção da opinião pública e nenhuma lágrima.

Geralmente a narrativa midiática que se emprega no discurso imigratório é burocrática, tratada como “danos colaterais” ou mero problema geopolítico, analisado com frieza e distanciamento dos acontecimentos.
Ora, o leitor deve estar a se perguntar: mas o jornalismo não deve tratar as questões dessa forma, com distanciamento em um horizonte de frieza emocional para atingir a verdade?

A resposta para essa pergunta é mais que óbvia, excetuando-se o fato de tratar pessoas como meros “danos” às sociedades desenvolvidas. Eis o papel do jornalismo, embora esse seja produzido por seres humanos e não robôs. Questão na qual reside um contraponto importante.

A cena protagonizada pela repórter da Rede Globo de Televisão, Glenda Kozlowski quase aos prantos após a fatídica derrota da seleção brasileira na Copa do Mundo diante da Bélgica (06/07) nos traz reflexões urgentes sobre o peso das coisas.

Não se trata de querer julgar a autenticidade das lágrimas da profissional e muito menos dos sentimentos que guardava naquele momento, é necessário ir até a raiz do fenômeno.

Qualquer pessoa que visse de relance a cena de Glenda chorosa na tela da TV poderia jurar que ali na Rússia, naquele exato momento, algo de muito ruim havia acontecido ao invés da eliminação de um selecionado mais que mediano e altamente endinheirado.

Segundo a jornalista, confusa e abatida, seu convívio com as famílias dos atletas a afetou, mais ainda quando se deparou com o desespero da mãe de Fernandinho, jogador que por infelicidade marcou um gol contra decisivo na partida.

“Eu estava sentada do lado da Ane, a mãe do Fernandinho e, quando aconteceu tudo, a gente não entendeu direito quem tinha feito o primeiro gol da Bélgica e, quando apareceu no telão que tinha passado [a bola] no ombro do Fernandinho, a Ane botou a mão na cabeça e disse: ‘Meu Deus, foi o meu filho!’”, descrevia com voz embargada a repórter global como explodiu a bomba na praça, corrigindo, o gol do adversário.

Dias antes da derrota, ainda na primeira fase, um Galvão Bueno megalomaníaco chama atenção do país inteiro para o choro em plena grama do jogador e publicitário Neymar, que dizia estar sofrendo por causa da “pressão”, que parte da imprensa engoliu e replicou.

Porventura, esse texto fala apenas sobre prioridades e bom senso no jornalismo, não que o jornalista tenha que ser uma máquina ou que vá chorar por cada imigrante do planeta, longe disso, mas entender que os assuntos merecem atenção diferente. Talvez, devêssemos repensar a forma como cobrimos certos acontecimentos na TV para fazer o público entender que alguns fatos são verdadeiras tragédias – outros, mera farsa.

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Ronaldo Lages
é jornalista, atua no jornalismo comunitário e é colaborador da Agência Mural de Jornalismo das Periferias.

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