Segunda-feira, 15 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1008
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DILEMAS DA IMPRENSA > Muito além dos artigos

Gênero, discurso e mídia: por que discutir a cobertura jornalística?

Por Duílio Fabbri Júnior e Fabiano Ormaneze em 02/10/2018 na edição 1007

Houve um tempo em que a discussão sobre gênero na imprensa era reduzida a uma questão gramatical. Nas redações, era comum, por exemplo, o conflito sobre usar o artigo definido “a” diante do substantivo “travesti” — como o movimento solicitava — ou usar “o”, como os dicionários registram. Hoje, em época de discussões sobre direitos LGBT, feminismo, masculinidade e representatividade, a discussão se alargou e não se trata apenas da escolha de uma ou outra palavra, tão pouco de adotar o politicamente correto. A abordagem sobre gênero deve estar no debate sobre mídia e, especialmente, sobre jornalismo, já que, pela credibilidade que carrega e pelo poder de circulação como informação verdadeira, a imprensa coloca questões e interpretações em discussão.

Pensando nisso, a Escola de Extensão (Extecamp), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), oferecerá, a partir do dia 06 de outubro, o curso “Gênero, Discurso e Mídia: da Reflexão à Cobertura Jornalística”, que tem como objetivo discutir de que forma as reportagens, na grande imprensa, produzem sentidos sobre gênero. Com isso, pretende-se dar subsídios para que, ao refletir sobre a questão, jornalistas tenham elementos para uma cobertura mais inclusiva e que respeite a diversidade e as diversas manifestações de gênero, minimizando a circulação de discursos sexistas e estereotipados. Numa perspectiva interdisciplinar, pretende-se ainda reunir interessados de outras áreas, como letras, linguística e educação.

Na formação do jornalista, seja em cursos de graduação ou em especialização, o tema costuma passar alheio, distante das principais discussões, a não ser numa perspectiva de comunicação alternativa ou como álibi para exercícios laboratoriais em que estudantes produzem reportagens ou trabalhos de conclusão de curso sobre a temática de gênero. Isso sem contar todo o tabu que ainda resiste em discutir a questão, no país que mais mata homossexuais no mundo, em que 12 mulheres são mortas por dia vítimas de violência e em que ganham reforço discursos reafirmando o aspecto biológico acima de qualquer outro na constituição da sexualidade e do gênero.

Os cursos de extensão, mais rápidos e pontuais, têm o objetivo de cumprir demandas específicas e que podem contribuir na interação e na aproximação entre universidade, grupos de pesquisa e sociedade. A ideia desse curso, originado no grupo de pesquisa Mulheres em Discurso, coordenado pela professora Mónica Zoppi-Fontana, do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), da Unicamp, surgiu a partir do contato com duas experiências na França. A primeira delas foi um curso com a mesma temática, oferecido na Universidade Paris 13, com coordenação da professora Marie-Anne Paveau, também voltado a jornalistas.

A segunda foi um trabalho de pesquisa desenvolvido pela professora Marlène Coulomb-Gully, na Universidade Jean Jaurès, em Toulouse. Durante um semestre, como atividade de uma disciplina oferecida na pós-graduação, ela conduziu orientandos na análise das produções da France Presse, uma das principais agências de notícias do mundo. A proposta era verificar como as questões de gênero, desde a abordagem das temáticas, até os aspectos relacionados à linguagem, eram tratadas nas reportagens. Ao final, foi redigido um documento com indicações de pontos a serem refletidos por jornalistas e gestores da agência. Essa experiência por si só demonstra algo que, no Brasil, ainda patina, sobretudo na área de Ciências Humanas: a relação que pode existir entre universidade e mercado, na qual a primeira, por meio de pesquisas e atividades de extensão, pode oferecer caminhos para uma contínua melhoria das práticas profissionais.

Marlène Coulomb-Gully considera a mídia uma “fábrica de gênero”, sobretudo ao reproduzir estereótipos. “A referência à aparência física, ao estado civil e à situação familiar caracterizam grande parte da representação das mulheres na imprensa”, explica ela no artigo Gênero e mídia, um inventário, da revista Sciences de la Societé (2011). De acordo com a professora, embora haja avanços na igualdade de gênero, o masculino ainda é prevalecente, o que ela sintetiza num questionamento: “Se as mulheres podem usar calças, por que os homens ainda não podem usar vestidos?”.

As duas experiências francesas e, agora, a da Unicamp, utilizam como referencial teórico a Análise de Discurso (AD), disciplina surgida na França no final dos anos 1960, a partir de discussões e propostas de autores como Michel Pêcheux e Michel Foucault. No Brasil, a disciplina encontrou fértil desenvolvimento e crescimento, transformando o País num dos principais pontos de articulação teórica. Pela AD, busca-se compreender como as palavras e as imagens produzem sentidos e está nisso o principal ponto de encontro que pode existir entre os estudos do discurso e a prática jornalística.

Como todo sujeito, o jornalista, quando formula o que vai dizer, o faz sempre a partir de uma posição ideológica e de outros dizeres. Portanto, discutir a cobertura não é apenas fornecer uma lista de normas de como usar uma determinada palavra para se referir a alguma questão que toque a discussão sobre gênero, mas também saber identificar de que modo os sentidos produzidos pela imprensa se inscrevem na história e foram se constituindo. Considerar apenas o que se diz, sem levar em conta a posição do sujeito, o lugar de fala e a memória, no sentido de um conjunto de dizeres, seria entender as palavras como neutras e com sentido nelas mesmas. Mas, como diz Pêcheux, no livro “Semântica e Discurso” ([1975] 2009), as palavras têm seus sentidos determinados “pelas posições ideológicas que estão em jogo no processo sócio-histórico na qual são produzidas (isto é, reproduzidas)” (p. 160).

Da relação entre linguagem e sujeito é que se torna imprescindível que a formação do jornalista (seja ela inicial ou continuada) contemple as questões de linguagem, retirando-a, todavia, de uma proposta tecnicista. A AD pode auxiliar na formação ao mostrar ao profissional que a linguagem não é neutra e ao desconstruir o efeito de evidência e de referencialidade entre coisa/fato e palavra, contribuindo para um posicionamento crítico a respeito de como a imprensa faz circular sentidos. Essa perspectiva mostra ao jornalista que o sentido pode sempre ser outro, que uma palavra nunca é capaz de dizer tudo, num gesto constante de interpretação.

Além disso, a AD sempre se colocou como uma disciplina de interpretação, num processo de atribuição de sentidos. E o que seria a prática jornalística senão a interpretação de acontecimentos diários, recortados e elevados à condição de notícias? A AD desnaturaliza para o profissional do jornalismo a evidência de um fato, mostrando que o que se tem é sempre um gesto de interpretação, em algum lugar da história e da sociedade.

A reflexão sobre gênero na mídia não diz respeito apenas à cobertura das demandas das minorias. Diz respeito também a como, em abordagens sobre outros temas, produzem-se sentidos sobre gênero. Foi o que analisou, por exemplo, Mónica Zoppi-Fontana em diversos veículos após a aprovação de PEC das domésticas, em 2013. Nas reportagens e entrevistas analisadas, em artigo que compõe o livro “Mulheres em Discurso: Identificações de gênero e práticas de resistência” (2017), a pesquisadora constatou, por exemplo, que “o papel do homem em relação às atividades domésticas é apenas lembrado e, junto com ele, foram também silenciadas as responsabilidades do Estado”. A análise de reportagens exibidas no Fantástico e em programas de entretenimento, como Mais Você, de Ana Maria Braga, levou a autora à conclusão de que “se a PEC teve forte impacto no desmascaramento da divisão social do trabalho e da segregação racial que lhe é associada, seus efeitos em relação à denúncia da divisão sexual do trabalho foram, no entanto, bem mais tímidos” (p. 157-158).

O discurso jornalístico é, ao mesmo tempo, uma prática social que produz sentidos e que veicula diversas vozes de um imaginário, seja ele sobre gênero ou sobre qualquer tema. Em Microfísica do Poder (1979), Foucault, autor também de um compêndio em quatro volumes sobre a história da sexualidade, destaca que “a verdade é deste mundo […], produzida nele graças a múltiplas coerções e nele produzindo efeitos regulamentados de poder” (p. 13). Que poder é esse a dizer e a delimitar o que é ser homem, o que é ser mulher, o que é estar num gênero ou noutro? Que poder é esse do discurso midiático na cristalização dos conflitos e das dicotomias? Questões entre tantas a serem respondidas e a contribuírem com a formação do jornalista.

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Duílio Fabbri Júnior, jornalista, doutorando em Linguística pela UFSCar, professor no Centro Universitário Anchieta e no Unisal-Americana. Professor do curso de extensão “Gênero, discurso e mídia: da reflexão à cobertura jornalística”, na Unicamp.

Fabiano Ormaneze, jornalista, doutorando em Linguística pela Unicamp, professor no Centro Universitário Metrocamp. Professor do curso de extensão “Gênero, discurso e mídia: da reflexão à cobertura jornalística”, na Unicamp.

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REFERÊNCIAS

COULOMB-GULLY, Marlène. Genre et média: vers un état des lieux. Science de la societé, n. 83, 2011. Disponível em: https://journals.openedition.org/sds/2113

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Forense, 1979.

PÊCHEUX, Michel. Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. Campinas: Unicamp, 2009.

ZOPPI-FONTANA, Monica. Domesticar o acontecimento: metáforas e metonímias do trabalho doméstico. In: ______; FERRARI, Ana Josefina (orgs.). Mulheres em discurso: identificações de gênero e práticas de resistência. Campinas: Pontes, 2017, p. 123-159.

 

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