Quarta-feira, 22 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1038
Menu

DILEMAS DA IMPRENSA > Contextualizações

Globo e Venezuela: a saga da desconstrução do jornalismo

Por Samuel Lima em 06/03/2019 na edição 1027

Publicado originalmente pelo objETHOS.

(Foto: Reprodução)

A revelação causaria espanto e enérgica reação, ato contínuo, em qualquer país democrático do planeta: o presidente da República, Jair Messias Bolsonaro, declara de viva-voz a um ministro seu, que a maior empresa de comunicação do país (a TV Globo – veja a imagem) é sua “inimiga” – e que, por consequência, ele não quer um executivo do “seu inimigo” dentro de “casa” (o Palácio do Planalto, visto assim como seu “quintal”).

A reação da mídia corporativa, em geral, foi pífia: nenhuma nota dura de entidade patronal; apenas um editorial acanhado da TV Globo, lido em seus telejornais, jurando que iria responder “fazendo jornalismo”. Mas, qual o quê: intenção e gesto desapareciam alguns dias depois…

E viria a galope, na cobertura dos conflitos de fronteiras envolvendo supostos militantes pró-Juan Guaidó, o autoproclamado (ele mesmo votou em si) presidente da Venezuela, e as forças da Guarda Nacional daquele país. Entram em cena duas situações bem distintas, que revelam para além de decisões editoriais tomadas na cúpula das empresas de jornalismo, a concepção de mundo e de jornalismo (valores éticos, interesse público etc.), de cada profissional, no front da notícia. Para fins desta reflexão, destaco duas reportagens realizadas nos dois pontos de conflitos mais evidente: Pacaraima, estado de Roraima, no Brasil; e em Cúcuta, na fronteira da Colômbia.

O desonesto “jornalismo de guerra”

De microfone em punho, biógrafo do ex-juiz Sérgio Moro (“Sérgio Moro: a história do homem por trás da operação que mudou o Brasil”), o repórter Vladimir Netto (TV Globo) olhou apenas para um dos ângulos possíveis da notícia e colocou no ar o coronel brasileiro Jacaúna de Souza, com perguntas que só poderiam ser respondidas pelo presidente da República ou seu ministro de Relações Exteriores, ausentes dali. Leia a entrevista e tire suas conclusões, leitor e leitora:

“Repórter: Como o senhor vê esse episódio, coronel? O que significa?

Jacaúna: Foi um episódio lamentável, né? Eu nunca tinha visto nenhum Exército de um outro país jogar bomba de gás lacrimogêneo no Brasil. Jogar pedras… Ver soldados dessa Guarda Nacional Venezuelana jogando pedra em território brasileiro, disparando tiro real aqui do nosso lado… Isso realmente foi um episódio muito lamentável.

Repórter: O que você acha… O que o senhor acha que pode ser feito nesse momento para reforçar nossa fronteira, para proteger a nossa fronteira. Isso foi um ataque à nossa soberania, coronel?

Jacaúna: Quem vai dizer isso é o campo político, né?, que vai dizer se foi um ataque à nossa soberania, mas eu acho que, via diplomática, ela deve aí atuar fortemente contra quem… Contra os responsáveis por essa ação aí.

Repórter: O ser. acha, então, que é hora de o Itamaraty resolver…, ver o que é que faz diante dessa situação inédita entre Brasil e Venezuela?

Jacaúna: Não sou eu que vou dar ordem para o Itamaraty. Não sou eu que vou dizer o que o Itamaraty tem de fazer. Mas acho que, da nossa, parte, realmente uma posição firme deve ser tomada.

Repórter: Os senhores vão reforçar o efetivo na fronteira?

Jacaúna: O efetivo aqui já está reforçado pela Operação Controle, pela Operação Acolhida, que estão ocorrendo aqui na região, face ao grande fluxo de venezuelanos. Então, nossa fronteira, nossa soberania, eu posso afirmar que está absolutamente garantida aqui.

Repórter: O que o senhor acha que levou os soldados venezuelanos a fazer isso?

Jacaúna: É, realmente, está com o problema da ajuda humanitária, que eles estão fazendo de tudo para impedir, e a população venezuelana que está aqui está querendo que a ajuda passe, mas o território brasileiro não tem nada a ver com isso, certo? Eles realmente extrapolaram na reação aos venezuelanos que estão aqui em nosso território.

Repórter: Entendi. A fronteira é bem ali no marco, né? Quer dizer: a partir daquele ponto, é considerado território venezuelano; da bandeira para cá, é considerado território brasileiro, não é isso?

Jacaúna: Positivo! E nós recebemos gás lacrimogênio, balas de borracha e tiros do lado do território brasileiro. Isso realmente não poderia ter acontecido.”

Repórter: Muito obrigado, coronel

(Fonte: https://bit.ly/2EwSBCr).

(Foto: Reprodução)

A pergunta-chave de Vladimir Netto (“Isso foi um ataque à nossa soberania, coronel?”) revela o total enviesamento da notícia, porque outros relatos de empresas de referência (Estadão e Folha de S.Paulo, por exemplo) indicam, com absoluta clareza, que havia outros fatos relevantes acontecendo, que provavelmente Netto viu e ouviu, mas desprezou em nome do seu “jornalismo de guerra” – pra usar uma expressão do jornalista Luis Nassif – no qual a primeira e a última vítima é sempre a verdade.

Quando comparamos trechos dessa reportagem/entrevista, veiculada pelos principais telejornais da Globo e Globo News, com os relatos de outros profissionais que estavam naquele espaço, cobrindo os mesmos acontecimentos, a distância é imensa. O primeiro exemplo vivo é do jornalista Fabiano Maisonnave (Folha de S.Paulo). Observe um trecho:

“Um confronto entre opositores e militares venezuelanos na linha fronteiriça teve pedras, coquetel molotov, gás lacrimogêneo e ao menos um ferido no final da tarde deste sábado (23/02). Um porta-voz do Exército brasileiro disse que foi uma “pequena rusga na fronteira”.

O incidente foi iniciado por algumas dezenas de manifestantes venezuelanos concentrados do lado brasileiro, alguns deles alcoolizados. Eles queimaram uma base de vigilância e lançaram pedras e coquetéis molotov contra militares venezuelanos.

(…) Após o incidente, o coronel brasileiro Jacaúna de Souza disse a jornalistas que foi “foi um episódio lamentável. Ninguém esperava que isso acontecesse no nosso território. Recebemos uma chuva de gás lacrimogêneo. Esperamos que isso não fique assim. Que alguma coisa seja feita pelo nosso governo”.

Questionado se considerava o incidente um ataque, respondeu que houve uma “pequena rusga na fronteira”: “A fronteira está reforçada, protegida. Não existe mínima possibilidade de sermos invadidos

(Grifos meus. Fonte: https://bit.ly/2GY9Hgd).

Destaco o trecho: “O incidente foi iniciado por algumas dezenas de manifestantes venezuelanos concentrados do lado brasileiro, alguns deles alcoolizados. Eles queimaram uma base de vigilância e lançaram pedras e coquetéis molotov contra militares venezuelanos”. Ação e reação, típica de confrontos de rua, sem que isso justifique a violência de ninguém. Mas, a realidade já aparece na forma mais complexa, com dois agentes em confronto. Notemos que o texto dos jornalistas Felipe Frazão e Luiz Raatz, enviados especiais do jornal O Estado de S.Paulo, também narra os acontecimentos olhando para os dois lados da fronteira, não obstante o título (“Militares veem agressão ao Brasil e pedem ação diplomática”). A declaração da principal fonte militar contesta o próprio título (mão dos repórteres versus mão do editor, em São Paulo):

“Depois do confronto envolvendo cidadãos venezuelanos radicados no Brasil e militares da Guarda Nacional Bolivariana (GNB) na fronteira entre os dois países neste sábado, 23, o Estado ouviu as primeiras impressões de oficiais do Exército envolvidos na Operação Acolhida e integrantes do pelotão de fronteira do 7º Batalhão de Infantaria de Selva (BIS), responsável pela segurança na fronteira com a Venezuela.

Os militares brasileiros fizeram uma varredura em solo próximo à linha de fronteira para afastar os últimos venezuelanos que continuavam atacando bases das forças leais a Maduro. Para eles, as forças venezuelanas “agrediram o Brasil” e avançaram sobre a fronteira ao se deslocarem até o último marco físico e revidarem as pedradas, além de terem disparado bombas de gás contra o território nacional.

“Foi um episódio lamentável. Ninguém esperava que isso acontecesse no nosso território. Recebemos uma chuva de gás lacrimogêneo vindo do território venezuelano e esperamos que isso não fique assim”, disse o coronel José Jacaúna, chefe da Operação Acolhida, que, segundo ele, foi afetada e paralisada neste sábado. “Algo deve ser feito em termos de relações internacionais. Alguma ação diplomática em face a esse governo (Maduro) que nos atacou. Não há uma ofensa ao território nacional, mas há rusga”

(Grifos meus. Fonte: https://bit.ly/2tBAJl6).

No corpo da reportagem do Estadão, o/a leitor/a pode assistir ainda a um vídeo, que traz a seguinte legenda: “A reportagem do ‘Estado’ registrou o momento em que manifestantes venezuelanos em território brasileiro entraram em confronto com membros da Guarda Nacional Bolivariana (GNB) na tarde deste sábado na fronteira entre Pacaraima e Santa Elena de Uairén” (Veja aqui: https://bit.ly/2tBAJl6).

Quem é o ditador: Kim ou Maduro?

No meio da refrega de fronteira, que deixou como saldo dezenas de feridos e, pelo menos, quatro mortos (os dados são imprecisos), no dia seguinte ao fatídico “Dia D” (23 de fevereiro), declarado por Juan Guaidó, o golpista autodeclarado presidente da Venezuela, houve uma reunião do Grupo de Lima, países que sob a liderança do Brasil, apoiam a cruzada de Guaidó pelo poder.

O jovem jornalista Victor Ferreira (Globo News) cobria o evento e entrevistou o vice-presidente, general Hamilton Mourão, que representava o país, e o chanceler Ernesto Araújo, defensor ardoroso da intervenção militar contra o governo de Nicolás Maduro – eleito por 5,8 milhões de cidadãos e cidadãs venezuelanos, mas tido e havido pela mídia corporativa brasileira como “ditador”.

Enquanto o Grupo de Lima deliberava qual posição tomar diante do confronto na Venezuela, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que mandou seu vice, Mike Pence, à reunião, voava 21 horas entre a capital Washington D.C. e o extremo oriente para se encontrar com o presidente da Coreia do Norte, Kim Jong-un, herdeiro de uma dinastia política que governa, com mão de ferro, aquele país desde 1948. A Venezuela tem petróleo; a Coréia, um arsenal bélico nuclear capaz de destruir boa parte do planeta.

Ferreira ignorou a militância política praticada por Vladimir Netto e fez apenas Jornalismo, com “J” maiúsculo, com apuro ético, busca da verdade e honestidade intelectual. Qual a diferença entre a suposta ditadura de Nicolás Maduro e o regime coreano? – considerando essa questão de Trump “manter diálogo com o ditador da Coreia do Norte, Kim Jong-un, com quem vai se encontrar nesta semana, mas não com Nicolás Maduro, presidente da Venezuela” (Fonte: https://glo.bo/2NsdDq8).

Vejas as respostas de Mourão e de Araújo:

“Mourão: São situações distintas, né? A questão entre os Estados Unidos e a Coreia do Norte está muito centrada na questão nuclear, uma vez que a Coreia do Norte é uma potência nuclear. O caso da Venezuela é caso distinto. Não sei se o presidente Trump, em algum momento, gostaria de ter uma conversa com Maduro; e também não sei se o Maduro aceitaria conversar com ele.

Araújo: São situações diferentes – são situações geopolíticas muito diferentes. O caso da Venezuela realmente é um caso onde o regime está oprimindo o seu povo de uma maneira brutal, fazendo seu povo a passar fome, inclusive atirar nas pessoas que tentam ter acesso a ajuda humanitária…”

(Grifos meus. Assista aqui à entrevista completa: https://glo.bo/2NsdDq8)

Às duas respostas, perguntando sobre a resposta de Ernesto Araújo, Victor Ferreira fez a pergunta fatal quando o chanceler acusava Maduro de “oprimir seu povo de uma maneira brutal”. “E a Coreia do Norte a mesma coisa?” Ao que Araújo respondeu constrangido: “É, enfim, mas não sei se necessariamente é com esse grau de brutalidade que se viu nesse fim de semana, são situações que não necessariamente se pode comparar…”.

A cobertura do conflito na Venezuela é algo que desafia o bom jornalismo, tanto nas empresas de referência como nas organizações do jornalismo independente, na internet. Uma cobertura enviesada e sem o devido contexto histórico é o caminho mais curto para a fraude, a desonestidade intelectual e o desrespeito ao público. Os dados das reportagens que aqui publicamos nos ajudam a refletir sobre os caminhos e descaminhos que o jornalismo brasileiro, em particular, pode seguir neste começo de jornada de um governo marcadamente avesso aos ritos democráticos mais elementares, entre os quais se incluem o respeito aos direitos humanos e às liberdades civis, destacando-se as liberdades de expressão e de imprensa.

A escolha editorial dos veículos que compõem o oligopólio privado de mídia está muito clara, especialmente nestes últimos 15 anos (até a eleição do atual governo) quando atuou estrategicamente na desconstrução da democracia. Não significa que todos e todas, profissionais que atuam neste espaço tão sensível às lutas da sociedade, compartilham dessa visão. Os gestos e escolhas de Vladimir Netto e do jovem jornalista Victor Ferreira nos dizem muito mais que suas visões de mundo: nos ensinam o que fazer e o que não fazer na profissão. Ou ainda como nos legou o poeta Paulo Mendes Campos: “O ser humano é um gesto que se faz, ou que não se faz”.

**

Samuel Lima é jornalista, professor do Departamento de Jornalismo da UFSC e pesquisador do objETHOS.

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem