Quarta-feira, 14 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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DILEMAS DA IMPRENSA >

Jornalismo, do senso crítico à ilusão da proximidade

Por Rafael Motta em 05/06/2018 na edição 990

Começo a escrever minutos depois de saber da morte de Alberto Dines. Soube da notícia na rua, caminhando, ao passar por um conjunto de lojas populares. Um alto-falante direcionado para os pedestres reproduzia a rádio Jovem Pan, na qual o jornalista Claudio Tognolli citava uma contribuição fundamental de Dines ao jornalismo: seu trabalho como ombudsman, talvez o primeiro no mundo a exercer essa tarefa na imprensa, na Folha de S.Paulo da década de 1970.

Passei parte do caminho de volta para casa refletindo sobre aquele comentário. Do quanto a crítica de mídia contribuiu para que a imprensa fosse mais exigente consigo mesma e, como resultado, menos falha e mais eficaz enquanto serviço público. Essa cobrança constante ajudou a melhorar a qualidade do jornalismo, incluídos princípios profissionais e éticos. Hoje, porém, com equipes continuamente reduzidas em todos os meios, restam ao menos duas perguntas:

1. Como seguir as orientações de um(a) ombudsman, sabendo que não há como ser tão abrangente quanto se deveria em razão da defasagem de pessoal para apurar, produzir e editar informações?

2. Como aproveitar a crítica da mídia em veículos que lutam para se manter vivos (jornais impressos) ou que priorizam dar notícias antes da concorrência, aceitando o risco de desmenti-las depois que a informação original já correu a internet (parte dos veículos digitais)?

Quase um ano atrás, o New York Times aboliu a função de ombudsman. Seu editor, Arthur Sulzberger Jr., alegou que a responsabilidade no posto, “de servir como um representante dos leitores, já ultrapassou os limites da redação. Não há nada mais importante para nossa missão e nosso negócio do que fortalecer nossa conexão com leitores. Uma relação tão fundamental não pode ser terceirizada a um único intermediário”. Os leitores se tornariam “editores públicos”.

Uma análise inicial desse comunicado dá a entender que, em troca de “fortalecer nossa conexão com leitores”, mesmo esse grande jornal estaria disposto a fazer concessões plenas ao ‘interesse do público’ — às vezes, sutilmente diverso do ‘interesse público’, que é mostrar ao público o que lhe interessa, sobretudo quando não está ciente disso. Ao parecer mais sensível ao que o público deseja ver, em prejuízo daquilo que ele ‘precisa’ saber, abre espaço para a superficialidade.

Há precedentes no jornalismo brasileiro, causados pela ânsia de reproduzir a interação com a audiência possível em meios digitais. Na cobertura esportiva, emissoras de televisão optaram — em especial, no futebol — por substituir o distanciamento entre jornalistas e fontes por matérias mais ‘leves’ e generosas em clichês e pretensões literárias com humor ou consternação. A Rede Globo instituiu uma Direção Geral de Jornalismo ‘e’ Esporte. Se há uma coisa ‘e’ outra, é porque diferem.

A velocidade na transmissão de informações, a agilidade proporcionada pelos meios atuais e o nível raso do que se oferece ao público têm reflexo na formação de jornalistas profissionais. Ao conversar recentemente com uma colega, professora universitária, ela demonstrava espanto ao contar que alunos lhe perguntavam “se duas fontes para fazer uma reportagem já bastavam” ou quando se deslumbravam e tiravam fotos com entrevistados (“A fonte não é sua amiga!”, lembrava).

Antes que este texto se perca em divagações, o resultado de tudo isto é que atitudes profissionais e puxões de orelha constantes, com críticas sólidas para melhorar o trabalho individual e em equipe, têm importância crescente. A disseminação de ‘fake news’, que contamina a imprensa considerada séria e a força a dar destaque a desmentidos, mostra isso. Contudo, despreza-se o controle de qualidade — como o feito pelo ombudsman — para que o leitor, nosso ‘amigo’, não nos deixe. Ilusão.

**

Rafael Motta é jornalista, editor assistente do caderno Cidades do jornal A Tribuna, de Santos, e ex-ombudsman do jornal laboratório Entrevista, um dos mais antigos do país (publicado desde 1970) e produzido por estudantes do curso de Jornalismo da Universidade Católica de Santos (UniSantos).

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