Quarta-feira, 18 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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DILEMAS DA IMPRENSA > Ecossistema informativo

O futuro do jornalismo está no lado de fora das redações

Por Carlos Castilho em 04/06/2019 na edição 1040

Publicado originalmente no Medium.

Local Journalism, The Decline of Newspapers and the Rise of the Digital Media. (Foto: Divulgação)

A afirmação do título pode parecer óbvia para os leitores de um jornal, mas soa como uma heresia para muitos profissionais do jornalismo. Essa é, no entanto, a perspectiva que orienta uma série de pesquisas em curso na Europa e nos Estados Unidos, baseadas na crescente convicção de que a adequação do jornalismo à era digital passa pelo estudo do que já está sendo chamado de “ecossistema informativo”.

Trata-se de ver o jornalismo não mais como uma atividade desenvolvida dentro das redações, mas como o produto da interação entre os profissionais da comunicação e o conjunto de elementos que conformam o ambiente social onde o jornal, revista, emissora de rádio ou TV estão inseridos. A preocupação central deixa de ser a prioridade na busca de inovações técnicas no exercício do jornalismo para ser a forma como ele se insere nos fluxos de informação dentro da sociedade.

Ecossistema informativo é um conceito novo surgido a partir das novas tecnologias de informação e comunicação que tornaram possível a intensificação da interatividade entre jornalistas e o público por meio de fóruns, comentários, blogs e redes sociais. Foi a partir dessa interação que pesquisadores como o alemão Andreas Hepp perceberam que a disseminação de notícias não era unidirecional (do jornalista para o público), como preveem os manuais de redação na maior parte da imprensa, mas um processo multidirecional formado por uma complexa teia de interações.

O conceito de ecossistemas informativos é tratado em detalhes no capítulo 4 (“Plurality of Journalistic Identities in Local Controversies”) do livro Local Journalism, The Decline of Newspapers and the Rise of the Digital Media, co-editado pelo Reuters Institute for Study of Journalism e pela universidade Oxford, da Inglaterra. Os autores Florence Le Cam e David Domingo partem do princípio de que os jornalistas passaram a ser, na era digital, apenas um dos protagonistas no fluxo de notícias que circulam diariamente no interior de uma comunidade social.

Esse novo posicionamento dos profissionais dentro do fluxo de notícias é mais perceptível no âmbito local devido à proximidade e conhecimento mútuo entre os diversos atores das interações informativas. Numa comunidade, os recursos oferecidos pelas tecnologias digitais permitem que as pessoas desenvolvam várias modalidades de atividades jornalísticas sem terem formação profissional. A notícia pode ter sido redigida e distribuída por profissionais, mas, ao circular, ela inevitavelmente gera novos complementos e opiniões que, por sua vez, retroalimentam o fluxo informativo dentro da comunidade e acabam gerando novos fatos, dados e eventos noticiosos.

Isso faz com que uma redação seja, simultaneamente, fornecedora e receptora de novos insumos informativos. A atividade jornalística se dispersa dentro de uma comunidade, em vez de ficar concentrada nas redações. A ecologia, ou meio ambiente, de produção de notícias sofre uma alteração importante provocada pela dispersão e fragmentação social dos atores envolvidos. Isso implica mudanças em vários princípios incorporados à rotina jornalística nas redações, como objetividade, isenção, imparcialidade e veracidade.

Novos paradigmas profissionais

O alemão Andreas Hepp, no artigo Conceptualizing the role of Pioneer Journalists and Pioneer Communities in the Organizational Re-Figuration of Journalism, vai ainda mais longe ao afirmar que o surgimento de novas funções dentro do processo de produção digital de informações está provocando uma redefinição radical do que entendemos por jornalismo, na medida que a atividade já não se limita mais à produção de notícias e reportagens. Áreas como processamento de dados, design de informações e empreendedorismo já não podem ser consideradas como estranhas ao jornalismo. As tecnologias digitais criaram o jornalismo de dados, em que o conhecimento de softwares é mais importante do que a técnica da pirâmide invertida na produção de uma notícia* (1). As ferramentas de design passaram a ser fundamentais no desenvolvimento de uma narrativa jornalística multimídia e a preocupação com a governança e com a sustentabilidade financeira tornou-se um componente obrigatório na busca da sobrevivência de iniciativas noticiosas online.

Tudo isso mostra que o jornalismo começa a ser exercido dentro de um novo contexto caracterizado pelo compartilhamento de dados entre pessoas com diferentes habilidades e competências. O pesquisador suíço Etienne Wenger definiu essas estruturas de troca e recombinação de dados, fatos e informações como comunidades de prática. A grande diferença entre uma redação e uma comunidade de prática está na diversidade de formações profissionais e na diferença de objetivos. Numa redação, predomina o interesse em produzir notícias como parte de uma atividade comercial, enquanto nas comunidades de prática a preocupação central é resolver problemas a partir do compartilhamento de dados.

Hepp acredita que a realidade digital está empurrando o jornalismo para uma função pioneira no desenvolvimento de novos formatos informativos e novos fluxos de notícias dentro de conglomerados humanos. O desafio de buscar uma nova inserção do jornalismo nos fluxos informativos vai obrigar os profissionais a abandonarem uma série de rotinas, princípios e valores tradicionais na maioria das redações. Entre os desafios mais importantes estão o engajamento com o público numa relação baseada no compartilhamento de informações entre iguais e a incorporação da tecnologia e da sustentabilidade financeira entre as exigências para o exercício da profissão.

*(1) Pirâmide invertida é uma técnica de redação de notícias que privilegia a disposição das informações em ordem decrescente de importância. Assim, os fatos mais interessantes são utilizados para abrir o texto jornalístico, enquanto os de menor relevância aparecem na sequência.

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Carlos Castilho é jornalista.

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