Segunda-feira, 19 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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DILEMAS DA IMPRENSA > Salvadores da pátria

O jornalismo conivente e a emergência de “personagens mitológicos”

Por Ricardo José Torres em 06/11/2018 na edição 1012

Jair Bolsonaro e Sérgio Moro. (Fotos: Silvia Izquierdo/AP e Rodolfo Buhrer/Reuters)

Publicado originalmente pelo objETHOS.

Grandes rupturas e desvios democráticos são perpassados por uma série de fatores concretos, mas particularmente pelo imponderável. O êxito de Jair Messias Bolsonaro (PSL) nas urnas e a indicação do juiz federal Sergio Moro como ministro da Justiça são reveladores e têm um sentido pedagógico para os veículos jornalísticos brasileiros, especialmente os tradicionais. As consequências da generalizada naturalização de ideias antidemocráticas e preconceituosas do candidato do PSL e a superexposição e endeusamento do juiz de primeira instância foram negligenciados, menosprezados e artificialmente construídos no imaginário social.

Em um jogo capcioso de desestruturação de fatos e propagação de desinformação, veículos jornalísticos estruturaram um cenário que propiciou a emergência do “salvador da pátria” e do “paladino da justiça”. As noções associadas ao “heroísmo” ganharam ainda mais projeção e penetraram no tecido social por meio de ferramentas de comunicação digital oferecidas por corporações transnacionais. Essas corporações atuaram e foram protagonistas na estruturação de um ecossistema de informações fictícias.

Além disso, a despolitização de grande parte dos meios jornalístico e a tendência panfletária que se consolidou na cobertura de temas políticos formatou um panorama muito profícuo para a emergência e propagação desses personagens mitológicos. A ineficácia em relação ao controle da disseminação de notícias falsas, a falta de habilidade e de recursos para entender e mitigar esse problema fomentaram o sucesso de estratégias rasteiras de convencimento. Essas táticas, estreitamente conectadas à ficção, solaparam os fatos e ampliaram a ignorância.

Autoridades judiciárias protagonizaram o jogo retórico, ineficaz e omisso que consolidou um quadro eleitoral norteado pelo sentimento de raiva e destruição. Nesse cenário, os fatos não tinham mais importância. O contexto favoreceu arranjos esdrúxulos de onde emergiram convicções inabaláveis e mitos inquestionáveis. A partir da instrumentalização da religiosidade e da propagação de aspectos morais retrógrados, um nebuloso sentido antidemocrático foi potencializado e sorrateiramente dominou a cena eleitoral.

O império da ignorância

Grandes veículos jornalísticos brasileiros jogaram um jogo de alto risco, apostaram na cólera e fomentaram a ignorância. As crenças e a cegueira, influenciadas pelo viés de confirmação, interditaram o diálogo a ponto de não existir mais espaço para tolerância. O ambiente digital tornou-se um espaço de veneração e silenciamento do contraditório. A solução extrema e o discurso simplificador contaram com adesão massiva e favoreceram uma noção novelesca que elegeu heróis e vilões, sem mensurar o resultado prático dessa equação vazia.

Não foi por acaso que o primeiro pronunciamento de Bolsonaro foi realizado na timeline do Facebook. Ele acenou aos milhões de eleitores que, sem mediação jornalística, o seguem nesse canal de comunicação. A atitude do candidato recém eleito originou um fato emblemático. Antes de falar aos veículos jornalísticos, Bolsonaro manifestou-se por meio de sua conexão direta, serviço oferecido por uma corporação estadunidense.

O pronunciamento de Bolsonaro demonstra de maneira didática como o jornalismo e os jornalistas se tornaram reféns de ferramentas de comunicação digital, particularmente das mídias sociais. Todo o potencial benéfico desses instrumentos comunicacionais, que poderiam ser exploradas para elaboração de formas jornalísticas mais alinhadas a construção da cidadania, está sendo estrategicamente utilizado para o esvaziamento e desarticulação do processo democrático. A inoperância diante do abuso de poder e a aceitação de atitudes destrutivas e criminosas motivam a autossabotagem, a propagação de atitudes cínicas e apagam possibilidades de discernimento.

Mitologia patológica

Os mitos só são compreensíveis inseridos no contexto da cultura em que foram criados. De maneira geral, a história desses personagens “sobrenaturais” é perpassada pela simbologia e pela veneração. Em uma sociedade democrática dilacerada pela nocividade da distorção da informação, o juiz (ministro) e o deputado (presidente) foram alçados a uma categoria simbólica mitológica. Essa condição foi fomentada por ações jornalísticas coniventes que blindaram essas “personalidades” e as tornaram inquestionáveis e indefectíveis para parcela significativa da população.

Regularmente, Moro é ovacionado como um “herói nacional” e Bolsonaro é chamado de “mito” por seus eleitores. A imagem desses personagens congrega uma panaceia de crenças que podem ser relacionadas a veneração. A estruturação desses aspectos mitológicos foi diretamente influenciada por abordagens jornalísticas que devassaram a política institucional e demonizaram todo o sistema partidário do país. As consequências da descrença e do desengajamento democrático ocasionados por essa situação são incomensuráveis e colocam em risco liberdades e valores fundamentais.

Diante das inúmeras aberrações alimentadas por atos jornalísticos e pela inoperância dos instrumentos de fiscalização do judiciário, defrontamo-nos com o desconhecido de tendência autoritária, pautado pela incoerência, pelo cinismo e pela irracionalidade. É difícil avaliar esse cenário nebuloso; o que pode afirmar-se é que a emergência desses personagens mitológicos foi diretamente influenciada pelo trabalho irresponsável de jornalistas e de veículos de comunicação.

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Ricardo José Torres é doutorando em Jornalismo no POSJOR e pesquisador do objETHOS.

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