Sexta-feira, 23 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1051
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DILEMAS DA IMPRENSA > Marca própria

O jornalismo não vive das glórias passadas. Mas dos desafios do presente

Por Carlos Wagner em 02/04/2019 na edição 1031

Publicado originalmente pelo blog Histórias Mal Contadas

Sempre que as famílias donas dos jornais brigam é a redação que paga o pago com demissões. E assim desde do tempo em que os jornais eram escritos por um ponta de pena molhada na tinta, passando pela era das máquinas de escrever e entrando na era dos computadores. (Foto: reprodução)

Qual a repercussão que vai ter nas redações dos jornais do Brasil as brigas na família Frias, dona da Folha de S.Paulo, e na família Saad, proprietária do Grupo Bandeirantes? A pergunta me foi feita por um jovem repórter em início de carreira durante uma palestra que fiz no interior do Rio Grande do Sul. Eu já tinha a resposta pronta.

Lembrei que, quando o “andar de cima“ está brigando, acontecem demissões de jornalistas. “Andar de cima” é um jargão usado nas redações para referir-se à direção do jornal. Tem sido assim desde que comecei a trabalhar em redação, em 1979, até o dia em que saí, no ano de 2014. E continua sendo assim. Mas hoje há uma diferença. Tanto do lado dos donos dos jornais quanto do repórter que é demitido, alertei ao jovem colega que tinha feito a pergunta.

No lado dos donos dos jornais, há o fato de que, em nenhuma outra época, o lucro deles foi tão pequeno como é hoje. Por conta da fuga de anunciantes para outras mídias surgidas com as novas tecnologias que baratearam o custo do anúncio e aumentaram a sua eficiência. Atrás do êxodo dos anunciantes, seguiram os leitores e em consequência houve uma brutal queda no número de assinantes. Eu já trabalhei em circulação de jornal e sei que a queda no número de assinantes é uma tragédia para as finanças da empresa.

No Brasil e no mundo, não existe previsão de que a rentabilidade das empresas de comunicação volte aos patamares de antigamente. E no Brasil ainda tem mais um fator: há uma lei que ainda não foi regulamentada, que proíbe um mesmo dono ter diversos meios de comunicação, tipo jornal, rádios e TVs. Isso significa que uma “canetada” pode desmontar um grupo de comunicação.

Esse é o quadro, afirmei. Então, devolvi a pergunta para os jovens repórteres. “Se as empresas de comunicação não têm futuro, então por que estão sendo compradas por empresários de outros setores da economia?” Citei dois casos: o empresário fundador do Grupo Amazon (lojas de varejo), Jeff Bezos, comprou o Washington Post, nos Estados Unidos. E, em Santa Catarina, os empresários Lirio Parisotto e Carlos Sanchez, do grupo NC (fabricantes de remédios), compraram a RBS SC – jornais, rádios e TVs.

Eu respondi a minha pergunta. “Esses empresários investiram em comunicação por um único motivo: poder.” A história mostra que, nos quatro cantos do mundo, os donos de jornais sempre tiveram poder nas mãos. No Brasil, uma leitura na biografia dos fundadores dos grandes jornais mostra que eles eram homens respeitados e até temidos pelos governantes. E que, com o tempo, eles diversificaram o seu ramo de negócios. Muitos deles, mesmo tendo outros negócios mais rentáveis, permaneceram com os seus jornais. Esse é um dos lados da moeda. O outro lado é contra nós, repórteres. Mesmo com a vinda de novos empresários para o setor da comunicação, o certo é que eles não irão investir dinheiro aumentando o quadro de jornalistas. A tendência está sendo em manter o negócio no tamanho atual. O que significa que o exército de jornalistas desempregados vai continuar crescendo. Então, o que nos resta fazer?

Ficarmos vivendo das glórias passadas, enquanto sorvemos cerveja no boteco? Já foi assim. Hoje não é mais. O jornalista demitido ou em início de carreira tem a chance real de ter uma vida profissional digna e continuar exercendo a sua profissão. Como? As novas tecnologias nos possibilitam continuarmos publicado, em várias plataformas, e com isso nos mantermos no mercado. Tenho dito para os jovens repórteres que não existe escola melhor do que trabalhar em uma redação de jornal. É ali que o bafo na nuca ensina a pensar rápido, apurar as informações a jato e redigir correndo. Mas é necessário não se deixar embriagar pela correria da redação.

Hoje, mais do que nunca, o repórter tem pensar no seu futuro. E a história ensina que é fundamental publicar livros, vídeos e programadas de rádio para fixar a nossa imagem. No meu tempo de redação (1979 a 2014), publicar um livro era um capricho pessoal do repórter. Hoje, é fundamental por ser uma ferramenta importante para o jornalista ter a sua marca própria. E não mais ser conhecido apenas como “fulano de tal, do jornal tal”.

Arrematando a conversa. A briga das famílias Frias e Saad deve ser vista pelas novas gerações de repórteres como um alerta de que as coisas mudaram. Tanto para o “andar de cima” quanto para a redação. Do outro lado do balcão, estão os nossos leitores, que nunca precisaram tanto de informações corretas e bem explicadas para tocar o seu dia como na atualidade. Para eles, pouco importa se irão encontrar essas informações em um jornal ou em um blogue. Eles querem saber. E nós queremos informar. É o que interessa.

***

Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora (RS, Brasil) de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais.

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