Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

DILEMAS DA IMPRENSA > Parte 2: Os algoritmos da realidade na atuação jornalística

Os novos processos de mediação jornalística

Por Claudio Luiz de Carvalho em 16/10/2017 na edição 962

A notícia materializada do acontecimento se torna um relato de um momento, um recorte da realidade, pois se parte do fato bruto e o transforma em um acontecimento graças à interpretação dada e ele. Estamos falando de um processo de mediação midiática. Vale lembrar que toda comunicação humana começa nas relações face a face, definidas por Harry Pross como Mídia Primária.

Ainda segundo o autor, a Mídia Secundária já envolve objetos como máscaras, pinturas e adereços corporais, utilizando ferramentas como um quadro mural ou um jornal impresso para amplificar a intensidade de suas mensagens no tempo e no espaço.

Entretanto, e ainda que a Mídia Secundária já interfira na escolha dos algoritmos de comunicação, o que nos interessa é a Mídia Terciária, pelo fato de utilizarmos máquinas computacionais no processo de comunicação. As três dimensões formam uma teia de comunicação decorrente e vinculada, mas é na Mídia Terciária que o uso de ferramentas é imprescindível para que a comunicação humana se veicule e se dissemine amplamente, vinculando e interagindo seus atores e os organismos sociais.

A tecnologia e os meios eletrônico possibilitam uma comunicação mais ágil que alcança rapidamente mais espaços e a custo muito baixo, permitindo interações sucessivas e praticamente intermináveis. Essa teia de comunicação é também uma teia de vínculos que se constrói pelas mídias e que nos permite perceber que os indivíduos participam desse processo comunicacional independente da origem ou do ponto de chegada.

Orozco Gómez refere-se à comunicação por meio de computador como um “histórico e impactante salto qualitativo” na comunicação, graças à melhoria de interatividade. A maneira colaborativa das tecnologias dá condições para que o contexto de estudo da recepção adquira uma situação nova, pois o uso da mídia não se restringe às possibilidades exclusivas e naturais de recepção pelo indivíduo. Inclui outros indivíduos em um processo simultâneo de interação, sejam quais forem os meios.

Ou seja, é necessário utilizarmos as novas tecnologias e, por meio delas, fortalecermos a convivência de todos os tipos, além da formação de redes, de foros e sites de encontro.

Marcondes Filho, define mediação como a ação de servir de intermediário entre dois termos, dois seres ou dois objetos em geral. E explica que é o momento central da dialética em que o ser, negando-se e superando-se, pensa a si mesmo e volta-se para si em seu futuro.

Quando na comunicação, mediação é o que articula as práticas de comunicação e de movimentos sociais, um espaço onde se inserem os meios e as conexões com o lugar onde está presente o sentimento (sensorium) que nos permite a percepção e a experiência sensorial.

Em geral, as culturas se processam por meio de mediações simbólicas, vistas como sendo a linguagem, o trabalho, as leis, as artes. Mediação significa a ação de fazer a comunicação entre duas partes, por meio das mais diversas interações. Mediação, então, é um processo de comunicação que vincula duas partes, sejam quais forem seus interesses, mas que têm a necessidade, voluntária ou não, de compartilharem a busca de atender às suas necessidades.

A pauta cotidiana

A interpretação pode ser traduzida pela construção do acontecimento com base nas técnicas jornalísticas de tratamento do fato, apuração dos dados, entrevistas, redação e edição. Mesmo se levarmos em consideração que a maioria dos acontecimentos já faz parte da pauta cotidiana da produção midiática, ou seja, são fatos marcados.

Muniz Sodré explica que “a marcação define a noticiabilidade de um fato por critérios, concebidos como valores adequados ao acontecimento”, para explicar que essa antecipação ou antevisão do fato facilita a preparação e/ou elaboração da narrativa.

Os fatos não-marcados são aqueles que decorrem da casualidade, da imprevisibilidade. A existência de novas formas de mídia, as mídias mais imediatas ou instantâneas, as chamadas redes sociais, mudam essa situação, principalmente porque oferecem novas possibilidades técnicas para que a integração entre emissor e receptor se realize de forma mais fluída.

Permite também novas fórmulas de autenticação das fontes, ou seja, dos geradores de informação. Os leitores se tornam também produtores, passam a determinar a notícia, a informação adquire a característica de tempo real, embora não deixe de produzir efeito sobre o público. A comunicação, desse modo, é exercida pelo usuário ou consumidor, o que lhe permite exercer um tipo de controle da mídia, quando o usuário praticamente se torna a própria mídia.

A comunicação cibernética

E se as próprias máquinas se tornarem máquinas capazes de interpretarem o que ocorre no mundo e transmitirem suas “opiniões”, automaticamente, via web? Exagero, diríamos intuitivamente.

Vejamos a análise de Alexandre Quaresma, pesquisador de tecnologias, na Revista Sociologia: “Programas complexos já são capazes de aprender com seus próprios acertos e erros, ou seja, começam a encontrar o mais difícil, que é justamente o sentido a partir de suas próprias experiências cibernético-informacionais”.

Quaresma explica que, dessa forma, tais máquinas computacionais começam a ter concepção e percepção do que ocorre no mundo, quais os contextos, qual a realidade que as circundam. Com essa possibilidade se amplia o horizonte desses programas complexos na simulação de estados conscientes e inteligentes.

Sob essa análise, identifica-se a possibilidade de que esse novo tipo de informação pública se sobrepõe ao jornalismo clássico enquanto mediador do discurso e da funcionalidade para a comunicação dos acontecimentos, graças a temporalidade presente no, digamos, ciberjornalismo. Esse jornalismo ganha peso maior na comunicação porque tem a ele associadas técnicas de publicidade e de marketing, o que lhe dá um glamour não presente no jornalismo tradicional.

Em um primeiro momento de comunicação ágil via web, as empresas jornalísticas reduziram suas redações, dado que qualquer pessoa, em qualquer lugar, poderia produzir conteúdo de informação, mesmo que sem as técnicas jornalísticas. Ou seja, o universo de produtores de notícias para os veículos tende ao infinito.

Com o aprimoramento da comunicação cibernética, as empresas perceberam a necessidade de utilizar equipes multi e transdisciplinares: além dos jornalistas propriamente ditos, agregaram profissionais de várias outras áreas da comunicação e da tecnologia, como programadores, web designers, analistas de base de dados, todos trabalhando conjuntamente na produção de conteúdo jornalístico diário, além das reportagens especiais multimídias e conteúdos específicos para celulares.

A condição de se publicar notícias factuais do modo interativo e de multi plataformas integradas se tornou constante. As emissoras de televisão, por exemplo, criaram suas plataformas digitais de vídeo (Globo Play, SBT Vídeo, etc) os chamados apps. Essa realidade foi comentada por Flusser ao afirmar que passamos a ser “testemunhas, colaboradores e vítimas de revolução cultural cujo âmbito apenas adivinhamos.”

Essa afirmação se dá ao perceber que os sintomas disso estão nas imagens técnicas produzidas em nosso entorno, a exemplo das fotografias, dos filmes, das imagens de TV e (embora ainda não tão reais quando ele fez essa afirmação) as imagens presentes na comunicação via terminais de computadores.

Vilém Flusser adiantou o que se vê de forma evidente nos dias de hoje: tais imagens “assumem o papel de portadores de informação”, superfícies imaginadas que nos dão a condição de conhecer, vivenciar e valorizar o mundo.

A mudança e a existência das plataformas digitais permitem que sejam publicadas notícias de maneira interativa, tornando a multimidialidade integrada uma atividade constante. É o fenômeno da Dromocracia: a comunicação em rede é um trabalho coletivo de parcerias anônimas, mas produtivas.

Os usuários podem, de forma colaborativa, reunir seus conhecimentos e construir o conteúdo desejado e que compartilham uns com os outros, situação onde não há limite geográfica, pois a velocidade da comunicação os supera e cria o tempo real imediato. A essa questão se junta o que chamamos de Glocalização, que pode ser traduzida como aquilo que possibilita a ideia civilizatória da sociedade midiatizada, na qual se inclui os aspectos sociais, econômicos, políticos e culturais.

De qualquer forma, aquele jornalista que narrava o fato ou o acontecimento por meio de textos, agora é um operador multitarefa: fotografa, filma, escreve e fala. Abandona-se o especialista em cada área do jornalismo.

Em resumo, a ampliação das condições tecnológicas na produção do jornalismo e sua presença forte na comunicação pública, embora ganhe aspectos de comunicação mais imediata e instantânea, não significa, porém, a configuração de uma verdadeira esfera pública, pois, pelo menos por enquanto, é ainda mudança na postura cultural.

Pode causar uma crise de credibilidade na mídia, pois esta passa a ser uma “intérprete de si mesma enquanto boca orgânica do mercado”. Essa crise afeta o discurso jornalístico, abala a forma clássica de informação, abalam-se as propostas de um discurso mais universal da parte das grandes organizações.

(Veja na próxima semana “Os elementos do jornalismo”, último artigo da série “Os algoritmos da realidade na atuação jornalística”)

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Claudio Luiz de Carvalho é jornalista freelancer, Mestre em Comunicação, com especialização em Teologia, Gestão e Planejamento de Projetos Sociais e em Gestão Estratégica de Empresas. Associado Sênior na empresa Ouvidores Associados. Pesquisador e estudioso de Comunicação e de Ouvidoria.

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