Quarta-feira, 13 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1063
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DILEMAS DA IMPRENSA > Quem paga a conta?

Três anos do impeachment: o que a mídia tem a ver com isso?

Por Francisco Fernandes Ladeira em 23/04/2019 na edição 1034

O jurista Miguel Reale Jr. e a filha do procurador aposentado Hélio Bicudo, Maria Bicudo, entregam ao presidente da Câmara, Eduardo Cunha pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff. (Wilson Dias/Agência Brasil)

Há três anos, em um domingo, 17 de abril, com transmissão ao vivo pela televisão, a Câmara dos Deputados aprovava o impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Sob o aspecto geopolítico, a deposição de Dilma está inserida no contexto de rupturas democráticas em curso mundo afora após a última grande crise econômica capitalista, iniciada em 2007.

Conforme é do conhecimento de todos, esta crise foi gerada no sistema financeiro dos Estados Unidos e, devido à grande integração das diversas economias nacionais propiciada pelo processo de globalização, paulatinamente se alastrou para todo o planeta. Porém, apesar de a hecatombe financeira ter sido causada pelos países desenvolvidos (ou, melhor dizendo, por “gente branca de olhos azuis”, como bem sentenciou na época o ex-presidente Lula) quem deverá arcar (e já está arcando!) com os prejuízos são as nações pobres, isto é, “aquela gente mestiça do sul”, através da intensificação da pilhagem de suas riquezas naturais e da drenagem de seus capitais para o exterior.

Sendo assim, para o imperialismo global, tornou-se imprescindível e urgente promover a deposição de chefes de Estado que possam representar o mínimo entrave para a recuperação dos lucros dos grandes capitalistas. Nesse sentido, na última década, houve golpes de Estado (ou tentativas) contra governantes nacionalistas em países como Honduras, Venezuela, Síria, Tailândia, Paraguai, Egito, Brasil, Sudão e Ucrânia.

Diante dessa realidade, conforme apontou o fundador do WikiLeaks, Julian Assange, em entrevista ao jornalista Fernando de Morais, o Brasil foi o país latino-americano mais espionado pelos Estados Unidos nos últimos anos. “O principal motivo para isso é econômico e está ligado à exploração do pré-sal. Isso é muito interessante porque alguém imaginará ingenuamente que deve ser Venezuela ou Cuba, porque historicamente foram os maiores adversários para os Estados Unidos, não o Brasil. Por que é o Brasil? Porque é uma economia maior. O Brasil é economicamente mais importante”, enfatizou Assange. Não por acaso, uma das primeiras medidas tomadas pelo governo interino de Michel Temer foi justamente facilitar o acesso dos grandes capitalistas internacionais às riquezas naturais brasileiras, sobretudo ao tão cobiçado petróleo.

Já no tocante ao cenário interno, podemos relacionar as mobilizações favoráveis ao impeachment de Dilma Rousseff ao preconceito de classes que impera no Brasil, manifestado pelo ódio ao pobre, herança do antigo ódio dirigido aos escravos. É fato que a (tímida) ascensão dos estratos economicamente inferiores de nossa sociedade promovida pelos governos petistas e a consequente presença de pobres e negros em espaços onde outrora eram segregados – como aeroportos, shopping centers e universidades – trouxe bastante incômodo para a classe média, acostumada a legitimar sua posição na pirâmide social não apenas pelos seus capitais econômicos e culturais, mas, principalmente, pela possibilidade de humilhar a população pobre e mantê-la devidamente afastada de determinados meios.

No entanto, conforme concluiu o sociólogo Jessé Souza, em seus estudos sobre o recente contexto político brasileiro, o indivíduo de classe média não poderia dizer que odeia o PT porque o partido ajudou o pobre de alguma maneira. Não ficaria bem para um cristão praticante – o autoproclamado “cidadão de bem” – explicitar o ódio classicista assim. Portanto, era preciso criar um álibi para a empreitada antipetista. Eis que surge uma velha pauta moralista da classe média: a corrupção. É aí que entra o papel da mídia hegemônica no processo que culminou na deposição de Dilma Rousseff três anos atrás: fornecer os “argumentos” moralmente aceitáveis para a classe média ir às ruas se manifestar contra os governos petistas.

Para compreender o papel da mídia na queda da primeira presidenta do Brasil, devemos voltar, pelo menos, ao segundo semestre de 2005, quando teve início o julgamento da Ação Penal 240, também conhecida como “mensalão”. Na época, os principais grupos de comunicação do país transformaram essa ação do judiciário em um grande “evento midiático”, com o objetivo de atingir o Partido dos Trabalhadores, de maneira geral, e o então presidente Lula, que tentaria a reeleição no ano seguinte, em particular. Embora “o tiro tenha saído pela culatra”, pois o PT sagrou-se vitorioso nas urnas em 2006, a aliança “mídia/judiciário” conseguiu eliminar da vida pública dois potenciais sucessores de Lula: José Genoino e José Dirceu. “Mataram dois coelhos com uma cajadada só”, ou “judicializando” a metáfora, “mataram dois políticos com uma martelada só”.

Sete anos depois, o “mensalão” voltaria aos holofotes (“coincidentemente” durante a campanha para as eleições municipais) e, mais uma vez, não alcançou o fim colimado. Chegamos então ao ano de 2013, mais precisamente ao mês de junho, quando uma multidão tomou as ruas de todo o país para protestar, a princípio, pela melhoria de serviços públicos urbanos básicos como transporte, saúde e educação. Tratavam-se de movimentos difusos, com pautas confusas e sem nenhuma liderança específica. A partir da falta de direção das chamadas “jornadas de junho”, a imprensa hegemônica percebeu que tomar a dianteira desses movimentos, e transformá-los em manifestações “apartidárias”, seria uma excelente oportunidade para, enfim, derrubar o governo petista, na época já sob o mandato de Dilma Rousseff.

No livro A radiografia do golpe: entenda como e por que você foi enganado, Jessé Souza relata como a mídia brasileira, notadamente o Jornal Nacional, se aproveitou da grande mobilização popular em todo o país para “federalizar” as manifestações que até então estavam centradas em questões municipais, direcionando a revolta popular para o governo Dilma Rousseff, tendo como base o velho e moralista discurso “anticorrupção”. Os resultados desastrosos desse sequestro das mobilizações populares pelos grandes grupos de comunicação do país são bem conhecidos: crescente radicalização da sociedade, fortalecimento de grupos e políticos com tendências fascistas e o crescimento do sentimento antipolítica.

No primeiro semestre de 2014, como era ano eleitoral, a aliança “mídia/judiciário” voltou a cena com a Operação Lava-Jato, que visava investigar “esquemas criminosos” envolvendo a Petrobrás (também não seria mera coincidência lembrar da corrida dos países imperialistas pelas riquezas naturais das nações subdesenvolvidas citada no início deste artigo).

Se a característica étnica do “herói midiático” do “mensalão”, Joaquim Barbosa, não tinha grande aceitação por parte da classe média conservadora; a Lava-Jato contou como um novo “juiz-protagonista”, bem ao perfil da classe média: eis que surge Sérgio Moro (o paladino da chamada “República de Curitiba”). Todavia, nem “mensalão” nem “petrolão” foram suficientes para impedir a reeleição de Dilma Rousseff.

Portanto, era preciso intensificar a campanha antipetista. Áudios de políticos do Partido dos Trabalhadores estrategicamente “vazados” na mídia, PowerPoint com acusações contra o ex-presidente Lula divulgado em primeira mão no Jornal Nacional e delações publicadas na revista Veja, entre outros fatos, marcaram os espetáculos pirotécnicos proporcionados pela “República de Curitiba”.

Definitivamente, a temática “corrupção” voltava a todo vapor aos noticiários; e, como o de costume, de maneira extremamente seletiva, resguardando determinadas legendas, e atacando outras, sobretudo aquelas ligadas à esquerda política. Desse modo, a mídia reverberou o álibi perfeito para a classe média pedir “Fora Dilma!”. O ódio ao pobre e a repulsa às políticas sociais puderem, enfim, se esconder sob a cortina de fumaça da campanha contra a corrupção.

Conforme a história nos mostra, toda ruptura democrática que queira parecer minimamente legítima deve aparentar ter respaldo popular. Para tanto, coube a mídia convocar a classe média para ir às ruas se manifestar contra a presidenta Dilma. O ano era 2015. As chamadas midiáticas seguiam um roteiro básico: eram manifestações pacíficas, ordeiras, familiares e, o mais importante, aconteceriam aos domingos, para não atrapalhar o trânsito ou tampouco gerar grandes transtornos para os cidadãos citadinos.

Prontamente, a classe média atendeu à convocação da mídia, vestiu verde e amarelo, levou seus filhos devidamente acompanhados pelas babás, e foi às ruas dançar em torno do Pato Amarelo da Fiesp. A queda de Dilma era questão de tempo.

Por outro lado, manifestações favoráveis à permanência do governo também eram realizadas em todo país, porém ser ter a mesma cobertura por parte da imprensa. Entrava em cena a velha e eficaz manipulação midiática.

Uma breve análise hermenêutica sobre duas manchetes publicadas na época pelo jornal O Globo ilustra bem o caráter tendencioso da imprensa brasileira. Sobre uma das manifestações pró-impeachment, o periódico da família Marinho noticiou em sua capa “Brasil vai às ruas contra Dilma e Lula e a favor de Moro”, o que capciosamente poderia levar o leitor à falsa conclusão de que toda a população brasileira compactuava com a ideologia exaustivamente difundida pelos principais veículos de comunicação. Em contrapartida, a manchete de O Globo no dia seguinte a um ato pela permanência de Dilma apontava “Aliados de Lula e Dilma fazem manifestação em todos os estados”, como se tais mobilizações populares representassem somente os ideais petistas e não os anseios de todos aqueles que lutavam contra a execução de um novo golpe de Estado no Brasil, independentemente de sigla partidária.

Sendo assim, com o país já demasiadamente polarizado, no dia 17 de abril de 2016, num típico domingo de outono, com transmissão ao vivo, assim como os grandes clássicos do futebol, a Câmara dos Deputados votaria pela aceitação ou não do impeachment de Dilma Rousseff. Parafraseando o título de um clássico documentário irlandês, “o golpe foi televisionado”.

Não obstante, o que se viu naquela fatídica tarde/noite dominical foi um dos episódios mais grotescos da história brasileira. De maneira geral, os discursos proferidos pelos parlamentares foram pensados levando em consideração a grande visibilidade midiática que aquele momento único proporcionaria. Diante das câmeras, era preciso passar uma imagem de “cidadão de bem”, extremamente ético e honrado em suas atitudes. Em suma, o perfeito exemplo de um membro da “tradicional família cristã brasileira”.

As retóricas pseudo-moralistas contra a corrupção deram a tônica dos discursos parlamentares favoráveis ao impeachment de Dilma e as palavras que mais se ouviram na Câmara foram “Deus” e “família”. Em raríssimas oportunidades foram apresentados argumentos para o afastamento da presidenta. “Discutir ideias não rende votos”, devem ter pensado muitos deputados.

Por outro lado, a transmissão ao vivo do impeachment trouxe para o grande público as inúmeras incoerências de um dos congressos mais conservadores da Nova República. Naquele 17 de abril foram tecidos elogios a figuras controversas como torturadores do regime militar, grileiros e políticos reconhecidamente corruptos. Já as vaias e os aplausos que acompanhavam cada voto dos parlamentares deram a impressão de termos assistido a um programa de auditório e não a uma reunião de indivíduos que possuíam a prerrogativa de tomar decisões que influenciariam nos cotidianos de todos os brasileiros.

Passados três anos do impeachment, de acordo com dados recentes fornecidos pelo Manchetômetro – website de acompanhamento da cobertura da grande mídia sobre temas de economia e política, que não possui qualquer filiação com partido político ou grupo econômico – mesmo com o Partido dos Trabalhadores fora da presidência e Lula preso, o PT ainda é o partido mais criticado pela grande mídia, fator que comprova que o objetivo não era apenas retirar essa agremiação partidária do Poder, mas eliminá-la da própria vida pública do país.

Evidentemente, seria reducionista e equivocado creditar todos os males pelos quais o Brasil passa às ações da imprensa hegemônica. Todavia, mais do que nunca, é preciso refletir e questionar seriamente sobre quais objetivos ideológicos estão por trás dos discursos midiáticos, pois, lembrando as palavras do historiador Sérgio Buarque de Holanda, enquanto os meios de comunicação do país estiverem concentrados nas mãos de poucos grupos familiares – que estão ligados, sem exceção, ao pensamento conservador – a democracia no Brasil continuará sendo um “lamentável mal-entendido”.

***
Francisco Fernandes Ladeira é mestre em Geografia pela UFSJ e professor do PROEJA do IFES – Campus Vitória. Autor (em parceria com Vicente de Paula Leão) do livro A influência dos discursos geopolíticos da mídia no ensino de Geografia: práticas pedagógicas e imaginários discentes, publicado pela editora CRV.

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