Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

DIRETóRIO ACADêMICO > CRIAÇÃO AUDIOVISUAL

Novas formas de produção, debate e circulação

Por Charles Cadé em 10/07/2012 na edição 702

Introdução

Em 29 de julho de 2010, o norte-americano Antoine Dodson concedeu uma entrevista acalorada [“Do susto à fama”. Disponível aqui, acesso em 03 de junho de 2012] ao canal de televisão Waff TV sobre a invasão do apartamento em que morava. Ele relatou sua luta com um homem, que atacava sua irmã, até conseguir expulsá-lo. Na entrevista, Dodson mostrou grande indignação. Apesar do tom grave, o vídeo, disponibilizado no mesmo dia no YouTube, despertou humor involuntário, o que lhe valeu grande repercussão. O viral atraiu a atenção dos Gregory Brothers, projeto musical que recria notícias e memes como músicas (Autotune The News). Bed Intruder Song, canção que transforma Dodson em cantor, fez sucesso na iTunes, loja virtual que comercializa material audiovisual em formato digital.

Essa é apenas uma das dinâmicas de relação do público com o conteúdo midiático inauguradas pelas novas tecnologias. O meio eletrônico permite a circulação e a manipulação dessas criações, bem como fomenta o debate em rede sobre o que é produzido pelos conglomerados de comunicação e entretenimento.

Cresce cada vez mais o fenômeno da segunda tela, no qual as pessoas assistem programas televisivos, ao mesmo tempo em que comentam e têm acesso a outras informações das atrações através de recursos tecnológicos, em computadores e smartphones conectados à Internet, entre outros. Principalmente quando as atrações são exibidas pela primeira vez na TV. Não é algo necessariamente novo. Dominique Wolton, em Pensar a comunicaç?o (2004), abordou a TV como experiência coletiva. Ele destacou, inclusive, a importância das emissoras abertas, que divulgam conhecimento e entretenimento generalista para todos.

Entretanto, a internet acentua essa prática: a audiência se inter-relaciona e tem acesso a várias ferramentas. De acordo com estudo divulgado pela empresa de pesquisa Nielsen, em abril deste ano [“More people using TV and tablets at same time”. Disponível aqui, acesso em 05 de maio de 2012], 45% dos norte-americanos que possuem tablets dizem usar, diariamente, o aparelho ao mesmo tempo em que assistem TV. Quanto ao celular, o número é similar: 41% afirmam usar o telefone enquanto assistem TV pelo menos uma vez durante o dia. A pesquisa, realizada também no Reino Unido, Alemanha e Itália, aponta que as atividades mais comuns são checar e-mails, buscar informações sobre a atração assistida e pesquisar produtos anunciados.

engajamento e o interesse do público

Os comentários são mais presentes no Twitter [www.twitter.com] e no Facebook [www.facebook.com]. A TV funciona como tela principal. Já artefatos eletrônicos (celular, computador e tablets) são recursos para reverberar o produto televisivo. Resultado: consumo e criação de conteúdo ocorrem simultaneamente. Twitter e Facebook são, portando, backchannels. De acordo com Mike Proulx e Stacey Shepatin, autores do livro Social TV (2012), conversas online ocorrem antes, durante e depois da exibição de programas televisivos. Todavia, para eles, backchannel é o “o bate-papo em tempo real que está acontecendo dentro de canais da mídia social no período no qual o programa está indo ao ar” (p. 11).

Há também serviços específicos para esse propósito. O GetGlue (www.getglue.com) é uma rede social que atua como um Foursquare [www.foursquare.com] lúdico, no qual os internautas expõem o que estão assistindo. É um processo similar ao do software de geolocalização. Entretanto, ao invés de apontar os locais onde estão, os usuários do GetGlue dão “check-ins” em produtos culturais. Em aplicativos para dispositivos móveis como Umami [http://www.umami.tv/] e IntoNow [http://www.intonow.com], esse processo é automático. Ambos reconhecem, através do áudio ambiente, o quea pessoa está assistindo na TV. Além de identificar atrações norte-americanas, o software fornece informações complementares (título, descrição, elenco, estatísticas etc.), sugere links sobre o show e permite compartilhar comentários.

Empresas tradicionais aproveitam essa tendência e criam seus próprios serviços. Alguns desses recursos complementam a experiência do espectador, oferecendo informações e ações digitais que enriquecem o que está sendo mostrado ou na sequência da sua exibição. A realização de chats com atores de atrações ficcionais ou com convidados de programas de variedades é um das práticas mais comuns. Outra estratégia, chamada de bridge content, busca manter o engajamento e o interesse do público, mesmo quando o programa não está sendo exibido. Webisodes, sites interativos e antecipar as próximas edições do programa através de teasers (pequenas amostras) são exemplos. Noutros casos, as emissoras buscam organizar a conversa que ocorre em torno das suas atrações. Em 2011, A MTV norte-americana criou um site especial sobre a menções feitas a sua premiação de clipes. O MTV Video Music Awards Twitter Tracker [http://vma-twittertracker.mtv.com/live/]apontava as mensagens mais populares publicadas no Twitter sobre o assunto. O público era convidado a participar da conversa ao utilizar a hashtag #VMA. Já a AMC, canal a cabo norte-americano, criou um endereço eletrônico [“The Walking Dead: a experiência interactiva síncrona com o episódio”. Disponível aqui, acesso em 03 de maio de 2012]para ser acessado simultaneamente à exibição da série The Walking Dead. Ao longo da experiência, o recurso propõe questionamentos relativos à cena exibida.

A audiência responde

No Brasil, é comum telespectadores comentarem, em tempo real, obras ficcionais (principalmente novelas), reality showse programas jornalísticos. Os próprios profissionais envolvidos também participam desse debate. São autores, diretores e jornalistas que publicam suas impressões e respondem aos comentários que o público direciona a eles.

No mundo, as atrações campeãs de audiência na segunda tela são as transmissões de premiações artísticas, como o Oscar, e torneios esportivos. O Twitter bateu recorde de uso no final da Eurocopa 2012, torneio de futebol com as seleções do velho continente. A partida entre Espanha e Itália resultou em 15 mil mensagens por segundo [“Twitter bate recorde na final da Eurocopa: 15 mil posts por segundo”. Disponível aqui, acesso em 02 de julho de 2012] no Twitter.

Os próprios meios de comunicação se apropriam dessas mensagens. Seja nos seus processos internos, para aferir como uma atração está sendo avaliada pelos internautas, ou como ferramenta de interação, selecionando mensagens publicadas nas mídias sociais para demonstrar a participação dos telespectadores. O filtro é defendido pelos produtores não só porque é necessário escolher as melhores frases (por questão de tempo ou espaço não seria possível exibir todas as participações), mas também para evitar o que julgam ser uma postura intransigente. O jornal britânico Guardian aponta, inclusive, uma nova tendência [“Hatewatching: shouting about rubbish TV on Twitter”. Disponível aqui, acesso em 25 de junho de 2012]. O hatewatching corresponde à prática do público de comentar, nas mídias sociais, o que considera ruim na TV.

Ademais, nessa arena onde todos têm opinião, a interpretação muitas vezes surge rapidamente. A compreensão dos fatos é suplantada pela necessidade de manifestar leituras pessoais no debate coletivo. O tema do momento, em eterna mutação, não pode esperar uma reflexão mais aprofundada.

Os interagentes não apenas sinalizam deslizes ou sucessos específicos. Como explica Howard Rheingold, no livro Smart Mobs (2002), a multidão inteligente fiscaliza o ciberespaço, não tolerando a “trapaça”. A crítica se expande e busca identificar inclinações políticas ou interesses econômicos dos veículos de comunicação. O pesquisador Cláudio Cardoso de Paiva, no texto A crítica da mídia na era digital, defende que:

as estratégias comunicacionais recentes […] têm encontrado nos meios telemáticos a oportunidade para agenciar novas modalidades de ampliação do debate público, promovendo uma visualização das mediações entre o Estado, a Sociedade e o Mercado dos bens culturais. Por aí, passa – por exemplo – a discussão do copyright (direitos autorais) versus o copy-left (direitos coletivos), a utilização da internet pelos partidos políticos e o uso das mídias portáteis, locativas, como celulares, driblando a censura, em países como Cuba, China, Venezuela e Irã (PAIVA, 2010, p. 8)

Se o público em geral e grupos políticos específicos apontam manipulação, falta de transparência ou cobertura tendenciosa, as empresas se defendem refutando tais acusações ressaltando a lisura das suas atividades e a importância da liberdade de imprensa. Ademais, igualmente denunciam o discurso irascível da audiência.

De toda forma, as pessoas não necessariamente assistem todo o conteúdo dos programas. Trechos específicos, como esquetes de shows humorísticos, são compartilhados nas redes sociais. Ou seja, o alcance vai além da audiência primária, que assiste o show pela TV. Pensando em atender esse público, o serviço VHX [http://vhx.tv/] permite a criação de canais pessoais. O site funciona como uma central para toda a produção audiovisual que interessa a determinada pessoa, sejam vídeos amadores ou produções profissionais exibidas primeiramente na programação convencional.

O novo ecossistema midiático

Vale lembrar que, se antes havia poucos distribuidores, TVs abertas e serviços a cabo, hoje os canais se multiplicaram: a internet tornou-se casa de produções originais. O site de streaming de vídeos mais acessado é o YouTube [http://www.YouTube.com/]. Entretanto, um do canais mais vibrantes para encontrar novas produções é o Vimeo [http://www.vimeo.com/], comunidade online voltada principalmente para profissionais da indústria criativa. Se em outros destinos prolifera o conteúdo amador, o registro direto da realidade, produções fan made, dentre outros, no Vimeo a popularidade vai para a criação autoral.

O experimentalismo também alcança as grandes empresas, que buscamse aproximar de forma mais intensa das novas mídias. O CurrentTV [http://current.com/] é um canal colaborativo no qual os temas de interesse apontados pelos telespectadores podem gerar programas. Vídeos criados pela audiência também podem ir ao ar, através da seção VC2 [http://current.com/groups/vc2-on-tv/].

Já o canal Al Jazira lançou o The Stream, programa que mistura conceitos do telejornalismo tradicional com práticas participativas da web 2.0. O público é ouvido através do Twitter, Facebook e do serviço de compartilhamento de links Reddit [http://www.reddit.com/]. Programas de comunicação online, como Google+ Hangouts e Skype, são usados para entrevistas ao vivo.

Hoje, a TV está em todos os lugares. Set-top box como a Boxee e Apple TV; páginas das próprias emissoras; sites audiovisuais como Hulu [http://www.hulu.com/], Blip.tv [http://www.netflix.com/] e YouTube e locadoras digitais como a Netflix ampliam o leque de opções. É possível assistir a uma variedade de conteúdo, quando e onde o consumidor quiser: em celulares, computadores, tablets, videogames, entre outros.

Isso amplia a audiência dos programas. Afinal, pode-se assistir a quantos shows desejar, e não apenas escolher acompanhar uma única atração ao vivo e perder as demais, como ocorria anteriormente. Antes, apenas um público seleto, que possuía gravadores de vídeo como o TiVo, tinha acesso a esse recurso. Por outro lado, tal prática fragmenta a audiência em tempo real. Muitos jovens norte-americanos, inclusive, estão cancelando seus pacotes de TV por assinatura, num processo chamado de cord-cutting [“Cutting the Cord on Cable”. Disponível aqui, acesso em 02 de julho de 2012]. Afinal, o que lhes interessa está disponível online, de forma legal ou não.

É claro, há um descompasso entre o que a audiência espera e o que os meios tradicionais oferecem. Isso porque muitos programas ganham lançamento “oficial” nos demais suportes com atraso em relação à exibição original na TV ou no cinema. É a chamada janela de conteúdo, no qual um produto primeiramente é disponibilizado com exclusividade num suporte para, na sequência, após um intervalo de tempo, chegar a outros meios. Um filme, por exemplo, é exibido inicialmente no cinema. Depois, na TV por assinatura. Em seguida, fica acessível na Internet. Posteriormente, a TV aberta é o seu destino.

Embora a inserção da internet seja cada vez maior, a TV ainda é vista, principalmente pelo mercado publicitário, como a plataforma de massa mais rápida para atingir, ao mesmo tempo, um grande público. A comodidade dos espectadores de acessar a programação televisiva através de vários suportes pulveriza a audiência, algo que não interessa financeiramente as emissoras tradicionais: os intervalos comerciais televisivos são os mais rentáveis. Ou seja, comercialmente a TV ainda reina. Por isso, programas populares online, mas que são exibidos primeiramente na TV com audiência menor, geralmente correm risco de ser cancelados.

Há novidades nesse cenário. Paradoxalmente, a Internet também oferece um caminho alternativo para esses programas. A Netflix resgatou Arrested Development, uma sitcom muito elogiada pela crítica, mas que conquistava índices de audiência insatisfatórios. Novos episódios estão previstos para 2013, sete anos após o seriado ter sido cancelado na TV norte-americana. Além disso, o Netflix e o Hulu igualmente estão investindo em produções próprias, e não apenas na aquisição de acervo de conglomerados de entretenimento.

Considerações finais

É curioso observar como a internet e a TV, antes vistos como concorrentes, hoje são tidos como parceiros. Anteriormente, a infosfera era apontada principalmente como espaço para circulação não autorizada de material protegido com direito autoral. Atualmente, as TVs já estão mais atentas à conversação que ocorre nas redes telemáticas, acompanhando ou mesmo fomentando a interação sobre seus produtos.

A aproximação vai além: a simbiose também gera narrativas transmidiáticas, termo cunhado por Henry Jenkins no livro Cultura da Convergência (2009) e que corresponde a universos imaginativos que caminham em diversos suportes (como TV, internet, aplicativos para celulares e jogos eletrônicos).

A convergência dos meios se mostra cada vez mais presente no cotidiano das pessoas. As telas se multiplicaram, bem como o conteúdo e as formas de se relacionar com ele. O controle remoto se transmuta em novos artefatos e traz recursos inovadores. Além de possibilitar o acesso a produtos audiovisuais, o teclado do computador e as telas sensíveis a toque dos dispositivos móveis são utilizados pelo público para criticar a mídia, alcançar distribuidores distintos e para acessar novos produtores de conteúdo midiático. Em muitos casos, criações lançadas pelo outrora receptor, que agora investe na criação de material próprio (original ou derivado de conteúdo pré-existente).

Referências

BOLTER, Jay David; GRUSIN, Richard. Remediation: understanding new media. Cambridge: The MIT Press, 1999.

JENKINS, Henry. Cultura da Convergência. 2ª ed. São Paulo: Aleph, 2009.

PAIVA, C. C. O Observatório da Imprensa e a Crítica da Mídia na Era Digital. A cibercultura a serviço da intelig?ncia coletiva e da aç?o afirmativa. Anais do XXXIII Congresso Brasileiro de Ci?ncias da Comunicaç?o – Intercom 2010. GP – Conteúdos Digitais e Converg?ncias Tecnológicas. http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2010/lista_area_DT5-CD.htm

PROULX, Mike; SHEPATIN, Stacey. Social TV: How Marketers Can Reach and Engage Audiences by Connecting Television to the Web, Social Media, and Mobile. Wiley, 2012. RHEINGOLD, Howard.Smart mobs:the next social revolution. Perseus, 2002.

THOMPSON, John B. A Mídia e a Modernidade: Uma teoria social da mídia. Petrópolis: Vozes, 1998.

WOLTON, Dominique. Pensar a comunicaç?o. Brasília: UnB, 2004. Traduzido por Zélia Leal Adghirni. Traduç?o de Penser la communication. Paris: Flammarion, 1997.

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[Charles Cadé é pesquisador e consultor de comunicação e estratégia digital]

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