Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

DIRETóRIO ACADêMICO > ESTHER CALDAS BERTOLETTI

Pela preservação e disseminação da memória nacional

Por Graça Caldas em 14/08/2012 na edição 707

A jornalista e advogada baiana, técnica consultora em documentação, professora e pesquisadora Esther Caldas Guimarães Bertoletti recebe o título de Doutor Honoris Causa, na Universidade Federal da Bahia (UFBA), na terça-feira (14/8), em reconhecimento a seu trabalho por quase quatro décadas pela recuperação, preservação da memória nacional e facilitação de acesso a documentos. O título será outorgado pela reitora da UFBA, professora Dora Leal Rosa e pelo diretor do Instituto de Ciência da Informação da mesma universidade,  professor Rubens Ribeiro Gonçalves da Silva, na sala dos Conselhos Superiores da Reitoria da UFBA.

Depois de passar um período de quase nove  anos na Itália, onde fez vários cursos de pós-graduação, Esther voltou ao Rio de Janeiro. Ao recomeçar sua vida profissional, em 1975,  foi trabalhar na área da documentação, na Fundação Casa de Rui Barbosa e depois na Biblioteca Nacional, onde se aposentou, em junho de 2011,  às vésperas de completar 70 anos. Dedicou  toda a sua vida a dirigir áreas técnicas da Biblioteca Nacional e a coordenar projetos de projeção nacional e internacional: Plano Nacional de Microfilmagem de Periódicos Brasileiros, implantado em 1975; Plano de Recuperação de Obras Raras, criado em 1983; e o Projeto Resgate Barão de Rio Branco, instituído pelo Ministério da Cultura, em 1990, para a recuperação de documentação histórica sobre o Brasil, existente no exterior.

A iniciativa da homenagem foi da professora, pesquisadora e ex-diretora do Instituto de Ciência da Informação da UFBA  Lídia Brandão Toutain, que em janeiro de 2011 encaminhou o pedido de outorga do título, acompanhado do memorial,  à Congregação do Instituto de Ciência de Informação da UFBA. Contou  com o apoio dos professores Maria Teresa Navarro de Brito Mattos, que é também diretora do Arquivo Público Estadual, Maria José Rabelo, Esmeralda Aragão, decanas da Escola de Biblioteconomia da UFBA, e de Rubens Ribeiro Gonçalves da Silva, atual diretor do Instituto de Ciência da Informação. A relatora do processo foi a professora Zeny Duarte, que atua na área de Arquivologia.  

Em busca da memória nacional

No início de seu trabalho  no Brasil, a partir de 1975, Esther percorreu o país inteiro, visitando proprietários de jornais, arquivos, bibliotecas e universidades com o objetivo de completar a coleções para a microfilmagem dos periódicos (jornais, revistas e publicações periódicas) brasileiros de pequeno e grande porte, de curta ou longa duração, que se deterioravam. Isto porque não contavam com os necessários cuidados de preservação, seja por falta de recursos e/ou  conhecimentos necessários, bem como  das modernas  tecnologias digitais.

Com este trabalho, partindo de apenas 120 títulos então microfilmados na Biblioteca Nacional, conseguiu alcançar a preservação pela microfilmagem sistêmica de mais de 8.000 títulos de periódicos, durante o tempo em que esteve na coordenação dos trabalhos. Dessa forma, possibilitou a  pesquisadores de todo o país e do exterior, acesso facilitado  para a construção e reconstrução da história do cotidiano pela leitura de notícias e artigos publicados em diferentes veículos que relatavam sobre os acontecimentos de diferentes épocas.

Desde então, dedicou toda a sua vida à  preservação de documentos, como as obras antigas e raras  (década de 1980) e o Projeto Resgate (década de 1990, até recentemente), quando percorreu vários países na busca da recuperação da documentação ligada à memória nacional. O resultado de seu trabalho foi reunido inicialmente em microfilmes, depois em CDs, que estão hoje disponíveis para consultas nas principais  bibliotecas, arquivos e universidades públicas e/ou privadas e também online no site da Universidade de Brasília.

Para Esther a outorga do título pela Universidade Federal da  Bahia/Instituto de Ciência da Informação representa o coroamento de sua carreira, não só porque mantêm muito forte o vínculo com o seu estado natal, a Bahia, como pelo reconhecimento de sua área de atuação, ao longo de uma trajetória de quase 40 anos. Como  ela própria afirma: 

“A melhor recompensa pelo esforço e dedicação apaixonados à causa da preservação e disseminação da informação contida nos documentos é este título no encerrar na minha vida profissional oficial, pois a dedicação à causa da memória nacional permanecerá até o final de minha vida. Quero dizer a todos que nada foi em vão. Todo o meu esforço tem servido como incentivo, como tenho tido a oportunidade de testemunhar, a milhares de pessoas dedicadas à organização e à pesquisa dos e nos  documentos, fontes da vida e da história da humanidade. Viva o documento.”

Paixão pela documentação e cultura

A paixão de Esther pela documentação e cultura está diretamente ligada ao apoio que sempre teve de sua família e  ao espírito desbravador que marcaram  sua vida pessoal e profissional. Até os 17 anos, Esther viveu inicialmente em Ilhéus e depois en Salvador, onde estudou no Colégio Sophia Costa Pinto, terminando o antigo curso clássico, em 1958. Nasceu em Coaraci, então distrito de Ilhéus.  Filha do cacauicultor e ex-deputado baiano Oswaldo de Souza Caldas e de Edith Conde Caldas, de tradicionais famílias baianas, tem cinco irmãos. É casada com o sociólogo e professor universitário Italo Bertoletti, com quem tem quatro filhos e  oito netos.

No Rio de Janeiro, para onde sua família se mudou no início da década de 60, formou-se em Jornalismo pela PUC-RJ em 1964 e em Direito pela antiga Faculdade Nacional de Direito, hoje Faculdade de Direito da UFRJ, em 1965, tendo ingressado em seguida no doutorado. Em 1968, casou-se e foi morar novamente  em Roma, onde fez vários cursos na área de Direito Internacional e trabalhou como jornalista na Rádio Vaticano e na Universidade Internacional de Estudos Sociais Pro Deo, como documentalista no recém criado Instituto de Estudos Latino-americanos  e onde nasceram três  de seus quatro filhos.

De volta ao Brasil, em 1975, começou a sua trajetória na área de documentação histórica como Coordenadora Executiva do Grupo de Documentação em Ciências Sociais (GDCS), formado pelos diretores da Fundação Casa de Rui Barbosa, Biblioteca Nacional, Arquivo Nacional e Fundação Getúlio Vargas (CPDoc). Mesmo não  dando prosseguimento à carreira de jornalista e de advogada, seus estudos nessas áreas foram importantes para o desenvolvimento de seu trabalho em documentação e cultura. 

Durante sua trajetória profissional,  participou de centenas de congressos, seminários e palestras e deu aulas em universidades, no Brasil e no exterior, publicando artigos em periódicos científicos ligados às áreas das Ciências Sociais e da Ciência da Informação. Hoje, participa de inúmeras instituições ligadas à cultura e à documentação como o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, do qual é sócia titular, como membro da Diretoria e da Comiss ão da tradicional revista fundada em 1839. Integra, ainda, o Real Gabinete Português de Leitura,  como membro da Diretoria e da Comissão da tradicional Revista fundada em 1839.  Faz parte do Conselho de Cultura da Associação Comercial do Rio de Janeiro, da Fundação Cultural Exército Brasileiro e de outros Institutos Históricos estaduais e municipais. É membro correspondente da Academia Portuguesa de História e das Academias de História da Espanha, Uruguai, Argentina e Paraguai. É pesquisadora do CNPq e vem atuando como consultora de projetos ligados a várias instituições como Finep, Faperj, Petrobrás Cultural, Memória do Mundo/Unesco.

Premiações

O título de Doutor Honoris Causa a ser recebido na UFBA vem se somar ao reconhecimento  no Brasil e no exterior, e a muitos outros títulos e medalhas recebidos durante sua vida profissional. Entretanto, o título da UFBA tem um valor especial por ser na Bahia, sua terra natal. Entre outras premiações destaca a medalha  de Mérito da Fundação Joaquim Nabuco/MEC-1985-Pernambuco; a Medalha Castro Alves, do Governo da Bahia, 1987; a do Mérito Cultural do Ministério da Cultura/Presidência da República, 1999,  do Ministério das Relações Exteriores/Itamaraty, a Comenda da Ordem do Rio Branco, também em 1999, e a concedida pelo Governo Português, Medalha do Infante D. Henrique, em 2001,  assim como a medalha do Mérito Renascença do Governo do Piauí, em 2008,  e a de  “Cidadã Goiana” entregue pelo governo de Goiás em 2010. Recebeu ao longo de sua trajetória votos de vouvor de inúmeros Conselhos de Cultura, do Federal e de vários estaduais, além da Associação Brasileira de Imprensa e da Academia Brasileira de Letras, ambos em 1989.

***

[Graça Caldas é jornalista e professora do Labjor/IEL/Unicamp]

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