Quinta-feira, 25 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1034
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DIRETóRIO ACADêMICO >

Do falso critério de noticiabilidade

Por Lucrécio Arrais em 06/11/2012 na edição 719

Mauro Wolf, Rodrigo Miguel Alsina, Nelson Traquina e tantos outros teóricos da Comunicação já previam aos comunicólogos do porvir os critérios de noticiabilidade e relevância da notícia de modo a construir a audiência que, por efeitos alienantes e arquétipos pré-construídos, acostumou-se a engolir sem muito pensar aquilo que lhes é ou era passado. No caso dos militantes do MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra), quando estes são foco dos diversos meios de propagação midiática dos quais conhecemos, os arquétipos e “alienatizantes” estão bem presentes.

A busca pela audiência faz com que o Jornalismo se torne uma máquina de produção de sentidos vidrada e comercial, isto é, um Jornalismo onde a notícia atribui valor a determinados pontos, fazendo com que, do ponto de vista mercadológico, seja mais fácil de vender. Afinal, até que ponto a obstrução de certas informações e superestimação de outras tornam inverídicas certas repercussões? É exatamente por conta disso que a luta do MST é uma das mais criminalizadas da América Latina, e boa parcela da culpa é da mídia.

No Brasil, a situação é tão ou mais grave quando comparada com o resto do mundo ao retratar as lutas agrárias. Enxerga-se que a mídia contrapõe a opinião pública à verdade, colocando como se os participantes de movimentos sociais fossem “desocupados” ou mesmo “preguiçosos”.

Desapego a valores mercadológicos

O raro espaço dado aos movimentos sociais, seja nas páginas dos jornais, nas passagens de TV, no rádio, nos algoritmos das interfaces dos sítios de internet etc., além de escasso, é limítrofe e não corresponde à realidade empírica do cotidiano daqueles que deram suor, esforço e, às vezes, o próprio sangue para conseguir um precioso pedaço de chão de um país com uma das maiores concentrações de terra do mundo.

Já se falou, por exemplo, em riqueza e prosperidade econômica no Assentamento do Vale da Esperança, no Piauí, como se os assentados fossem grandes comerciantes rurais, granjeiros que vendem galinhas a preço de ouro para o enriquecimento próprio. Quem já visitou o lugar ou mesmo conhece de forma mais exegética o ambiente, sabe que o que a mídia repassou ao público não passa de informações às avessas, de um sensacionalismo sem precedências. Quando se voltam os olhos ao palpável, observa-se que a venda de galinhas é uma mera complementação de renda e que os argumentos usados na matéria para mostrar que os assentados estavam em condições financeiras semelhante as de muitos moradores de classe média eram infundados e facilmente falíveis com um pouco de pesquisa e conversa.

Talvez seja exatamente um pouco mais de pesquisa e conversa, além do claro distanciamento e desapego de valores mercadológicos e de interesses particulares, que transforme o Jornalismo e a Comunicação Social praticada para mostrar falsos recortes, principalmente quando esses falsos recortes retratam uma população tão marginalizada como aqueles que reivindicam o MST.

***

[Lucrécio Arrais é estagiário de Jornalismo, Teresina, PI]

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