Quarta-feira, 19 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1018
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DIRETóRIO ACADêMICO >

O político-jornalista Rui Barbosa

Por Edgar Leite em 23/04/2013 na edição 743

Talvez tenhamos nos esquecido de lembrar a data de morte de um dos maiores personagens políticos da história do país. Trata-se do advogado, político e jornalista Rui Barbosa. Dia 1º de março fez 90 anos da morte do acadêmico.

Um fato peculiar merece ser destacado na história de sua vida. O ano era 1910. Na verdade, o período merecia ser apagado da mente e do coração de Rui Barbosa, que naquele ano era senador da República. Aos 60 anos, o polivalente e poliglota não conseguiu emplacar a Campanha Civilista – contra o militarismo – no país. Foi derrotado na eleição da Presidência da República pelo ministro da Guerra do então presidente Afonso Pena, Hermes da Fonseca.

A eleição ocorreu no dia 1º de março. Na contagem final, após cerca de três meses de apuração, o resultado apontou 403.867 votos para Hermes e 222.822 para Rui. Desta forma, a campanha do chamado Águia de Haia – uma referência à sua brilhante participação na Conferência da Paz em Haia, em 1907 – que tentava galvanizar a opinião pública em favor de um conjunto de ideias políticas, sai de cena suplantada pela força da campanha de Hermes. Este último toma posse na presidência da República em sessão solene do Congresso Nacional, presidida por Quintino Bocaiúva, no dia 15 de novembro. Ao vencer as eleições, derrotando o candidato liberal Rui Barbosa, o marechal Hermes da Fonseca marcou o retorno de um militar à Presidência da República após 16 anos de governos civis.

O voto de cabresto e o poder dos coronéis

A campanha vitoriosa do ministro do governo do presidente Afonso Pena foi considerada típica de sistemas eleitorais demarcados com promoção de banquetes na tentativa de atrair votos do eleitorado brasileiro.

O que mais frustrou Rui, além da tristeza da derrota, foi a possibilidade de ter perdido a presidência em função de uma fraude nas eleições. Uma “roubalheira”, na opinião do senador. Das 96 seções eleitorais, apenas 25 funcionaram. Até mesmo o presidente do Congresso, Quintino Bocaiúva, fã das ideias do senador Rui Barbosa, tentou votar e não conseguiu. O candidato derrotado esperneou: “Não nasci para ganhar, não nasci cortesão, não quis ser da ditadura, não o serei das baionetas.” Rui também criticou que a eleição teria sido de cartas marcadas. Os analfabetos e as mulheres, mais uma vez, não puderam votar.

As eleições foram feitas a bico de pena, com riscos de falsificação das atas, e no campo, predominaram o voto de cabresto e os currais eleitorais. Todos esses fatores irritaram o candidato derrotado. Os protestos não surtiram qualquer efeito prático. Como o voto não foi obrigatório, a percentagem de eleitores oscilou entre 1,4% e 5,7% da população. Mas, tanto de um lado, como de outro, capangas de coronéis, fazendeiros e chefes políticos dos municípios, reuniram trabalhadores rurais e os levavam em massa, “pelo cabresto” até as urnas, para votar no candidato do coronel. A escolha popular teria sido fraudada, deste o sufrágio até a confirmação pela Comissão Verificadora. A principal concentração eleitoral do país estava nas capitais e foi nelas que Rui conseguiu arregimentar a maior quantidade de novos eleitores. No interior, o voto de cabresto e o poder sem fim dos coronéis impediam maior avanço da oposição.

Marechal não tinha título de eleitor

Nas capitais as sessões eleitorais, na sua maioria, não se abriram, seja pela falta de mesários, ou por conflitos que impediram seu funcionamento. O próprio Rui Barbosa e seus assessores passaram o dia 1º de março procurando por uma sessão que estivesse aberta e na qual pudessem votar.

Durante a apuração, as fraudes ocorreram de um lado e do outro. Partidários da oposição, tal quais seus adversários, souberam bem manipular as atas, falseando-as em proveito próprio. O jornal O País fez vazar uma circular endereçada aos chefes civilistas, na qual se recomendava que, ao preencherem as atas nas sessões eleitorais sob seu controle, fizessem diminuir 20% no total de votos de Hermes, acrescentando-os ao total de votos de Rui. Rui Barbosa ganhou, com pequena vantagem, no Distrito Federal, em sua terra natal, a Bahia, e nos estados sob o controle da oligarquia que o apoiou, como em São Paulo e Minas Gerais. No restante do país, o resultado a favor de Hermes da Fonseca foi acachapante. Por exemplo, no bloco de estados formado por Amazonas, Pará, Maranhão, Piauí e Rio Grande do Norte, 95% dos votos válidos foram para Hermes da Fonseca.

No entanto, mesmo após a derrota, Rui Barbosa prosseguiu com seu inconformismo em relação aos resultados. No Congresso Nacional, junto à Comissão Verificadora e, mais tarde, na Justiça, o senador procurou provar a inelegibilidade do vencedor. Um argumento importante era o de que um candidato sem título de eleitor, não estando, pois, no gozo de seus plenos direitos políticos, conforme determinava a lei, não poderia vencer. O marechal era alistável (tinha direitos), mas não se alistou (perdeu esses direitos), segundo Rui.

O discurso civilista

Toda retórica foi nula. O nome de Hermes vai ser homologado e, em 15 de novembro de 1910. É a data que o marechal foi empossado na presidência da República, em substituição a Nilo Peçanha. Assim, o poliglota – que dominava fluentemente francês, inglês e alemão – tentou se conformar afirmando que sua vida pública não termina nessas eleições. Ele voltaria a se candidatar nos pleitos seguintes.

Com seu um metro e cinquenta de altura, corcunda, 48 quilos, minúsculo no tamanho, mas um gigante na oratória, o político deixa a campanha cansativa de 1910, frustrado, mas com a sensação do dever cumprido. Ou seja, conseguiu, de certa forma, difundir a campanha presidencial de ideias civilistas – iniciada em 3 de outubro de 1909. O desabafo mostrou bem o que pensou Rui:

“Eu sou dos sacrifícios. Se fosse para a vitória não me convidavam, nem eu aceitaria; mas como é para a derrota, aceito. A ideia não morrerá pelo meu egoísmo. Perderemos, mas o espírito da resistência civil se salvará”, afirmou.

Nestas eleições, o senador fez uma quantidade imensa de comícios, viagens e debates lotando as praças por vários estados do País, como a Bahia, Minas e São Paulo. Rui cuidou ele mesmo do seu marketing pessoal. Distribuiu panfletos e faixas. A diferença para a campanha de Hermes foi notória. O ministro – apoiado pelo governo e ligado ao Exército – preferiu os encontros reservados e pouco falou em comícios. Rui aproveitou bem a nova maneira de fazer campanha, idealizada por ele, para tentar emplacar o civilismo com um discurso que chegou a agradar grupos da classe média e os trabalhadores. “Defendo o voto secreto, o fim do analfabetismo, a reforma da Constituição e o fim da interferência do exército na vida civil”, afirmava Rui, em seus discursos.

O poder nas mãos das oligarquias rurais

A derrota de Rui Barbosa não foi o único fato marcante nestas eleições. A sucessão presidencial de 1910 fica marcada como a primeira disputa, verdadeiramente competitiva, da República Velha, quando a ruptura momentânea da “política do café-com-leite” fez com que Minas Gerais e a maioria dos estados apoiassem a candidatura do marechal Hermes da Fonseca. Houve crise, antes das eleições, patrocinada por blocos de estados. Ficaram de um lado paulistas e baianos e de outros mineiros e gaúchos.

São Paulo, apoiado pela Bahia, lançou exatamente Rui Barbosa na campanha civilista – pontuada por críticas ao militarismo: “Quero o exército grande, forte, exemplar, não o queria pesando sobre o governo do país. A nação governa. O exército, como os demais órgãos do país, obedece”, foram as palavras de Rui, logo após a confirmação de sua candidatura – que seria derrotada. Nesta declaração, o senador criticava, sobretudo, a plataforma de seu oponente Hermes da Fonseca, ligando-o ao militarismo.

Desta forma, a candidatura vitoriosa do ministro Hermes da Fonseca nas eleições presidenciais ocorreu com o rompimento das relações de barganha e dominação política firmadas entre os dois mais importantes estados da federação, São Paulo e Minas Gerais. Os dois “jogaram” em times opostos. Na República Velha, o poder estava nas mãos das oligarquias rurais, dos grandes fazendeiros. As oligarquias mais importantes eram o setor cafeeiro de São Paulo e os criadores de gado de Minas Gerais. Os candidatos do Partido Republicano Paulista (PRP) e do Partido Republicano Mineiro (PRM), que representavam esses setores, sempre se revezaram na presidência, na aliança conhecida como café-com-leite.

O direito e a liberdade de todos

Nessas eleições, entretanto, as oligarquias paulistas e mineiras não chegaram a um acordo com relação à escolha de um candidato para sucessão do presidente Nilo Peçanha. Então, São Paulo aliou-se à Bahia apoiando a candidatura de Rui Barbosa, enquanto Minas Gerais se entendeu com o Rio Grande do Sul apoiando a candidatura do ministro Hermes da Fonseca, que venceu a disputa eleitoral.

Rui Barbosa escolheu o Teatro Politeama, na Bahia, no dia 15 de janeiro de 1910, para apresentar seu programa de governo. Na ocasião ele enalteceu o povo baiano. Fez um discurso longo. “Nesta cidade as massas têm, por instinto, o sentimento das grandes questões nacionais. […] Cada homem do povo, nesta terra, como que traz no seio alguma coisa, uma intuição, um rudimento um traço das qualidades do homem de Estado.”

O programa de governo apresentado por Rui Barbosa nada mais era do que aquilo em que o autor acreditou e por que lutou a sua vida inteira. Ele apresentou suas ideias e propostas num país essencialmente agrário. Para romper com este quadro, procurava superá-lo de forma lenta, mas progressiva, propondo o desenvolvimento, respeitando o direito e a liberdade de todos.

A ameaça insolente

As propostas foram conhecidas pelos mais diversos setores da sociedade, citando exemplos de outros países mais avançados que poderiam ser tomados como base. Alertou também o povo brasileiro quanto ao perigo de uma infiltração militar, que chegava sem perceber, e comparou o terror militar com um soldado à paisana que se infiltrava no seio da nação.

Foi contra este militarismo renascente que Rui Barbosa aceitou a indicação de seu nome e assumiu uma candidatura antimilitar, evocando o caráter civilista desta campanha. Por isso, denunciava os “arranjos” do Estado que manipulavam a ordem social, realizando invasão militar durante as eleições estaduais e ameaçando depor o presidente, como fora o caso do estado do Rio de Janeiro. Rui afirmou:

“São cambalachos, em que o militarismo, já sem cerimônias, governando o presidente atual, dele recebe a presidência futura, a troco de sustentar o seu desmoralizado instrumento em atentados monstruosos como a invasão militar do Estado vizinho, durante as eleições estaduais a exaltação do Conselho Municipal na metrópole brasileira, sob o mais falso, o mais absurdo, o mais ridículo dos pretextos, e a ameaça insolente da deposição do presidente do estado do Rio de Janeiro.”

Apesar dos brilhantes discursos, o final da eleição não foi feliz para esse advogado-jornalista-político. Ou seria político-jornalista-advogado?

Referências bibliográficas

Estudos históricos sobre Rui Barbosa, de Isabel Lustosa … (et al.), Rio de Janeiro: Edições Casa de Rui Barbosa, 2000. 285 p.: il.

“Discursos Parlamentares”. Rio de Janeiro. Min C/FCRB, 1985. (Obras Completas de Rui Barbosa, vol. 23, t.5, 1896).

Gomes, Eustáquio. “Civilismo de Rui Barbosa fracassa contra Hermes”. Correio Popular, Campinas, 16 set. 1994. (História das eleições).

Sites

>> Fundação Casa de Rui Barbosa

>> Educação UOL

>> Revista Época

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Edgar Leite é jornalista, mestre em Ciências Sociais Políticas pela PUC e editor-chefe do jornal Diário de Suzano

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