Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

DIRETóRIO ACADêMICO > LIVRO-REPORTAGEM

O jornalismo de Gay Talese em ‘A Mulher do Próximo’

Por Jade Knorre, Jéssica Kilpp e Jéssica em 30/07/2013 na edição 757

O jornalista e escritor norte-americano Gay Talese nasceu em Ocean City, Nova Jersey, em 1932. Trabalhou como repórter para o New York Times durante uma década (de 1955 a 1965) e, entre os anos 60 e 70, escreveu artigos para revistas – entre elas a conceituada revista masculina Esquire. Foi autor de perfis importantes para a história do jornalismo e ganhou fama com a reportagem “Frank Sinatra Está Resfriado” – publicada na Esquire em 1966 –, cujo perfil foi construído a partir de inúmeras entrevistas, exceto a do próprio Sinatra.

Embora seja considerado o pai do novo jornalismo, Gay Talese rejeita o título. Para ele, muitos repórteres preguiçosos se esconderam por trás deste rótulo – o novo jornalismo é um movimento criado durante a contracultura, na década de 1960, caracterizado por reportagens que se apropriam de técnicas da ficção, misturando a narrativa jornalística com a literária. A diferença do novo jornalismo para o jornalismo tradicional está na apuração: Gay Talese demorou nove anos para reunir as informações presentes em A Mulher do Próximo. Sem celular, notebook ou tablet, Talese anda com pequenos cartões para escrever o que vê ou precisa saber. Ele, inclusive, não utiliza gravador nem anota as respostas do entrevistado. Ao final de cada conversa, retorna ao hotel e escreve tudo que ouviu na máquina de escrever.

Seus personagens preferidos são os anônimos: do redator de obituários ao operador de letreiros luminosos de Nova York. Talese rejeita as celebridades. Entre as décadas de 60 e 70, durante a efervescência de fatos históricos ligados à juventude, à cultura e aos avanços tecnológicos – em meio à chegada do homem à lua, manifestações contra preconceitos raciais, início da guerra do Vietnã e a Revolução de Maio de 68 –, Gay Talese escreveu um de seus mais famosos e criticados livros. Criticado, principalmente, pela sociedade ainda reticente quanto à revolução sexual: A Mulher do Próximo.

Sobre o livro-reportagem

A narrativa da obra é não-linear e, a cada capítulo, quando uma nova pessoa é apresentada, muitas linhas e, inclusive, páginas, são utilizadas na descrição da vida deste novo personagem, que muitas vezes tem relação indireta com outros já citados no texto. Ao final do livro, o próprio autor revela o seu envolvimento emocional na história e inclusive assume que teve relações sexuais com uma das entrevistadas.

Durante a narrativa, os dados históricos e jurídicos chamam a atenção, como em cenas de julgamentos reproduzidas fielmente, ou no trecho: “A lei federal de Comstock, de 1873, que tornava ilegal vender qualquer material considerado ‘obsceno, indecente e/ou lascivos’ através do correio, incluindo contraceptivos e informação. É quando surgem sociedades alternativas, nas quais prevaleciam o coletivismo e o sexo livre. Talese também apurou informações sobre casas de massagem, cujas fachadas escondiam lugares onde homens podiam marcar um horário para fazer sexo ou apenas ser masturbados.” O embasamento teórico de Talese é muito preciso em todas as situações.

Quanto ao estilo da escrita e a técnica de A Mulher do Próximo– um livro-reportagem de 466 páginas –, Gabriela Weber de Morais (2004) ressalta que o realismo social do século 19 foi uma das mais fortes influências para as grandes reportagens: “A descrição minuciosa das cenas, realizada por Flaubert, Balzac e Dickens foi incorporada pela narrativa jornalística do século 20, enriquecendo sobremaneira o impressionismo das cenas reportadas”. Um dos primeiros relatos do livro, a respeito de uma cena de masturbação, descreve desde o momento em que um garoto retira sua roupa até o instante em que a revista com a foto da modelo Diane Webber – a mulher que ele tanto desejava – se fecha. A marca da loção para as mãos e do lenço que o garoto usa naquele momento são alguns dos detalhes presentes na narrativa de Talese.

Apuração

Logo nas primeiras páginas do livro há um aviso ao leitor: “Os nomes das pessoas neste livro são verdadeiros e as cenas e eventos descritos nas páginas seguintes realmente aconteceram.” Durante nove anos de pesquisa e total entrega à sua longa matéria, Gay Talese teve acesso a inúmeros documentos, depoimentos e fatos jamais divulgados.

O jornalista traz dados históricos profundamente relevantes de forma clara e acessível. Conforme o sociólogo americano Robert Park, o jornalismo revela a realidade de forma diferente, produz e reproduz de maneiras diferentes o conhecimento, fazendo um exercício mais complexo do que apenas transmitir a informação. O jornalismo está em um patamar entre o conhecimento sobre algo (conhecimento científico) e o conhecimento de algo (conhecimento mais visual, sensorial, sem metodologias a seguir): essa aproximação com o real e ao mesmo tempo o uso de metodologias de pesquisa são características fundamentais na obra de Gay Talese. Por atuar no campo da realidade dominante, o jornalismo tem sua fragilidade por ser dependente de noções prévias para representar a realidade, como vemos no livro A Mulher do Próximo: a ousadia por tratar de um tema tabu na sociedade americana tornou o relato frágil e alvo de críticas.

Por outro lado, a força da narrativa de Gay Talese está assegurada na medida em que a pesquisa e a construção do texto dialogam e orientam a realidade de seu público. Segundo o professor Eduardo Meditsch, o jornalismo tem força na revelação do próprio fato, fato esse que parte da observação não controlada da realidade de quem produz. É indiscutível também que por trás das notícias e das reportagens corre uma trama infinita de relações dialéticas e subjetividades. A forma de conhecimento do jornalismo, como qualquer outra, é condicionada por um contexto histórico e cultural. O jornalismo não é uma imagem da realidade extraída unicamente dessa realidade, mas sim uma representação na qual técnicas, ferramentas e projetos – também jogos de interesses, poder e relações íntimas – interferem no resultado final.

O jornalista viajou o país inteiro à procura do melhor retrato possível para a mudança de costumes sexuais que varreu os Estados Unidos durante a contracultura e, até mesmo nos períodos com maior dominância moralista. Resgatando a história da repressão sexual – inclusive na literatura americana e europeia oriunda do século 19 – Talese mostra como se desenvolveu a liberdade sexual, pregada por seitas de amor livre e nudismo. Segundo a capa do livro, reeditado no Brasil pela Companhia das Letras em 2002, A Mulher do Próximoé uma crônica da permissividade americana antes da era da Aids.

Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo (16/03/2002), o autor relatou o seu envolvimento no processo de apuração:

Folha – No último capítulo de A Mulher do Próximoo sr. fala de experiências sexuais de um tal Gay Talese. Qual foi a sensação de ser personagem de seu próprio livro?

Gay Talese– Achei que falar sobre mim mesmo era o único jeito de reunir todos os temas que o livro circunda. Muitos me perguntam se não me arrependo de ter me exposto. Não. Penso que se fizesse de outro jeito estaria sendo evasivo, uma tentativa de me esconder por trás da minha faceta repórter.

Por que Gay Talese faz jornalismo?

Segundo os teóricos do jornalismo Bill Kovach e Tom Rosenstiel, o que diferencia o jornalismo de todas as outras formas de comunicação é a busca desinteressada da verdade. Mas o que seria a verdade? Para os autores, ela é muito mais do que “simples precisão”: é um “processo seletivo”. Devemos abandonar a ideia de que jornalismo é unicamente exatidão – afinal, a sua natureza interpretativa, inerente ao próprio profissional, é inegável. Inseridos em um contexto social, os jornalistas devem apurar os fatos e dar sentido a eles, num processo de busca do seu melhor entendimento.

Em A Mulher do Próximo, perdemos a conta de quantos personagens o livro apresenta e, assim, para chegar a tantas histórias bem contadas, Talese praticou o que chama de art of hanging out (a arte de sair por aí). Na apuração, segundo declarou em entrevista ao Diário Regional, de Santa Cruz do Sul:

“Tem que ser gasto um bom tempo e conservar um relacionamento [com as fontes]. Tanto nos EUA quanto no Brasil, ou em qualquer lugar do mundo, existem histórias que você pode contar se você realmente se dedicar a isso. Nunca é fácil fazer alguma coisa boa, sempre é difícil. Mas você não vai conseguir isso utilizando o Google. Nunca vai conseguir fazer isso usando um telefone celular, ou um gravador. Você tem que sair na rua e cultivar uma relação, e gastar tempo com ela. É o que eu chamo, em minhas próprias palavras de the art of hanging out (a arte de sair por ai).”

Assim, com uma apuração tão longa e rica em entrevistas e profundidade, Gay Talese buscou o melhor entendimento da informação. Selecionando aquilo e aqueles que seriam fundamentais para a construção da história, ele nos conta a verdade a partir do ponto de vista de anônimos envolvidos no processo da revolução sexual e até figuras importantes como Hugh Hefner – criador da Playboy, considerado pelo autor a pessoa mais importante para a sexualidade norte-americana do século 20 (“ele permitiu que nos imunizássemos à nudez”).

Para o especialista em comunicação Orlando Tambosi “não existe uma teoria geral e completa da verdade”, porém uma das teorias da verdade que mais se encaixa no texto de Gay Talese é a da correspondência. Sendo a mais antiga e mais aceita no jornalismo, essa teoria defende que uma afirmação é verdadeira se e somente se corresponde a um fato e que o “pressuposto básico dessa teoria é que a verdade de uma proposição consiste em sua relação com o mundo”. Talese defende que todas as informações presentes em A Mulher do Próximosão verídicas: “No meu caso, devo dizer que nada do que descrevi foi inventado. É o que aconteceu para as pessoas sobre as quais escrevo, nos lugares que descrevo, o que faz de meu livro um retrato da vida privada na América.”

Sobre o exercício do jornalismo, Talese acredita que o grande trunfo de jornais como o New York Times, na década de 30, foi levar a verdade como um negócio. Com ela, pode-se ganhar dinheiro, principalmente porque as pessoas querem a verdade.

Em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, do Brasil (7/7/2011), o jornalista utiliza o termo truth seekers para o exercício do jornalismo. Ou seja, alguém que procura pela verdade.

“O jornalismo deveria ser um tipo de grupo separado que deveria ter conhecimento acerca do que está acontecendo no mundo maior, mas um isolamento dos acontecimentos e da influência do mundo lá fora. Deveríamos [os jornalistas] existir como uma sociedade internacional, quase como uma associação dos que buscam a verdade. Sei que é difícil definir a verdade. A verdade de um não é a verdade do outro. Estou ciente da ambiguidade do termo. Mas o jornalismo deveria manter-se à parte e acima das influências promovidas por lobistas, propagandas e, às vezes, por pessoas que acham que a sua verdade é a correta [sic].”

Portanto, sobre a busca da verdade, a afirmação de Orlando Trambosi se encaixa no trabalho de Gay Talese: “com efeito, não há garantia de que as afirmações (ou ‘discursos’) sejam verdadeiras a priori, mas isto não impede que o jornalista alcance a verdade, por mais aproximativa que seja.”

A impressão do jornalista e, portanto, sua seleção do que considera informação é fundamental. Para Kovach e Rosenstiel, informação é o “conhecimento indireto pelo qual as pessoas podem formar suas opiniões sobre o mundo” e a simples exatidão não é o que o leitor procura. Desta maneira, o livro-reportagem A Mulher do Próximo, de Gay Talese, vem ao encontro do que o jornalismo deve fazer: interpretar a informação a partir da devida apuração. Afinal, quem iria ler e se interessar pela quantidade de referências, relatos e documentos –apenas no índice remissivo do livro há 15 páginas – se não fosse pela seleção e pelo cruzamento de informações realizados detalhadamente por um jornalista?

Bibliografia

KOVACH, Bill e ROSENSTIEL, Tom. Os elementos do jornalismo, 2000.

MEDITCH, Eduardo. O jornalismo é uma forma de conhecimento? In: Teoria da comunicação: antologia de pesquisadores brasileiros, 2004.

PARK, Robert (apud MEDITCH, Eduardo. O jornalismo é uma forma de conhecimento? In:Teoria da comunicação: antologia de pesquisadores brasileiros, 2004).

TAMBOSI, Orlando. Jornalismo e teorias da verdade, 2007.

MORAIS, Gabriela Weber de. “A reportagem e livro-reportagem no Brasil” em27/04/2004 na edição 274 do Observatório da Imprensa.

MACHADO, Cassiano Elek . “Gay Talese tira as roupas da América”, 16/03/2002.

FONSECA, Rodrigo. “Nada novo na América”.21/03/2002.

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Jade Knorre, Jéssica Kilpp e Jéssica Ocaña são alunas do Curso de Jornalismo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

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