Terça-feira, 19 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

DIRETóRIO ACADêMICO > MÍDIA NINJA

O enigma dos Ninja

Por Elias Machado em 17/09/2013 na edição 764

A abrupta aparição do movimento Narrativas Independentes Jornalismo e Ação (Ninja) com as manifestações de protesto contra a corrupção na política e os gastos abusivos nas obras da Copa do Mundo desencadeou uma diversidade de análises de profissionais, pesquisadores e professores, com avaliações que vão desde a adesão plena ao modelo de cobertura dos Ninja, definido como revolucionário e inovador, até a descaracterização absoluta deste tipo de trabalho, considerado desprezível do ponto de vista dos cânones do jornalismo profissional.

Passado o período de análise no calor dos acontecimentos, que nem sempre possibilita uma avaliação com o devido distanciamento, o que se verifica é que, como aconteceu em situações históricas anteriores, como na consolidação do jornalismo sensacionalista dos tabloides ingleses, para o bem ou para o mal, o modelo de cobertura dos Ninja começa a produzir efeitos no jornalismo profissional, como se pôde constatar no acompanhamento dos protestos pela Globonews durante o desfile do 7 de setembro, no Rio de Janeiro.

A adoção pelo jornalismo profissional dos parâmetros de cobertura dos Ninja demonstra que fenômenos desta natureza devem sempre ser avaliados sem preconceitos e precisam antes de mais nada ser compreendidos no contexto das transformações profundas pelas quais passam as sociedades contemporâneas em suas estruturas de comunicação midiatizadas. Antes mesmo de incorporar os procedimentos dos Ninja, o jornalismo profissional, por meio de uma de suas marcas mais tradicionais, o Jornal Nacional da Rede Globo, havia utilizado as imagens dos Ninja para questionar a ação da Polícia Militar nas manifestações de junho.

Nas sociedades complexas, queiramos ou não, os diferentes setores sociais ou instituições estão inter-relacionados e as ações de uns são influenciadas pelas dos demais grupos ou organizações. O próprio movimento dos Ninja, mesmo existindo desde 2005, somente obteve plena visibilidade social depois de legitimado seja pela entrevista de um dos seus líderes – Bruno Torturra – no Roda Viva da TV Cultura e na repercussão de suas declarações na grande imprensa, seja pela difusão das ações de seus militantes ou pela utilização das imagens captadas pelos Ninja em espaços consagrados como o Jornal Nacional.

Limitações do modelo dos Ninja

O aparecimento dos Ninja não pode nem decretar pura e simplesmente o fim de uma instituição de quatro séculos nem tampouco a unção acrítica do movimento como o bálsamo que veio para curar todos os males do jornalismo. Nada pode ser menos recomendável do tratar uma questão complexa de forma simplista e ingênua. Por mais que seja abominado pelos militantes, o jornalismo profissional não vai deixar de existir enquanto não aparecer outra instituição que seja capaz de cumprir com as suas funções de mediação e produção de conhecimento especializado acessível a todos.

Tampouco se pode deixar de perceber as limitações do tipo de cobertura feito pelos Ninja, que desconhece regras elementares de apuração e narrativa audiovisual. Ao longo de quatro séculos o jornalismo aprimorou procedimentos de apuração, produção e edição que são essenciais para garantir a compreensão dos fatos, a interpretação contextualizada das informações e a precisão dos conteúdos. Ninguém desconhece que nada garante de antemão que a cobertura do jornalismo obedeça sempre aos cânones da deontologia profissional. Mas, somente pela existência desses parâmetros, é que se pode criticar o trabalho mal feito e denunciar as organizações jornalísticas descomprometidas com o interesse público.

O mais recomendável, ainda mais, quando o jornalismo começa a incorporar o modelo de cobertura dos Ninja, é estudar em que medida se pode adotar esses parâmetros sem que se comprometa os procedimentos historicamente consolidados pelos profissionais. Além de em muitos casos desconhecer as normas mais simples de apuração, edição e narração, os Ninja, ao contrário dos jornalistas que têm uma deontologia própria, são movidos por uma ideologia militante. Como instituição especializada na mediação social, o jornalismo trabalha de forma complementar em relação aos demais atores sociais – como o Legislativo, o Judiciário, a polícia ou governo, para citar apenas alguns.

Enquanto movimento social, os Ninja têm como objetivo defender e propagar os seus ideais, adotando posição, muitas vezes, de confronto com as demais instituições. Independentemente das práticas condenáveis das organizações jornalísticas em casos como o apoio das Organizações Globo ao golpe militar de 1964, a legitimação do jornalismo advém da função de mediação entre os campos sociais. Se não for capaz de perceber que o jornalismo é uma instituição e obedece determinadas regras e opera a partir de demandas sociais específicas, o movimento dos Ninja, por mais que queira, dificilmente conseguirá propor modelo alternativo de produção de informações que possa no futuro assumir o lugar hoje ocupado pelo jornalismo enquanto instituição de mediação social profissionalizada.

Perguntas ainda sem respostas

A incorporação do modelo dos Ninja pelo jornalismo profissional sem a compreensão destas limitações, como se pôde comprovar ao longo da cobertura da Globonews nas manifestações do desfile de 7 de setembro no Rio de Janeiro, pouco contribui para fornecer informações jornalísticas contextualizadas dos fatos. Na maioria das vezes, as imagens são confusas, os áudios inaudíveis, as narrações redundantes e os insultos, patéticos. Afinal, em que colabora para a compreensão dos confrontos, para se saber quem são os manifestantes e por que estão queimando a bandeira do Brasil, a fala grosseira do militante que se dirige ao repórter da Globonews e, ao vivo, grita: “Vai tomar no c…” E o pior é que, minutos depois, demonstrando adesão ao modelo dos Ninja, a emissora voltou a reprisar duas vezes as cenas, sem qualquer nova informação que pudesse contextualizar melhor a ação dos militantes.

Em palestra no Simpósio de Ciberjornalismo que reuniu entre os dias 28 e 30 de agosto, em Campo Grande, na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, pesquisadores de oito universidades brasileiras (UFBA, UFSC,UFMS, UFRGS, UFOP, UnB, UFMA e Mackenzie) e os colegas espanhóis Mario Tascón e Gumersindo La Fuente, fiz questão de afirmar que o fenômeno dos Ninja não deveria ser tratado nem com preconceito e nem com indiferença, mas, sim, apresentava-se como enigma a ser decifrado. Os exemplos de incorporação dos blogues e, mais recentemente, do uso das imagens pelo Jornal Nacional e do tipo de cobertura pela Globonews são mais do que suficientes para comprovar que o modelo proposto pelos Ninja está provocando mudanças nos padrões de cobertura do jornalismo.

No caso dos jornalistas, uma pergunta se impõe: por que os profissionais adotam acriticamente o modelo de um movimento que questiona os fundamentos da prática institucionalizada? Para os Ninja, a indagação que fica é: por que antes da entrada em ação do jornalismo um movimento que existia desde 2005 era praticamente desconhecido do grande público e dos formadores de opinião? Quanto aos pesquisadores, as perguntas são outras: por que os modelos de cobertura convencionais são insuficientes para dar conta do acompanhamento dos movimentos sociais na contemporaneidade? Em que medida as práticas dos Ninja são compatíveis com os procedimentos de apuração, produção e edição e com os princípios deontológicos dos profissionais?

Eis algumas questões que devem ser respondidas para que possamos ir além dos preconceitos e então compreender de forma mais contextualizada as implicações das transformações sociais, políticas, culturais, econômicas e tecnológicas em curso para o jornalismo como instituição responsável pela mediação profissional entre os diferentes campos sociais nas sociedades complexas.

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Elias Machado é jornalista e doutor em Jornalismo, professor na Universidade Federal de Santa Catarina

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