Sábado, 16 de Fevereiro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1024
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DIRETóRIO ACADêMICO >

Sobre os novos parâmetros para a formação em Jornalismo

Por Gibran Luis Lachowski em 01/10/2013 na edição 766

A aprovação das Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos de graduação em Comunicação com Habilitação em Jornalismo, ou especificamente em Jornalismo, pelo Ministério da Educação (MEC) aponta para um bom caminho, de formação contemporânea humanística, técnica, tecnológica, ética e estética para atuação crítica.

A admissão da nova conformação acadêmica, em 11 de setembro deste ano, resulta de processo de estudo e discussão iniciado em 2009 por meio de comissão instituída pelo órgão, que recolheu colaborações de professores, estudantes, pesquisadores, dirigentes de cursos, organizações sindicais e corporativas e lideranças da sociedade civil organizada.

A formação pretendida nas novas diretrizes tem como eixo a interdisciplinaridade, integração teoriaprática, interação com fontes profissionais e públicas do jornalismo desde o início do curso, com vistas a lidar com problemas reais. Essa metodologia pode facilitar o estudante a identificar o interesse público diante do gigante e confuso fluxo de informações na atualidade, potencializado pelas novas tecnologias centralizadas na internet. Estimular essa habilidade é fundamental para que as oportunidades geradas pela convergência tecnológica revitalizem os pressupostos do jornalismo, a saber, o compromisso com a verdade factual, a pluralidade de vozes, a promoção de debates e o incentivo à autocrítica, como apontam Nilson Lage e Leandro Fortes, entre outros.

Regulamentação do estágio

O jornalismo de concepção social, arraigado à constante tentativa de elaborar visão crítica acerca da realidade, pressupõe outro elemento presente nas novas diretrizes, qual seja a de conhecer as lógicas de funcionamento de instituições privadas, estatais, públicas, partidárias, religiosas…

Afinal, bem sabem os repórteres e editores de política, assim como reforça o jornalista Franklin Martins, não há fonte de informação desinteressada. Mais relevante e esclarecedor será o material jornalístico, independentemente da plataforma midiática utilizada, quanto maior a carga de novidade, contextualização e comprovação.

Observa-se também no documento aprovado pelo MEC a regulamentação do estágio supervisionado como forma de agregar à qualificação acadêmica a lida do dia a dia profissional, o que pode ser feito nos últimos semestres do curso em empresas, órgãos públicos, entidades do terceiro setor e na própria instituição de ensino.

Ousadia e miopia editoriais

Esse é um tópico central para a formação acadêmica do jornalismo, vez que, tal qual demonstra a pesquisa “Quem é o Jornalista Brasileiro”, 76% dos profissionais passaram por estágio antes de se graduarem.

O levantamento foi desenvolvido pelo Programa de Pós-graduação em Sociologia Política da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) em convênio com a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj). Os dados divulgados neste ano resultam de levantamento com mais de 2,7 mil profissionais e apontam cerca de 145 mil jornalistas no país. Mais detalhes aqui.

As novas diretrizes de ensino-aprendizagem postulam que a práxis do jornalismo impresso não deve mais servir como espinha dorsal nem ditar referências de concepção, apuração, edição, administração de repercussão e estabelecimento de canais de interatividade com os públicos. Nesse ponto, um porém. Obviamente que o “jornalismo de papel”, sobremaneira o feito em jornais diários, é tema de forte questionamento e, sim, vive crise de identidade, consequências, para ser sucinto, de ousadia e miopia editoriais.

Poeira da estrada

Também não se nega o forte espírito multimidiático da contemporaneidade, que cobra junção de textos, hipertextos, áudios, imagens estáticas e em movimento, infografias, animações e inúmeras possibilidades de participar da construção das coberturas.

Contudo, se muitos jornais ainda repetem o que já foi dado ontem, o jornalismo digital carece largamente de um trabalho de melhor apuração, contextualização e abertura para o debate. Não é à toa que as grandes reportagens continuam a ser veiculadas em livros, revistas e, com menor frequência, nas folhas matutinas. E olhe que o espaço virtual é, teoricamente, infinito.

Deve-se promover, nesse sentido, uma formação que mantenha eou resgate a importância dos procedimentos e ideários do jornalismo impresso, de compromisso social, conjugada com as novidades da ambiência tecnológica, entre elas a capacidade de tornar as coberturas mais dinâmicas e ricas em detalhes. Desse modo constrói-se um jornalista “com futuro”, podendo ele até estar abestalhado com este admirável mundo novo, entretanto com os pés no chão, de preferência com as narinas ainda ativas para aspirar a poeira da estrada, como recomenda e velho e bom Ricardo Kotscho.

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Gibran Luis Lachowski é jornalista e professor do curso de Comunicação da Social

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