Quinta-feira, 20 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1042
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DIRETóRIO ACADêMICO >

Um jornalista na contracorrente

Por Sylvia Debossan Moretzsohn em 03/12/2013 na edição 775

A concessão do título de notório saber a Carlos Fino pela Universidade de Brasília é um justo reconhecimento a esse jornalista, que demonstrou a rara capacidade de associar competência profissional e reflexão qualificada sobre sua própria prática profissional.

Sabemos como jornalistas, de modo geral, desprezam o saber acadêmico, como se o espaço da universidade estivesse condenado a ser uma inútil torre de marfim, alheia às urgências da vida cotidiana.

Carlos Fino vai à contracorrente dessa tendência, sempre questionando as aparências, o que deveria ser a atitude corriqueira de quem exerce o jornalismo, embora a rotina das grandes corporações que conformam o exercício profissional tenda a transformar essa regra em exceção.

Em suas reportagens e no exercício de reflexão que resultou em seu primeiro livro, Carlos Fino revela a elegância estilística dos contadores de histórias alentejanos e a postura crítica e algo angustiada de quem tem consciência de exercer uma profissão de fronteira, permanentemente entre a informação e a propaganda.

A imagem com a qual conclui o relato sobre sua experiência na invasão americana ao Iraque, em 2003 – experiência que lhe deu notoriedade mundial ao ser o primeiro repórter a noticiar o bombardeio a Bagdá –, é uma notável síntese de quem percebe o jornalismo como um permanente jogo de luz e sombra, ao descrever a cena em que sua colega búlgara se distancia, com uma vela, pela escuridão do corredor do hotel Palestina, onde os jornalistas estavam hospedados: ao mesmo tempo iluminando as trevas e sendo envolvida por elas.

Ao escrever seu livro, há dez anos, Carlos considerava-se um “peregrino cansado” e amargurado pela incerteza de conseguir transmitir a dor que testemunhou ao longo de todo esse tempo. Mas seguia, como segue, fiel ao que julga ser a missão final do jornalismo: ajudar a conhecer a verdade. Daí o permanente esforço para enfrentar as regras do jogo, de modo a “pôr um pé na porta” e garantir alguma fresta por onde a informação possa circular.

As melhores causas

Não gostaria de concluir sem registrar a importância desse repórter na minha atividade como pesquisadora e professora de jornalismo. Foi por ter começado a acompanhar seu trabalho como correspondente em Bagdá que mudei os rumos de meu projeto de doutorado.

De fato, há muito tempo me preocupava a necessidade de buscar uma fundamentação consistente para tratar de uma questão central no jornalismo: suas relações com o cotidiano articuladas à premissa iluminista de esclarecimento, o que conduziria a explorar as possibilidades de o jornalista superar, no contexto mesmo de suas rotinas profissionais, o caráter imediato dos fatos para oferecer ao público elementos de reflexão. Sobretudo no jornalismo televisivo, tão comumente desprezado pela crítica acadêmica como subproduto da indústria do entretenimento.

Então, na manhã do dia 8 de abril de 2003, ligo a televisão e vejo aquele repórter a informar que o hotel onde estavam os jornalistas havia sido atacado pelas forças invasoras. E me abalo com a hipótese chocante de vê-lo desaparecer ali, diante de mim, na minha sala, na conexão subitamente interrompida que obscureceria a tela.

Naquele exato momento, decido reformular o projeto, que finalmente desenvolveria como tese. No mês seguinte, ao saber que aquele repórter viria ao Brasil para uma série de palestras, começo uma aproximação que resultaria numa relação de carinho e respeito que preservamos até hoje.

Pelo que pude conhecer de Carlos Fino desde então, pelo que pude pesquisar sobre suas atividades, creio que não seria exagero dizer que se trata de um perdedor, no melhor sentido apontado por Darcy Ribeiro, um dos nossos maiores intelectuais de sempre, idealizador desta Universidade: alguém que apostou nas melhores causas e foi sistematicamente derrotado, mas se orgulha dessa posição, porque não gostaria de estar no lugar dos que venceram.

A fina ironia de Machado de Assis produziu a definição célebre: aos vencedores, as batatas. Arrisco a paráfrase: aos perdedores, o futuro.

 

Leia também

Quando o saber é notório – Luiz Martins da Silva

As pontes da comunicação – Fernando Oliveira Paulino

Do Alentejo ao Planalto Central – Carlos Fino

>> Assista aqui ao vídeo da cerimônia de reconhecimento de Notório Saber ao jornalista Carlos Fino

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Sylvia Debossan Moretzsohn é jornalista, professora da Universidade Federal Fluminense, autora de Repórter no volante. O papel dos motoristas de jornal na produção da notícia (Editora Três Estrelas, 2013) e Pensando contra os fatos. Jornalismo e cotidiano: do senso comum ao senso crítico (Editora Revan, 2007)

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