Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

DIRETóRIO ACADêMICO > MÍDIA & DEMOCRACIA

Sociabilidade, tecnologia da internet e comunicação

Por Rafael Freitas em 14/01/2014 na edição 781

No processo histórico contemporâneo, a comunicação é o agente construtor da realidade, nossa percepção do mundo é uma construção cultural, sendo a comunicação quem produz e interfere nas percepções. A partir da inserção das tecnologias informacionais no cotidiano, os indivíduos interagem entre si, independentemente das distâncias geográficas. Com o surgimento da internet, que é o mais completo meio de comunicação já concebido pela tecnologia humana, temos assistido uma reconfiguração das culturas e o nascimento de uma nova estrutura da sociabilidade contemporânea.

Organizando a informação que conhecemos sobre este tema, e tentando tirar conclusões destes conhecimentos para propor algumas hipóteses a cerca dos esquemas de sociabilidade que estão a surgir nas nossas sociedades, irei dialogar com os estudos realizados por Manuel Castells e Pierre Lévy, no sentindo de sintetizar e interpretar os dados disponíveis acerca da relação entre Internet e a sociedade.

O surgimento da internet como novo meio de comunicação gerou um conflito a cerca do aparecimento de novos padrões de interação social. A partir dessa origem, o filósofo Pierre Lévy diz que a revolução contemporânea é apenas uma das dimensões de uma transformação antropológica ampla. Lévy afirma que ainda estamos na “infância da cibercultura”, e que, para ele, as principais transformações sociais provocadas pela tecnologia ainda estão por vir. Lévy coloca que a cibercultura é um movimento que oferece novas formas de comunicação. Como tal, reflete a “universalidade sem totalidade”, algo novo se comparado aos tempos da oralidade primária e da escrita. É universal porque promove a interconexão generalizada, mas comporta a diversidade de sentidos, dissolvendo a totalidade. Em outras palavras: a interconexão mundial de computadores forma a grande rede, mas cada nó dela é fonte de diversidade de assuntos.

Escolhas e estratégias

A criação e desenvolvimento da internet é uma extraordinária aventura humana. Mostra a capacidade das pessoas para transcender as regras institucionais, superar as barreiras burocráticas e subverter os valores estabelecidos no processo de criação de um novo mundo. Delas resulta o mundo “virtual” e o que hoje chamamos de cibercultura.

O sociólogo Manuel Castells em seus estudos, diz que a formação de comunidades virtuais, baseadas principalmente na comunicação online, foi compreendida com o culminar de conexões transversais e interativas, sendo individuais ou comunitárias. Ainda para Castells (2006, p.255), “a internet é – e será ainda mais – o meio de comunicação e de relação essencial sobre o qual se baseia uma nova forma de sociedade que nós já vivemos”. As redes interativas de comunicação estruturam uma nova geografia de conexões e sistemas. Castells centraliza seu estudo na chamada Era da Informação, ou Era Digital, em algumas questões específicas correspondentes à sociedade conectada de forma global.

O impacto que a internet causou, e ainda causa, sobre os demais meios de comunicação é significativo. Porque ao menos até o presente, não há centros diretivos nem comandos decisórios na web. A rede universal da internet possibilita a circulação instantânea de informações e elimina a centralização e o controle pelo poder político. Apesar das nossas sociedades terem muitas coisas em comum, são também produto de diferentes escolhas e identidades históricas. A realidade parece indicar que muitos, a maioria dos utilizadores sociais da internet, criam suas próprias identidades online coerentes com as suas identidades off-line. De fato, a crescente diversidade de modelos de sociabilidade é o que determina a especificidade da evolução social nas nossas sociedades. As redes constroem-se de acordo com as escolhas e estratégias de pessoas, grupos ou entidades que se movem na web de acordo com seus valores e conveniências, consignados em escolhas individuais ou comunitárias. Neste contexto, a comunicação de valores constrói-se em torno de sistemas de comunicação porque esta é a principal via que estes encontram para chegar àquelas pessoas que podem partilhar os seus valores, e partir daí atuar na consciência da sociedade.

Interação entre os participantes

A internet não é apenas uma tecnologia: é um meio de comunicação e constitui a infraestrutura material de uma forma organizativa concreta: a rede. Logo, mais que o surgimento de uma sociedade online,presenciamos uma apropriação da internet por redes sociais. Com isso, uma nova forma de organização comunitária está surgindo utilizando-se das novas tecnologias: as comunidades virtuais, que são redes de laços interpessoais que proporcionam sociabilidade, apoio, informação, um senso de integração e identidade social.

A internet tem, hoje, profunda relação com os movimentos sociais e políticos do mundo e converteu-se no componente indispensável do tipo de movimentos sociais que estão a surgir na sociedade em rede. A tecnologia da internet permite expressões de protestos, mobilização em torno de valores culturais e age para mudar os códigos de significados nas instituições e na atividade social. Por outro lado, Lévy destaca que a conexão da humanidade não acarreta igualdade no sentido mais favorável aos princípios de liberdade e de fraternidade, mas que também é um poder nascido da capacidade de aprender e de trabalhar de maneira cooperativa num contexto social.

Os movimentos sociais são confrontados com a necessidade de contrariar o alcance local com o impacto global. A tecnologia da internet permite a estes movimentos mobilizarem-se na construção da nova sociedade. Com efeito, a Internet proporciona, em princípio, um canal de comunicação sem centro de comando e, assim, a interatividade permite aos cidadãos solicitar informação e expressar sua opinião. Pierre Lévy diz que em vez de existir um centro emissor todo-poderoso como também afirma Castells, a comunicação na internet emerge da interação entre os participantes.

O processo de transformação

O papel mais importante da internet na reestruturação das relações sociais é a sua contribuição para o novo modelo de sociabilidade, baseado no individualismo – que, a princípio, conduz ao aperfeiçoamento do ser enquanto agente individual desse processo de comunicação. Pierre Lévy diz que a melhor forma de manter e desenvolver uma coletividade não é mais construir, manter ou ampliar fronteiras, mas alimentar e melhorar a qualidade das relações em seu próprio seio bem como com outras coletividades.

O uso da internet potencializava a sociabilidade, tanto à distância como no ambiente da comunidade local. As pessoas ligam-se e desligam-se da rede, mudam de interesses, e, além disso, mudam de companheiros on-line quando querem. De acordo com os estudos de Castells, o conjunto de dados disponíveis não sustenta a ideia de que a utilização da Internet conduz a uma menor interação e a um maior isolamento social, mas existem indícios de que, em determinadas circunstâncias, o seu uso pode agir como substituto de atividades sociais. Lévy diz que essa reconexão da humanidade é acompanhada de um certo número de “revoluções” de um único fenômeno de transformação.

A chegada da internet e dos novos meios de comunicação, que são também novas formas do pensamento coletivo e de acesso ao conhecimento, vão acelerar o processo de transformação da sociedade. Mas não devemos achar que as coisas vão acontecer de forma mágica e imediata. Não pela proeza técnica em si, mas porque há uma relação profunda entre o progresso das formas de comunicação, o progresso da democracia e de transformação do ser humano.

Ações coletivas

São incontáveis as observações a serem feitas sobre a internet como fator modificador da sociabilidade. Neste artigo, procuro explanar os principais elementos da sociedade que têm sofrido considerável mudança a partir da influência da rede. As novas tecnologias de comunicação têm, como é natural, agido de modo a reconfigurar os espaços como os conhecemos, bem como a estrutura da sociedade. Os modos de comunicação alteram-se bruscamente, propagando um volume incalculável de conteúdos. A própria vida social se encontra imersa numa rotação incessante.

O surgimento da sociedade em rede não pode ser entendido sem a interação entre essas duas tendências relativamente autônomas: o desenvolvimento de novas tecnologias da informação e a tentativa da antiga sociedade de readaptar-se com o uso dessa ferramenta tecnológica. Cabe enfatizar que as relações online estão baseadas em interesses compartilhados do homem, onde ele se agrupa com seus semelhantes e vai estabelecendo relações. Esses relacionamentos são também diferenciados: alguns constroem vínculos mais fortes; outros, relações mais superficiais. O ser humano, portanto, aspiraria à união e ao mesmo tempo, seria contra ela, oscilaria entre a conexão e a separação, o coletivo e o individual. As redes de relações pessoais não são nenhuma novidade, pois o formato de rede é extremamente atrativo para relacionamentos, pois tudo se torna descentralizado, transparente e autônomo, ao mesmo tempo em que é otimizado em conjunto. A rede funciona muito bem na manutenção das relações e na intermediação de laços entre pessoas que não podem se ver pessoalmente com frequência. Além disso, permite o exercício da solidariedade em várias situações, ameaças, riscos, problemas coletivos ou individuais.

Na contramão, o surgimento das tecnologias informacionais, principalmente a internet, aumentou a dificuldade de discutir o tópico de privacidade. Com a internet, os indivíduos que na época da TV eram apenas receptores de informação passaram a ser produtores de informação, disseminando-se por meio das tecnologias, que possibilitam que as informações – dentre elas as que se referem a algo particular dos indivíduos – ganham amplitude global rapidamente. Tal acesso poderia, também, constituir um clima de hostilidade entre grupos que possuem interesses distintos, interesses esses que estariam disponíveis para conhecimento.

As atividades humanas estão ficando, a cada dia, mais dependentes da tecnologia e, portanto, susceptíveis às suas vulnerabilidades e seus efeitos. É certo que estamos na “infância da cibercultura” como afirma Lévy, e que as principais transformações sociais provocadas pela tecnologia ainda estão por vir. Entretanto, há muito ainda o que pensar no que se refere a todas as questões polêmicas e importantes que surgiram com o advento da internet. Talvez sejam essas polêmicas o motivo de conflitos como pontua Manuel Castells: o aparecimento de novos padrões de interação social que, cada vez mais densa entre os indivíduos realmente contribui para ações coletivas, transformadoras e democráticas.

******

Rafael Freitas é estudante de Jornalismo, Goiânia, GO

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem