Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

DIRETóRIO ACADêMICO > HONESTIDADE & INTERSUBJETIVIDDE

Sinonímias da objetividade

Por Hadassa Ester David em 04/03/2014 na edição 788

Dentro da cultura e da prática profissional do jornalismo factual, o conceito de objetividade ainda persiste, no sentido de que é compreendido como um conjunto de mecanismos e de procedimentos próprios e inerentes à profissão do(a) jornalista. Esse processo inclui seleção, escolhas e rotinas, e isso implica ouvir diferentes vozes, na busca de uma construção de um campo argumentativo. Por conta disso, o conceito da objetividade pode ser substituído pelo da intersubjetividade.

No entanto, a discussão da objetividade como um método específico de captação das notícias se estende, na maioria das vezes, ao posicionamento do(a) profissional jornalista, a quem são cobradas posturas de neutralidade, imparcialidade e isenção. Essas categorias podem ser definidas como sinônimos do conceito de objetividade.

Considerada como um processo de investigação jornalística ou um conjunto de normas e técnicas de trabalho e formato narrativo, com características, estratégias e regras próprias de estilo, a objetividade no jornalismo deveria ser, antes de tudo, substituída pela honestidade. Ou seja, o(a) jornalista deveria assumir seu papel de mediador(a) e porta-voz da sociedade e assumir e esclarecer suas subjetividades. No entanto, na maioria das vezes, a escolha é se esconder por trás de um discurso impessoal, tentando se enquadrar nas categorias de imparcialidade, neutralidade e isenção.

Imparcialidade, neutralidade e isenção

De acordo com o Dicionário Aurélio do Século XXI, imparcial é aquele(a) que julga desapaixonadamente; que é reto(a), justo(a). No Grande dicionário de sinônimos e antônimos, imparcialidade é equidade, neutralidade (Barbosa, 2004). É, ainda, isenção e equidade, de acordo com Dicionário Houaiss da língua portuguesa (Houaiss e Villar, 2009).

Quem não toma partido nem a favor nem contra, numa discussão, contenda, ou conflito é considerado(a) neutro(a). Julga sem paixão e pode ser considerado indefinido, vago, indistinto, indeterminado. Mostra-se indiferente, insensível; neutral, conforme o Dicionário Aurélio do século 21. Neutralidade é imparcialidade, indiferença e abstenção (Barbosa, 2004) e também objetividade (Houaiss e Villar, 2009).

De acordo com o Dicionário Houaiss da língua portuguesa (Houaiss e Villar, 2009), a isenção é uma desobrigação, um desprendimento moral, desinteresse. Barbosa (2004) também identifica isenção como desinteresse, imparcialidade e desprendimento. No Dicionário Aurélio aparecem os termos eximido, desobrigado e dispensado. Ter isenção é ser desembaraçado, livre, limpo, manter-se imparcial. Imparcial, desapaixonado, neutro, desprovido de opiniões.

Adistância das paixões

Em verdade, há nos dicionários uma superposição dos termos. De certa forma, as classificações acabam se confundindo uma da outra. Assim sendo, é possível afirmar que a conduta objetiva remete a uma postura ou posicionamento que não toma partido, não relata com paixão e não emite opiniões. Uma ideologia profissional configurada dessa forma atribui como parcial o(a) jornalista que não se enquadra nesses preceitos.

Segundo Eugênio Bucci (2006, p. 92), “diz-se que tem objetividade o discurso em que se expressam as características próprias do objeto – e não as do autor do relato (o sujeito)”. Mas ele completa que o jornalismo não tem objetos, só tem sujeitos. “O jornalismo, produto que é do senso comum, adota a pressuposição tácita de que uma descrição pode ser objetiva, ou seja, pode ser inteiramente fiel às características do objeto, sem que o sujeito a deforme.”

Se partirmos da concepção de que a objetividade é uma forma de encarar e observar o objeto, e o caso específico do jornalismo, no qual o objeto envolve sujeitos, acaba sendo praticamente impossível tentar enquadrá-la nessas aplicações. O pesquisador de narratologia Luiz Gonzaga Motta (2005, p. 31) indaga: “Como alcançar uma distância que garanta a distância das paixões? A proximidade do acontecimento significa infidelidade à história? Por outro lado, a distância garantiria isenção?” A esse questionamento, incluímos mais uma pergunta: mesmo que possível, a adoção de uma postura imparcial, isenta e neutra poderia ser considerada uma virtude no jornalismo?

Referências

BARBOSA, Osmar. Grande dicionário de sinônimos e antônimos. – Rio de Janeiro: Ediouro, 2004.

BUCCI, Eugênio. Sobre ética e imprensa. 2ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

HOUAISS. Antônio (1915-1999) e VILLAR, Mauro de Salles. (1939 -). Dicionário Houaiss da língua portuguesa. 1ª ed. – Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.

MOTTA, Luiz Gonzaga. Narratologia: teoria e análise da narrativa jornalística. – Brasília: Casa das Musas, 2005

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Hadassa Ester David é jornalista e mestre em Comunicação

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