Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

DIRETóRIO ACADêMICO > COMUNICAÇÃO & SEMIÓTICA

O hipertautismo

Por Leandro Marshall em 27/05/2014 na edição 800
Trecho inédito do Livro A Hipercomunicação, de Leandro Marshall, a ser lançado em junho pela Editora Virtual Books

A Teoria da Hipercomunicação, do filósofo francês Jean Baudrillard, construída de forma ensaística e impressionista, crê que o ser humano já é um aparato instrumental do universo fechado dos objetos e imagens. O sujeito contemporâneo estaria preso a uma condição de assujeitamento social irreversível, manipulado e controlado “de fora” por uma rede neural de máquinas e de troca de informações que comandariam autocraticamente a realidade pós-real.

O homem seria, portanto, apenas um agente maquínico, asfixiado em sua subjetividade e destituído da capacidade de comunicar, de representar e de tornar comum os signos soberanos da consciência. Seu destino é flutuar entre feixes eletrônicos e digitais, reproduzindo mecanicamente fluxos de imagens e mensagens sem qualquer sentido que não os dos aparatos funcionais.

Para Baudrillard, o homem teria perdido sua capacidade de estar, ver, sentir e interagir no mundo, já que seu imaginário estaria dominado e controlado pela inflação de imagens e objetos da sociedade de consumo. Sem comunicar, o ser deixaria de ser sujeito e transformar-se-ia em apêndice maquínico da racionalidade instrumental dos objetos do mundo. Mergulharia, para sempre, em um mundo de Hiper-Realidade, território engolfado pela tecnologização e pela virtualização. O discurso de Jean Baudrillard torna-se, assim, a apologia maior do homem maquínico e, portanto, da impossibilidade de comunicação entre os seres. Sua crítica transforma-se na própria teoria hiperbólica do fim da comunicação, sacramentando um desfecho autofágico para a civilização humana.

Uma nova realidade

O pensador alinha-se com uma anódina vertente teórica presente entre intelectuais franceses como Paul Virilio e Henry-Pierre Jeudy, que também tem defendido com eloquência a atrofia do processo de troca simbólica entre sujeitos por força do totalitarismo absoluto das imagens. Em que pese as diferenças pontuais e a trajetória peculiar de suas ideias, os três comungam da visão de que o espaço do contato, do diálogo e da empatia, entre os homens foi substituído por uma atividade meramente operacional.

Não há mais troca de signos, de símbolos e de sentidos no ato da conversação humana, crê esta vertente. Tudo se reduz a um sistema de descargas e de trocas de sinais, onde o ser humano torna-se apenas o deck de um terminal de comando.

O discurso de Baudrillard, assim como o de Virilio e de Jeudy faz, em essência, a elegia do tautismo, como bem observou o teórico crítico Lucien Sfez, em Critique de la Communication (1992). O neologismo combina a doença do “autismo” com a característica da “tautologia”, e expressa a ideia do nascimento do ser humano autômato, reduzido ao movimento da repetição em uma esfera irreversivelmente fechada para o mundo real. Na crítica de Sfez, a patologia do tautismo denota a confusão criada pela máquina da comunicação nos seres humanos quando estes passam a “tomar a realidade representada como realidade diretamente expressa, numa confusão primordial e fonte de todo delírio” (SFEZ, 1994: 13).

Além disso, o teórico francês explica que o conceito do tautismo, presente em muitos pensadores, significa “aquilo pelo qual uma nova realidade chega a nós, sem distância entre o sujeito e o objeto” (SFEZ, 1994: 13), aprisionando o ser ao jogo de formas dos objetos e das imagens.

A mídia como agente da implosão de sentido

No universo do tautismo, o sujeito perderia a consciência e a soberania sobre seus atos, reduzindo as suas ações e os seus pensamentos a um maquinismo de natureza tecnológica. Sfez constata que, para esta visão, o imperativo tecnológico da atualidade estabelece uma espécie de ideologia maquínica que se incorpora à mentalidade e à racionalidade humanas. O homem passa a agir, graças ao maquinismo da comunicação, apenas como máquina. Diz ele que “dos modelos teóricos a máquinas reais mais recentes, é o mundo maquinal que serve de referência. São máquinas que se fazem, máquinas de traduzir, de falar, de saber, de simular, de produzir a comunicação e a retransmiti-la” (SFEZ, 1994: 12).

Sfez nota que a comunicação humana torna-se, para esta ideologia, uma impossibilidade, haja vista que a mediação está sustentada sob um modelo de interação em que não há mais sujeitos, apenas a forma simbólica representativa, o pensamento maquínico, as tecnologias do espírito.

Na lógica dos sujeitos maquínicos, o produto terá se tornado produtor e a cópia devorado o próprio modelo. Viveríamos, enfim, num mundo em que Frankenstein passa a governar seu criador.

Lato sensu, o pensamento de Baudrillard é a própria encarnação deste espírito tecnocêntrico. Suas teses, dominadas pelo fatalismo comum aos filósofos apocalípticos, exasperam descrença, desencanto e desesperança, denunciando a rendição do pensamento ao flagelo dos acontecimentos. Embalado pela lógica do tautismo, Jean Baudrillard, caminhou, desde seus escritos mais juvenis, para subscrever uma visão da mídia como agente da implosão de sentido e como promotora da não-comunicação e da não-informação em nossa sociedade, ao mesmo tempo, em que construiu uma metafísica negativa sobre o agenciamento maquínico dos indivíduos e o imperialismo das imagens e dos objetos sobre o corpo social.

Não há mais discursos, apenas fórmulas

Baudrillard liderou, portanto, não uma escola nem uma “organização paradigmática” sobre comunicação, mas uma facção de tecnófobos neo-ludditas, que excomunga a técnica e os efeitos perversos da desintegração social e individual e vê o sujeito enterrado na sepultura de sua própria liberdade.

Convencido do primado do objeto, por meio das técnicas e das tecnologias, o pensador enxergou, em tudo, máquinas agindo sobre máquinas, num tecnicismo transcendental dos sujeitos e de suas produções e reproduções. Para ele, a industrialização dos produtos e das mercadorias desencadeou a instrumentalização do saber e do fazer, senão a própria criação do homem-máquina. O pensador dos simulacros viu o sujeito fractalizado pela técnica tornar-se o super-homem nietzschiano: sem valores, sem moral, sem virtudes, condenado a viver aquém do bem e do mal, imerso apenas em um caldeirão de formas e de sombras, a última e definitiva morada do ser.

O homem-máquina, o golem Hiper-Real, granjeia a liberdade final, a liberdade das telas, que acorrenta a subjetividade humana à subjetividade perversa das tecnologias. Neste reino pleno da liberdade, o homem é afinal livre para fazer as escolhas do ele não pode mais ter.

Na ótica de Baudrillard, não há mais discursos, apenas fórmulas. Não há mais enunciados, apenas enunciações. Não há mais signos, significados ou significantes, apenas detritos semânticos sem força de linguagem ou compreensão.

A sujeição e o assujeitamento

Nesta perspectiva, o filósofo pensa que, submetida ao ciclo da moda e do consumo, a cultura de massa, urdida pela via midiática, esmaga a verdadeira essência da cultura autêntica, e dissemina o pseudo-conhecimento, o pseudo-acontecimento e o esvaziamento generalizado de todo e qualquer sentido entre os homens. A fugacidade e a vacuidade do processo de produção e consumo organizado pelas fábricas de imagens institucionalizam um regime de conversação preso a códigos que ossificam o imaginário humano.

Em que pese o princípio teórico do “tautismo” espelhar a denúncia frankfurtiana do processo de heteronomia dos indivíduos à razão instrumental e à ordem imperial da monocultura e do pensamento único, a categoria parece servir, entretanto, como instrumento para ‘naturalizar’ a condição humana ao modelo cultural e estético de nossos dias, dissolvendo as discussões sobre a mecânica das forças e dos regimes de saber-poder por trás dos discursos da construção da realidade e diluindo, por meio de um bordão, as operações vivas existentes no território da subjetividade.

A apologia fácil do tautismo bloqueia a discussão necessária sobre os fatores estruturais que procuram engessar o imaginário e tentam asfixiar a soberania cognitiva e crítica dos sujeitos. Ela desvia para o terreno místico o que deveria ser a exegese sobre a reestruturação dos saberes e dos fazeres humanos pela nova ordem imagética e virtual, que, por mais invasiva e entorpecedora que seja, não revoga as leis naturais sobre o jogo semiológico entre formas e o processo de significação humana.

Portanto, por mais maquinizada que esteja a subjetividade do ser humano, o tautismo maquiniza a crítica da comunicação, embalsamando-a à tradição do pensamento funcionalista e negando toda a história das discussões e das reflexões, ensejadas nas teorias da comunicação, sobre o processo de mão-dupla de sujeição e de assujeitamento humano das mensagens, dos signos, das imagens e das tecnologias do universo midiático.

Confusão total

A ideia do tautismo, lembra Lucien Sfez, corrompe o tecido do jogo humano entre representação e expressão, o jogo dialético de controle mútuo, de equilíbrio, que existe entre um mundo objetivo e um mundo representado, vinculados através de um mediador, e as formas de significação estabelecidas pela mecânica da relação entre sujeito e objeto.

Ao contrário do maquinismo operacional oferecido pelo tautismo, a esfera da representação mostra que a vida se dá pela produção infinita de signos, criações humanas para simbolizar os elementos do real concreto, onde “os signos tendem a tomar o lugar das coisas que representam e a formar uma entidade abstrata, que vale por si mesma” (SFEZ, 1994: 66), e a esfera da expressão, que promove a ligação simbólica entre os indivíduos, “convocando cultura, tradições, memórias do passado sob a forma de imagens ‘significativas’”, para estabelecer uma comunidade de sentido entre os seres humanos.

Toda sociedade é, desta forma, uma rede de signos e significações que representa as coisas e os seres e que une os homens, como uma argamassa, através das cadeias simbólicas da linguagem. Este tecido simbólico reveste o mundo exterior e liga o interior ao exterior num processo de ‘comunicação de elementos vivos com o universo’ que estão condicionados ao mundo estrutural e estruturante da linguagem, mas, ao mesmo tempo, ao processo instituído e instituinte do jogo entre o simbólico e o imaginário.

Fora desta chave semiológica, qualquer conceito que absolutize a representação em detrimento da expressão, ou vice-versa, significa um tipo de golpe simbólico contra a dinâmica viva da comunicação. “Aplicado à comunicação, esse sistema [o tautismo] desemboca na confusão total entre o emissor e receptor”, diz Sfez. O tautismo se transforma em “um universo em que tudo se comunica, sem que saiba a origem da emissão, sem que se possa determinar quem fala, o mundo técnico ou nós mesmos, sem hierarquias, salvo emaranhadas, em que a base é o cume” (SFEZ, 1994: 33).

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Leandro Marshall é escritor, professor e jornalista, doutor em Comunicação, pós-doutor em Sociologia, mestre em Teorias da Comunicação e especialista em Filosofia. É autor de O Jornalismo na Era da Publicidade (2007/2ª edição, Summus/SP) e de Ensaios Midiáticos (2001, ed. UPF/RS)

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