Segunda-feira, 25 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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O dilema capitalista: entre a destruição e a catarse

Por Carolina Rodrigues e Thiago dos Santos Paulo em 05/08/2014 na edição 810
Trabalho de “Cidadania e questões contemporâneas” apresentando ao Professor Me. Moacir Assunção, Universidade São Judas Tadeu

Segundo Aristóteles catarse refere-se à purificação da alma por meio de uma descarga emocional ocasionada por um drama. Sob a ótica psicanalítica de Freud, é a emancipação de alguma situação opressora seja psicológica, seja cotidiana.

Nas duas concepções, catarse, remete à libertação do pensamento, ao rompimento com hábitos prejudiciais. Na presente reflexão especular-se-á, acerca da possibilidade de uma espécie de catarse coletiva da sociedade atual em relação a seu modus vivendi.

Entretanto, antes de se propor movimento desse tipo, é necessário que se admita estarmos de fato diante de uma sociedade doente. Quanto a isso, restam poucas dúvidas, a organização social de indivíduos atual padece de duas grandes enfermidades: no plano coletivo está acometida por um modelo econômico global injusto e insustentável, o hipertrofiado capitalismo de mercado; enquanto que no plano individual, apresenta-se um panorama de egocentrismo galopante, o já clichê mas longe de ser superado “cada um por si”, expresso por meio de valores individualistas que vão desde liderança e empreendedorismo, verdadeiros mantras do meio empresarial, até a saga do herói do cinema e as megaestrelas da música, todos eles martelados à exaustão na cabeça das pessoas. Há interligação e interdependência entre as duas enfermidades.

O filme ativista A História das Coisas, trabalha de forma acachapante tal ponto de vista. De maneira crítica e pragmática aponta dados empíricos sobre a sensibilidade e falta de perspectiva da economia linear de matérias do sistema capitalista. E ainda evidencia o desinteresse, em escala global, dos indivíduos, pela origem dos produtos que consomem. Entre uma revelação e outra o filme também deixa claro que há alternativas de produção e consumo, todas elas voltadas a modelos de produção sustentável. Voltaremos a estes modos.

O conceito de sustentabilidade

O oceanógrafo e ativista francês Jacques Cousteau, quando indagado sobre o futuro da humanidade, profetizou: “A Ilha de Páscoa é a metáfora do planeta Terra, a não ser que mudemos o rumo. A lição da Ilha de Páscoa foi a de que a escassez de recursos leva ao genocídio e, então, a um colapso social. Não há mistério nisso. Cerca de 50 pessoas chegaram à Ilha de Páscoa no século 7 e proliferaram para mais de 70 mil no século 17. Durante esses dez séculos, elas derrubaram todas as árvores, as chuvas desgastaram o solo e elas não puderam mais se alimentar. A sociedade era dividida em sacerdotes, escultores daqueles grandes ídolos diante do mar e camponeses. Como resultado da escassez nessa pequena ilha, a ordem social foi derrubada e iniciou-se uma guerra total contra os privilégios dos sacerdotes e escultores. Refugiados em uma fortaleza em uma extremidade da ilha, eles foram finalmente vencidos pelos camponeses. Inúmeras pessoas foram mortas – e comidas, porque havia pouco alimento. (…) Poderíamos ver a Ilha de Páscoa como um aviso de Deus para não cometermos a mesma tolice em todo o planeta” (O Estado de S. Paulo, São Paulo, 22 set. 1996. Especial – Não façamos a tolice de destruir o planeta) – Domingo / Ambiente e Economia, p. D2).

Jared Diamond, geógrafo da Universidade da Califórnia em Los Angeles, também usou os Rapanui como parábola sobre os perigos da destruição ambiental. “Em apenas alguns séculos”, escreveu em 1995, “os habitantes da Ilha de Páscoa liquidaram suas florestas, levaram suas plantas e animais à extinção, e viram sua complexa sociedade rumar para o caos e o canibalismo. Estamos perto de seguir seu exemplo?” Em Colapso, publicado em 2005, Diamond descreveu os Rapanui como “o exemplo mais claro de uma sociedade que se autodestruiu ao explorar demais os próprios recursos. Uma vez derrubadas todas as árvores do grande grupo de palmeiras, seguiram-se “fome, declínio da população e canibalismo” (Terry L. Hunt, Scientific American Brasil: “O colapso dos Rapanui”).

 Será que mantido o hodierno sistema de produção e consumo, o destino da civilização atual, será o mesmo dos Rapanui, da Ilha de Páscoa, a autodestruição? Quais são as alternativas em relação a este modelo? Como instalá-las?

A alternativa em voga atualmente é o conceito de sustentabilidade, que propõe uma reinvenção, primeiro de mentalidade, depois da produção, não para salvar a Terra, mas sim para possibilitar que o planeta azul continue a oferecer condições nas quais a vida, em especial a humana, continue a ser possível. O dilema aqui, portanto, é de autopreservação e não bom-mocismo.

A necessidade de uma mudança ampla

O painel intergovernamental da ONU, para o século 21, publicado em 2007, é alarmante: entre um turbilhão de dados assustadores, calcula uma população acima de 10 bilhões de indivíduos em 40 anos, reduz à miseráveis 5% a probabilidade das atuais mudanças climáticas serem causadas unicamente por processos naturais; prevê suficiente aumento no nível do mar para provocar o deslocamento de milhões de pessoas que vivem em áreas litorâneas; estabelece um nível de confiança superior a 90% de que haverá derretimento das calotas glaciais, chuvas torrenciais e ondas de calor e de mais de 60% de que haverá secas, ciclones tropicais e marés altas.

Em verdade, existem avanços sustentáveis: o advento, no Brasil, do biocombustível, matriz energética alternativa ao petróleo e mais limpa que ele; investimentos das gigantes automotivas, em especial as japonesas e sul coreanas, para viabilizar economicamente veículos automotivos elétricos; pesquisas na China em energia limpa, metade do montante mundial.

Todavia, estas são em geral, quando comparadas à magnitude do problema, mudanças modestas. De acordo com levantamento do Stockholm International Peace Research Institute, os gastos de todos os países do mundo em investimentos militares, em 2013, foi a soma fabulosa de 1,75 trilhão de dólares, no mesmo ano, os investimentos em tecnologia de baixo impacto ambiental, segundo a empresa de pesquisa BNEF (Bloomberg New Energy Finance) foram de 286,2 bilhões de dólares. Os investimentos em guerra são mais de 600% superiores aos investimentos em pesquisa sustentável.

Aparentemente os gestores da sociedade ainda não se deram conta da real iminência do apocalipse, tanto a opinião pública quanto as argentárias elites políticas e midiáticas, relegam a segundo plano a necessidade de ampla mudança no atual sistema. A primeira por alienação, as segundas por possuírem interesses diretos em sua manutenção, por razões econômicas e politicas.

Uma empresa enganadora e fraudulenta

O termo mudança, não por acaso, foi invocado à exaustão nesta análise. Mas qual setor da sociedade teria o poder de fogo de iniciar essas mudanças de forma profunda na doutrina de consumo que se tem consolidada atualmente? Surpreendentemente, talvez seja a publicidade. Pode soar improvável, tendo em vista que a publicidade e propaganda estejam tradicionalmente a serviço do status quo, entretanto, quando o assunto é mudança de hábitos, nenhum setor das comunicações sociais demonstra mais poder de influência ou de formação da opinião pública. Nos anos 50, a explosão do consumo, nos Estados Unidos, se deu em grande parte graças ao seu surgimento e eficácia.

O já citado filme, A história das coisas, pode ser considerado uma peça publicitária.

O mero convencimento retórico está a léguas de distância da indução à mudança de atitudes. Talvez a publicidade, seja a área do conhecimento prático que mais tenha entendido e aplique tal máxima. A manipulação exercida pelos publicitários tem sido amplamente criticada. Mas, deve-se admitir, num caso de concentrar seus esforços para modificar a atitude global diante desse cenário monstruoso que se tem adiante, talvez sua ardilosa e eficaz manipulação seja bem vinda. Por outro lado, ainda fica a pergunta, quem ou o quê mudaria a mentalidade dos próprios publicitários?

A faceta cruel da sustentabilidade, ou do uso do peso de seu nome, é o enorme ônus que governos, em especial os de direita, quando tentam, ou dissimulam, adotar medidas sustentáveis, põem sobre os ombros dos indivíduos. Na crise de abastecimento de água, que está assolando os paulistas, o governador Geraldo Alckmin instituiu um bônus e uma multa para quem economiza e desperdiça, respectivamente. Nada fez, porém, em oito anos de ingerência, para incentivar a poupança ou punir os desperdícios de agua da indústria e da agropecuária do Estado. Num panorama nacional, muito pouco é feito para melhorar os métodos de produção. De acordo com dados da Unesco, a produção de 3 quilos de carne bovina ou de três calças jeans, gasta 45 mil litros de agua, equivalente ao gasto médio de um ano inteiro de uma pessoa.

Por fim, voltando ao sistema que gera o problema, vale destacar o caso da empresa Telexfree, proibida de operar no Brasil. A análise do Ministério Público Federal, eivada de bom senso, “apontou que a prática comercial da empresa não é sustentável no longo prazo” (Gabriela Gasparin, globo.com, 18/03/2013), pois “apenas os indivíduos que estão na ponta do negócio – o idealizador e poucos investidores – ganham” (idem). Não se quer aqui defender essa empresa enganadora e fraudulenta. Entretanto, estivesse na berlinda, de uma opinião pública esclarecida e de uma justiça verdadeiramente cega, ao invés da telexfree, o próprio sistema que lhe deu origem, possivelmente se chegaria à catarse da mesma conclusão.

Bibliografia / Sitiografia / Filmografia

A História das Coisas (filme): https://www.youtube.com/watch?v=7qFiGMSnNjw

Scientific American Brasil: http://www2.uol.com.br/sciam/reportagens/o_colapso_dos_rapanui.html

Greenpeace: http://www.greenpeace.org/brasil/pt/Blog/entre-consumo-e-sustentabilidade/blog/48693/

Planeta Sustentável: http://planetasustentavel.abril.com.br/noticia/sustentabilidade/conteudo_230108.shtml?func=2

Revista Escola: http://revistaescola.abril.com.br/

Valor Econômico: http://www.valor.com.br/

globo.com: http://g1.globo.com/economia/noticia/2013/03/entenda-o-caso-telexfree.html

Revista Exame: http://exame.abril.com.br/mundo/noticias/os-20-paises-com-os-maiores-gastos-militares-do-mundo

Nova Escola: http://revistaescola.abril.com.br/ciencias/fundamentos/meio-ambiente-agua-consumo-sustentabilidade-industria-agropecuaria-561812.shtml

http://www.em.com.br/

Wikipédia:

Catarse

Telexfree

Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas

http://www.psiqweb.med.br/

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Carolina Rodrigues e Thiago dos Santos Paulo são estudantes

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