Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

DIRETóRIO ACADêMICO > MÍDIA & FUTEBOL

Bola na rede

Por Marcos Fabrício Lopes da Silva em 07/09/2014 na edição 819

Jornalista esportivo e mestre em Estudos de Linguagens, pelo Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (CEFET-MG), Gilmar Laignier de Souza Junior é autor da dissertação de mestrado intitulada “Bola na ‘Rede’: análise discursiva do jornalismo esportivo no site Superesportes” (2013). Baseado em teorias da Análise de Discurso, este estudo de fôlego versa sobre a relação entre Mídia e Futebol, revigorada pelo apelo conectivo da Internet, que favoreceu o estilo fiel e passional do público consumidor de conteúdo esportivo.

Gilmar Laignier assim ilustra a grande audiência da sessão esportiva na Internet, se comparada às demais editorias: “em dezembro de 2012, por exemplo, o Superesportes recebeu 31.714.661 visualizações de página, número 44 vezes maior do que a editoria de política do website Estado de Minas online, que pertence ao mesmo grupo de comunicação e recebeu 718.612 visualizações”. Mesmo com esse grande interesse público, informa o pesquisador, as faculdades de comunicação de Belo Horizonte não têm a prática de oferecer a disciplina de jornalismo esportivo na grade curricular. Assustador esse dado, se considerarmos também a representatividade internacional do futebol mineiro, com destaque para a histórica rivalidade entre Cruzeiro e Atlético-MG.

Nem sempre o jornalismo esportivo gozou de tanto prestígio como hoje. Foi Mário Filho quem percebeu a importância social do esporte, organizando um time de cronistas para a revista Manchete em 1955. Dentre eles, Nelson Rodrigues, que foi fundamental para o desenvolvimento do futebol enquanto produto jornalístico relevante e símbolo especial de brasilidade. O que nos surpreende na pesquisa de Gilmar Laignier é a informação de que, antes do famoso dramaturgo, o sociólogo Gilberto Freyre já havia identificado relações importantes entre o esporte bretão e a nossa identidade nacional. Suas ideias foram expostas no artigo “Foot-ball mulato”, publicado no Diário de Pernambuco, de 17/07/1938:

“O nosso estilo parece contrastar com o dos europeus por um conjunto de qualidades de surpresa, de manha, de astúcia, de ligeireza e ao mesmo tempo de espontaneidade individual. Os nossos passes, os nossos pitus, os nossos despistamentos, os nossos floreios com a bola, há alguma coisa de dança ou capoeiragem que marca o estilo brasileiro de jogar futebol, que arredonda e adoça o jogo inventado pelos ingleses.”

Considerando o estilo expressivo, a crônica esportiva brasileira se divide entre a ludicidade inventiva e o pragmatismo informativo. Na crônica “O passarinho” (revista Manchete, 31/3/1956), Nelson Rodrigues defendeu o princípio poético na condução da cobertura esportiva:

“Vejam vocês em que dá a mania da justiça e da objetividade! Um cronista apaixonado havia de retocar o fato, transfigurá-lo. Daria à estúpida e chata realidade um sopro de fantasia. Falaria com os arreganhos de um orador canastrão. […] Sim, amigos, o fato em si mesmo vale pouco ou nada. O que lhe dá autoridade é o acréscimo da imaginação.”

Farpas entre torcedores

Gilmar Laignier, em seu turno, destaca o valor do jornalismo enquanto campo de uma organização factual, de totalidade empírica, na qual se localizaria a verdade tal qual se acreditou existir:

“Por tudo isso, o jornalista esportivo carrega sobre os ombros a responsabilidade de atender à demanda de informação do seu público sedento por notícias sem perder a qualidade do conteúdo e sem ser tendencioso a algum clube. Assim, o profissional do esporte acaba tendo um perfil peculiar em relação aos repórteres de outras editorias. Não obstante dever ser imparcial, ele precisa, também, ser um apaixonado pelos assuntos com os quais lida diariamente”.

Audaciosa a iniciativa do pesquisador em disponibilizar mensagens enviadas por leitores, acusando jornalistas por torcerem para o time rival e o veículo de comunicação por fazer cobertura tendenciosa em favor da equipe adversária. Na página 49 da dissertação, por exemplo, há um e-mail desaforado no qual o leitor solta cobras e lagartos sobre o repórter. Uma lista de palavrões impublicáveis e dizeres preconceituosos, homofóbicos inclusive. Por essas e outras, Nelson Rodrigues dizia ironicamente: “O grande acontecimento do século foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota”.

A pesquisa de Gilmar Laignier mostra que o futebol não pode se resumir a um universo marcado por manifestações de estupidez e negação da humanidade. O técnico Muricy Ramalho disse, certa vez, que “a bola pune”. Os saborosos jogos mostram outra perspectiva: “A bola une”. Farpas trocadas entre cruzeirenses e atleticanos fazem parte de uma grosseria tacanha que não representa o melhor do futebol em matéria de arte, socialização e fair play. Só mesmo a poeticidade de um músico como Vander Lee para traduzir, em Galo e Cruzeiro (1999), a beleza da paixão nacional:

“Minha Preta não fala comigo/Desde primeiro de janeiro./Ela me deu a mala eu fui dormir na sala,/Fiquei sem dinheiro./Não tem mais feijoada, nem vaca atolada,/Rabada ou tropeiro./Já fez greve de cama diz que não me ama,/Quebrou meu pandeiro/Na hora do cruzamento, ela deu impedimento/Ou falta no goleiro/Pra aumentar meu tormento, meu irmão/Eu sou Galo e ela é Cruzeiro/Com o gol anulado, saí do gramado, voltei pro chuveiro/Isso tudo porque, meu irmão,/Eu sou Galo e ela é Cruzeiro/Caí de centroavante,/Pra médio-volante, agora sou zagueiro,/No último domingo ela foi jogar bingo/E eu fiquei de copeiro/Ela fala, eu me calo, ela canta de galo/Lá no meu terreiro/Ela apita esse jogo, ela é quem bota fogo/No nosso palheiro,/Ela finge que não, mas no seu coração/Ainda sou artilheiro,/Só faz isso porque, meu irmão/Eu sou Galo e ela é Cruzeiro”.

>> Link da dissertação de mestrado de Gilmar Laignier.

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Marcos Fabrício Lopes da Silva é professor da Faculdade JK, no Distrito Federal, jornalista, poeta e doutor em Estudos Literários

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