Domingo, 20 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

DIRETóRIO ACADêMICO > ENTREVISTA / TATTIANA TEIXEIRA

A atualidade de Adelmo Genro Filho

14/08/2007 na edição 446

Professora da graduação e do Mestrado em Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina, Tattiana Teixeira é jornalista e doutora em Comunicação pela Universidade Federal da Bahia. Além de editora da revista Pauta Geral, a mais antiga especializada em jornalismo em circulação no país, lidera o Grupo de Pesquisa em Linguagens do Jornalismo Científico (NUPEJOC).

Nesta entrevista, Tattiana, que participou como convidada, do seminário ‘Adelmo Genro Filho – O Segredo da Pirâmide 20 anos depois’, na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), fala da atualidade da obra e da sua importância para o ensino e a pesquisa em jornalismo.

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Que importância teve a obra de Adelmo para o ensino e a pesquisa em jornalismo no país?

Tattiana TeixeiraO Segredo da Pirâmide é uma obra bastante audaciosa. Considero que, no que tange ao ensino, ela é importante porque proporciona uma compreensão da prática jornalística para além da técnica pela técnica, para além de regras ditadas pelos manuais que são insuficientes para garantir qualidade ao jornalismo. A partir das discussões propostas, é possível compreender a essência do que o autor entende como jornalismo informativo e isto não é pouco porque fornece elementos para uma epistemologia do jornalismo, definindo-o como uma forma singular de conhecimento da realidade. Quanto à pesquisa, observo que muitos pesquisadores o tomam como ponto de partida, sobretudo porque vários temas importantes não foram abordados por Adelmo, mas as suas teses podem contribuir para compreendê-los melhor. Trata-se, portanto, de leitura obrigatória tanto pelo seu valor histórico, quanto pela atualidade de muitas de suas idéias.

Qual a principal contribuição desta obra para a consolidação do jornalismo como área científica?

T.T. – Ao trazer a expressão teoria do jornalismo desde a capa e se propor a construir uma teoria, Adelmo, ainda que esta não fosse a sua primeira intenção, reforçou a perspectiva do jornalismo como campo científico. Isto, em uma época na qual este tipo de objetivo não estava tão disseminado no Brasil como hoje. Não por um acaso, muitos pesquisadores o citam, mesmo discordando de suas idéias.

Por que, mesmo sendo uma obra de referência, o livro de Adelmo continua sendo muito pouco usado nos cursos de jornalismo?

T.T. – A minha hipótese é que isto se deve, primeiro, a um preconceito político. Como Adelmo queria construir uma teoria marxista do jornalismo, muitos acham que esta idéia está fora de moda, fora de lugar, e não o adotam. Trata-se de um equívoco, pois a essência do pensamento adelmiano não está datada, é bastante atual e, no meu entender fundamental, basta que se compreenda e discuta o seu contexto de produção. Depois, muitos acham que o livro é difícil para estudantes da graduação, uma vez que a base filosófica utilizada é complexa. Bom, nestes casos, costumo sugerir que se comece a leitura pelos capítulos VII e XIX. Depois deles, fica muito mais fácil entender o livro, como um todo.

O que mudou na pesquisa em jornalismo 20 anos depois do lançamento de O Segredo da Pirâmide?

T.T. – Os pesquisadores mais experientes relatam que, há 20 anos, falar em teorias do jornalismo era algo que soava para alguns acadêmicos como, no mínimo, estranho. O que observo é que, desde meados da década de 1990, isto já mudou muito. Provas disto são a criação dos GTs de Jornalismo tanto na Intercom, quanto na Compós, ambos bastante concorridos. Depois, a consolidação de periódicos científicos especializados, com periodicidade regular, como a Pauta Geral, a Estudos de Jornalismo e Mídia, a Brazilian Journalism Research e a PJ:BR – Pensamento Brasileiro. Hoje, temos uma sociedade científica e encontros anuais. A profissionalização da pesquisa em jornalismo caminha a passos largos, apesar do apoio ainda pequeno das agências de fomento.

Quais os principais desafios para a legitimação do jornalismo como disciplina científica?

T.T. – No Brasil, um dos primeiros desafios seria o apoio institucional das agências, com uma distribuição de verba que seja condizente com a qualidade dos nossos pesquisadores e projetos. Muitos de nós pesquisamos sem qualquer apoio institucional e isto não é fácil. Depois, a nossa profissionalização, porque ainda pecamos em aspectos como revisão da bibliografia, por exemplo. Em um estudo que fiz, verifiquei que as citações de artigos publicados em periódicos é muito pequena, o que aponta para um diálogo discreto entre os pares. Creio que este diálogo efetivo pode tornar cada vez mais sólido – e profissional – o campo do jornalismo, cientificamente falando. [12/8/2007]

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