Segunda-feira, 23 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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DIRETóRIO ACADêMICO >

A babá eletrônica de todas as manhãs

Por Monitor de Mídia em 11/08/2009 na edição 550

A televisão é um dos mais importantes meios de comunicação presentes na vida dos brasileiros. Desde sua chegada ao país na década de 1950, a TV passou a ocupar os lares por meio da divulgação de informação e conhecimento, como forma de entretenimento – preenchendo as horas de lazer e distração – ou ainda para completar as atividades diárias da população. Segundo uma pesquisa do IBGE/PNAD de 2005, a TV está presente em 90,3% dos domicílios brasileiros.


Laura Bastos (1988) afirma que através da produção em grande escala, o aparelho difusor de imagens e sons conquistou espaço e influenciou hábitos comportamentais dos telespectadores. ‘Suas emissões nos trazem uma poderosa ilusão de fantasias, onde a realidade se funde em ficção e o irreal toma a dimensão da realidade’ (p.10).


Esse mundo ‘fantástico’ que é apresentado pela TV atrai e influencia, em especial, o público infantil. As crianças dispensam maior parte de seu tempo diante da televisão que os adultos e, as brasileiras de quatro a 11 anos são as que mais assistem ao vídeo em todo o mundo: em média cinco horas por dia – segundo o Painel Nacional de Televisão do Ibope, de 2005. Este número de audiência aumenta ainda mais nos períodos de recesso escolar.


Strasburger (1999, p. 119-120) enfatiza esse sucesso da televisão no meio infantil:


As crianças constituem um público de TV cativo e impressionável. Elas são fascinadas pela televisão que lhes conta histórias e lhes oferece imagens excitantes de mundos que de outra forma jamais veriam. Um meio de comunicação tão poderoso precisa assumir suas responsabilidades com o público infantil muito seriamente.


Alguns dos fatores que determinam a exposição das crianças ao vídeo seriam, por exemplo, o aumento da violência urbana, que as faz permanecer por mais tempo dentro de casa; a inserção das mães no mercado de trabalho, que não conseguem acompanhar por inteiro a rotina dos filhos; e ainda a permanência da criança sozinha em casa, que a permite ter acesso mais fácil a este meio de comunicação. Além disso, inclui-se nesta lista, o difícil acesso dos mais jovens às salas de cinema, uma vez que os preços nem sempre são acessíveis e que, necessitam da companhia de um adulto, nem sempre disponível.


Ferrés (apud SELIGMAN, 2008, p. 32) caracteriza este meio de comunicação como ‘símbolo de identidades’, capaz de gerar exigências e dependências para seu público telespectador, muitas vezes substituindo o papel dos próprios pais:


Ela é amada e odiada, desejada e desprezada. E tudo isso se manifesta na multiplicidade de expressões com que é conhecida: a escola paralela, a sala de aula sem paredes, a aula eletrônica, a caixa sábia, a caixa tola, a caixa mágica, a babá eletrônica, o terceiro pai.


Mas, será que as emissoras produzem programas especiais ao público infantil, capazes de ao mesmo tempo entreter e educar os pequenos? Esta edição do MONITOR DE MÍDIA avaliou a programação destinada ao público infantil no período de férias escolares. Foram escolhidas, aleatoriamente, duas manhãs (período cuja programação costuma dedicar maior tempo às crianças) e a análise conteve-se nas emissoras de maior audiência durante o período: Rede Globo e o Sistema Brasileiro de Televisão – SBT. Os critérios de análise detiveram-se no tempo de exibição, tipos de programas, características dos apresentadores, propagandas de produtos fora do horário comercial (merchandising), conteúdo exibido e presença ou não de violência.


Por que avaliar a programação destinada ao público infantil?


O alto grau de exposição da criança à TV é debatido por vários estudiosos do mundo inteiro. A discussão geralmente é em torno da influência deste meio no comportamento desse público, principalmente no que se refere às práticas de violência. A crítica a programas com conteúdos violentos se destina ao fato de que as crianças não possuem capacidade crítica de diferenciar o bom do ruim, o certo do errado. Bastos (1988, p.14) considera que este sentido crítico e a capacidade de julgamento são formados por meio do ‘contato com as múltiplas informações recebidas do meio ambiente, incluindo nestas aquelas recebidas através do vídeo’, conforme o desenvolvimento e crescimento da criança.


Sobre os conteúdos de veiculação destinados ao público infantil, principalmente seriados animados, a autora ainda ressalta que há identificação das crianças com os seus personagens favoritos, o que as capacita a imitações: ‘(…) Ao acompanharem as aventuras e situações vividas pelos heróis, compartilham dos seus sentimentos e modo de agir’ (p. 14 e 15). Sobre as animações infantis, Bastos (1988, p.19) ainda afirma que


(…) Observamos que as emissões infantis tendem a mostrar muitos desenhos animados que, além de explorarem muito as cenas de violência, com lutas e destruição dos inimigos, apresentam noções erradas e absurdas sobre o espaço, a vida e os seres em geral.


Susan Linn (2006, p. 144) enfatiza esse modo de influência dos programas e personagens em relação aos comportamentos:


(…) O poder das histórias (…) de afetar a vida real existe na sua capacidade de nos levar, mesmo que momentaneamente, a acreditar que o mundo criado é verdadeiro e no fato de apresentar personagens que nos lembram a nós mesmos como fomos ou desejaríamos ser. Ao nos espelharmos nesses personagens, eles se tornam ‘como nós’. Podemos, consciente ou inconscientemente, adotar seus comportamentos, valores e atitudes como se fossem nossos.


A autora ainda acrescenta que, através do grande tempo que as crianças ficam expostas diante da televisão, é praticamente impossível que elas não sejam influenciadas de alguma forma por este meio de comunicação, seja por meio de comportamentos, linguagens, modos de vestir, assuntos discutidos ou os próprios brinquedos utilizados, que ganham formas reais dos personagens apresentados na programação.


O conteúdo que costuma prevalecer na programação destinada ao público infantil são as animações – os desenhos – que geram muitas preocupações dos estudiosos justamente por serem o espaço do fantasioso. Claro que não afirmarmos aqui que as crianças são seres manipuláveis e que irão reproduzir tudo aquilo que assistirem na televisão. O receptor, inclusive a criança, é um sujeito crítico, não algo moldável. Como bem assinala Jones, 2004, p. 20:


Quando se analisam as crianças em relação à mídia de massa e à cultura popular, nossa tendência é defini-las como consumidores, expectadores, receptores, vítimas. Mas elas também são usuários daquela mídia e daquela cultura: fazem escolhas e interpretações, delineiam o que querem ??…??. Enxergar as crianças como receptoras passivas do poder da mídia nos coloca em conflito com as fantasias que elas escolheram e, portanto, com as próprias crianças. Enxergá-las como usuárias ativas permite que trabalhemos com o entretenimento que as ajude a crescer.


A preocupação maior com este público, entretanto, se dá pelo fato de a criança ainda não dispor de todos os mecanismos (inclusive fisiológicos) que lhes permitam desenvolver o olhar amplamente crítico e fazer a separação entre a realidade da tela e a realidade vivida. O que preocupa, conforme Kohn (2007), é que o conteúdo dos desenhos exibidos nas emissoras brasileiras, em geral trabalha com duas temáticas: o non sense e a violência. Embora haja desenhos que trabalhem conteúdos educativos e que estimulam valores positivos, o problema está no fato de que ‘(…) para a criança desenho é desenho, uma reunião de imagens lúdicas e atraentes, que são veiculadas sem nenhuma restrição ou diferenciação, sendo, portanto, difícil saber o que é bom ou ruim para o expectador mirim.’ (KOHN, 2007, p. 2)


O Plin-Plin da criançada


Na Rede Globo, a programação voltada para o público infantil inicia a partir das 9 horas e 40 minutos com a TV Globinho, até as 11horas e 30 minutos da manhã. O programa tem duração de uma hora e 45 minutos de segunda a sexta e, aos sábados, geralmente inicia às oito da manhã. Na data escolhida para análise, o programa apresentou desenhos animados e seriados voltados para crianças e adolescentes. Teve dois intervalos de três minutos e, antes de seu início, foi possível observar a indicação de faixa etária recomendada, livre para todas as idades.


A edição do dia 21 de julho da TV Globinho foi apresentada por um casal de adultos, vestidos como adolescentes: Paulo Mathias Júnior, de 26 anos e Mariah Rocha, de 19. Além disso, o cenário no qual ambos aparecem é decorado com os personagens de vários desenhos animados, como por exemplo, a turma do Mickey Mouse, do Bob Esponja, Três Espiãs Demais, entre outros. Durante a fala dos apresentadores, não houve propagandas ou merchandising que fizessem alusão a algum tipo de produto.


O primeiro desenho exibido durante os 20 primeiros minutos do programa foi ‘Duck Tales – os caçadores de aventuras’. A animação infantil da Disney produzida entre 1987 e 1990 é exibida no programa desde o dia 13 de abril deste ano. A série conta as aventuras de Tio Patinhas e seus sobrinhos – Huguinho, Zezinho e Luizinho, todos animais em forma humana, sendo a maioria patos. Destinado às crianças de todas as idades, o desenho não apresentou cenas de violência e pode ser caracterizado como desenho do tipo non sense, que segundo Kohn (2007, p. 3) é literalmente algo sem sentido, ‘(…) Parte da lógica que é algo que se difere da realidade, o que não é vida real, onde no desenho tudo se pode’. Explica ainda a autora sobre as características do desenho non sense:


Direcionado a crianças entre 2 e 12 anos, evoca a um humor ingênuo e de fraco conteúdo, recaindo, também, ao ridículo, ao ilógico, à bobice e ao bizarro. Apresenta, além disso, uma desconstrução da realidade, onde se pode atribuir características e faculdades humanas aos animais e os personagens podem realizar qualquer façanha possuindo habilidades (poderes) especiais. (KOHN, 2007, p. 3)


Como se vê, é o caso dos Duck Tales, porém uma característica evidente é a grande atenção que Tio Patinhas dá ao seu dinheiro, maior do que para os sobrinhos. Talvez essa atitude do personagem possa de alguma forma influenciar as crianças a valorizarem mais os bens materiais do que os relacionamentos familiares, típica características do Tio Patinhas.


Do fundo do mar ao meio da floresta


Bob Esponja é uma animação que surgiu há dez anos no canal pago Nickelodeon. No Brasil, é exibido em canal aberto diariamente pela TV Globinho. Com dez minutos de duração, relata histórias vividas por uma esponja amarela e seus amigos, que moram no Oceano Pacífico. A principal característica do desenho é a inocência do personagem em relação aos acontecimentos da trama. Indicado a todas as idades, o público alvo é principalmente crianças mais novas, devido à infantilidade presente no seriado. Também se caracteriza como desenho do tipo non sense.


Com os mesmos dez minutos de duração, George, o rei da floresta é a terceira atração da manhã global exibida no Brasil. A série norte-americana de 1967 foi refeita pelo canal pago Cartoon Network, sobre um menino criado por macacos no meio da selva, que tem história semelhante à de Tarzan. Não há faixa etária definida, já que o desenho também apresenta teor infantil, sem cenas de violência.


Violência, tecnologia e efeitos especiais – da animação aos seriados


Três Espiãs Demais é uma animação francesa, no estilo dos quadrinhos denominados mangás. O trio de adolescentes trabalha em missões secretas e é possível perceber a presença de aparatos tecnológicos – como naves, computadores, equipamentos rastreadores, óculos de visão raios-X, entre outros – durante os quase vinte minutos de duração do desenho. Estão presentes algumas cenas de violência na animação, se comparada às exibições anteriores.


Com a participação de atores ao estilo do tradicional Power Ranger, entra na programação da TV Globinho às 10h50 o Kamen Rider – Cavaleiro Dragão. A história relata a vida de três amigos que utilizam cartas para se transformarem em super-heróis na batalha do bem contra o mal. A presença de efeitos especiais e de lutas caracterizam a série. Pode ser considerada como a atração infantil com maior teor de violência presente na programação voltada a este público. Além disso, existe certa dificuldade para quem não acompanha o seriado, em compreender a trama. A única evidência é que os personagens principais buscam combater o mal.


Os Feiticeiros de Weaverly Place estreou na TV aberta no final do mês de junho. O seriado norte-americano produzido e até então exibido pela Disney envolve o mundo da família Russo. Os três irmãos – Justin, Alex e Max – são filhos de um ex-mago e de uma não-maga. O trio tem poderes mágicos e vive competindo entre si para ver qual deles é o melhor. Em tom de comédia, a série teve duração de vinte minutos e é a última atração da TV Globinho. Não apresentou cenas de violência, mas por ser uma série com encenação de atores, alguns efeitos especiais apresentados no episódio analisado transmitem, principalmente às crianças de menor idade, a sensação de que é possível existir jovens com poderes mágicos, através da mistura da ficção com a realidade.


Sendo a classificação indicativa considerada pela emissora como livre, podemos questionar até que ponto os conteúdos são adequados para o público infantil, já que muitos deles reproduzem o universo adulto com personagens adolescentes ou animais, ou até adultos, e alguns trabalham enfaticamente o universo competitivo e violento. Se as crianças serão ou não influenciadas por esses desenhos, vai depender do contexto sociocultural em que se dá a recepção desses materiais, entretanto, uma coisa parece evidente nos desenhos acima destacados: eles pouco ou nada retratam do universo infantil. O conceito de infância desses conteúdos parece bastante difuso, difícil de visualizar.


Adolescentes e o mundo virtual


A emissora preparou uma minissérie brasileira especial para as férias. Em cinco episódios, Ger@l.com teve meia hora de duração, em seguida à TV Globinho. Uma banda de pré-adolescentes é impedida de realizar seus ensaios em um condomínio do Rio de Janeiro. Os cinco integrantes mais três fãs fiéis (todos com idades entre oito e 14 anos aproximadamente) que os ajudam a encontrar alternativas para os componentes da ‘WWW’ poderem tocar. A minissérie foi caracterizada pelo mundo dos adolescentes, que vivem em contato direto com a tecnologia e com o excesso de informações.


Não há presença de violência, porém é possível perceber os comportamentos dos jovens retratados no episódio analisado: a comunicação com os vizinhos através da webcam, as roupas da moda e os estilos adotados por cada personagem, as amizades por meio de sites de relacionamento, os namoros já presentes e o sucesso com a divulgação de vídeos pela internet.


Durante a análise, houve ainda a participação de músicos como Frejat e Maurício, da banda Barão Vermelho; Júnior, da banda 9 mil Anjos; entre outros músicos de sucesso que deram seu depoimento, incentivando os adolescentes a tocarem em bandas. Foi possível, ainda, encontrar merchandising do site da Globo, quando uma das personagens do episódio acessa a página.


Em boa companhia


Em comparação à Rede Globo, o Sistema Brasileiro de Televisão (SBT) tem maior dedicação ao público infantil no período matutino. As atrações iniciam a partir das sete horas da manhã, com a primeira parte do programa Carrossel Animado. Durante uma hora, sem intervalos comerciais, a emissora exibiu oito animações de Tom e Jerry, de sete minutos cada. A segunda parte do programa, com duração de uma hora, foi apresentada por Rebeka Angel, uma menina de nove anos.


Por ter maior programação voltada às crianças, maior também é a variedade de desenhos animados veiculados. Além de Tom e Jerry, Riquinho, Coragem – o cão covarde, Muttley e Andy e seu esquilo são as primeiras atrações do Carrossel Animado. Em todas as animações, não houve conteúdo de violência explícita. Apesar de, por exemplo, Tom e Jerry possuir cenas de brigas entre a caça do gato pelo rato e, em algumas a presença de cigarros e charutos consumidos pelos personagens, o conteúdo pode ser classificado como irônico e até mesmo infantilizado, reafirmando a classificação como non sense. O desenho, criado na década de 1940, fez ainda faz parte da infância de várias gerações. Alguns episódios chegaram a ser proibidos em alguns países, devido à apologia ao tabagismo, por exemplo.


Criado por Willian Hanna e Joseph Barbera, Riquinho é um menino milionário e junto com seu cachorro Dólar vivem aventuras no mundo onde dinheiro não é problema. Ambos contam com a ajuda de robôs e aparatos tecnológicos, muitas vezes criados especialmente para a família Rico. A animação veiculada teve sete minutos de duração e não houve cenas de violência durante o período de análise.


Coragem, o cão covarde é uma animação criada pelo canal pago Cartoon Network. Com seus donos Muriel e Eustácio Bagges, o cachorro Coragem vive em uma fazenda na cidade de Lugar Nenhum, nos Estados Unidos. A cada episódio, o cão medroso enfrenta criaturas estranhas, desde monstros até fantasmas e alienígenas. Não apresentou cenas de lutas ou brigas no episódio avaliado, entretanto costuma utilizar o humor para ilustrar cenas de terror que perseguem a vida dos três personagens da história. A indicação para a faixa etária também foi livre.


O episódio de três minutos de Muttley trouxe apenas uma cena de violência, quando o cão vira-lata torna-se o ‘Super Muttley’ e agride seu ex-companheiro e vilão Dick Vigarista (Corrida-Maluca). Assim como os episódios de Tom e Jerry, que muitas vezes utilizam explosivos, cofres, facas ou armadilhas nas perseguições, Muttley também se aproveita da ironia para enfatizar o fracasso de Dick, quando o assunto é se aproveitar dos outros. A evidência da animação está relacionada com o fato de que todas as más atitudes de Vigarista sempre são fracassadas, ou seja, incentiva as crianças a não terem o mesmo comportamento do personagem.


A presença de violência também não esteve evidente em Andy e seu esquilo, que assim como Coragem, o cão covarde é uma criação do Cartoon Network. A animação fica por conta das aventuras do menino Andy, de nove anos, e de seu esquilo de estimação falante (Rodney) que sempre os envolve em confusões. Cada episódio do desenho apresentou duração de dez minutos.


Brincadeiras X Violência


Às nove horas da manhã tem início o Bom Dia e Cia., apresentado por Priscilla Alcântara e Yudi Tamashiro, com 13 e 16 anos respectivamente. O cenário é o mesmo do programa anterior, composto por alguns sapos verdes – chamados de greens, duas roletas que sorteiam os brinquedos de quem vence as provas e dos equipamentos necessários para cada brincadeira que tem participação do telespectador.


No total, foram quatro intervalos de quatro minutos e meio durante o programa que é exibido das nove da manhã até às 12h45. O merchandising esteve presente no Bom Dia e Cia., quando os apresentadores divulgaram a marca de roupas Trick Nick, bem como um concurso de desenhos que a grife está promovendo.


Fazem parte do menu de atrações do Bom Dia e Cia., os desenhos A vida e as aventuras de Juniper Lee, Ben 10, Liga da Justiça, Teen Titãs – Os jovens Titãs, Naruto e X-Men Evolution. Todos estes desenhos apresentaram cenas de lutas e violência, alguns em menor e outros em maior grau.


Uma das características dos dois programas matinais do SBT é a participação do público. Durante toda a manhã os telespectadores podem participar de brincadeiras por meio de ligações. Ao total, foram contabilizadas três brincadeiras no Carrossel Animado e nove no Bom Dia e Cia., tendo a participação de 18 crianças. Quem vence os desafios (como jogo da velha, onde está o erro ou batalha naval) ganha prêmios – desde brinquedos até computadores e jogos eletrônicos. Uma brincadeira que chamou a atenção foi a Multiplicação, em que a criança precisou acertar o resultado de dois números escolhidos multiplicados, conforme a tabuada. Este desafio demonstrou de certa forma o incentivo do programa à educação, uma vez que utiliza o entretenimento para ensinar.


O primeiro desenho animado do Bom Dia e Cia. foi A vida e as aventuras de Juniper Lee, sobre uma menina escolhida para lutar contra monstros e manter o equilíbrio do planeta. O episódio analisado apareceu em três momentos do programa: as duas primeiras partes – de nove e seis minutos – divididas pelo intervalo comercial e, a terceira parte, após uma das brincadeiras do programa. O desenho apresentou somente uma cena de briga, no início de sua exibição.


Influência oriental


Ben 10 é uma animação inspirada nos desenhos japoneses, denominados animê. Ben é um menino que possui um relógio capaz de transformá-lo em dez diferentes alienígenas, que o faz combater o mal. Também criação do Cartoon Network, o desenho é exibido em canal aberto pelo SBT e tem 22 minutos de duração. Possui várias cenas de violência, quando o menino briga com alienígenas ou outros monstros para combater o mal. No Bom Dia e Cia, são veiculados dois episódios por manhã.


Assim como Ben 10, Teen Titans (Os Jovens Titãs) também é um seriado norte-americano com características dos animes japoneses e possui veiculação dupla no programa – 20 minutos cada uma delas. O grupo de cinco jovens super-heróis utiliza fantasias e possui poderes especiais utilizados para combater o mal. Há presença de cenas de lutas e violência, além de efeitos especiais e alta tecnologia que auxiliam os personagens em suas batalhas.


O desenho japonês Naruto, também de estilo mangá, apresentou cenas de luta e violência durante os 18 minutos de exibição. O episódio girou em torno de um duelo entre dois personagens para tornarem-se ninjas. A disputa demonstrou várias agressões, característica de parte dos desenhos deste gênero (como Dragon Ball Z, Yu Yu Hakusho, Os cavaleiros do Zodíaco, Fly, entre outros).


Dos quadrinhos para as telas


Formada por super-heróis como Batman, Super-Homem e Mulher-Maravilha, a equipe uniu-se para combater o mal. Criada pela Warner Bross, a Liga da Justiça Sem Limites apresenta em seu conteúdo cenas de luta e agressões quando os personagens enfrentam batalhas contra o mal. Teve vinte minutos de duração e se houvesse classificação por faixa etária, deveria ser indicado para crianças mais velhas, acima de dez anos, por exemplo.


A escola do Professor Charles Xavier é dedicada para alunos especiais: mutantes que desenvolveram poderes especiais. O seriado X-Men Evolution gira em torno de mutantes do bem contra Magneto, um mutante que utiliza seus poderes em benefício de si, prejudicando os outros. Criada pela Marvel Comics, geralmente os episódios da série apresentam cenas de forte violência, combates, tecnologia – como uma das naves que os alunos de Xavier utilizam – e efeitos especiais. É dedicado para crianças e adolescentes, e foi a última atração do Bom Dia e Cia, com duração de 16 minutos.


Ao término do Bom Dia e Cia, a programação segue com os episódios de Chaves. O seriado mexicano, gravado nas décadas de 1970 e 1980, é exibido desde 1984 no Brasil pelo SBT. O menino pobre e órfão que vive em uma vila e dorme em um barril demonstra a inocência do mundo infantil e é veiculado das 12h45 às 13h15. A programação da tarde também traz seriados voltados para o público infantil, porém não há reprise das exibições matinais. Neste período de férias, há indicações da emissora de que a programação é especial para as crianças.


Considerações finais


De um modo geral, as exibições da Rede Globo durante a manhã analisada demonstraram a presença de programas mais inocentes voltados ao público infantil. Porém, à medida que o horário se aproxima do meio-dia, cenas de luta e violência são inseridas em alguns seriados. Além disso, é possível perceber que na maioria das exibições alguns valores são destacados: o bem que sempre deve combater o mal, assim como a coragem e a amizade entre os personagens ficam evidentes em todos os desenhos e seriados exibidos.


Não nos coube aqui avaliar os intervalos comerciais, mesmo porque já dedicamos um diagnóstico para este tema. Entretanto, foi considerável o número de inserções de publicidade voltada ao público infantil, principalmente brinquedos, durante o período de análise do SBT. Isso pode ser explicado a partir do que dizem Kincheloe e Steinberg, 2000, p. 24:


Interesses comerciais ditam a cultura infantil da mídia, a margem de lucro é muito importante para que se importem com o que concerne ao bem estar das crianças. Em comparação à promoção de múltiplos ‘produtos’ da cultura infantil, os protetores da criança têm acesso limitado a essas vias de promoção. Estas corporações que fazem propagandas de toda a parafernália para as crianças consumirem promovem uma ‘teologia de consumo’ que efetivamente promete redenção e felicidade através do ato de consumo.


Ficou evidente também, as parcerias adquiridas por cada meio de comunicação: A Rede Globo com a Disney e a Nickelodeon, e o SBT, com o Cartoon Network, a Warner Bross e a Marvel Comics. Além disso, este dedica sua programação por muito mais tempo aos desenhos animados, enquanto a Globo dá preferência para os seriados em sua programação de menor tempo dedicado ao público infantil. Outra característica comum entre ambas as emissoras foi que, no período de férias, não houve mudanças consideráveis na grade no que diz respeito à veiculação de programas especiais, principalmente após as 18 horas. Somente a exibição de filmes com super-heróis esteve presente em horários que ultrapassavam as 22h no SBT.


Outro aspecto ressaltado é que a maioria dos desenhos animados veiculados na programação das emissoras de canal aberto tem origem estrangeira, principalmente norte-americana, o que demonstra a influência cultural de outros países através da veiculação destes seriados e, de certo modo, a noção que se tem da infância. Como afirmam Esperança e Dias (2008, p. 191)


O formato homogeneizante da programação infantil permite que crianças de diferentes partes do mundo assistam aos mesmos desenhos animados, aos mesmos personagens criados virtualmente e aos mesmos astros mirins. Além disso, assistem as mesmas campanhas publicitárias de salgadinhos, e roupas, de jogos e brinquedos. Diante dessa condição, a TV educa as crianças, uma vez que fabrica modos de ser infantil, interferindo nos modos de pensar, sentir e desejar, nas formas de relacionamento que estabelecem com seus pares e com os adultos, na construção de conceitos e valores.


Pode-se afirmar que a invisibilidade de atrações com teor educativo predominou nas manhãs dedicas às crianças, já que o entretenimento foi a base dos conteúdos exibidos. Além disso, grande parte das emissões apresentou o enredo das histórias com conteúdos sem tanta infatilização, sendo alguns casos, mais voltados para adultos do que para as próprias crianças. A problemática deste aspecto pode ser enfatizada pelas palavras de Perroti (1990, p. 98) quando afirma que


Essa produção expressa uma visão de mundo filtrada sempre pelos interesses dos adultos produtores. Na realidade, a produção cultural preparada para a criança mostra-lhe não aquilo que ela, criança, seleciona, mas no máximo o que o aparelho produtor julga ser do interesse dela. Em tais condições, o olhar da criança sobre o mundo acha-se desviado, dirigido por tais objetos tidos pelos adultos produtores como merecedores de suas atenções.


Resta-nos ressaltar também a quantidade de seriados – animados ou não – com conteúdos de violência e, até que ponto a exposição de crianças a essas exibições é nociva para o seu comportamento e para a formação de seus valores. Ressaltamos o caráter não passivo do receptor, mas reafirmamos nossa preocupação quando este receptor ainda não está plenamente formado (em termos mentais, intelectuais e inclusive morais) e o fato de a TV ser a principal companheira deste pública, as crianças, e de que me sua maioria elas absorvem essa violência sem a orientação ou a problematização de um adulto.


Referências Bibliográficas


BASTOS, Laura. A criança diante da TV: um desafio para os pais. Petrópolis: Vozes, 1988.


ESPERANÇA, Joice Araújo; DIAS, Cleuza Maria Sobral. Das infâncias plurais a uma única infância: mídias, relações de consumo e construção de saberes. Revista Educação, v. 33, n. 1. Santa Maria: UFSM, jan/abril de 2008, p. 191-206. Disponível em: http://www.ufsm.br/ce/revista. Acesso em 31/07/2009.


FEILITZEN, Cecília Von. As crianças e a mídia: imagem, educação, capacitação. São Paulo: Cortez, 2002.


JONES, G. Brincando de fazer monstros: por que as crianças precisam de fantasia, videogames e violência de faz-de-conta. São Paulo: Conrad, 2004.


KINCHELOE, J.; STEINBERG, S. Sem segredos: cultura infantil, saturação de informação e infância pós-moderna. In: KINCHELOE, J.; STEINBERG, S. (Org.). Cultura Infantil: a construção corporativa da infância. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001, p. 09-52. KOHN, Karen. Desenho animado: um brinquedo ou uma arma na formação da criança? Revista Anagrama. Ano 1, n. 1. São Paulo, setembro a novembro de 2007.


LINN, Susan. Crianças do Consumo: a infância roubada. São Paulo: Instituto Alana, 2006.


PERROTTI, E. Confinamento cultural, infância e leitura. São Paulo: Summus, 1990.


SELIGMAN, Laura. A escola e a formação do leitor crítico da mídia: políticas públicas no Brasil e em Santa Catarina. (Dissertação). Universidade do Vale do Itajaí. Programa de Pós-Graduação em Educação. Mestrado em Educação. Itajaí: Univali, 2008.


STRASBURGER, Victor C. Os adolescentes e a mídia: impacto psicológico. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1999.


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Reestréias


A história do Monitor de Mídia nestes oito anos de trabalho em pesquisa e desenvolvimento é recheada de estréias e reestréias. Aprendemos a nos reinventar a cada vez que uma dificuldade foi interposta, uma novidade foi oferecida ou mudanças de rumos nos obrigaram a tanto. Ao completarmos oito anos de observação ininterrupta da mídia catarinense e hoje em dia, também da mídia nacional, uma nova reacomodação vem para nos encher de orgulho, apesar da ruptura que ela representa.


A partir desta edição, não contaremos mais em nossa convivência diária com o fundador e líder deste grupo. O professor doutor Rogério Christofoletti deixa esta universidade para integrar o quadro permanente do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina, onde prestou concurso e foi aprovado como professor adjunto. Perde-se, em grupo, somente a convivência diária de trabalho. Em universidades diferentes, ainda integraremos a mesma Rede Nacional de Observatórios de Imprensa e num futuro próximo, parcerias interinstitucionais.


É assim que o Monitor de Mídia faz oito anos: mudando e se reinventando. Nesta edição, em nosso diagnóstico mensal analisamos o que há de infantil na programação matutina de férias na televisão destinada a crianças. Nossos repórteres viajaram para perto – vimos como ficam no inverno os balneários que explodem de turistas no verão – e para muito longe – investigamos o avanço da gripe A pelas fronteiras do oeste catarinense. Nosso material multimídia retoma o histórico e os números da gripe no Brasil e no mundo, além de orientar sobre seus sintomas. Sem gripe e com toda disposição, aproveite o conteúdo do Monitor de Mídia neste mês de agosto.

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