Segunda-feira, 11 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1062
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DIRETóRIO ACADêMICO >

A casa da mãe Joana

Por Ivan Berger em 23/06/2009 na edição 543

Sempre achei uma bobagem a exigência de diploma para o exercício do jornalismo – aliás, nem sei por onde larguei o meu. Mesmo porque diploma nunca foi garantia de nada e mesmo nas profissões mais exigentes só com a prática e o passar dos anos é que se aprende de fato. Mas talvez por ver a profissão tão aviltada, hoje já penso diferente e não vejo justificativa válida para a revogação de direitos que asseguram um mínimo de segurança para quem busca a carreira pelos caminhos tradicionais.

Não bastasse o ônus inerente ao, digamos assim, desprestígio da própria imprensa em geral, a dispensa de uma formação específica a rigor só não afeta os que já pegaram o bonde andando, ou seja, aqueles que de uma forma ou de outra já cavaram seu lugarzinho ao sol. Daí a faceirice, o desprendimento com que saúdam mais essa controvertida decisão do STF. Mas a discussão está longe de se esgotar no discurso liberal dessa gente, como já disse, eventualmente bem na foto, com nome na praça e o empreguinho garantido.

O xis da questão está no golpe que o jornalismo, como profissão clássica, acaba de sofrer com esse virtual rebaixamento acadêmico, pelas mãos de uma categoria – a dos magistrados – que deveria ser a primeira a valorizar o conhecimento adquirido pelas vias legais e adequadas. Além do mais, se a exigência de diploma nas redações nunca chegou a ser fator excludente, na prática a pá de cal lançada sobre a cadeira nos chamados cursos de nível superior só serve para depreciar ainda mais uma profissão já estigmatizada pela má fama da imprensa.

Restaurar o que é de direito

É claro, como já disse, que o diploma não é garantia de qualificação, mas é a tal coisa, se com o canudo já é difícil arranjar trabalho num mercado atrofiado e saturado, o que dirá com uma liberação que tende a aviltar ainda mais uma profissão já tão prostituída. Nada contra os que os que conquistaram seu espaço por méritos pessoais, ou como autodidatas, caso da maioria dos nomes reluzentes do meio jornalístico, mas daí a reduzir o diploma a uma peça meramente decorativa, como fez o Supremo, não deixa de parecer um abuso de autoridade.

Se o argumento da necessidade de desregulamentar a profissão por si só já é discutível, a alegação de cerceamento da liberdade de expressão chega a ser risível. Nem mesmo o fato de a obrigatoriedade do diploma ter sido decretada à época da ditadura justifica uma revogação, a essa altura, muito mais simbólica do que reparadora. Simbólica porque a lei nunca impediu ninguém de ter livre acesso aos mais variados veículos da mídia, de modo que sua supressão acaba sendo retrógrada e desestimulante para os futuros candidatos.

Mais preocupante ainda, a meu ver, é que a decisão vem complementar uma desconstrução ainda mais abrangente, esboçada em dois lances quase simultâneos: primeiro com o tiro de misericórdia na Lei de Imprensa, e agora, com a defenestração do jornalismo como profissão formal e específica. Medidas unilaterais que, isoladamente, estão longe de representar o tal avanço preconizado pela Suprema Corte para embasar decisões que prometem ainda dar muito o que falar. Sim, pois com a situação obviamente mal-resolvida, pela subtração sumária de uma legislação própria, as discussões tendem a se arrastar até que os indispensáveis arranjos sejam feitos. Começando pela restauração do que é de direito de quem não apenas escreve bem, mas investe seu precioso tempo e dinheiro para galgar um espaço que vem sendo cada vez mais usurpado por diletantes de todas as áreas, fazendo com que o jornalismo seja uma espécie da casa da mãe Joana.

Um mero curso profissionalizante

Afinal, ainda que escrita e conteúdo sejam recursos básicos para o desempenho adequado do ofício, sempre há o que se aprender com o ensino especializado, de acordo com as necessidades e exigências de cada setor. Vai daí que de um jornalista não se espera apenas que escreva bem, mas que domine as técnicas de redação, de edição, ética, informática e o escambau. Coisas que se aprende no ensino de… jornalismo. Que não garante nada, mas mostra o caminho das pedras.

É isso que precisa ser reconhecido e valorizado, acima de vaidades e interesses pessoais, mesmo porque nem só da imprensa tradicional vive o jornalismo. Há muito mais jornalistas metidos em funções burocráticas do que sob as luzes dos holofotes e são estes os especialmente prejudicados com o rebaixamento da profissão à condição de mero curso profissionalizante. Ou nem isso.

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Jornalista, Santos, SP

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