Domingo, 21 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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DIRETóRIO ACADêMICO >

A consagração da mídia através do discurso

Por Daniel Magalhães Caumo em 17/03/2009 na edição 529

1 Introdução

Os meios de comunicação, hoje, são um espaço privilegiado nas estruturas sociais. Os grupos que conseguem acessá-los com freqüência têm um poder maior de convencimento e de transformar os seus problemas em questões centrais na política, menos por ocupar o espaço privilegiado em relação aos demais grupos, que pelo caráter de representação da realidade e pela função de formação da opinião pública que são conferidos à mídia, não de forma unânime, mas de forma hegemônica. A conseqüência disso é que se tornou um espaço bastante disputado; sejam partidos políticos, grupos econômicos, igrejas ou instituições, todos querem fazer parte da realidade midiática e, através dela, tornar seus discursos presentes na realidade material.

A concorrência transforma os meios de comunicação em um espaço de trocas determinadas por interesses econômicos, políticos e ideológicos; assim, factível a ilegalidades, corrupção e abusos de poder não apenas em suas formas explícitas, como também de forma implícita nas escolhas tanto das abordagens da mídia em relação a questões públicas, quanto pelo poder político nas escolhas subjetivas por concessões a determinados canais de comunicação.

Utilizando conceitos da teoria de Marx e Engels, como o materialismo histórico e dialético, este artigo orienta-se, no primeiro momento, em buscar o processo histórico da formação do poder midiático, etapa na qual busca-se entender cada etapa que resultou na sociedade moderna, midiática e multimídia. No segundo momento, analisa-se o material teórico, com destaque para os artigos que compõem o livro "A sociedade do telejornalismo" e fundamentam uma visão crítica da mídia. No terceiro momento é realizada a análise do discurso midiático através de casos práticos, buscando entender como esse legitima, junto à sociedade, a prática da mídia e confere a ela o status de representação da realidade, de detendora da verdade. No último momento, alternativas são propostas para a solução dos problemas que envolvem a mídia e o poder.

2 Processos de formação

A comunicação direta, aquela face a face, é inerente ao ser humano. Estando dois indivíduos, cada um no campo de vista do outro, não são necessárias palavras para que façam julgamentos sobre o outro a partir da forma como aquele se porta, de suas características físicas, das roupas que veste, de seu comportamento, etc. Essa é a forma mais simples e usual de comunicação, é através dela que surge o sentimento de pertencimento ao vincular-se a existência ao local e às pessoas com as quais se convive. Porém, aliena o homem a uma realidade limitada, apenas aquela que está no seu campo de visão. O homem primitivo, que possuía nada muito além dessa forma de comunicação, não por outro motivo, vivia em pequenas tribos, que eram tão maiores quanto a potência da voz de seus líderes, já que nessa situação o poder só pode ser exercido pela presença deles. Portanto o primeiro meio de comunicação político é a voz. Meio que é biológico, portanto intrínseco, já que todo ser humano é dotado de um aparelho fonador e um aparelho auditivo.

Ao descobrir que sua fala pode ser gravada em uma superfície, o homem muda toda a sua existência, inventa a comunicação mediada, primeiramente pintando nas paredes de pedra a sua própria forma e a forma daquilo com que convivia. Essa primeira comunicação, apesar de estática, transforma a temporalidade da comunicação, que se antes era limitada ao período de tempo da enunciação, passa a transpor inclusive o tempo de vida do enunciador. Se hoje historiadores podem, através de símbolos inscritos na pedra, identificar os hábitos do homem primitivo, é devido a essa característica da comunicação midiática. O registro cria uma memória para o homem que permite que suas descobertas atravessem tanto as eras, quanto a própria memória cerebral. Ao escrever um artigo como este, o raciocínio que tenderia ao esquecimento, resiste enquanto durar a matéria na qual foi registrado.

Ao descobrir que a mensagem mediada pode não só modificar o conceito de temporalidade da comunicação, como também o da distância, através do papiro, os líderes conseguem transpor os limites de suas tribos, registrar os produtos da colheita e deles cobrar taxas, dar voz de comando aos exércitos, assim como aos súditos, independente do local em que estivessem. Assim, a arte da escrita era função de uma pequena parcela da população, considerada nobre, que estava intimamente ligada ao líder, como os escribas egípcios. Vale salientar que o exemplo generaliza os processos "civilizatórios", já que temos o exemplo dos incas, que fundaram um império vasto sem a escrita, apenas com um sistema denominado quipus, que era a codificação da mensagem através de cordões de lã coloridos.

Durante os séculos, a comunicação mediada era limitada apenas a quem estava no poder: principalmente aos nobres e à Igreja; assim como utilizada para exercer o poder: leis, decretos, ordens; mas também para fazer hegemônica uma visão de mundo; já que detentores da técnica e dos recursos disponíveis, poderiam controlar o conteúdo registrado e queimar tudo aquilo que não estivesse de acordo com essa visão. Designa a esse poder o nome de simbólico. Junta-se a esse poder o econômico, que é o controle sobre os recursos, sobre o capital; o político determinado pela legitimidade de uma autoridade junto ao povo; e o poder coercitivo originado pela força física e armada (polícia, militares etc.) (THOMPSON, 1998, p. 22).

As quatro formas de poder sempre estiveram coligadas. Porém, a aceleração do comércio na Europa que ocorre a partir do surgimento da burguesia permite a própria ascender enquanto acumula os lucros dessa atividade. Dessa forma, a classe burguesa, de forma exponencial, toma o poder econômico dos senhores feudais na medida em que o capital, e não mais a terra, passa a ser o principal valor econômico. Através dos recursos obtidos e do intercâmbio cultural gerado pelo comércio, a burguesia passa a investir em técnicas mais produtivas a fim de maximizar os lucros; é assim que Gutenberg traz da China a técnica dos tipos móveis e adapta-a ao alfabeto latino, criando a prensa tipográfica. Técnica que permite multiplicar textos com maior velocidade.

No princípio, a tipografia atende ao interesse da Igreja. A primeira edição tipográfica produzida pela prensa de Gutenberg foi uma versão da Bíblia em 1450. Porém, à medida que a técnica se espalha pela Europa, a produção sai do controle da Igreja, tornando-se atividade econômica, e, por conseqüência, o conhecimento transformou-se em produto à venda. À medida que a Igreja perde o controle sobre a produção dos capitais culturais, vê o seu poder simbólico se esvair e recorre então à coerção, que não se demonstra tão efetiva, o que resulta na perda crescente de seu poder. A Reforma Protestante serve como prova:




"Quando, em 1517, Martinho Lutero colocou nas ruas de Wittenberg suas 95 teses denunciando a prática das indulgências e marcando sua ruptura com o papado, as oficinas de impressão garantiram uma difusão espetacular de suas idéias. Pode-se afirmar que essa teria sido a primeira campanha de propaganda utilizando panfletos e cartazes impressos. Os 4.000 exemplares de seu panfleto em alemão À nobreza da nação alemã foram vendidos em poucos dias. Muitas vezes foi dito que a Reforma é filha da impressora" (MONTAIGNE, 2001, p. 114).

A partir da difusão da prensa tipográfica cresce o intercâmbio cultural dentro da Europa tanto entre pensadores dispersos, quanto dos pensadores com o povo. No primeiro momento, há a prática de leitura coletiva, seja de forma cantada pelos trovadores ou na forma convencional, assim "desenvolveram-se grupos de discussões mais ou menos formais, como academias, sociedades científicas, salões, clubes e cafés" (BRIGGS, 2004, p. 40). No mesmo período, os jornais que antes eram utilizados ou para registros de comércio e preços dos produtos vendidos nos portos, ou para divulgação de obras literárias, começam a ser direcionados a públicos específicos e debatidos em cafés:




"A variedade de estabelecimentos atendia a diversos tipos de clientes e diferentes tópicos de conversação. Podiam-se presenciar discussões de assuntos científicos no café Child´s, no Garraway ou no Grecian, onde era possível ver e ouvir Sir Isaac Newton (1642-1764)2. Discutiam-se seguras no Lloyd´s, que era um café até no fim do século 18, o café Slaughter´s era o local de um grupo de artistas que compreendia William Hogarth (1697-1764). No século 18, em Paris, os principais cafés incluíam o Café de Maugis, um centro de ataques à religião, e o Procope´s, fundado em 1689 (e ainda funcionando), era freqüentado pelos principais intelectuais do Iluminismo, como Denis Diderot (1713-84). Em várias cidades, as autoridades, preocupadas com a possibilidade de os cafés estimularem comentários subversivos sobre o governo, mantinham-nos sob vigilância" (BRIGGS, 2004, p. 40).

Apesar da predominância da elite burguesa nesses grupos de discussão, o discurso contrário ao sistema social vigente chega ao restante da burguesia e aos camponeses, o que tornou possível a Revolução Francesa e a reconstrução das estruturas sociais. Através de ideais como os de "Liberté, Egalité, Fraternité", de autoria de Jean-Jacques Rousseau, proferidos pelo povo que se reconhece a partir de então como soberano, a idéia de poder real deixa de ser legítima. Para isso, Rousseau também contribui com a idéia do poder legítimo apenas quando originário da vontade geral, que é a vontade do povo. Assim, surge o modelo de democracia moderna.

No segundo momento, em conseqüência do primeiro determinado pela divulgação dos textos orais, inicia-se a alfabetização e a formação laica de público para os textos literários, jornalísticos e acadêmicos. Inicialmente, o processo ocorre lentamente, mas acelera-se conforme o crescimento das cidades e criação de instituições de ensino. Isso provoca um interesse crescente no mercado cultural. Sobre isso Thompson escreve:




"A transformação das instituições da mídia em interesses comerciais de grande escala é um processo que começou no início do século 19. É claro que a comercialização dos produtos da mídia não era um fenômeno novo; as primeiras impressoras, como já vimos, eram principalmente organizações comerciais orientadas para a mercantilização de formas simbólicas. Mas no curso do século XIX a escala de comercialização aumentou significativamente. Isso se deveu em parte às inovações técnicas na indústria da imprensa, e parte à transformação gradual da base de financiamento das indústria da mídia e seus métodos de valoração econômica. As inovações técnicas, como o desenvolvimento da prensa a vapor de Koenig e, conseqüentemente, a prensa rotativa, aumentaram grandemente a capacidade reprodutiva da indústria gráfica. Elas permitiram a produção de jornais e outros materiais impressos dentro de um conjunto de processos modernos que incluíam o uso de maquinaria elétrica, a divisão ramificada do trabalho dentro do sistema industrial etc. – que estavam revolucionando outras esferas da produção de mercadorias. Ao mesmo tempo muitas sociedades ocidentais experimentaram um substancial crescimento da produção urbana e, durante a segunda metade do século 19, um declínio significativo das taxas de analfabetismo, de modo a favorecer uma constante expansão do mercado de impressos" (THOMPSON, 1998, p. 73).

O segundo momento, como o autor indica, é conseqüência da Revolução Industrial, que provocou a aceleração das capacidades produtivas através de novas tecnologias. A percepção de que a pesquisa científica era a causa de tais avanços só fez crescer o interesse pela educação, principalmente das famílias burguesas que visavam maximizar suas produções e lucros. A imprensa adotou o modelo industrial de produção:




"À medida que a indústria gráfica foi se tornando mais industrializada e o mercado foi se expandido, a sua base de financiamento começou a mudar. Enquanto os jornais do século 17 e 18 tinham como alvo principal um setor restrito da população mais influente e mais instruída, a indústria de jornais dos séculos 19 e 20 se dirigiu para um público cada vez mais vasto. A evolução tecnológica e a abolição dos impostos permitiram reduzir os preços, e muitos jornais adotaram um estilo de jornalismo mais leve e mais vivo, como também uma apresentação mais atraente para alargar o círculo de leitores. Com o aumento do número de leitores, a propaganda comercial adquiriu um importante papel na organização financeira da indústria, os jornais se tornaram um meio vital para a venda de outros bens e serviços, e sua capacidade de garantir receita através dos anúncios ficou diretamente dependente do tamanho e do perfil de seus leitores" (THOMPSON, 1998, p. 73).

Assim, a mídia transforma-se em um grande mercado no qual a disputa é pela audiência que tende a se concentrar em poucas grandes organizações, à medida que o público confere maior reconhecimento aos grupos de comunicação mais conhecidos e à medida que técnicas cada vez mais caras passam a fazer parte do processo, como as mídias eletrônicas: rádio, televisão e internet. Interessante notar que o primeiro canal de televisão no Brasil surge como parte do Grupo Diários Associados, de Assis Chateaubriand, maior conglomerado privado de comunicação do Brasil e um dos maiores do mundo na época.

A mídia transformando-se em um espaço de propaganda comercial, alia dois poderes: o comercial e o simbólico; enquanto os poderes político e coercitivo são indissociáveis, apesar do poder político não justificar o pleno uso do coercitivo. Dessa forma, organizam-se as questões que envolvem o poder na atualidade.

3 Questões teóricas

Enquanto a mídia predominante era a impressa, a variedade de discursos era mais provável, já que os recursos para produzir um periódico, como a prensa tipográfica, o papel imprensa e a distribuição são acessíveis a qualquer um que tenha condições de financiá-los ou organizar-se em grupo que possa fazer o mesmo. Porém, à proporção que as mídias eletrônicas, principalmente a televisão, passam a dominar a produção do conteúdo, essa variedade torna-se improvável; já que os espaços são limitados e concessionados pelo poder político, o que pode restringir a mídia a atender interesses políticos do poder vigente. Essa situação favorece os jogos de interesse entre os políticos que buscam reconhecimento através do poder simbólico da televisão e dos grupos de comunicação que buscam a permanência dos espaços obtidos. Porcello esclarece a questão no artigo "Mídia e poder: os dois lados de uma mesma moeda" que compõe a coletânea "A sociedade do telejornalismo": Nascidas à sombra do poder, as emissoras de TV no Brasil foram criadas, cresceram e mantêm-se, até hoje, dependendo de verbas e concessões oficiais. Mas contam, também, com a necessidade dos governos de usar a mídia como espaço político (PORCELLO, 2008, p. 48). E exemplifica com casos de concessões irregulares feitas pelo governo federal a redes de televisão que estão no ar:




"Em 1965, 15 anos depois da chegada da televisão no Brasil, foi inaugurada a TV Globo – canal 4, do Rio de Janeiro. Porém, a emissora só conseguiu ser viabilizada graças a um acordo de cooperação técnica e financeira com o grupo norte-americano Time-Life, que se constituía num flagrante desrespeito à legislação brasileira. O acordo fora assinado em 1962, mas, depois do golpe militar de 1964, apesar dos resultados de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), que comprovou a irregularidade da medida, nada foi feito para evitá-lo. Em 1968 o general Costa e Silva encerrou o caso, apesar da evidência de operação ilícita. Aí começava uma relação muito próxima entre a Rede Globo e o poder militar" (PORCELLO, 2006, p. 53).

Também pelo exemplo:




"Como já foi dito, o SBT também começou muito próximo do poder. O presidente Geisel assinou o Decreto nº 76.488, em 22 de outubro de 1975, concedendo o canal 11 de São Paulo ao empresário Sílvio Santos (Senor Abravanel). A emissora começou chamando-se TV Studios Sílvio Santos – Cinema e Televisão Ltda. Em despacho assinado dia 14 de outubro de 1975 (uma semana antes do decreto que autorizou a concessão do canal), o então ministro das comunicações, Euclides Quandt de Oliveira, justificava que Sílvio Santos deveria ser o escolhido na concorrência com o Grupo Bloch, com a TV Gazeta e com o Grupo O Dia, também pretendentes a obter a concessão. O ministro afirmava que `ele tem boas condições financeiras, tem experiência no setor e não traz dificuldades para os órgãos do governo. Sempre coopera quando necessário´" (PORCELLO, 2008, p. 61).

As questões levantadas por Porcello demonstram o jogo de poder que surge pelos interesses que os grupos de comunicação têm na política, concessões e compras de espaços para propaganda política não gratuita, assim como propaganda governamental; e os interesses que os políticos tem em usar a televisão como espaço de auto-promoção em busca de aprovação junto à opinião pública. E são as emissoras exemplificadas duas das maiores do país.

O poder político é justificado pelo sufrágio universal. Mas o que justificaria o poder simbólico obtido pela mídia? Além do processo histórico verificado na seção anterior, é importante analisar a presença dos meios de comunicação na sociedade moderna. Porém, antes de esclarecer, evidencio que defendo a posição de que o poder simbólico é primeiramente um instrumento subordinado ao poder político, posteriormente emerge com o advento da imprensa; enquanto o poder midiático surge dentro do poder simbólico, para emergir com o advento nas mídias eletrônicas, principalmente a televisão.

O surgimento do poder midiático além do simbólico não transforma esse num poder superior, mas num poder centralizador. A abordagem aqui apresentada tem como referência o conceito de lugar de referência defendido por Alfredo Vizeu e João Carlos Correia no artigo "A construção do real no telejornalismo: do lugar de segurança ao lugar de referência". "O telejornalismo representa um lugar de referência para os brasileiros muito semelhante ao da família, dos amigos, da escola, da religião e do consumo" (VIZEU, 2008, p. 12). Porém, esse local de referência que o telejornalismo e a televisão ocupam é central já que está presente na quase totalidade das residências brasileiras e é acessada em média três horas e meia por dia (VIZEU, 2008, p. 50). Portanto, a televisão é um meio central na construção da noção de realidade, o que não desqualifica os demais lugares de referência para a mesma função. Para entender o fato é só verificar que os grupos de maior influência atualmente possuem ou disputam espaços na TV. Os partidos políticos dedicam a maior parte da verba publicitária para a televisão e é para ela que eles se preparam mais, seja para a gravação da propaganda veiculada no horário eleitoral gratuito, seja para os debates que saíram da praça pública para a linguagem midiática; a praça pública não é mais tão ocupada por comícios em período eleitoral quanto antes, já que os políticos vêem na televisão instrumento que acessa quantidade maior de pessoas e ao qual confere-se o status de difusor da realidade.

Voltando à questão, o poder simbólico obtido pela mídia, entendido nesse artigo como poder midiático, é justificado pela função a ela atribuída na sociedade contemporânea. Primeiramente o de que telejornalismo é um retrato da realidade, visão não mais predominante entre os pesquisadores, mas ainda amplamente defendida por telespectadores e profissionais, que confere um status de realidade a tudo o que aparece na televisão, assim, se apareceu na TV é porque existe. Grande parcela dos profissionais ainda acreditam na imparcialidade e na objetividade de seus trabalhos, através do distanciamento dos fatos; porém estes são conceitos que não passam de mitos; já que as pautas são determinadas por critérios subjetivos, seus enunciados correspondem a um discurso ideológico que é moldado dentro de um campo profissional que faz o jornalista enxergar a realidade conforme os critérios dessa área. Assim, não reproduz a realidade, mas a refrata, ou seja, o jornalista utiliza óculos que permite enxergar certas coisas, mas outras não (BOURDIEU, 1997). Além disso, a televisão é um espaço limitado, o que permite, segundo Bourdieu, que aqueles que detêm o poder sobre ela criem uma censura invisível:




"Mas volto ao essencial: afirmei ao começar que o acesso à televisão tem como contrapartida uma formidável censura, uma perda de autonomia ligada, entre outras coisas, ao fato de que o assunto é imposto, de que as condições da comunicação são impostas e, sobretudo, de que a limitação do tempo impõe ao discurso restrições tais que é pouco provável que alguma coisa possa ser dita" (BOURDIEU, 1997, p. 19).

Mas que mesmo ao mostrar alguma coisa, a televisão pode não estar mostrando:




"Insisti no mais visível. Desejaria dirigir-me para coisas ligeiramente menos visíveis mostrando como a televisão pode, paradoxalmente, ocultar mostrando, mostrando uma coisa diferente do que seria preciso mostrar caso se fizesse o que supostamente se faz, isto é, informar; ou ainda mostrando o que é preciso mostrar, mas de tal maneira que não é mostrado ou se torna insignificante, ou construindo-o de tal maneira que adquire um sentido que não corresponde absolutamente à realidade" (BOURDIEU, 1997, p. 24).

Quanto à defesa que os profissionais fazem pela imparcialidade e objetividade inerente a boa prática da profissão, argumento que é baseado numa noção de reificação3 do homem em sua prática profissional, noção que desqualifica o homem da condição de ser humano e de suas qualidades subjetivas.

Outra questão que determina o status de fotografia da realidade atribuído à televisão é o de polifonia, que Sean Hagen, no artigo "Jornalismo, mito e linguagem: uma abordagem teórica dos apresentadores-estrela", atribui ao conceito de mapas culturais:




"Os `mapas culturais´ em que o jornalismo se expressa reforçam a perspectiva de que esse campo não se constitui em um discurso de `primeira mão´, já que incorpora a fala de outras áreas. É nessa interação de códigos, vozes e signos que acontece o discurso jornalístico. Ao proclamar como legítima e constitutiva de sua formação essa "apropriação" de múltiplas vozes, o fazer jornalístico se apresenta como genuíno detentor do espaço que ocupa, onde a falta de uma linguagem "original" é substituída pela fala de vários campos, resultando que o tom do discurso jornalístico, evidentemente, é dado pela perspectiva de enunciação. Por mais diferentes que sejam as trajetórias ou formações, é ao ocupar esse espaço que os jornalistas se reconhecem como tais ao falar pela voz de um enunciador único: o jornalismo" (HAGEN, 2008, p. 35).

A forma como o discurso midiático é constituído objetiva legitimar a sua própria prática, o que será visto na próxima seção. Isso resulta numa noção de imparcialidade, objetividade e ausência de motivação (ideológica) de seus produtores; a isso contribui o fato da televisão exercer um papel pedagógico reconhecido pela sociedade, que torna a ideologia implícita no seu discurso tida como realidade indiscutível. O que gera um fenômeno de agendamento dos assuntos públicos4. Os temas abordados pelo jornalismo são aqueles aos quais o público confere o critério de que são os mais importantes para o debate; assim a própria mídia determina sobre quais assuntos o público deve pensar.

A criança que tem como primeira referência de mundo a televisão socializa – aqui uso o termo utilizado por Berger e Luckmann no livro A construção social da realidade –, portanto, uma realidade construída através da edição de imagens e sons, são esses os sentidos mais valorizados pelo homem contemporâneo. Esse indivíduo confere às imagens televisivas o caráter de prova do discurso que a TV defende, independentemente da edição e produção de eventos que só fazem sentido na própria mídia. Se esse indivíduo quer ser visto, planeja um evento sensacionalista que possa seja espetacularizado em imagens, assim, após chamar a atenção da mídia para um edifício em chamas, joga outro avião no edifício vizinho para que a televisão mostre a ação propriamente dita, com isso convoca todo o mundo a escutar o que quer dizer. Da mesma forma, um rapaz, que quer chamar a atenção de todos para o seu sofrimento, seqüestra a ex-namorada, que o abandonou e é causadora do sofrimento, por tanto quanto for o tempo que a mídia se dedicar a escutá-lo e mostrá-lo. Ou um grupo de pessoas, que não consegue fazer a população saber o problema que representa o plantio de mudas de eucalipto, ataca o edifício no qual essas mudas estão e viram pauta para o jornalismo.

Essas questões levantadas são apenas algumas das muitas que explicam como o poder midiático legitima-se junto ao público, na seção a seguir casos práticos serão analisados.

4 Análise do discurso

Durante o período de concepção desse artigo, analisou-se a programação da televisão a fim de aplicar a teoria aqui abordada. A partir da observação, novas questões foram levantadas quanto ao uso do discurso midiático, que são associadas a exemplos utilizados por outros pesquisadores da área. A observação foi feita sobre a forma como a Rede Globo de Televisão, que possui a maior audiência dentre as redes de televisão do Brasil, legitima-se junto a seu público. Porém, outras redes de televisão não deixaram de ser analisadas durante o processo. As percepções aqui descritas são características que diferenciam a emissora da suas concorrentes e caracterizam o seu Padrão Rede Globo de Qualidade.

A primeira questão analisada é a da auto-referência, a forma como os enunciadores se referem a própria TV. No dia 02 de outubro de 2008, quinta-feira, três dias antes das eleições, a Rede Globo de Televisão realizou os seus debates com os candidatos às prefeituras das maiores cidades brasileiras. A estrutura dos debates foi organizada a fim de que ficassem apenas os principais candidatos, não ultrapassando seis, eliminando os candidatos que tivessem a menor quantidade de votos. No entanto, há um decreto que determina que os debates só podem ocorrer se os candidatos que não forem chamados aceitarem que o evento ocorra, regra lógica se tomar o conceito de igualdade que faz parte do modelo democrático. Porém, durante a edição do Jornal Nacional do mesmo dia, William Bonner explica o fato da seguinte maneira:




"Em São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Fortaleza, São Luís, Itabuna, Pelotas, Anápolis, Maringa e Londrina não haverá debates por causa de restrições à liberdade de imprensa (grifo meu) impostas pela lei eleitoral. Ela obriga que todos os candidatos de partidos com representação na Câmara dos Deputados sejam chamados para os debates, mesmo aqueles com índices inexpressivos (grifo meu) nas pesquisas. Para que o número de convidados não exceda os cinco ou seis que aparecem com maiores intenções de voto, a lei exige que haja um acordo com os candidatos. Foi isso que as emissoras da Rede Globo tentaram até o início desta semana. Para que os candidatos de menor densidade abrissem mão do debate, a Globo ofereceu uma cobertura nos telejornais maior do que aquela a que fariam jus se fossem levados em conta apenas critérios jornalísticos. Essa cobertura ampla já foi ao ar. Mesmo assim, não houve acordo. Por isso, o debate não se realizará nas cidades citadas. A Rede Globo lamenta (grifo meu) que essas restrições da lei eleitoral a impeçam de promover um evento valioso para a democracia (grifo meu) e espera que a sociedade e seus representantes reflitam sobre a questão" (GLOBO.COM, 2008).

Esse discurso revela claramente a visão que a Rede Globo promove de si própria e da sociedade. Posiciona-se sobre as leis, designando as decisões da justiça eleitoral como "restrições à liberdade de imprensa" que impedem a própria de "promover um evento valioso para a democracia"; porém é a própria Rede Globo a primeira a restringir, a uma parcela dos candidatos, a liberdade de ir à imprensa. O conceito de liberdade de imprensa é amplamente utilizado, tornando o modelo ideal aquele que não restringe a prática da emissora, que é uma empresa e, portanto, tem interesses econômicos; interesses que, geralmente, se diferem dos sociais e, conseqüentemente, são ilegítimos. Quanto à "promoção de um evento valioso para a democracia", a emissora qualifica o seu trabalho como sendo algo benéfico para a democracia, mesmo que ele interfira na igualdade que esse modelo deve possuir, além de qualificar o seu espaço independentemente das questões abordadas. O discurso é finalizado com a sugestão da Rede Globo de que sua posição está correta e que cabe à sociedade e seus representantes refletirem sobre a questão. A Globo, através do seu discurso, posiciona a sua prática acima de todas as questões legais da sociedade, assim, o público que a ela dá credibilidade aceita que o telejornalismo por ela praticado esteja além de decisões "arbitrárias" tomadas pelos representantes determinados pelo sufrágio universal.

Essa escolha apenas pelos candidatos que estão à frente em pesquisas de intenção de voto, demonstra também o interesse na conservação do poder daqueles grupos que já o detêm, em detrimento dos partidos de oposição. O que também ocorre com o uso freqüente dos resultados de pesquisas de intenção de voto nos telejornais. Na noite do dia 04 de outubro de 2008, sábado, a poucas horas da eleição, a emissora divulgou essas pesquisas no Jornal Nacional. Ao mostrar quem são os líderes das pesquisas, a Rede Globo diz em quem os eleitores indecisos devem votar, ao mesmo tempo em que diz que os eleitores que tem intenção de votar em um candidato com um índice baixo nas pesquisas estará deixando de participar da "verdadeira" disputa, que é aquela entre os candidatos que têm "real" condição de se eleger em primeiro turno, ou disputar as vagas do segundo turno.

Antônio Fausto Neto também identifica no discurso da Rede Globo, proferido também por William Bonner, no debate do primeiro turno das eleições presidenciais de 2006, a visão de que a emissora é superior aos candidatos à presidência e ao seu público:




"`E assim nós terminamos nosso debate. […] Eu agradeço aos três […] pela forma como se comportaram aqui diante do público. Agradeço a você que nos acompanhou até agora e conheceu melhor as propostas desses três cidadãos brasileiros que pretendem governar o país nos próximos quatro anos […]´ disse Bonner, fechando a emissão" (NETO, 2006, p. 151).

Segundo Neto, Bonner assume um papel de "mestre de cerimônia", advertindo todo o tempo o público e os candidatos sobre as regras e ameaçando-os caso não as cumpram. Ele ainda finaliza recompensando os candidatos pelo bom comportamento, como se fosse papel dele julgá-los. No mesmo dia, Luiz Inácio Lula Silva não compareceu ao debate e a Globo deixou uma cadeira no cenário com o seu nome para a qual os candidatos poderiam fazer perguntas, ferindo a ética.

Em seu artigo, Porcello destaca:




"A ideologia do poder dominante, por exemplo, está expressa naquilo que o JN exibiu aos seus telespectadores em edições apresentadas nos principais momentos da eleição de 2002. Mas, para dar uma breve idéia do que a TV já fez em passado recente, é oportuno lembrar que na edição de 28 de outubro de 2002, dia seguinte à vitória, Luiz Inácio Lula da Silva participou durante 75 minutos da transmissão do Jornal Nacional, da Globo. Sentado na bancada, ao lado dos âncoras, ele respondeu perguntas, ouviu elogios, pedidos. Em vários momentos foi chamado de `trabalhador´, `carismático´ e `o barbudo que não assusta mais´. E viu na tela passarem imagens que resgatavam momentos de seu passado, como protestos, manifestações, assembléias de operários e mesmo sua prisão pelo regime militar. Ou seja, a Globo tratava Lula como um herói por ter resistido à ditadura, mantido suas convicções e ter sido eleito presidente. Mas de que lado estava a Globo quando Lula era preso? Ou seja, o que Lula e os brasileiros viam naquela noite na tela de TV eram imagens de um passado que, nos anos 70, quando eram presente no Brasil, não passavam na Globo. É preciso questionar essa capacidade que a TV tem de montar e remontar o passado segundo as conveniências da ocasião" (PORCELLO, 2008, p. 68).

A questão observada por Porcello é outra característica do discurso da Rede Globo para legitimar a sua presença na sociedade. É a eliminação de toda a relação histórica entre a emissora e o enunciado. Assim, a rede de TV atribui a si própria uma atemporalidade que justificaria qualquer que fosse a sua posição, o que pode levar a Globo a mudar de posição sempre que lhe for favorável, como pode ser verificado nas referências negativas que a emissora faz hoje, principalmente na produção de teledramaturgia, ao regime militar. Da mesma forma que não faz referência ao seu apoio a Collor quando candidato à presidência.

Outra forma de legitimação de suas práticas e conteúdos é o uso de um jogo de distorção dos limites entre o real e o ficcional, através da formação de símbolos semelhantes tanto em seus programas de dramaturgia quanto nos jornalísticos. A Rede Globo aborda determinado tema nos noticiários, a seguir leva-o para uma novela ou série. Esse processo faz o público identificar a novela como "legítima". Os temas das novelas passam a ser debatidos pelo público, assim o uso freqüente e desproporcional dos mesmos nos telejornais é aceito. Isso já podia ser visto durante a novela O Clone quando as notícias e reportagens sobre clonagem eram mais freqüentes na pauta jornalística, ou durante a novela América, quando a emissora produziu reportagens de imigrantes que cruzam ilegalmente a fronteira dos Estados Unidos ou vão de Cuba à Flórida em embarcações precárias (cena que foi retratada na novela).

Durante o período de observação deste artigo foram notados dois exemplos. O primeiro ocorreu no dia 09 de outubro de 2008, quinta-feira, três dias antes do feriado de Nossa Senhora Aparecida, quando o Jornal Nacional fez uma matéria de grande duração, comparada às demais, sobre as pessoas que, para pagar promessas, vão de suas casas à cidade de Aparecida a pé. No mesmo dia, na série A Grande Família, a personagem interpretada por Marieta Severo faz uma promessa de ir à Aparecida a pé e tem que cumpri-la.

O segundo exemplo ocorreu na edição do programa Fantástico do dia 12 de outubro de 2008, quanto a emissora dedicou quase sete minutos a uma matéria sobre festas de debutantes de adolescentes de classe A, incluindo histórias de meninas que queriam em suas festas strip tease masculino, tigres, cavalo branco, baile funk etc. "Já conseguimos gastar R$ 1 milhão numa festa com duas grandes atrações de artistas brasileiros, grandes nomes", disse um promotor de eventos, desconsiderando o fato de que a maior parte das famílias brasileiras nunca conseguiram atingir essa renda, mesmo trabalhando durante toda a vida. A matéria dedicada a mostrar as extravagâncias da classe A pode ser mal vista pela maior parcela do seu público que é composto de outras classes; porém, a Rede Globo não deixa de mostrar uma visão capitalista de um evento social (em momento algum mostram qualquer adolescente cuja família não tem recursos para promover uma festa luxuosa), mas recorre ao humor para amenizar a tensão que a matéria pode causar; já que o quadro posterior é um esquete com a atriz Ingrid Guimarães que interpreta uma modelo que dá, de forma bem humorada, conselhos às meninas que estão passando para a vida adulta.

Esse jogo de distorção dos limites entre realidade e ficção foi percebido no artigo de Esther Hamburger "Política e Novela", escrito para o livro A TV aos 50 – Criticando a televisão brasileira em seu cinqüentenário:




"Nessa trajetória, as novelas foram diluindo as barreiras formais que as separam de outros gêneros televisivos como o telejornal, o documentário e o reality show. A intervenção política e social da novela gera paradoxos, demonstra a polissemia do texto e a dificuldade de sintetizar o significado de programas específicos a partir de supostos conteúdos ideológicos. Uma novela em particular, O Rei do Gado, produzida e exibida pela Rede Globo de Televisão em 1996, constitui o exemplo mais recente e, em certo sentido, talvez o mais radical de uma novela que interveio na conjuntura política brasileira. Em vez de mobilizar símbolos, cores ou canções nacionais, repertório presente em novelas anteriores, como fizeram Roque Santeiro, Vale Tudo, O Salvador da Pátria e Deus nos Acuda, entre outras, essa novela incorporou a luta contemporânea pela reforma agrária. Ao fazê-lo, O Rei do Gado ganhou não só a primeira página dos principais jornais diários – feito que novelas anteriores já haviam conquistado –, mas também espaço em suas páginas políticas e editoriais" (HAMBURGER, 2000, p. 27-28).

Destaca-se que a grade de horário da Rede Globo é intercalada por novela, telejornal local, novela, telejornal nacional, novela, séries ou filmes e telejornal nacional. Se os temas das novelas e do telejornalismo coincidem-se, torna-se mais difícil delinear o limite entre o conteúdo da teledramaturgia e o conteúdo do telejornalismo. Posteriormente, Esther Hamburger destaca:




"A interação entre personagens da novela, atores e ativistas políticos não se limitou à interlocução virtual entre um senador real e um de ficção por intermédio da televisão e do jornal. Outros senadores e ativistas políticos tomaram parte do `pluriálogo´ gerado pela novela. Das muitas interações entre a novela e os políticos, a performance dos senadores Benedita da Silva (RJ) e Eduardo Suplicy (SP), do Partido dos Trabalhadores, anunciada na imprensa com antecedência se destaca" (HAMBURGER, 2000, p. 28).

Se a novela insere personagens reais entre os ficcionais, sendo os reais participantes da vida política e pauta do telejornalismo, ficção e realidade tornam-se indissociáveis e o roteiro de dramaturgia e texto jornalístico se confundem.

O último exemplo é a matéria veiculada no Jornal da Globo no dia 14 de outubro de 2008, sobre um "homem do tempo" de um telejornal estadunidense que pede em casamento a apresentadora do telejornal de outra emissora, enquanto este estava no ar. A matéria, com tom de humor, demonstra qualquer descomprometimento com o contrato tácito de objetividade que o jornalismo e a mídia faz com o seu público, além de premiar a desobediência de um jornalista a sua função social através da justificativa emocional.

5 Avaliações e proposições

A mídia, como foi visto, detém grande poder e lugar privilegiado na sociedade, porém esse espaço é tido como espaço público conforme a constituição, por conseqüência, a função das empresas que obtêm a concessão desses espaços é a de fornecer informações de utilidade pública, o que não ocorre. Por um lado, a mídia atende, predominantemente, a interesses econômicos, tanto os próprios, quanto os das empresas que financiam suas atividades; por outro, as concessões são usadas como moeda política pelos governantes. Os espaços são cedidos ao próprio setor político e grandes grupos econômicos a fim de obter vantagens. Assim, as leis ligadas ao setor não progridem, tendem ao contrário. Sarney, a fim de aumentar um ano de seu mandato político, faz concessões de canais de televisão e rádio a muitos políticos que compõem a Assembléia Legislativa. Fernando Henrique Cardoso altera a legislação relacionada para a privatizações das telecomunicações. Luiz Inácio Lula da Silva nomeia seus parceiros políticos para dirigir os canais de televisão públicos. Enquanto os que já obtiveram concessões abusam desses espaços e do poder por eles obtidos. Qual seria então a solução para essas questões?

A primeira alternativa refere-se à necessidade de educação do público quanto à verdadeira função das concessões de mídia, assim como seus limites; a fim de se obter um público mais crítico, já que grande parcela da população desconhece essas informações.

A segunda alternativa é a expansão de grupos de análise do discurso midiático, como o Observatório da Imprensa, creditando espaço a eles em proporção adequada e de forma garantida pela lei dentro dos próprios espaços da mídia televisiva, para que, assim, a população tomasse conhecimento de que a mídia não é detentora da verdade, muito menos de maneira imparcial. O debate seria benéfico também às instituições de comunicação, já que na própria mídia haveria a sua crítica, mas prejudicaria os interesses econômicos dos grupos comunicacionais.

As duas alternativas dizem respeito à modificação da visão que se tem dos meios de comunicação de massa, que deve ser feita através da análise do discurso midiático. Essa alteração, que pode vir tanto do público para a mídia, quanto da mídia para o público, dedicando espaços para os críticos, ou concomitantemente, exigirá critérios mais precisos e posições ideológicas mais claras dos produtores da informação.

Referências

BOURDIEU, Pierre. Sobre a televisão. 1ª ed. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1997, 144 p.

BRIGGS, Asa; BURKE, Peter. Uma história social da mídia: de Gutenberg à internet. 1ª ed. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2004, 380 p.

CORREIA, João; VIZEU, Alfredo. A construção do real no telejornalismo: do lugar de referência ao lugar de segurança. In: VIZEU, Alfredo (Org.) et al. A sociedade do telejornalismo. 1ª ed. Petrópolis, Vozes, 2008, p. 11-28.

HAGEN, Sean. Jornalismo, mito e linguagem: uma abordagem teórica dos apresentadores-estrela. In: VIZEU, Alfredo (Org.) et al. A sociedade do telejornalismo. 1ª ed. Petrópolis, Vozes, 2008, p. 29-45.

HAMBURGER, Esther. Política e novela. In: BUCCI, Eugênio (Org.) et. al. A TV aos 50 anos – Criticando a televisão brasileira em seu cinqüentenário.1ª ed. São Paulo, Fundação Perseu Abramo, 2000, p. 25-48.

MONTAIGNE, Michel de. "O livro é a melhor munição que encontrei para esta humana viagem.". In: GONTIJO, Silvana. O mundo em comunicação. 1ª ed. Rio de Janeiro, 2001. p. 100-135.

NETO, Antônio Fausto. O discurso político entre recusas e controles das estratégias enunciativas midiáticas: observações sobre a midiatização da campanha eleitoral de 2006. Revista Galáxia. São Paulo, nº 11, p. 143-165, jun, 2006.

PORCELLO, Flávio. Mídia e poder: os dois lados de uma mesma moeda – A influência política da TV no Brasil. In: VIZEU, Alfredo (Org.) et al. A sociedade do telejornalismo. 1ª ed. Petrópolis, Vozes, 2008, p. 46-79.

THOMPSON, John. A mídia e a modernidade: uma teoria social da mídia. 8ª ed. Petrópolis, Vozes, 1998, 264 p.

OUTRAS FONTES

Fantástico. Festa de debutante com direito a Mulher-Filé. Disponível aqui. Acesso em 13 de outubro de 2008.

Jornal da Globo Um incrível pedido de casamento. Disponível aqui. Acesso em 15 de outubro de 2008.

Jornal Nacional. Não haverá debates em algumas cidades. Disponível aqui. Acesso em 10 de outubro de 2008.

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Estudante do curso de Comunicação – Jornalismo, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre – RS

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