Sábado, 15 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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DIRETóRIO ACADêMICO >

A diferença entre informar e criar conhecimento

Por Luciano Martins Costa em 04/03/2008 na edição 475

Alguns leitores que dependem do noticiário da imprensa para tomar decisões profissionais se queixam de que os jornais não oferecem material adequado para análises seguras. Não se trata da quantidade de dados, que fluem em profusão pelos sites especializados da internet, mas da informação de base, que permite a formulação de opiniões e a contextualização dos dados.

Como é impossível rastrear tudo que se oferece na rede, mesmo quando o usuário conta com uma seleção de boas fontes sempre fica a sensação de que, no momento de decidir, falta segurança, queixam-se esses profissionais.

Até alguns anos atrás, os jornais costumavam fazer reportagens de atualização sobre temas específicos que sempre estão presentes no noticiário. Eram verdadeiros balanços temáticos, que ajudavam os leitores mais exigentes a manter uma reserva de conhecimento, essencial na contextualização dos dados. Era um recurso de grande valor, principalmente na formação do conhecimento sobre a evolução da economia, dos indicadores sociais e do cruzamento entre dados de natureza diversificada. No noticiário político, por exemplo, esses elementos são essenciais para o entendimento de propostas de legislação e nos debates sobre a formulação das políticas públicas.

Rankings e pesquisas

Essa prática foi progressivamente substituída pela mania dos ‘rankings’ e das consultas de opinião, que os jornais costumam chamar de ‘pesquisas’, apesar de tecnicamente nem sempre ser cabível essa qualificação. Essa mania foi inaugurada e explorada ao máximo pela Folha de S.Paulo, e adotada pelos outros jornais além do limite da responsabilidade.

Pesquisadores acadêmicos e independentes têm trabalho redobrado ao usar informações da imprensa, também porque nem sempre os dados de pesquisas selecionados para compor o noticiário cumprem a função da formação do conhecimento, mas muitas vezes se destinam a justificar manchetes, ou a atender o chamado interesse jornalístico de curto prazo.

As revistas semanais de informação, que teoricamente têm a função de fazer o resumo periódico dos fatos mais relevantes, andaram entusiasmadas com o chamado ‘web design’, e durante certo período da década passada apresentavam nas reportagens uma inflação de quadros coloridos onde cabiam referências que ajudavam o leitor a fazer a ponderação dos números apresentados nos textos. Houve certo exagero no uso desse recurso, principalmente por parte da revista Época, mas ainda assim alguns editores mais preocupados com o longo prazo fizeram bom proveito desse instrumento.

Na verdade, com apoio nas edições online, os profissionais que decidem o que será notícia poderiam oferecer hoje um jornalismo de maior qualidade aos seus leitores, no sentido que tratamos aqui. Mas provavelmente o motivo da queixa de alguns leitores não tem relação com recursos de edição, mas com a estratégia (ou falta dela) da imprensa. O mais provável é que a escolha pela visão de curto prazo e pela criação de manchetes mais atrativas esteja produzindo nos editores certa resignação com a dificuldade, ou a impossibilidade, de conciliar o efeito do imediatismo com a necessária contribuição para a construção do conhecimento.

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