Quinta-feira, 18 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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A diferença que a reportagem faz

Por Monitor de Mídia em 17/08/2004 na edição 290

A grande reportagem é um gênero jornalístico pouco explorado entre os jornais de Santa Catarina. Seja pelos custos que representa ou pela primazia dos fatos do dia, é difícil encontrar textos mais aprofundados, com pesquisa detalhada e pluralidade de fontes. Dizer que o leitor não tempo nem interesse são argumentos facilmente derrubados, pois quando o trabalho é de qualidade chama a atenção do público, mesmo a leitura fique para depois.

Mais recentemente, dois exemplos apontaram como se pode investir em trabalhos de maior profundidade, levantando temas interessantes e enfocando traços da identidade regional. A Notícia trouxe uma série de reportagens, publicada com destaque em edições dominicais, resgatando um ainda pouco conhecido episódio catarinense que se equipara à já tão difundida revolta de Canudos – a Guerra do Contestado – e analisando as heranças desse evento. O Jornal de Santa Catarina, sediado na região mais alemã do país, celebrou a marca de 180 anos de colonização germânica numa coleção de cadernos especiais sobre o tema. Iniciativas distintas, as experiências revelaram acertos e equívocos, mas – acima de tudo – brindaram o leitor com produtos de fôlego, contradizendo a corrente geral de que não vale a pena oferecer mais que o noticiário factual.

Série analisa as heranças de uma revolta sufocada

Nem sempre a necessidade do leitor de jornal é somente a informação diária, a notícia. Muitos fatos escondem uma complexa história, estrutura de interesses econômicos e políticos, que precisam ser detalhados com mais tempo para que os desdobramentos atuais possam ser compreendidos de forma mais completa. A Notícia procurou fazer exatamente isso: contar um pouco da história do Contestado, região disputada primeiramente por Argentina e Brasil e depois por Paraná e Santa Catarina. Mas o foco do jornal não foi simplesmente a história e sim as heranças sociais, políticas e econômicas que até hoje afetam a região. Como ficou evidente na capa do primeiro dia de publicação da série de reportagens (04/07), a ‘Guerra do Contestado servirá de pano de fundo’ para retratar a situação atual dos 29 municípios que compõem a região. As reportagens foram publicadas nos dias 4, 5 e 6 de julho, mas a chamada na capa da edição de 03/07 ‘Leia Domingo – O Contestado’ já alertava o leitor com antecedência.

No primeiro dia, o tema ganhou manchete e editorial. Cobrou-se mais atenção governamental à região, historicamente abandonada. O jornal alertou também para o fato de que apesar de o Sul do país apresentar bons índices de desenvolvimento humano (IDH), também abriga áreas tão pobres quanto as encontradas no Norte e no Nordeste, para onde vão muitos recursos federais. A intenção foi sensibilizar o governo federal para a criação de um fundo de desenvolvimento e infra-estrutura para a região do Contestado, com base num projeto da Câmara Federal que ainda não foi votado.

De forma geral, a série de reportagens foi muito bem feita. Houve pluralidade de fontes, ouvindo-se agricultores, empresários, representantes de diversos órgãos governamentais, reitores de universidades locais, professores, e até mesmo um especialista no assunto, que mereceu entrevista especial no dia 05/07, na página A4. O texto foi mais focado nos aspectos atuais da região. Os dados históricos foram colocados sempre em forma de boxes, nas laterais, o que não deixou a página maçante e cansativa. As imagens tiveram grande destaque. Os três dias de publicação obtiveram bom espaço dentro da edição, sempre em página dupla. Tudo foi muito bem contextualizado. Os dados apurados pelo repórter Jefferson Saavedra demonstram pesquisa de fôlego. No final da leitura, sobressaem-se alguns dados atuais. Dos 29 municípios que compõem a região, somente dois apresentam nível de IDH superior à média estadual. Desde 1970, esses índices não sofrem grande alteração. Cerca de 150 mil pessoas vivem na área do Contestado. Durante a Guerra, as forças pró-governo somaram oito mil homens. Já os rebeldes eram dez mil. Ao final do embate, as baixas entre os soldados somavam entre 800 e 1000, e entre os rebeldes ficaram entre cinco mil e oito mil pessoas.

Suplementos eram mais didáticos que jornalísticos

No Jornal de Santa Catarina, também houve uma preocupação com o resgate histórico, que acabou em vários aspectos sendo bem diferente do realizado por seu concorrente. Os 180 anos de imigração alemã foram tema não de reportagens, mas de textos assinados por outros profissionais num conjunto de cadernos temáticos encartados nas edições do jornal. Apesar da idéia de homenagear os imigrantes contando sua história seja muito interessante e de o jornal ter publicado encartes nessa investida, este Monitor de Mídia entende que textos produzidos pela redação – mesmo que ouvindo as fontes que participaram do especial – seriam mais interessantes para o leitor. Da forma como foram publicados remetem mais à idéia de livros didáticos de história do que propriamente a um produto jornalístico.

No dia 2 de julho, o Santa publica chamada de capa em que avisa: ‘Série semanal de suplementos especiais, publicada com textos em português e alemão, resgata a partir da edição de fim de semana a saga dos imigrantes alemães que desembarcaram na primeira metade do século 19 no Sul do Brasil’. Nas páginas internas, a matéria ‘Pedaço da Alemanha há 180 anos no Brasil’ trata dos encartes. E o texto, assinado, é forte argumento para este Monitor quando defende que o especial deveria ter sido produzido pela redação. Um trecho para exemplificar: ‘Andar pelas ruas de Blumenau é uma viagem pelo túnel do tempo. A passagem, no entanto, traz as datas de hoje no canhoto. Passado e futuro se fundem pelas ruas nos traços físicos da população, no sotaque que revela as origens, nas pistas deixadas pelos sobrenomes e costumes. (…). Indiferente da descendência, é raro encontrar alguém que não tenha se deliciado com Schmiere (…) ou balançado o corpo contagiado pela passagem dos Volkstanzgruppen, os grupos de danças folclóricas, durante os desfiles pela Rua XV de Novembro ou na Oktoberfest’. Mais adiante, porém, o texto esclarece que a série foi ‘idealizada e produzida pelo Comitê de Organização dos Festejos dos 180 Anos de Imigração Alemã no Brasil de Blumenau’.

Na edição conjunta dos dias 3 e 4, o leitor encontrou o primeiro encarte intitulado ‘Os pioneiros’. Nas cinco páginas destinadas a texto, apenas um: ‘Imigração alemã – 180 anos’ que foi escrito pela diretora do arquivo histórico José Ferreira da Silva, Sueli Petry. Como já havia sido apresentado pelo jornal, o texto aparecia em alemão no canto direito da página. Das oito imagens publicadas – entre fotos e ilustração –, apenas a da capa continha referências.

Na sexta-feira seguinte, dia 9, mais uma chamada para a edição de fim de semana e mais matéria sobre os encartes nas páginas internas. Apesar de ser capa do caderno de ‘Geral’ a matéria ‘Caderno registra legado cultural dos alemães’ apenas descreve o segundo volume dos especiais. De informação diferente da encontrada no encarte apenas a história de um marceneiro industriário que ‘quase se perde ao calcular o número de prêmios conquistados em competições de tiro nas sociedades blumenauenses e estaduais’.

O segundo encarte, ‘Manifestações culturais’, é composto por quatro textos, que tratam dos grupos folclóricos de Blumenau e os seus trajes, além dos clubes de caça e tiro da cidade. O texto relativo aos grupos folclóricos explica que ‘vivendo em um país estrangeiro, numa situação extrema, os imigrantes se entregaram às culturas da língua materna. Ao mesmo tempo, as atividades revelam o transporte de uma diferença cultural’. Mais adiante, entretanto, parece confuso: ‘(…) as danças apresentam-se me Blumenau como um visual de outro tempo, de um outro lugar. Faz-se uma citação dentro de um texto, transmite-se algo já dito de um texto a um outro para criar novos significados, mas sem extinguir o significado antigo’. Outro trecho que merece destaque é o seguinte: ‘(…) os grupos folclóricos fazem lembrar essa entidade orgânica e inviolável chamada povo, que se observava nas danças folclóricas alemãs e ao mesmo tempo faz parte dela’. Um erro apontado no primeiro volume não se repetiu nesse segundo: todas as fotos têm os nomes de seus autores publicados.

No terceiro fim de semana de especiais, o tema central foi ‘música e culinária’. As primeiras páginas, destinadas à culinária, são compostas de texto feito por uma pesquisadora de gastronomia alemã. Além da história dos hábitos alimentares dos colonizadores, o leitor pôde conhecer receitas típicas. A música é apresentada também com seus aspectos históricos, mas ‘As bandinhas do Vale do Itajaí’ também têm espaço.

A edição de 24 e 25 apresenta algo diferente do que havia sido publicado até então. Além do encarte que destacava as festas comunitárias, a culinária caseira e a arquitetura, os 180 anos de imigração alemã no Brasil foi manchete. Enviado especial a Berlim relata na matéria ‘A herdeira de uma história de sobrevivência’ como vive Jutta Blumenau, a bisneta do fundador da cidade. Texto bem escrito, com informações interessantes, inicia com uma descrição: ‘São 20h15min do início de uma noite em Berlim. Sentada a uma harmônica de madeira, Jutta Blumenau desliza os dedos pelo mesmo teclado no qual a bisavó Bertha alegrava a casa da família em Santa Catarina na segunda metade do século 18’. As descrições aparecem em outros trechos e, além de conhecer onde e como vive a última descendente do fundador de Blumenau, o leitor pôde ver no infográfico ‘A rota de imigração’ quando, de onde saíram e para onde foram os imigrantes alemães.

Em 30 de julho, o jornal volta a publicar matéria sobre os encartes, com informações do volume que sairia na edição seguinte tratando do ‘silêncio do idioma, além de educação e imprensa’. O tema desse último especial foi gancho para contar a história do menino de 12 anos que estuda alemão: ‘Neto de uma geração impedida por força política de falar, ler e escrever na língua dos imigrantes nas décadas de 30 e 40, Rafael simboliza a retomada do aprendizado de alemão e a liberdade em praticá-lo em rodas de conversa e música’.

O quinto e último volume intitulado ‘Imprensa, educação e o silêncio do idioma’ apresenta ‘A imprensa alemã’, a ‘Perspectiva histórica da educação em Blumenau’ e o ‘Silêncio na escola, na imprensa e igreja’. E o material volta a ter um problema com as imagens. Das 12 publicadas, apenas duas continham a fonte.

Não é possível fazer uma análise desse material sem apontar a publicidade que esteve presente em todos os suplementos. A empresa de telefonia Claro aparece no canto inferior direito de todas as capas, em quatro páginas internas e tem anúncio que ocupa toda a contra-capa. No primeiro volume, os textos foram publicados em alemão. Nos seguintes, todos tinham relação com a imigração alemã. Exemplos: ‘Qualidade de sinal, bons preços e modernidade. Agora, você escolhe a língua que vai usar’; ‘A Claro escuta você. Até quando fala outra língua’; ‘Na Claro o rigor alemão convive com o calor do tratamento brasileiro’; ‘Com trabalho e honestidade o imigrante alemão mudou o Brasil. E com estes mesmos valores, a Claro transforma o mercado de celulares’; ‘Quem quer entrar em contato com a cultura alemã pode contar com a Claro’.

O lugar de um gênero

De maneira geral, a história dos colonizadores pode ser compreendida através dos encartes publicados pelo Santa. Mas seria interessante que todos os textos tivessem ido além do aspecto histórico, que outras fontes tivessem sido ouvidas. Enfim, que as informações publicadas – na sua grande maioria muito importantes – aparecessem de outra forma. Não seria a oportunidade de o jornal apostar em uma grande reportagem, destacando uma equipe para levantar dados de um evento tão importante para aquela região?

O apego do jornal – com sede em Blumenau, cidade conhecida por suas tradições festeiras germânicas – ao tema é bem-vindo, e o leitor é presenteado com um material que vai além do cotidiano da região. Entretanto, os cuidados com a edição do material são extremamente importantes para o resultado final. Se o diário quis ir além, mergulhando e buscando profundidade, um gênero poderia ser resgatado: o da grande reportagem, seja na forma de série ou de caderno temático. Quem sabe em outros oportunidades?

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Projeto de acompanhamento da imprensa catarinense que reúne professores e alunos da Universidade do Vale do Itajaí (Univali); coordenação do professor Rogério Christofoletti (http://www.univali.br/monitor)

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