Sexta-feira, 24 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1038
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DIRETóRIO ACADêMICO >

A entrevista-testemunho: quando o diálogo é possível

Por Francisco Bicudo em 13/06/2005 na edição 333

Acho que falta muito na imprensa, na mídia em geral, o testemunho, a personalidade dizer tudo o que sabe e tudo o que pensa sobre o meio em que está atuando. É preciso coragem e espírito cívico para isso, e a revista tem conseguido despertar nos entrevistados tais sentimentos por meio das ‘entrevistas explosivas’, que estão – sem cabotinismo – fazendo história. Sérgio de Souza, editor-chefe da Caros Amigos

A entrevista é a alma, o coração do bom jornalismo, ponto de partida e momento fundamental para a elaboração de narrativas que articulem histórias e personagens e que sejam capazes de reportar os complexos acontecimentos da contemporaneidade. Por mais que esteja desgastada ou ainda que represente um clichê, essa afirmação sustentará as reflexões que procuraremos estabelecer neste artigo. Afinal, embora possa ser considerada por alguns teóricos e outros práticos do jornalismo como o ‘senso comum, a frase feita e o chavão’, a verdade é que não são raras as vezes em que, no cotidiano da atividade jornalística, essa etapa é simplesmente esquecida ou deixada de lado – o que justifica, portanto, a insistência e lembrança de que não se faz bom jornalismo sem boas conversas com as fontes. Não é por acaso que, em grande parte dos casos, a precariedade das matérias jornalísticas publicadas e veiculadas diariamente pode ser explicada pela má qualidade e evidentes deficiências nas entrevistas realizadas – elas ficam muito aquém daquilo que seria o desejável.

Uma boa entrevista é capaz de dar vida e salvar qualquer matéria; com ela, pode-se chegar à compreensão mais profunda dos fatos e de seus personagens, desvendando mistérios que nos pareciam indecifráveis e colhendo relatos que nos ajudam a formar visões e concepções plurais da realidade que nos cerca. As entrevistas nos levam aos detalhes e aos pormenores, nos conduzem da superficialidade ao mergulho, juntam os pontos para formar imagens mais nítidas e significados mais atraentes. Quantas vezes não temos uma vaga idéia sobre determinado assunto, um cenário ainda muito nebuloso e incipiente e, lendo uma entrevista que mereça ser classificada dessa maneira, não saímos dela e levantamos da cadeira com a sensação de que ‘bem, ah, então pode ser assim ou dessa outra maneira, são essas as variáveis envolvidas, isso aconteceu por conta de tais e tais antecedentes, puxa, mas eu nem tinha pensado nisso’, e a certeza de que aquela leitura contribuiu com a nossa formação e inserção cidadã no mundo?

Na outra ponta, uma conversa mal conduzida, feita de maneira apressada e apenas para cumprir tarefa burocrática, que produz dois ou três rabiscos num bloco de anotações, pode fazer com que o jornalista perca mais alguns fios de cabelo. Na redação, ao sentar para escrever a matéria, ele descobre que simplesmente não a tem, pois suas anotações são insuficientes para preencher as tais das linhas que ele deve produzir para aquela edição do jornal. E o drama é ainda maior: por conta de sua atitude de pressa, de dar conta dos prazos e da velocidade de produção industrial, por conta do desleixo, despreparo profissional, desconhecimento, falta de experiência ou mesmo de irresponsabilidade, o jornalista rompe o contrato cidadão de prestação de serviço público que deve uni-lo ao seu leitor; ao perder-se em repetições e enrolações, em informações compactas e desconectadas, desprovidas de sentidos, a transcrição/tradução de sua entrevista nega ao público o direito de se informar.

Em seu livro A Arte da Entrevista, o jornalista Fábio Altman cita as reflexões de Raymond Blathwayt, que dizia que

o entrevistador que conhece sua missão, aquele que realmente capta a mente da pessoa que está entrevistando, aquele que o coloca diante do público e não é um mero avalista de idéias mesquinhas, este homem preserva a história contemporânea. Para Altman, esta é a arte da entrevista. (1995: XXI)

Fica claro, portanto, que a entrevista, em primeiro lugar, não pode ser vista como mera técnica, algo que serve para tirar de quem está do outro lado do balcão duas ou três palavras que possam legitimar e dar reconhecimento público a premissas já estabelecidas. Ela não se resume a apenas sustentar o que o repórter e o veículo pensam previamente – mas precisam, de alguma maneira, ‘colocar na boca’ de alguma fonte autorizada e reconhecida. Singular, dinâmica e muitas vezes um salto na escuridão, ela é uma atividade humana que coloca, frente a frente, duas ou mais pessoas, com suas histórias, visões, jeitos de pensar e de ser, opiniões, dúvidas, avaliações e conflitos. No limite, e inspirando-me em Cremilda Medina, arrisco dizer que se trata de um momento épico, único e especial, de encontro entre sujeitos, personalidades e almas, onde se faz presente o embate democrático e saudável de idéias, trajetórias e singularidades. Se de fato vivida, e não apenas cumprida, pode se transformar num intenso momento de catarse e proliferação de análises, reflexões e experiências de vida, de onde, como já dizia Medina, tanto entrevistado quanto entrevistador sairão transformados e modificados pelo intercâmbio, choques e interfaces ocorridos. Trata-se de uma corrente elétrica de alta voltagem que atinge as duas pontas. Nessa perspectiva, ela é capaz de produzir choques de conhecimentos e informações que, pouco depois, irão, de maneira sistematizada e inteligível, ganhar a arena pública e participar, em maior ou menor escala, da construção das sociedades e definição de seus rumos.

Compromisso ético

Não é demais lembrar também que a entrevista carrega consigo um inseparável componente ético. Ela pode tanto pôr fim a uma carreira política ou artística quanto alavancar e trazer à tona novos personagens e figuras públicas. Quem escolhe o entrevistado e com base em quais critérios? Quem prepara a entrevista? Quem faz a pesquisa? Como ela é feita e conduzida? Estamos dispostos a de fato conversar ou queremos esconder apenas armadilhas e arapucas? Como se comporta o jornalista? De maneira arrogante e agressiva? E a edição e escolha dos trechos que serão utilizados na matéria final? Quais os critérios de seleção que ela segue? Qual o espaço que ela irá ocupar no veículo? Todos esses questionamentos nos mostram que a entrevista é muito mais do que um simples ‘correr para anotar e depois devolver ao público em forma de notícia ou pingue-pongue’. Dos critérios e escolhas éticas adotadas pelo jornalista depende a qualidade final dela e, por conseqüência direta, sua capacidade de estabelecer laços mais distantes ou mais próximos da cidadania e da democracia. A entrevista pode tanto abrir horizontes, ilustrar e libertar quanto tornar nebuloso, distorcer, fragmentar e aprisionar. Tudo depende do comportamento cotidiano do repórter-entrevistador.

Embora se constitua num tema de tamanho interesse e importância e foco potencial para trabalhos e reflexões, a bibliografia existente sobre a entrevista jornalística ainda é bastante escassa. Nesse oásis de formulações teóricas, destacamos três trabalhos, que nos auxiliam nessa tarefa de conceituação, para que possamos passar, na seqüência, a pensar como elas se refletem e aparecem em Caros Amigos.

Na década de 60, Annette Garrett, ao escrever sobre o assunto, já afirmava que a entrevista não pode ser reduzida a uma fórmula ou padrão comum, capaz de atender e ser aplicado às diversas situações. Para ela, ‘quando isso acontece, a entrevista deixa de ter aquele vivo interesse humano que a deve caracterizar, tornando-se assim monótona, mecânica e relativamente sem valor’. (1964: 17). Depois de destacar a necessidade de compreensão humana e a importância de reconhecer as diferenças que unem e separam entrevistado e entrevistador, evitando as rígidas classificações e segmentações e os comportamentos de ‘dono da verdade’, a autora lembra que o bom entrevistador é aquele que sabe ouvir.

Mas em que consiste um bom ouvinte? Aquele que freqüentemente interrompe o entrevistado para dizer o que teria feito em circunstâncias semelhantes não é bom ouvinte. Também não o é aquele que permanece sentado, numa atitude inteiramente passiva. Ausência de reação por parte de quem ouve pode facilmente parecer, a quem está falando, ausência de interesse. Todos nós sabemos por experiência própria que, quando contamos uma história, gostamos de ver um ouvinte declarar, por um breve e expressivo comentário ou por uma pergunta, que apreendeu os pontos essenciais da narrativa (…) Esta atenção sobre detalhes importantes, que não foram postos em relevo, dá a quem conta a história uma sensação de estímulo, no sentido de que o ouvinte não somente quer compreender, mas compreender de fato, em grau elevado, o que ele está tentando relatar. (1964: 74-5)

Bem mais tarde, já no início dos anos 90, Cremilda Medina retoma o tema para discuti-lo sob a ótica específica do jornalismo. Ao caminhar em estrada semelhante à percorrida por Garrett, ela escreve que

a entrevista pode ser apenas uma eficaz técnica para obter respostas pré-pautadas por um questionário; ou, por outro lado, é uma técnica de interação social, de interpenetração informativa, quebrando assim isolamentos grupais, individuais, sociais; pode também servir à pluralização de vozes e à distribuição democrática da informação. (1990: 5, 8)

Para que isso possa acontecer, é preciso percorrer cuidadosamente alguns passos: pensar a pauta, compreendê-la, adotar diante dela uma postura não autoritária, pesquisar, buscar dados e informações sobre o interlocutor e os assuntos sobre os quais ele irá falar, organizar um roteiro da conversa e saber que ele não é imutável. Apenas depois de cumprir esse percurso o jornalista pode jogar-se ao encontro com o entrevistado, onde, mais uma vez, precisa saber ouvir, perguntar, conversar, mostrar-se sensível, participar, rompendo com os padrões da entrevista impositiva e diretiva para estabelecer as condições de uma conversa que libera, flui, tem ritmo, tece o presente e garante a elucidação de seus acontecimentos. Diz Cremilda:

Numa classificação sintética da entrevista na comunicação coletiva, distingüem-se dois grupos: entrevistas cujo objetivo é espetacularizar o ser humano; e entrevistas que esboçam a intenção de compreendê-lo. (1990: 14)

Nessa área, há ainda um terceiro trabalho, bastante recente, do professor Nilson Lage, da Universidade Federal de Santa Catarina. Embora não se dedique exclusivamente à questão da entrevista, o texto tem nela um de seus elementos principais. O autor lembra que a ‘entrevista dialogal’ é a entrevista por excelência. Diz ele que é nela que

entrevistador e entrevistado constróem o tom de sua conversa, que evolui a partir de questões propostas pelo primeiro, mas não se limitam a esses tópicos: permite-se o aprofundamento e detalhamento dos pontos abordados. (2001: 77)

E, se na área do jornalismo, o tema entrevista é ainda tão precariamente abordado, podemos então recorrer à história oral, segmento que vem conquistando importantes espaços e reconhecimento nos últimos anos. É ela quem pode se juntar aos autores acima citados para nos auxiliar nessa tarefa de conceituação e construção de um referencial teórico.

Em trabalho publicado na segunda metade da década de 90, André Gattaz escreve que

a condição necessária da pesquisa de campo é ser um diálogo, no qual estamos falando com as pessoas, não estudando ‘fontes’; ser uma situação de aprendizado para os dois lados. E é considerando-se a entrevista como um diálogo, e não como uma inquirição, que se pode obter os melhores resultados do trabalho de campo. (1996: 261)

Ele continua clareando os nossos caminhos:

somente a igualdade dá credibilidade à entrevista, mas apenas a diferença torna-a relevante, pois é justamente em função da desigualdade de conhecimentos entre o historiador e o depoente que ela se concretiza. (1996: 261)

A pesquisa desenvolvida por André também nos auxilia a dar rumos e contornos finais ao material coletado durante as entrevistas. Quantas não são as vezes em que não nos perguntamos: e agora, o que eu faço? Posso editar? Juntar trechos, tirar as repetições? Como encadear esse pensamento confuso? Posso eliminar os excessos? Até onde pode ir a minha interferência? Segundo ele,

é preciso que a transcrição vá além da passagem rigorosa das palavras da fita para o papel. A transcrição literal, apesar de extremamente necessária, será apenas uma etapa na feitura do texto final, que chamo de textualização, por ser ao fim e ao cabo um modo de se reproduzir honesta e corretamente a entrevista em um texto escrito. (1996: 263)

O que seria essa textualização? Ele explica:

a textualização final deve conter em si a atmosfera da entrevista, seu ritmo e principalmente a comunicação não-verbal nela inclusa: emoções do depoente como risos ou choros, entonação e inflexão vocal, gestos faciais, de mãos, ou mesmo do corpo. O texto, ainda, não pode abandonar a característica de originalmente falado, devendo ser identificado como tal pelo leitor. (1996: 264)

É nesse momento, portanto, que são eliminadas as frases repetidas da gravação original, as expressões utilizadas incorretamente, os lapsos de memória, as palavras inaudíveis, as confluências e congruências de reflexão. Trata-se de um processo de edição e reconstrução que exige do profissional, seja ele jornalista ou historiador, um responsável sentimento e compromisso ético, que, segundo André, deve culminar com a apreciação da entrevista ‘quase final’ pelo próprio entrevistado,

não só como meio de checar se está fiel às suas idéias, mas também para dirimir problemas de caráter ético e mesmo jurídico. (…) Chamamos esta última etapa de conferência e legitimação, quando o colaborador comenta a entrevista. (1996: 266)

Arte rebelde

Depois de beber na fonte da história oral, cabe ainda destacar que, na ponta final da linha, jornalisticamente, a entrevista poderá ser aproveitada de diversas maneiras, tanto se juntando a outras informações apuradas para fazer parte daquilo que se convencionou chamar de ‘texto corrido’, quanto podendo aparecer em sua forma mais nobre e especial – a entrevista de perguntas e respostas, ou entrevista ‘pingue-pongue’. Neste artigo, nos dedicaremos a acompanhar e analisar essa segunda forma, pois é ela que se constitui no carro-chefe de Caros Amigos e ajuda a reafirmar a postura alternativa e de independência da revista.

Feitas essas considerações e com o foco das atenções melhor definido, é possível afirmar que, no dia-a-dia da grande imprensa, o que encontramos, via de regra, é aquela entrevista que está muito mais preocupada em cumprir tarefas e preencher páginas e possíveis espaços brancos, qualquer que seja a sua condução e resultado final. A rapidez e velocidade de produção, a organização administrativa e empresarial que privilegia o lucro e vende mercadorias, a lógica do fragmento e do burocrático (‘o leitor não tem tempo para ler’), e a perspectiva política e ideológica que procuram impor a existência de um pensamento único acabam por ‘assassinar’ a possibilidade de que a entrevista aconteça e se realize com todo o seu potencial de emoção, empatia, conteúdo e informação. E o que encontramos nos jornais, revistas, rádios e emissoras de TV são arremedos de entrevistas, conversas frias, distantes, desconexas, pasteurizadas, formatadas, que mais nos afastam do que nos atraem. Sem encantar, perde o leitor, e o ato da comunicação não se estabelece.

Sequer o jeito de pensar e falar dos entrevistados é respeitado – e a impressão que fica é que todos eles falam da mesma maneira, usam a mesma linguagem supostamente culta por nós determinada, seja ele um sulista, nordestino, europeu, africano, negro, indígena, branco, mulher, homem, jovem, velho, político, cientista ou jogador de futebol. Todos pronunciam frases lógicas, que começam pelo sujeito, passam pelo verbo e chegam ao predicado; todos apresentam pensamento linear perfeitamente acabado; todos são absolutamente fluentes e em momento algum ficam em dúvida ou param para respirar. Em nossa porção ‘iluminada’ e autoritária, no momento da edição, estabelecemos padrões do que pode e do que não pode, eliminamos todas as ‘impurezas’ e vícios de linguagem e muletas e oralidades e pensamentos altos e comentários paralelos e idas e vindas e circularidades presentes nas reflexões e respostas dos diversos entrevistados. Outra regra draconiana: os ‘pingue-pongues’ devem ser rápidos e rasteiros, as respostas não podem ter mais de dez linhas, e precisam ser quebradas em vários trechos, o que produz fragmentação de pensamento.

É nesse momento que a entrevista perde a sua essência e razão de ser, transformando-se numa atividade burocrática e sem sentidos ou significados, numa peça que desconstrói, esconde e não informa e que, portanto, repele e afasta o público de sua leitura. É dessa maneira que ela simplesmente passa e vai-se embora, sem deixar rastros, suas marcas e sabores, longe, muito longe mesmo, de conseguir provocar aquele gostinho de ‘quero mais’. Quantas não são as situações em que dedicamos tempo e atenção à leitura de uma entrevista em jornal ou revista e, ao final dela, nos decepcionamos e nos perguntamos: ‘bem, mas a que isso veio, por que está aí, eu não entendi nada’. Isso se formos capazes de chegar até o fim do texto, pois, não raro, abandonamos essa leitura ainda em sua metade. Como lembra Cremilda Medina, há vários problemas e

o maior obstáculo é o dirigismo com que se executam as tarefas da comunicação social. Na maior parte das circunstâncias, o jornalista (comunicador) imprime o ritmo de sua pauta e até mesmo preestabelece as respostas: o interlocutor é conduzido a tais resultados. (…) O que menos interessa é o modo de ser e o modo de dizer daquela pessoa. O que efetivamente interessa é cumprir a pauta que a redação de determinado veículo decidiu. (…) O aproveitamento cotidiano das entrevistas realizadas no dia-a-dia da comunicação coletiva é frustrante. (1990: 6-7, 49)

É preciso ressaltar que esse não é um bloco monolítico sem fraturas, e há as saudáveis e rebeldes exceções de sempre. O programas Roda Viva, da TV Cultura, e as entrevistas produzidas pela revista Playboy e por CartaCapital muitas vezes se encaixam nesse grupo. Às vezes, as páginas amarelas de Veja ou as vermelhas de IstoÉ também conseguem escapar à pasteurização e nos presenteiam com boas conversas; em alguns momentos, a ‘entrevista da 2ª’, publicada pela Folha de S.Paulo, também acerta a mão. Mas, me parece, isso ainda é muito pouco, restrito, uma preocupação distante, quase isolada, inconstante e incapaz de considerar todo o potencial informativo e formativo disponibilizado pela entrevista. Trata-se da arte rebelde tecida pelas canetas ou microfones/gravadores de alguns jornalistas ou grupos deles. Está longe de ser uma estratégia e gênero pensados e concretizados por políticas das empresas jornalísticas.

Discurso único

A revista Caros Amigos, publicação colocada nas bancas pela primeira vez pela editora Casa Amarela em abril de 1997, segue rota distinta e nada contra a corrente, constituindo-se, sob diversos aspectos (incluindo as entrevistas que realiza), em um dos principais representantes da imprensa alternativa e independente do início de novo século. Caros Amigos foge do padrão dominante e recusa a proposta hegemônica, na tentativa de oferecer um cardápio que inclua outras entradas, pratos e sobremesas. E o faz com a certeza e a consciência de que é essa entrevista a sua grande referência e imagem, que inclusive ajudou a conquistar, cativar e consolidar seu público leitor. Por isso, todos os meses, lá está Caros Amigos nas bancas, com uma nova grande entrevista-explosiva para brindar seus leitores. É esse o seu carro-chefe editorial e a principal referência jornalística da publicação, a prática que, ao longo de seus mais de seis anos de idade, deu à revista uma cara e identidade.

Sempre achei que uma das funções da imprensa seria a de colher depoimentos de pessoas que tenham um legado moral a deixar para os jovens. Para mim, o testemunho é o maior bem que se pode legar. Fico imaginando: se aqueles que vivem ou viveram perto ou no centro do centro do poder, de todos os poderes, deixassem seu testemunho, os jovens queimariam muitas etapas no caminho da consciência cidadã. Sempre cultivei a idéia de lançar uma publicação exatamente com esse título: ‘Testemunho’. (…) A idéia da entrevista-explosiva nasce mais ou menos perto disso. A proposta era de que o entrevistado criticasse o próprio meio em que atua. Deu e continua dando certo, felizmente. [Sérgio de Souza, editor-chefe de Caros Amigos, em entrevista ao autor]

Ao cultivar a entrevista-testemunho, o depoimento, Caros Amigos busca inspiração, aproxima-se e encontra-se com a história oral; quando registra em suas páginas o produto dessa conversa, respeitando o jeito de ser e falar de cada um dos entrevistados, sua oralidade, a revista dialoga com a literatura; na medida em que amplia os níveis de contextualização, apresentando o entrevistado como um sujeito de um mundo complexo e envolvido por diferentes forças e conflitos sociais, ciente de que os fatos e sujeitos não existem de maneira isolada, a publicação namora com a sociologia. É essa visão multidisciplinar da contemporaneidade que chega às bancas todos os meses, instigando a nossa leitura e indicando que as sociedades precisam ser encaradas como algo muito mais refinado e sofisticado do que uma divisão entre ‘bons e maus, entre melhores e piores, entre aqueles que podem e os que não podem’.

As entrevistas de Caros Amigos são verdadeiros mergulhos na alma e no âmago dos entrevistados. Nada passa despercebido: a história, tensões, gestos, risadas, conflitos, respostas evasivas, longos fluxos de pensamento, contradições – tudo isso aparece nas entrevistas publicadas pela revista. Sem preocupar-se com o tamanho das respostas, ela deixa o texto fluir, e há raciocínios que duram uma ou às vezes duas colunas inteiras. O espectro das discussões é também bastante amplo e, embora apresente alguns focos principais, não perde a oportunidade de mostrar-se abrangente e inclusivo. Na edição 45, de dezembro de 2000, por exemplo, a revista abriu espaço para ouvir o ex-jogador Sócrates. Assunto-base, claro, o futebol. Mas o ‘doutor’, como é carinhosamente conhecido, falou também sobre sua infância, a maneira como o futebol começou a fazer parte de sua vida, sua passagem pela faculdade de medicina, o interesse pela política, a inseparável cerveja, os sutis toques de calcanhar (sua marca registrada), a democracia corintiana, a participação na Campanha das Diretas (1984) e sua proximidade com o PT, sua passagem pelo futebol italiano, a relação entre jogadores e jornalistas, até chegar à corrupção, desorganização e desmandos que marcam a atual fase vivida pelo futebol brasileiro. Trata-se de uma divertida conversa – e ela é tão bem construída e retratada jornalisticamente que o leitor passa a ser cúmplice dela. O ‘doutor’ Sócrates, por meio de suas frases, opiniões, conceitos, risadas, desnuda-se e revela-se diante de nós. A entrevista, assim, parece abandonar seu aspecto bipolar, e se transforma num objeto com três pontas e instâncias, onde os leitores, quase em pé de igualdade, se unem aos entrevistadores e ao entrevistado. Essa diferença não é insignificante, pois parte do princípio de que também somos sujeitos e participantes desse processo. O texto nos trata não nos olhando de cima para baixo, numa postura professoral e que pretende dizer algo para alguém; pelo contrário, ele nos dirige o olhar em linha reta, no mesmo plano e altura, na expectativa de estabelecer um contato e conversa.

Os entrevistados de Caros Amigos são definidos de acordo com as sugestões e propostas que vão sendo feitas pela própria redação, pelos colaboradores, por pessoas próximas e também pelos leitores. Como explica Marina Amaral, editora da revista, depende do que está acontecendo no momento, da conjuntura política e internacional. Nesse sentido, a revista às vezes assume uma postura ‘reativa’, e abre suas páginas para que opiniões discordantes e divergentes das encontradas na grande imprensa tenham também oportunidade de se manifestar. Foi assim, por exemplo, com João Pedro Stédile, entrevistado por duas vezes, em situações em que o MST era colocado na berlinda e sinuca de bico pelos oligopólios de comunicação. Assim também aconteceu com Lula, ainda nem presidente, entrevistado logo após as eleições de 2000, quando as elites, atordoadas, usavam os meios de comunicação para tentar relativizar ou minimizar as vitórias obtidas pelo Partido dos Trabalhadores (PT) nas disputas municipais daquele ano. Caros Amigos permite, então, que a figura mais representativa do partido vencedor possa apresentar uma outra leitura dos fatos.

Mas a revista muitas vezes também deixa de simplesmente correr atrás dos fatos e apresentar outras versões deles e assume uma posição ‘ativa e propositiva’. Quando entrevistou Roberto Romano e Marilena Chauí, por exemplo, que falaram sobre a crise nas universidades públicas, não havia um ‘gancho’, um ‘fato quente ou novo’, como se diz no jargão jornalístico, que aparentemente pudesse justificar a presença e conversa com os dois personagens. Mas a revista parte do princípio de que esse é um assunto de interesse público e que deve ser exaustiva e permanentemente discutido e debatido, e tenta com freqüência (re) introduzi-lo na arena e praça pública, para depois acompanhar suas repercussões. O mesmo aconteceu por ocasião das conversas com Sueli Carneiro e James Cavallaro, que falaram, respectivamente, sobre racismo e direitos humanos, dois temas que fazem (ou deveriam fazer) parte de nossas discussões cotidianas. Com isso, a revista assume o princípio de que o jornalismo não precisa simplesmente ser pautado, mas pode também pautar e incentivar as discussões e reflexões. Inverte-se a mão de direção. Veja bem: Caros Amigos não cria, inventa ou dá aos fatos uma suposta dimensão que eles não possam ter. Mas é capaz de estar antenada e captar temas e enfoques que estão maduros, fervilhando, borbulhando, ávidos por ganhar dimensão e reconhecimento – e abre espaço, então, para que se possa dar vazão e publicismo a esse caldo fértil de idéias e culturas.

Ao agir dessa maneira, a revista consegue, embora sendo mensal, consolidar-se como uma publicação ‘quente’, sintonizada com os embates e conflitos contemporâneos, e sempre trazendo e acrescentando algo diferente e dissonante. Esse, aliás, talvez seja o principal critério de escolha dos personagens abrigados pelas entrevistas explosivas de Caros Amigos: fazer parte do grupo que condena e rechaça o discurso único neoliberal e a mesmice e alinhamento da grande imprensa com esse projeto. É preciso, portanto, ser alternativo, ou ter uma visão alternativa da realidade e propostas também alternativas para enfrentar a hegemonia do capitalismo financeiro e globalizante.

Mãos de direção

Mais uma vez, torna-se importante uma ressalva: não estamos falando de palanques para discursos panfletários, verborrágicos e adjetivados, desprovidos de conteúdo reflexivo. Nas diversas áreas do conhecimento, há profundas análises sobre os grandes dramas nacionais e internacionais e as maneiras como nos afetam.

É Marina Amaral quem diz que,

de uma certa maneira, nós até conseguimos recolocar alguns personagens de volta nas pautas da grande imprensa. O Plínio Marcos é um bom exemplo desse fenômeno. De outro lado, mesmo algumas pessoas que podem ser figuras aceitas pela grande imprensa surgem em Caros Amigos com outros propósitos. Foi o caso da conversa com o Chico Buarque. Ele está sempre nos grandes veículos. Só que aqui, na revista, a entrevista foi diferente, primeiro pelo modo como foi feita, e segundo porque ele também sabia que estava falando com um outro tipo de público. Por isso revelou outras coisas – e o fez de maneira diferente. [Marina Amaral, em entrevista ao autor]

Feita a escolha do entrevistado do mês, começam os preparativos para a conversa. Nesse momento, diz José Arbex, editor da revista, aparece mais uma fraqueza da revista: sua impotência e incapacidade de reunir as pessoas e colaboradores para preparar a pauta, organizar a entrevista, pensar em tópicos principais, pesquisar o assunto, reunir dados. Por conta do esquema e estrutura de funcionamento que se baseia na colaboração voluntária de diversos caros amigos, essa etapa funciona muito mais embasada na experiência, memória, capacidade de articulação e formulação e na bagagem intelectual e jornalística acumulada pelos repórteres e membros da revista do que em um processo mais cuidadoso e detalhado de estruturação do trabalho e de seus possíveis encaminhamentos.

A revista procura combater ou minimizar essa lacuna com a dinâmica coletiva da entrevista. Reunidos em torno da mesa redonda instalada no meio da redação, são vários os que participam da conversa e fazem as perguntas aos entrevistados. Caros Amigos segue, assim, a dinâmica consagrada pelo ‘Pasquim’, seu parceiro não-contemporâneo de imprensa alternativa. Com isso, há várias cabeças pensando e formulando questionamentos simultâneos, cada uma seguindo uma perspectiva e rumo, cada uma tentando desvendar determinados aspectos, o que garante a multiplicidade e permite compensar, em certa medida, a ausência da pauta e preparação. Se o Arbex não lembra de determinado ingrediente, o Sérgio cumpre essa tarefa; quando o Wagner Nabuco, outro sócio da editora Casa Amarela, deixa passar em branco um detalhe importante, a Marina logo coloca essa carta na mesa. Os jovens jornalistas da revista também participam e se apressam em completar as considerações e comentários, fechando o círculo. Dessa profusão de vozes e lembranças nasce a riqueza da entrevista.

Na maioria das vezes, somos provocativos. Eu adoro fazer o papel de advogado do diabo, encher o saco, obrigar o cara a ir por onde ele não quer. E aí que sai a entrevista. É preciso enxergar o ponto cego, iluminar as áreas de sombra, aquilo que não está suficientemente claro. Ela precisa usar o recurso da provocação. Já houve momentos de mal-estar durante entrevistas. Só que ela usa isso para estabelecer a conversa, o diálogo, e não aquela coisa chapada ou quadrada que se costuma fazer. Acho que esse é o espírito. Ela não pode ser complacente. Outra de suas forças está nos entrevistados. São pessoas que rompem com o discurso único. Procuramos dar visibilidade para aqueles que não são ouvidos no dia-a-dia. A força está aí – é uma entrevista de luta, libertária, de desafio ao monopólio da informação. É assim que a gente consegue abarcar e articular as diversas áreas de conhecimento. [José Arbex Jr., em entrevista ao autor]

Quando todos estão a postos, copos d’água e cafezinhos espalhados pela mesa, começa a entrevista. Ela é gravada na íntegra. Ao mesmo tempo, um secretário faz as anotações que registram todas as intervenções, tanto dos entrevistadores quanto do entrevistado, montando uma espécie de tabela e radiografia do andamento do processo, um prontuário e roteiro que facilitarão o trabalho de decupagem. E são horas e horas de conversa. Na seqüência, é feita toda a transcrição do material, gerando um primeiro texto, ainda bruto. Depois disso, acontece a edição, que fica sob a responsabilidade do Sérgio de Souza. Segundo Roberto Freire, um dos fundadores da revista e hoje afastado dela, Serjão possui tamanha habilidade e competência para editar um texto que é capaz de melhorá-lo, organizá-lo e ajeitá-lo sem mexer ou interferir no estilo do repórter, ao mesmo tempo em que consegue garantir que não se altere o jeito de ser, pensar e falar do entrevistado. Dessa sofisticada operação surge um segundo texto, quase final; antes da publicação, ele ainda é enviado ao próprio entrevistado, que lê e faz suas anotações. É somente depois de percorrer todo esse caminho que a entrevista chega às mãos dos leitores.

Marina Amaral resume o seu significado: ‘É o carro-chefe, a cara, a capa da revista e o seu ponto forte e referencial’. Ela completa:

A entrevista-explosiva possui características que têm muito a ver com o espírito da revista. Em primeiro lugar, nós chamamos várias pessoas para participar dela, o que torna o diálogo muito mais rico, muito mais plural. A gente quer que a pessoa fale, que ela narre, que ela conte. Por isso, é uma entrevista muito mais provocativa, no bom sentido, do que aquele velho esquema que pretende apenas fazer perguntas capciosas e encostar o entrevistado na parede. Sem essa. O entrevistado precisa se sentir à vontade. E esse é um dos segredos da entrevista. [Marina Amaral, em entrevista ao autor]

É importante ressaltar, no entanto e felizmente, que a entrevista de Caros Amigos não é um mar de rosas ou unanimidade. Há também quem a olhe com o nariz torcido, quem dela discorde, algumas vezes inclusive questionando se ela ainda pode ser chamada de entrevista. As críticas de Lúcio Flávio Pinto, um dos mais importantes jornalistas brasileiros e editor do Jornal Pessoal, de Belém do Pará, se concentram exatamente nesse aspecto.

Há cada vez menos entrevistas-explosivas. Na maioria das entrevistas, há um solilóquio. Os entrevistadores costumam fazer coro ou bater palmas para o entrevistado. Contra o pensamento unilinear de direita, o pensamento unilinear de esquerda. Há muito ataque e panfleto, mas cada vez menos controvérsia, pluralidade e densidade. [Lúcio Flávio Pinto, em entrevista ao autor]

O contraponto é oferecido por José Arbex:

Eu não acho que ela tenha virado esse solilóquio. O que eu acho é que houve tamanha radicalização de posições na sociedade brasileira que, no fundo, quem discorda do FMI, do Banco Mundial, da OMC, do governo Bush, quem está do lado de cá, já é um sujeito identificado com o projeto da revista. O Brasil vive uma dicotomia radical. É preciso saber se deve existir um Estado que zele pela sociedade ou não. Existem aqueles que dizem que sim, e aqueles que dizem que não. O meio-de-campo acabou. As coisas se polarizaram em extremos. E a revista está refletindo esse processo. Quando nós entrevistamos o Octavio Ianni, eu fiquei fazendo o papel de advogado do diabo, justamente para evitar esse clima de ‘sim senhor’ e só fazer carinho. No fundo, é óbvio que eu concordo com o que ele fala. Mas você precisa ser advogado do diabo para poder dar debate. [José Arbex Jr., em entrevista ao autor]

Mas não seria imperativo ouvir sujeitos que estão do ‘lado de lá’, até para consagrar esse tipo de diálogo?

Eu acho que não. O nome da revista é Caros Amigos. Ela parte do princípio de que tanto aqueles que escrevem quanto aqueles que falam como leitores compartilham de uma certa percepção do que é justo e do que não é justo. Eu não me sentaria numa mesa para entrevistar o Jader Barbalho, por uma questão muito simples: não o considero um interlocutor meu. Não é porque eu discordo ideologicamente dele, mas porque ele é um bandido. E eu não vou conversar com bandido. Da mesma forma, eu jamais convidaria o Delfim Neto para um debate. Ele é signatário do AI-5 e eu não vou convidar para a minha mesa um sujeito que assinou a tortura. Agora, se fosse um José Guilherme Merquior da vida, um intelectual sério, acho que não haveria o menor problema, pois, mesmo ele pensando diferente, há uma ética do intelectual. Eu reconheceria nele alguém com estofo ético para poder se sentar à mesa da Caros Amigos. [José Arbex Jr., em entrevista ao autor]

O recorte feito pela revista e a definição de seus entrevistados estariam condicionados aos conceitos e parâmetros éticos?

Claro. Mas isso é uma coisa minha, uma visão minha. Acho que o Serjão pensa do mesmo jeito. É meio intuitivo. Mas nós nunca falamos sobre isso. [José Arbex Jr., em entrevista ao autor]

É possível compreender as colocações do Arbex, quando afirma que a revista nasceu também para dar vazão e voz à demanda reprimida do pensamento dos que se encontram do ‘lado de cá’ – a esquerda. Acho mesmo que esses devem continuar sendo os protagonistas principais das entrevistas, pois há muito, mas muito mesmo a ser dito e contra-dito e, afinal, é essa a proposta contra-hegemônica consagrada por Caros Amigos. Se fugir dela, corre o risco de se perder e se descaracterizar. Apresentar e debater as idéias e o pensamento formulado pelo chamado campo progressista, dentro de uma perspectiva jornalística, é a tarefa que se impõe à publicação. Ela nasceu carregando esse código genético. Além do mais, tais personagens não encontram o espaço devido e merecido nas páginas da grande imprensa, que faz sua opção majoritária pelo pensamento único neoliberal. O cuidado que deve existir, portanto, é justamente procurar evitar que as conversas descambem para o carinho sem sentido e abobado, a babação de elogios, o confete e as serpentinas. Mesmo que se concorde com o que dizem os entrevistados, é preciso nunca perder de vista o debate, a postura crítica, a discordância argumentada, o saudável e necessário conflito de idéias e propostas. Nesse sentido, o papel do ‘advogado do diabo’ é uma boa saída de interlocução criativa, ativa e polêmica.

No entanto, se fossem incorporadas algumas das propostas de Lúcio Flávio, acredita-se que, com cuidados e critérios, sem que fosse preciso abrir mão de princípios/valores ou linhas editoriais, seriam criados espaços para alguns representantes do ‘lado de lá’, colocando-os cara a cara com a dinâmica de entrevista consolidada por Caros Amigos. Seria bastante produtiva uma entrevista com o cantor Roberto Carlos (não exatamente alguém com pensamento progressista…), ou conversas com o filósofo José Artur Gianotti, com o ex-ministro da Ciência e Tecnologia, Ronaldo Sardenberg, ou ainda com o marqueteiro Duda Mendonça, apenas para citar quatro possibilidades localizadas em campos distintos do conhecimento. Eles seriam chamados e provocados a responder e pensar sobre temas e questões que são barrados pela bajulação e pelos compromissos ideológicos e econômicos da maior parte de nosso jornalismo contemporâneo. Seria a entrevista da esquerda com a direita, invertendo as mãos de direção. As dúvidas e enfoques seriam outros. Certamente o resultado final que chegaria aos leitores seria diferente daquele que encontramos na grande imprensa. E essa seria mais uma maneira de Caros Amigos garantir seu jeito contra-hegemônico de fazer entrevistas e jornalismo.

Debate plural

Quando tem o seu potencial aproveitado de maneira intensa, e suas facetas maximizadas, como procura fazer mensalmente Caros Amigos, a entrevista, como essência do processo de comunicação jornalística, e também como ponte de conexão entre sujeitos, nos ajuda a sentir atores do mundo. Nesse sentido, ela se transforma na possibilidade da conversa que há séculos move, instiga, fascina e encanta o ser humano. É um olhar que desvenda o mundo. Para o entrevistado, representa um olhar para dentro, um mergulho na alma, que depois vem à tona para ser socializado e compartilhado, por meio da palavra. É a revelação de quem fala. Na medida em que ele se expõe, permite o contraditório e a contestação, a negação ou aceitação, o que faz avançar o processo de construção do conhecimento e difusão das informações. Com mais espaço e sem tantos filtros, ela permite a elaboração de raciocínios mais completos e complexos, que têm começo, meio e fim. Para o leitor, é a possibilidade de concretizar laços quase diretos de comunicação e diálogo, relações humanas de proximidade. Não é mais o jornalista quem ouve e depois conta, não há o intermediário – são pessoas que falam com pessoas. É dessa maneira que criamos relações, nos identificamos, repudiamos, montamos analogias, imagens, contextos, nos aproximamos e nos afastamos, e definimos o nosso espaço no planeta. Não bastasse tudo isso, a entrevista de fôlego e de compreensão é aquela que, guardadas as diferenças e peculiaridades, mais consegue se aproximar da proposta apresentada pela história oral. Isso porque ela trabalha com as narrativas, registra a contemporaneidade e seus personagens, escreve a memória individual e coletiva, e já delimita algumas referências para o futuro.

Embora estabeleça com clareza os pontos que separam o jornalismo da história oral, a pesquisadora Joëlle Rouchou afirma que

é necessário lembrar que entrevistas publicadas em jornais, ouvidas em rádios e as televisionadas transformam-se em documentos históricos, uma vez que vão testemunhar opiniões, contextualizar fatos. Daí a necessidade da ética profissional do jornalista, com uma atitude responsável em relação às entrevistas. O jornalista, pela prática diária, sabe conduzir uma entrevista, levar o entrevistado para onde ele quer ou mudar o rumo da entrevista quando ele percebe que há assunto mais interessante em outra fala do entrevistado. A diferença é que o historiador tem o tempo a seu lado. O jornalista joga contra o tempo. A urgência da impressão, da difusão da notícia talvez seja uma das causas da pouca seriedade no trato da entrevista. [Joëlle Rouchou. ‘História Oral: entrevista-reportagem x entrevista-história. In: Revista Brasileira de Ciências da Comunicação. São Paulo, volume XXIII, nº 1, janeiro/junho de 2000- Texto retirado da internet]

Em sua tese de doutorado que se transformou em livro, José Arbex cita as análises de Octavio Ianni para lembrar que a memória é o segredo da história. Para o professor e sociólogo,

é pela memória que se puxam os fios da história. Ela envolve a lembrança e o esquecimento, a obsessão e a amnésia, o sofrimento e o deslumbramento. (…) Sim, a memória é o segredo da história, do modo pelo qual se articulam o presente e o passado, o indivíduo e a coletividade. O que parecia esquecido e perdido logo se revela presente, vivo, indispensável. Na memória escondem-se segredos e significados inócuos e indispensáveis, prosaicos e memoráveis, aterradores e deslumbrantes. (2001: 271-2)

Ao buscar resgatar e preservar essa memória, usando para tanto suas entrevistas-explosivas, Caros Amigos pretende garantir aos seus leitores a possibilidade de construção de uma (ou várias…) inteligibilidade(s) do mundo. Livre (pelo menos parcialmente) das amarras dessa premência do tempo, pelo menos no que diz respeito à imposição da produção diária, a revista parece ter a consciência de sua responsabilidade de fazer e registrar a história, por meio dos testemunhos de seus entrevistados. É justamente por fugir da pasteurização e do imediatismo e da velocidade que as entrevistas de Caros Amigos reafirmam sua postura alternativa. Como vimos nesse breve percurso analítico, essa característica se manifesta na escolha dos entrevistados; no enfoque contra-hegemônico das conversas; no seu tempo de duração; no número de páginas que se abre para ela; na oralidade respeitada por sua versão final; nas emoções e jeitos de ser captados pelo trabalho de edição; na estrutura, dinâmica e condução do bate-papo; no espírito e motivações que conduzem tanto o entrevistado quanto os entrevistadores.

Ao levar em consideração e procurar colocar em prática aquilo que Cremilda Medina chama de ‘comportamento dialógico e os componentes criativos da relação humana’, a entrevista de Caros Amigos, sua marca registrada e consagrada, novamente se aproxima da interpretação para nos chamar a atenção e nos mostrar que um outro jornalismo, menos burocrático e mais vivo, é possível. Trata-se de um jornalismo que se preocupa, essencialmente, com o direito à informação, a realidade complexa, o debate plural de idéias e versões, os valores dos direitos humanos e da justiça social. É um jornalismo que se preocupa, acima de tudo, com a ética construção da cidadania. Por maiores que sejam os desafios enfrentados.

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