Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

DIRETóRIO ACADêMICO > EDUCAÇÃO & SOCIEDADE

A escola como espaço de construção identitária

Por José Valdir Jesus de Santana em 15/12/2009 na edição 568

Referências

ABRAMOWICZ, Anete. OLIVEIRA, Fabiana de. A escola e a construção da identidade na diversidade. In: ABRAMOWICZ, Anete. BARBOSA, Lucia Maria de Assunção. SILVÉRIO, Valter Roberto (Orgs.) Educação como prática da diferença. Campinas, SP: Armazém do Ipê (Autores Associados), 2006.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade 7ª ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2002.

SILVA, Hédio Jr. Discriminação racial nas escolas: entre a lei e as práticas sociais. Brasília: UNESCO, 2002.

MATTOS, Wilson Roberto de. Valores civilizatórios afro-brasileiros na elaboração de currículos escolares – ensaiando pressupostos. In: RAMOS, Marise Nogueira; ADÃO, Jorge Manoel; BARROS, Graciete Maria Nascimento (Coord.) Diversidade na educação: reflexões e experiências. Brasília: Secretaria de Educação e Média e Tecnológica, 2003.

No contexto contemporâneo, as transformações perpetradas pelos processos de globalização conduzem a enfrentamentos paradoxais, na medida em que o mundo se torna ao mesmo tempo grande e pequeno, homogêneo e plural, articulado e multiplicado, desterritorializando saberes e culturas, cosmovisões, desenraizando gentes, coisas e idéias, dando a impressão de que tudo é fluido, leve, cambiante. Nos processos de desenraizamento juntamente com o fenômeno da desterritorialização, geram-se mudanças nas mais diversas esferas, sejam elas de ordem econômica, política e cultural, como também na produção do tempo e do espaço, nas identidades, na percepção e no enfrentamento com o ‘outro’.

As identidades são produzidas dentro e não fora dos discursos, nos tensos jogos de poder e, nesse sentido, pensar sobre a construção de uma identidade negra, afro-descendente, perpassa pela necessidade de uma discussão mais ampla, uma vez que esse processo está intimamente ligado às questões de construções pessoais e sociais, impossíveis de serem dissociadas.

Segundo Hall (2002), a questão da identidade cultural está associada às mudanças provocadas pelos processos de globalização e por seus impactos, na medida em que, na cena contemporânea, nada mais consegue de manter estável, duradouro. Na perspectiva de Silva (2002) a identidade é concebida como produção simbólica, construída na relação com o outro, num processo histórico e cultural e que estando relacionado ao passado nos permite entender o presente. As ‘identidades culturais’ surgem, portanto, de nosso ‘pertencimento’ ou identificações étnicas, raciais, lingüísticas, religiosas.

Pressuposição da inferioridade

Pensando assim entendemos que a identidade negra é um recorte de uma dimensão mais ampla, porém é fato que ela se constitui em uma construção social, histórica, cultural e plural que perpassa pela necessidade de um olhar sobre si e o outro.

Estamos cientes da tradição, ao longo da educação escolar brasileira, da implementação de políticas para a educação básica que se pretenderam universalistas e que, de alguma forma, sempre foram pensadas para atender a determinados grupos sociais que se perpetuavam no poder e, nesse sentido, acabou-se instituindo, ao longo dessa tradição escolar, um modelo de educação que sempre atendeu às aspirações das elites que tentavam comandar os destinos do país. Questiona-se, agora, se a escola produzida no bojo de uma pretensão universalista e homogeneizadora atende ao modelo de sociedade desejada. Esta deve caracterizar-se pelo respeito à diferença e por abrir a possibilidade de que segmentos sociais, grupos étnicos ou culturais realizem-se plenamente. Da mesma forma, a partir de uma reflexão mais comprometida com o entendimento das diferenças culturais, dos grupos étnicos que formaram a sociedade brasileira, ao longo dos últimos quinhentos anos, fica-nos perceptível o entendimento acerca da construção de determinados lugares sociais (geralmente subalternizados) a que muitos grupos étnicos e diferentes culturas foram submetidos, a exemplo da cultura (ou culturas) afro-brasileira e indígena. O certo é que as relações de poder instituídas ao longo da história do Brasil (na perspectiva do europeu) buscaram sempre silenciar a diversidade de sujeitos, culturas e grupos étnicos que formaram e formam a nossa sociedade.

Nesse sentido, como nos adverte Matos (2003, p.30)

‘Pensar a historicidade dos valores civilizatórios africanos e afro-brasileiros como forma de aumentarmos a sua eficácia no sentido daquilo que definirmos como nossas principais demandas de ordem política, cultural, racial, ou como se prefere, da ordem da necessidade de edificação de uma cultura política assentada na diversidade africano-brasileira, implica um esforço intelectual de retomada de nossa história através, principalmente, do trabalho de construção da nossa memória social própria, em conjunto com a crítica da memória social que a supremacia branca ocidental nos legou como herança, e que, na maioria das vezes, reproduzimos com pouca consciência acerca das suas formas, conteúdos e efeitos reiteradores de uma economia de relações raciais, calcada na pressuposição da inferioridade no negro e de seus descendentes, como foi construída no imaginário da sociedade brasileira, historicamente.’

Um novo paradigma

As conseqüências desse processo histórico, ao qual nos referimos anteriormente, voltadas para o negro e seus descendentes no Brasil, estão relacionadas a uma vida marcada pela trajetória da exclusão, discriminação e opressão de um sistema econômico, político e social cruel e, no mesmo sentido, por um modelo/projeto de educação escolar que, ao longo de nossa história, não soube dialogar com as diferenças étnico-raciais de nosso povo. A escola tornou-se, portanto, um espaço de negação de saberes aos negros e seus descendestes e, da mesma forma, construiu, em seus espaços, estereótipos negativos que estigmatizam, até hoje, o que se tem denominado de afro-brasileiros.

Na educação brasileira, a ausência de uma reflexão sobre as relações raciais no planejamento escolar tem impedido a promoção de relações interpessoais respeitáveis e igualitárias entre os agentes sociais que integram o cotidiano da escola. O rendimento escolar evidencia algumas distorções, que forçam a difícil tarefa de reconduzir esses alunos, sobretudo afro-brasileiros, ao processo de ensino-aprendizagem.

Nesse processo de negação de seus valores culturais, age a ideologia do branqueamento, uma vez que, estando os valores civilizatórios negro-africanos associados ao que é feio, inferior, desqualificado, o homem e mulher negros buscam se orientar a partir dos referenciais da cultura branca européia. Nesse sentido, como afirmam Silva e Monteiro (apud ABRAMOWICZ & OLIVEIRA, 2006, p.49) ‘a escola ensina a criança negra a não aceitar a cor de sua pele, os seus traços físicos, a história de seu povo, a não querer ser negra. A cor negra, para vencer na escola, tem de fazer-se à imagem do branco, adaptar-se aos valores brancos’.

A escola tem um papel fundamental na formação da identidade das crianças que são acolhidas por essa instituição, mas também precisa ter clareza da necessidade de ‘positivar’ a diversidade da qual é constituída (ABRAMOWICZ & OLIVEIRA 2006).

Estamos no limiar de uma educação que enfrenta mudanças drásticas produzidas por demandas e finalidades diversas de políticas educacionais em intenso processo de transformações sociais, políticas, étnicas e culturais, pelas quais passam as sociedades contemporâneas. Essas mudanças fazem com que os educadores, educandos e todos os segmentos da comunidade escolar, encarem o desafio na busca de um novo paradigma para a educação que valorize a inclusão social, que imponha o respeito às diversidades que se encontram na escola, no sentido de que esta possa se tornar, de fato, um espaço intercultural.

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