Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

DIRETóRIO ACADêMICO > NOTÍCIA EM CONFLITO

A ética na cobertura de guerras

Por Magnólia dos Santos em 27/04/2004 na edição 274




A imagem do repórter de guerra, autêntico herói que em nome da verdade suprema se aventura em lugares inóspitos, isolados pela guerra, trespassados pelos tiros, pela morte e devastação é, assim, quase uma miragem. (Pedro Cardoso, Universidade do Porto)

Em termos gerais, o trabalho apresenta, a partir do exemplo do conflito Estados Unidos versus Iraque, uma reflexão sobre a cobertura de guerra e as questões éticas que ela suscita. Nesse contexto, a formação humanística, que a universidade viabiliza, tem um papel fundamental no comportamento do jornalista para que ele possa atuar como um cidadão do mundo, tendo discernimento para lidar com a tendência à manipulação da notícia e, ao mesmo tempo, para dar voz e vez à pluralidade de interesses envolvidos no conflito. A interferência das linhas editoriais e o impacto da tecnologia da comunicação na captação, produção e recepção das matérias de guerra também são consideradas nesse trabalho. Por fim, concluímos ressaltando o caráter político do jornalismo, que se constitui como linguagem mediadora do signo-notícia.

Acontecimento na totalidade

Esta comunicação se propõe a apresentar algumas considerações de natureza ética que interferem no desempenho do jornalista durante a cobertura de eventos de guerra. Além da complexidade sócio-econômica e política, que necessariamente compõe essas situações extremas, fatores como a sofisticação da tecnologia de produção da notícia; as posições políticas das linhas editoriais dos conglomerados empresariais; e a recepção crítica dos diversos públicos e grupos de interesse formam um caldo indigesto em uma panela de pressão com a qual o jornalista tem que lidar, não só como um tradutor dos fatos, mas principalmente, como um mediador das circunstâncias ali constituídas.

Nesse contexto do trabalho jornalístico, fica difícil pensar a atuação dos seus profissionais a partir de definições como a de Rabaça & Barbosa(1987, 138/139) sobre a cobertura jornalística, isto é, a de que seria o trabalho de apuração no local de sua ocorrência, para transformá-lo em notícia. Basta considerar que na cobertura de guerra, freqüentemente não se tem acesso ao local do conflito, o repórter apenas a partir de um acesso restrito e do ponto de vista da parte beligerante que o acolhe. Por exemplo, as equipes de jornalistas que acompanharam as tropas americanas durante a invasão do Iraque. Considerando apenas esse fator, constatamos que própria apuração dos fatos já ela mesma limitada por uma parcialidade circunstancial, que toda parafernália tecnológica não elimina: vemos mais, porém de perspectivas determinadas, permitida ou não. Se temos acesso a uma das partes conflitantes, essa – por questão de segurança – nunca se revelará completamente e a outra tenderá a se proteger, muitas vezes nos aliando como simpatizantes do oponente, chegando a fazer do profissional muitas vezes alvo de suas ações ofensivas; como é o caso de prisões, seqüestros e assassinatos de jornalistas.

O impacto da notícia, muitas vezes, já está determinado pela forma de apuração, embora contemporaneamente estejamos registrando a tendência desse momento ser obliterado pelo processo de produção e difusão da notícia. Dessa forma, o que aparece mais é a instantaneidade e sofisticação tecnológica da captação da imagem e som, que fazem do receptor testemunha do acontecimento. Por exemplo, a tecnologia permitiu que se acompanhasse quase concomitamente a busca desesperada do noiva do diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Melo nos escombros da sede da ONU em Bagdá, enquanto ele pedia socorro pelo telefone, até sucumbir à gravidade dos seus ferimentos. Assim, embora a cobertura faça o registro de forma instantânea e simultânea sintetizando tempo e espaço, ela o faz de uma determinada maneira e nunca dá conta da totalidade do acontecimento.

Papel insubstituível da universidade

O trabalho Jornalismo de Guerra: a missão, de autoria de Pedro Cardoso(2003), um estudante do segundo ano de jornalismo da Universidade do Porto, tem me levado a refletir mais sistematicamente sobre as implicações éticas na cobertura de guerra. Durante meu trabalho de pesquisa na Internet, deparei-me com um site acadêmico português(www.ipv.pt/forumedia/4/13.htm), onde o texto do referido aluno estava disponibilizado. Na oportunidade, eu me preparava para escrever um trabalho sobre a efetiva contribuição da formação acadêmica para a atuação do jornalista.

Aquele texto do estudante Pedro Cardoso trouxe respostas inesperadas e gratificantes para um tema aparentemente não correlacionado diretamente, isto é, a formação do profissional de imprensa. Primeiro, ele faz um resgate da história das principais coberturas de guerra no século XX, demonstrando como a pesquisa sistemática pode enriquecer o trabalho jornalístico. Tal habilidade investigativa não pode ser obtida através de receitas, mas é resultado de uma vivência, sendo que é na universidade onde melhor se pode experimentar metodologias da pesquisa para uma melhor adequação à investigação jornalística.

Além disso, no seu artigo, Cardoso faz uma retrospectiva do uso da propaganda e do controle da mídia como arma de guerra, inclusive apontando para a utilização da tecnologia da comunicação contra o próprio jornalismo, isto é, mascarando os acontecimentos. Como foi o caso da guerra Irã – Iraque, na década passada. Vejamos seu comentário:




No entanto, as imagens e sons em directo não bastavam para reproduzir fielmente a realidade. Aprendida a lição do Vietname, os militares passaram a limitar e a controlar os movimentos dos jornalistas, barrando-lhes o acesso a determinado tipo de informações e proibindo a sua movimentação em determinados locais. O direito à informação ficou, assim, profundamente comprometido.(CARDOSO, 2003, 2-3).

Com desenvoltura, o estudante também apresenta um panorama sobre a cobertura da guerra e da atuação dos seus correspondentes. Dentre esses, ele destaca a biografia do jornalista polonês Ryzard Kapuscinski, um dos maiores profissionais que atuaram, principalmente, na guerras de libertação das nações africanas no século passado.

Em todo texto, percebemos uma preocupação com o método de trabalho do jornalista como uma atividade, regida por uma conduta ética, que respeita a notícia e sua audiência, sem deixar de considerar, inclusive, a segurança do profissional. Na minha prática docente já acompanhei esse processo de crescimento teórico e de maturação intelectual dezenas de vezes. É essa experiência que me faz acreditar que a universidade tem um papel insubstituível na formação global do jornalista, em geral, e ética, em particular.

Peter Arnett em julgamento

A propósito, discutiremos a abrangência conceitual da ética no jornalismo contemporâneo, a partir do questionameto da conduta dos correspondentes de guerra. Se tomarmos a liberdade de ação como um princípio fundamental do comportamento ético, a atuação do polêmico correspondente Peter Arnett é um exemplo adequado para ilustrarmos a complexidade daí decorrente. Clóvis de Barros Filho explica porque a liberdade de agir fundamenta a ética:




…, o julgamento ético de qualquer comportamento depende da possibilidade de agir em detrimento de um agir contingente/potencial não formalizado, da conseqüente produção de determinados efeitos em detrimento de outros.(BARROS Filho, 2000, 9).

No caso de Peter Arnett, ele foi demitido da Rede de TV NBC, depois de conceder uma entrevista à Televisão Estatal Iraquiana, quando avaliou como equivocada a ação dos americanos no Iraque. No primeiro instante, após à inusitada entrevista, a NBC o defendeu, mas 14 horas depois o demitiu. A repercussão negativa ainda o obrigou a pedir desculpas, via satélite, aos americanos.

Considerado como corajoso e ousado por uns e, por outros, como cascateiro e mentiroso, sem dúvida Peter Arnett reúne experiência profissional que o habilita a se posicionar sobre situações conflituosas como é o caso do Iraque. Porém, a questão chave, que se apresenta, é se seria uma atitude ética do jornalista emitir sua opinião sobre uma circunstância dessa natureza? Ou se caberia a ele apenas permanecer calado para não ferir o ideal da neutralidade, do não envolvimento do repórter com o fato?

Em sua justificativa, amplamente divulgada, ele disse que só emitiu uma opinião de conhecimento geral e que a entrevista apenas retribuía às inúmeras entrevistas concedidas pelos iraquianos a ele. Nessa sua defesa, então, não teria havido nenhuma violação do que se considera como um comportamento ético aceitável.

Parece que o jornal inglês Daily Mirror, que tem um posicionamento contrário à guerra, compartilha dessa opinião, tendo em vista que contratou Arnett imediatamente à sua demissão pela NBC. O que se deduz daí, é que os diferentes posicionamentos políticos dessas empresas, motivaram suas ações e não servem como parâmetro para uma avaliação , do ponto de vista do interesse coletivo.

Dessa forma, continuaríamos sem uma definição se houve violação ética ou não, se tivéssemos em vista apenas o fato de que as empresas são regidas por interesses particulares e que, talvez, até o próprio Arnett tenha tido outras motivações não reveladas. Para a saída do impasse, tomamos a via conceitual, recuperando o princípio da liberdade de agir como fundamento para a conduta ética do jornalista.

Em relação a essa situação especifica, conclui-se que Arnett foi ético sim porque ele tem, como cidadão, o direito de expressão, alicerçado, como profissional, pela experiência de quem atuou em coberturas semelhantes. Aprender a agir por princípios, extrapola a ação guiada pelo senso comum. Nesse caso, a formação profissional, que a universidade viabiliza, pode auxiliar na incorporação consciente desses princípios na conduta diária dos jornalistas: alcançamos assim a verdadeira liberdade, a do indivíduo psicologicamente autônomo: alguém que não é mais um recorte da consciência ou inconsciente coletivo. Alguém que recuperou o direção da história e, portanto, seu sentido existencial nela.(NOGUEIRA, 2000, 49).

Compromisso com os ideais

A partir do dia 20 de março, ficamos presos, por meses, à imagem de mais um conflito midiático mundial. Entre armas sofisticadas dessa guerra Estados Unidos versus Iraque, nos extasiavam as tecnologias contemporâneas da comunicação, em especial, o vídeo-fone, que nos fez testemunhar o fato narrado visualmente em câmara lenta. Não obstante, ser essa última característica uma limitação técnica, seu efeito irreal, provavelmente, contribuiu para reforçar, no imaginário coletivo, o arquétipo do herói, a partir do qual o papel do jornalista se projeta, como agente construtor da realidade.

Para Cicília Peruzzo, o desenvolvimento tecnológico do jornalismo nos remete à discussão sobre o exercício da cidadania e da democratização da comunicação. Ela diz que:




O meio de comunicação social, antes de ser empresa privada (destinada a gerar lucros para seus proprietários) ou órgão público (a serviço de governos), é um bem público, cuja utilização deve estar a serviço da coletividade. O produto do meio de comunicação não é como um sapato de uso externo, descartável quando incomoda o usuário. Ele tem o potencial de interferir nos valores e na formação da cultura, principalmente das crianças e adolescentes(PERUZZO,2002, 74).

Dessa forma, a inovação tecnológica na comunicação não é apenas uma questão técnica ou de investimento financeiro. Ela interfere decididamente nos processos de mediação dos receptores, colocando em relevo a responsabilidade social da notícia. A consciência de sua importância como agente acionador de uma comunicação democrática, leva o jornalista ao comprometimento com os ideais éticos de sua profissão. Sobre a ética comunicacional, Cicília Peruzzo ainda comenta que:




…a ética na comunicação engloba um conjunto de princípios definidores de um caráter(ou modo orientador) do "que fazer" comunicacional condizentes a padrões morais exigidos(ou aceitos) pela sociedade em um determinado momento histórico.(PERUZZO, 2002, 73).

Apesar da complexidade, autonomia e interatividade

Do ponto de vista da recepção, constata-se que o comunicador só poderá avaliar sua conduta frente aos valores culturais da sociedade na qual está inserido, se ele for um sujeito crítico e atento às demandas atuais dos seus receptores, considerando inclusive o nível cultural desse mesmo público. Isso implica dizer que nem sempre o repertório da audiência é capaz de selecionar a opção mais adequada em termos de conteúdo. Em geral, o receptor é pouco exigente, o que explica o fato de programas sensacionalistas ou detentores de fórmulas fáceis e repetitivas fazerem tanto sucesso.

Paradoxalmente, temos indícios de que o pólo da recepção não pode ser generalizado porque também há uma conduta ética aí, que precisa ser considerada. É evidente que ela não é sistemática, mas freqüentemente se manifesta independente da manipulação da mídia, podendo inclusive afetá-la de modo decisivo.

Tomando nosso exemplo da guerra Estados Unidos versus Iraque, constatamos que o crescente movimento popular de protesto, que tomou conta do planeta, não é resultado da mera manipulação da mídia ou dos governos envolvidos. Ao contrário. essas ações parecem caminhar em sentido oposto. Apesar do rebuliço que causou entre os beligerantes americanos, a entrevista de Arnett parece não ter afetado em nada as manifestações populares. Aliás, a motivação oculta de Arnett, talvez tenha sido, não de influenciar, mas sim de correr atrás da opinião pública.

Durante a formação universitária, o aluno toma conhecimento de uma série de abordagens que privilegiam o pólo da recepção, que parte de uma visão em que o mesmo é considerado passivo e chega até uma perspectiva de autonomia e interatividade. Ele aprende que seu receptor tanto pode ser um indivíduo quanto um grupo; que o público é geral, mas também é um público segmentado; que pode ser tomado tanto como o cidadão quanto como o consumidor. Essa complexidade, não permite que o jornalista se considere o único responsável pela comunicação que ele produz. Sem dúvida, ele deve ter uma conduta ética, mas o produto do seu trabalho está à mercê de outras interferências, inclusive do seu público.

Experiências catarinenses e alagoanas

Sob a perspectiva dos emissores, isto é, dos comunicadores, a conduta ética, moral e os atos legais em relação à mídia já devem começar a ser talhados desde os primeiros anos da formação profissional. Aliás, considerando-se que o jornalismo é o resultado da conjunção entre arte, ciência e técnica, o enfoque ético que a formação universitária viabiliza é fundamental para articulação entre esses três pólos.

Com isso, queremos dizer que a ética do jornalismo não depende apenas do conhecimento das normas de conduta, mas para exercê-la em plenitude é necessário que se tenha uma concepção abalizada por uma reflexão sistemática sobre aspectos da realidade. Assim, a universidade viabiliza aos jovens esse embasamento: o sujeito pensante não pode pensar sozinho; não pode pensar sem a co-participação de outros sujeitos no ato de pensar sobre o objeto. Não há um "penso", mas um "pensamos". É o "pensamos"que estabelece o "penso" e não o contrário(FREIRE, 1992,66).

O professor catarinense Rogério Cristofoletti, da Universidade do Vale do Itajaí também vislumbra uma possibilidade de contribuição das escolas de comunicação ao avaliar a importância delas no mercado comunicacional de Santa Catarina: os cursos vêm auxiliando a formar mão-de-obra capacitada para exercer as atividades jornalísticas, mas as escolas ainda não se colocam como laboratórios plenos de experimentação de linguagem e tecnologia, nem sequer como observadores da mídia local, a ponto propor novas práticas em comunicação.(CRISTOFOLETTI, 2003, 7).

Aqui, em Alagoas, apenas o Curso de Comunicação Social da Universidade Federal de Alagoas tem representação junto ao Conselho Estadual de Comunicação, que, de certa forma, procura fazer esse monitoramento no Estado (O Conselho de Alagoas foi criado, através do decreto número 31, de 13 de fevereiro de 2001, atendendo, inclusive a uma demanda da própria Constituição estadual, que, no Art. 212, da Seção IV, sobre a comunicação social, preconiza que os órgãos de imprensa escrita e de radiodifusão sonora ou de imagem e som, integrantes da Administração pública estadual, direta ou fundacional, terão sua atividade orientadas e supervisionadas pelo Conselho Estadual de Comunicação Social. Nomeados pelo Governador do Estado, os integrantes do Conselho Estadual são os representantes da Secretaria de Estado de Comunicação Social, da Secretaria de Educação, da Secretaria de Cultura e do Instituto Zumbi dos Palmares. Os sindicatos dos jornalistas, radialistas, publicitários e gráficos também têm assento no Conselho. Além desses, há os representantes dos Poderes Judiciário e Legislativo, do curso de Comunicação Social da Universidade Federal de Alagoas, da classe empresarial, das rádios comunitárias, do Conselho Regional de Relações Públicas e da Associação Alagoana de Imprensa.). Diante de tantas questões éticas, que ocorrem no problemático cenário local, o Conselho é uma instância importante de mediação entre profissionais, empresas e público. Apesar do seu papel político e ético, o Conselho de Comunicação ainda precisa ser mais divulgado junto aos formadores de opinião, aos alunos e professores de comunicação, da rede pública e privada.

Timoneiros da contemporaneidade

A partir dessas considerações, a discussão sobre a exigência ou não do diploma de jornalismo ganha maior densidade. O diploma em si é apenas a ponta de um iceberg. O que está no interior desse debate é a necessidade de uma formação política, ao mesmo tempo, integradora dos aspectos técnicos e estéticos, envolvidos no processo de transformação da informação em notícia. Pressupõe-se, então, que a educação humanística e técnica é um fator imprescindível para a formação global do jornalista. Em tempo de valores descartáveis, ela funciona também como um paradigma ético para a ação desse jovem, na oportunidade em se deparar com os inúmeros dilemas de conduta, impostos pelo exercício profissional.

Voltando à atual guerra tecnológica e virtual da comunicação, o debate que mobiliza as discussões entre a imprensa americana, a árabe e os governantes envolvidos com o conflito real é bastante conhecido. Discute-se a manipulação, a ideologização da notícia como se fossem um dado objetivo, o que é uma ficção. Notícia é linguagem e esta, por sua vez, é argumentação, é mediação, é signo. Por natureza, ela é parcial e sujeita às condições de produção e difusão. Aqui, a discussão ética se impõe de novo e poderá ir mais longe se embasada teoricamente. Mais uma vez, a formação universitária pode contribuir para uma melhor compreensão do jornalista diante de uma ética do signo-notícia.

Como estivemos discutindo a cobertura de guerra mais do ponto de vista do jornalismo televisivo, cabe-nos ainda tecer algumas considerações sobre a linguagem televisiva, que constrói seu mundo significado, principalmente, a partir de estratégias discursivas, viabilizadas pelo processo de edição. Ainda que as imagens seja produzidas em grande escala para todas as empresas, cada uma delas as processa diferentemente para atingir seu público, com credibilidade e empatia.

Pauliukonis, Santos e Gavazzi, baseadas na teoria de Patrick Charaudeau, esclarecem que entre produtores e receptores há uma espécie acordo tácito, fazendo com que a comunicação televisiva seja acionada, do ponto de vista discursivo, como um processo de interação, isto é, de trocas entre seus agentes nos pólos da emissão e recepção:




Nesse cenário, constrói-se o contrato de comunicação, responsável pela organização da matéria lingüística, nos vários modos de organização discursiva – enunciativo, narrativo, descritivo e argumentativo. Esse contrato de comunicação pressupõe a obediência a um princípio básico: o direito à palavra, que um parceiro deve conceder a outro para que se processe o jogo comunicativo. Este decorre do reconhecimento da capacidade do SABER, do PODER e do SABER FAZER do sujeito comunicante (o emissor) responsável pela legitimidade e credibilidade de suas ações. Para completar o quadro enunciativo, exige-se um saber comum partilhado, que pode ser de ordem lingüística, experiencial ou interdiscursiva (PAULIUKONIS, SANTOS e GAVAZZI, 1996, 83).

Essa discussão sobre o contrato de comunicação nos permite retomar sob uma nova ótica o item sobre a ética na recepção. Naquele momento, consideramos a recepção mais do ponto de vista do jornalista enquanto indivíduo profissional que produz sua matéria preocupado com os posicionamentos do seu público. Mas a verdade é que há mais envolvidos nessa problemática e que não podem ser ignorados. A matéria mesmo instantânea não deixa de sofrer as operações de edição como corte, adição e reestruturação, muitas vezes determinadas por demandas externas ao fato em si e, freqüentemente, relacionadas com a linha editorial do veículo de comunicação.

Neste ponto da presente discussão cabe ainda um questionamento recorrente: qual é a conduta ética que rege as empresas ? Como nos aponta as autoras citadas, a ação empresarial também não é completamente autônoma nessa interferência, a crescente qualificação da audiência também tem determinado seu posicionamento. Afinal, estamos tratando de um dinâmico processo de comunicação, marcado pela fluidez e eventual inconstância ou infidelidade do receptor, tendo em vista que a qualquer momento ele pode trocar o canal ou desligar o aparelho.

Para ser legitimado e ter credibilidade, o contrato de comunicação é resultado de uma espécie de convenção não explícita entre a empresa e audiência, alguns parâmetros devem ser mantidos, ainda que os interesses de cada um desses pólos e seus eventuais aliados nem sempre sejam coincidentes. Por exemplo, terminado o conflito armado entre os Estados Unidos e o Iraque, o país invasor admitu que o motivo alegado para a guerra fora forjado; que os americanos tinham desmoralizado, com a desobediência, o Conselho da ONU, utilizando uma mentira para levar adiante uma guerra de conquista a qualquer custo. Nesse caso, a maioria das empresas, sistematicamente à mercê do marketing político americano, nem por isso foram coniventes com esse projeto colonialista, tendo em vista, em geral, terem se colocado de forma reticente sobre se havia ou não armas nucleares no Iraque. Ainda bem, porque, do contrário, estariam amargando um terrível descrédito. Hoje, porém, enquanto o presidente Bush cai nas pesquisas intenção de votos para próxima eleição presidencial, as redes de televisão não chegaram a sofrer arranhões significativos por causa da divulgação dessa falsa notícia, que afinal fizeram mas sempre com um pé atrás.

A constatação de que existe uma conduta que deve ser mantida pelo sujeito comunicante, no caso as redes de televisão, para que o contrato de comunicação seja efetivado, de certa forma, desmistifica a idéia de que a empresa é todo poderosa em suas decisões editoriais.

O jornalista não precisa se sentir oprimido pela força desse poder supremo do patrão porque, este mesmo, também atua em uma determinada faixa de mobilidade. Nesse trânsito, brechas são abertas e podem significar importantes avanços para uma comunicação mais democrática. No entanto, os profissionais mais aptos para o reconhecimento dessas margens de negociação do saber, do poder e do saber fazer são aqueles mais preparados, que lidam bem com os instrumentos técnicos, mas principalmente que operam criticamente a relação entre a realidade e as linguagens jornalísticas a partir de uma sólida formação filosófica, política e cultural. A universidade tem essa missão de preparar o cidadão para atuar criticamente no mundo profissional da comunicação e, em especial, os jornalistas devem estar prontos para ultrapassar a função de noticiadores de fatos e/ou espetacularizadores de eventos, e, como líderes de opinião, eles devem assumir a condição de timoneiros da contemporaneidade, levando adiante a interação entre os povos e, assim, ampliarem o espaço dos saberes compartilhados, aumentando a possibilidade de diálogo entre raças, nações e culturas.

Referências bibliográficas

BARROS Filho, Clóvis de. "Recepção ativa e ética do receptor". Revista Ética & Comunicação. São Paulo. n.1. janeiro/julho 2000.

CARDOSO, Pedro. "Jornalismo de Guerra: a missão". Revista Eletrônica Fórum Media. (www.ipv.pt/forumedia/4/13.htm). Capturado em 3/4/03

CRISTOFOLETTI, Rogério (http://cehcom.univali,.br/monitordemidia/artigos/ christofolletti). Capturado em 21.03.03

FREIRE, Paulo. Extensão ou comunicação? Trad. Rosisca Darcy de Oliveira/Pref. Jacques Chonchol. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1977.

NOGUEIRA, Adriana Tanese. "Ética e psicologia do profundo: a conscientização como dever ético". Revista Ética & Comunicação. São Paulo. n.1. janeiro/julho 2000.

CHARAUDEAU, Patrick(1983). Langage et discours. Paris, Hachette.

PAULIUKONIS, Maria Aparecida Lino, SANTOS, Leonor Werneck e GAVAZZI, Sigrid Castro. "Jornal televisivo: estratégias argumentativas na construção da credibilidade"In Discursos da Mídia, organizador por Agostinho Dias Carneiro. Rio de Janeiro: Oficina do Autor, 1996.

PERUZZO, Cicília M. Krohling. "Ética, liberdade de imprensa, democracia e cidadania". Revista Brasileira de Ciência da Comunicação. São Paulo. Vol. XXV, n.2, julho/dezembro de 2002.

RUTEMBERG, Jim. "Após entrevista para a TV iraquiana, NBC demite Arnett". (http://ultimosegundo.ig.com.br/useg/nytimes/artigo.print/1150646.htm)

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Jornalista, professora do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal de Alagoas; e doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP. E-mail: (magnoliasantos@hotmail.com)

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