Sexta-feira, 20 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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DIRETóRIO ACADêMICO >

A fotografia como divisor de águas

Por Huarlei Oliveira em 10/03/2009 na edição 528

‘A introdução da fotografia na imprensa é um fenômeno de importância capital. Muda a visão das massas. Até então, o homem comum somente podia visualizar os acontecimentos que ocorriam ao seu redor, em sua rua, em sua cidade. A fotografia inaugura a comunicação visual de massa quando o retrato individual se vê substituído pelo retrato coletivo. Ao mesmo tempo se converte em um poderoso meio de propaganda e manipulação.’1


Gutenberg, quando criou a prensa com tipos móveis no século 15, possibilitou a criação de toda uma tecnologia para difundir o conhecimento através das palavras e imagens. A imprensa ganhava cada vez mais espaço com aprimoramentos técnicos. Com isso, a forma de incluir a fotografia na imprensa também foi evoluindo com o passar dos anos. ‘Poucas décadas após a invenção da litografia, as artes gráficas foram ultrapassadas pela fotografia.’2 As imagens eram reproduzidas em jornais e revistas para um público cada vez mais exigente em relação à informação que consumia. Em 1890 surge a rotogravura, processo de impressão gráfica que dispensava a mediação da gravura. Na virada para o século 20, a imprensa, graças ao princípio da liberdade de expressão, foi assumindo cada vez mais uma postura autônoma se desligando do jornalismo mais partidário e passando a dar mais ênfase aos interesses individuais, trabalhando mais com o que os leitores se interessariam em ler, oferecendo um produto mais rico que atingisse a todos.


Imagem aprimorada na guerra


A construção da imagem coletiva do mundo nas páginas de jornais e revistas passou a ser construída a partir do momento em que a fotografia foi mais difundida nesse meio. Com isso, o homem não via apenas o que acontecia em seu meio, mas podia visualizar através dos momentos capturados pelas fotografias, o que estava sucedendo no resto do mundo. A imprensa estava vivendo um momento de mudança. ‘Em grandes épocas históricas altera-se, com a forma de existência coletiva da humanidade, o modo de sua percepção sensorial.’3


Com o passar dos anos, o homem vai criando novas tecnologias para favorecê-lo em seu dia-a-dia, com a imprensa não foi diferente. As imagens foram sendo cada vez mais aperfeiçoadas ao passo que sua inclusão nas páginas de jornais e revistas tornavam esses meios cada vez mais interessantes para os leitores.


Os períodos de guerra fazem com que os países envolvidos nos conflitos inventem tecnologias bélicas mais evoluídas para tentar estar sempre à frente de seus inimigos. Como a imprensa tem a necessidade de primeiramente informar, nas guerras ela também evolui, tanto esteticamente na representação das notícias, quanto pela sua forma de atuação. ‘Por ocasião, na Primeira Guerra Mundial, a técnica de reprodução da imagem fotográfica estava mais aprimorada e os jornais ilustrados tornaram-se grandes produtores e consumidores da informação visual.’4 Os jornais também competiam com o objetivo de ver qual retratava melhor o que estava acontecendo no campo de batalha, para tentar deixar o leitor cada vez mais envolvido pela notícia, usando do artifício das imagens.


Manipulação da informação


No decorrer dos anos ficou cada vez mais fácil a reprodução da realidade, o que antes era representado apenas pela pintura, passou a ser reproduzido por imagens fotográficas que com o avanço da tecnologia foram sendo reproduzidas em grande escala de acordo com o avanço social e econômico. ‘Postula-se que a criação cultural se situa no espaço social e econômico, dentro do qual a atividade criativa é condicionada. ‘5


Algumas décadas atrás, as imagens eram registradas por equipamentos grandes, lentos, de difícil transporte. Com o passar do tempo foram sendo substituídos até chegar na era das fotos mais vivas, filmes mais sensíveis, câmeras mais fáceis de ser transportadas, que cabiam nos bolsos das pessoas.


No Brasil, a revista que pode ser vista como seguidora da imprensa ocidental e precursora desta no país foi O Cruzeiro, lançada em 10 de novembro de 1928. Foi o maior projeto editorial implantado por aqui na época. Este trouxe para os leitores o que havia de mais avançado em termos técnicos na imprensa moderna, incluindo muitas fotografias impressas agora em quatro cores e não apenas em preto e branco.


No governo de Getúlio Vargas, O Cruzeiro inundava diversas páginas com fotografias de Vital Soares, Getúlio e João Pessoa. ‘A manipulação política da revista levava à manipulação da informação, que, no caso da fotografia se traduzia em fotomontagens e na contextualização de fotografias de forma a ridicularizar os inimigos e a valorizar os aliados.’6


Instrumento de observação da ciência


A manipulação da fotografia no Brasil começou na época de Vargas a ser usada como maneira de passar uma boa imagem para a população juntamente com o rádio. Futuramente além das imagens em jornais e revistas os militares vão utilizar-se do rádio e TV para fazer propaganda positiva da ditadura militar. A foto parece ser inocente, imparcial, mas a partir do momento em que ela é uma representação da realidade deixa de lado tal imparcialidade. Quando o repórter fotográfico escolhe o ângulo a ser fotografado está recortando uma parte do real que ele julga ser mais importante. Muitas vezes os leitores criticam a parcialidade do repórter textual e não falam de quem tirou a foto.


É difícil para a maioria dos leitores pensar sobre a parcialidade do fotografo, uma vez que estão acostumados a todo mundo poder fotografar e nem todos terem facilidade em escrever uma reportagem. Não levam em conta que por trás da foto está um repórter fotográfico que, como dito no parágrafo anterior, recortou uma parte da realidade para colocar na matéria.


‘Mitificado como herói de seu tempo, assim como o antropólogo e o aviador, o repórter fotográfico assumiu o papel de testemunha ocular da história, responsável pelo registro das transformações sociais e mensageiro privilegiado do além-fronteiras. A fotografia, tida como documento fiel da realidade, de primeira mão, bruto, quente, da vida ali impressa.’7


Além da imprensa, com sua difusão, a fotografia passa a ser usada no cunho acadêmico, como instrumento de observação da ciência, popularizou-se tanto que as pessoas tiveram mais acesso a equipamentos fotográficos, o que tornou mais fácil ter um álbum de família e retratar os momentos importantes.


Propaganda e consumo


O mercado foi o que mais se beneficiou com a difusão da fotografia, um mercado antes fechado, passou a ser cada vez mais disputado, ao passo que outras empresas foram criadas e entraram no ramo com equipamentos mais modernos, filmes mais sensíveis. Isso favoreceu os consumidores, uma vez que a concorrência fez com que as companhias do setor investissem mais em tecnologia e diminuíssem o preço deixando seus produtos mais modernos, mais baratos e acessíveis a quem antes não tinha condições em possuir uma máquina fotográfica.


Com a fotografia também, surgiu a reprodutibilidade técnica das obras de arte. Tomemos como exemplo a obra Monalisa, de Leonardo DaVinci, conhecida como o sorriso mais famoso do mundo. Na época em que ela foi pintada, só poderia ser contemplada por quem fosse vê-la pessoalmente. Com o surgimento da fotografia, a Monalisa espalhou-se pelo mundo, publicada em livros, postais, cartazes e ficou cada vez mais fácil observá-la. Mas não é a mesma coisa visitar o museu do Louvre em Paris e observar a imagem do quadro em uma sala de aulas. ‘Na fotografia, o valor de exposição começa a afastar, em todos os aspectos, o valor de culto.’


Além de ‘popularizar’ pessoas e obras de arte, a fotografia também tem o papel de divulgar marcas, artifício que é bastante empregado na publicidade. Através das imagens as pessoas se identificam com tal produto e ocorre um processo de comunicação entre a empresa que veiculou a propaganda e o consumidor.


Acesso tornou-se fácil


Com o advento das câmeras digitais, celulares com câmeras embutidas, ficou cada vez mais banalizado o acesso das pessoas a equipamentos que capturam imagens. Todos podem ser fotógrafos. Talvez por isso a famosa frase: uma imagem vale mais que mil palavras, torna-se cada vez menos real. Ao passo que todos podem registrar momentos e manipular isso através de programas de edição em computadores, fica difícil confiar em imagens, fazendo com que não valham mais que mil palavras no contexto atual. ‘O pintor, no seu trabalho, observa uma distância natural relativamente à realidade, o operador de câmara, pelo contrário, intervém profundamente na textura da realidade.’9


A fotografia não precisa estar alienada a um padrão para propagar idéias e divulgar marcas. Usada de forma criativa ela amplia as possibilidades de ação sobre o mundo. Para se produzir uma boa fotografia é importante também conhecer nossas emoções e pensamentos que interferem nas formas de ver e acarretam diferentes olhares sobre a realidade.


Em um breve percurso histórico podemos notar que ao longo desses dois últimos séculos a fotografia evoluiu. Foi impressa carimbando moldes de madeira sobre o papel e hoje podemos encontrar impressoras a laser, o que faz com que a reprodutibilidade das imagens seja cada vez maior. A dificuldade em manusear os equipamentos diminuiu (para não generalizar ao ponto de falar que ela não existe mais). O acesso a estes equipamentos tornou-se cada vez mais fácil e as técnicas para seu manuseio tornaram-se mais difundidas.


Notas


1 FREUND, 1986, p. 192. Citação usada no começo do artigo Fotojornalismo: a fotografia como expressão tecno-imaginária de Duda Bentes disponível no livro: Comunicação: Discursos, Práticas e Tendências.


2 BENJAMIN, p. 3.


3 BENJAMIN, p. 5.


4 BENTES, p. 180.


5 FRANÇA, HOHLFELDT e MARTINO, p. 156.


6 BENTES, p. 185.


7 BENTES, p. 191.


8 BENJAMIN, p. 8.


9 BENJAMIN, P. 14.

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Estudante de Jornalismo, Universidade Federal de Ouro Preto, MG

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