Domingo, 23 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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DIRETóRIO ACADêMICO > IMPRENSA E MUDANÇAS

A História que não se aprende na escola

Por Viviane Pascoal Dantas em 04/07/2005 na edição 336

Livro de História. Capítulo 4. Página 1808. A vinda da família real. Não. Não pensem que esta é uma aula de História do Brasil. Pelo contrário: é apenas o começo da história que não se aprende na escola. O tio Edu nos ensinou na quarta série, e nós decoramos bem direitinho como tudo aconteceu: a Colonização, a chegada da Família Real, o Dia do Fico, a Independência. Mas fica aqui o convite para conhecer a história que o tio Edu não contou. Vamos lá, hora de fechar o livro e abrir a mente, porque esse país que conquistou a liberdade de imprensa, tão discutida (e discutível), fez da imprensa um trampolim para a própria liberdade e independência. Vamos lembrar que tudo começou com as célebres palavras de uma louca.

‘Não corram tanto, vão pensar que estamos fugindo!’ – e as palavras reais da D. Maria, A Louca, ecoavam nos ares de Portugal, no dia da fuga da família real das terras lusitanas para a mais lucrativa e disputada colônia, o Brasil. A situação da metrópole não era das melhores: de um lado, as tropas napoleônicas. De outro, as pressões da Inglaterra para a abertura dos portos. E no meio dos dois, então príncipe-regente, o adiposo D. João, aceitou a proteção britânica e veio parar ‘no quinto dos infernos’ com sua corte.

Hipólito e as mudanças

Aí, tio Edu, se liga: a corte portuguesa trouxe na bagagem bem mais do que quinquilharias reais. Trouxe uma possibilidade de mudanças de cunho social, econômico, cultural e político, bem como o progresso que o Brasil não conhecia até então. Fábricas? Universidades? A palavra impressa? Nada disso estava nos planos de Portugal para a Brasil antes desse advento. A malta tinha medo que o Brasil fosse contaminado com idéias prejudiciais ao sistema colonialista: liberdade, igualdade… Mas a abertura dos portos às nações amigas, marcou fim do pacto colonial, e o pais pode finalmente se abrir ao comércio e ao desenvolvimento.

Pela primeira vez o Brasil era tomado de um impulso cultural. A metrópole passou a investir mais na colônia, até mesmo para suprir suas necessidades. Entre estas, a de manter a Coroa informada sobre as decisões políticas e demais assuntos de seu interesse, o que significava dizer que o surgimento de uma imprensa era só uma questão de tempo.

Só mesmo o tempo de alguém perceber que naquela mesma página, 1808, estava finalmente a oportunidade de se promoverem mudanças. E esse alguém foi Hipólito da Costa, que já havia conhecido o progresso, a modernidade, os ideais de liberdade, e percebia o atraso do Brasil e do próprio Portugal com relação ao resto do mundo. Sua trajetória de vida se confunde com a luta pela liberdade e por uma revolução sobretudo intelectual. Hipólito usou como arma principal para essa batalha a palavra impressa, e em 1o de junho 1808 nascia o primeiro jornal brasileiro, apesar de ter sido impresso em Londres: O Correio Braziliense, porque assim eram chamados os portugueses que por nascença, opção ou circunstância, adotaram o Brasil como seu lar.

História inacabada

O Correio Braziliense nasceu com a missão da independência, tinha a função de doutrinar, educar a população, alertar as pessoas para o direito a uma Constituição, à liberdade de imprensa e expressão, à modernidade, ao progresso. Não era à toa que seu formato se assemelhava ao de um livro. Pela conscientização pela palavra impressa, Hipólito e os demais fundadores dos jornais subseqüentes tinham a intenção de provocar reações, gerar ações. A mídia impressa surgira para suprir a necessidade de transmissão da cultura, modificando os modos de circulação de idéias e informações, e configuraram-se em fontes de poder, transformando o exercício da autoridade. Não foi diferente no Brasil.

Pensar o nascimento da imprensa brasileira implica uma releitura da própria história do Brasil. Significa perceber o poder da mídia impressa na difusão de idéias e pensamentos capazes de transformar uma realidade. Tanto é assim que 14 anos separaram a propagação do que acontecia no mundo, as idéias liberais, as mudanças no cenário político cultural e econômico, do processo de independência do Brasil.

E o tio Edu Cação continua ensinando a ler a história, a virar a página, sem ler as entrelinhas. Então, crescemos. Capítulo 6. Página 2005. Título do capítulo? Não sabemos, o mundo de hoje é parte de uma história inacabada. Inacabável, talvez. Então fechamos os livros, abrimos os jornais, mas ainda assim esquecemos de abrir a mente. Costume! Afinal, essa é mais uma história das que não se aprendem na escola.

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Estudante de Jornalismo

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