Quinta-feira, 27 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1043
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DIRETóRIO ACADêMICO >

A (in)justiça do Supremo

Por João Gabriel Bressan em 23/06/2009 na edição 543

A decisão do Supremo Tribunal Federal em tornar o diploma de jornalismo descartável para quem quer seguir tal profissão é, no mínimo, um tiro no pé da democracia. E vou explicar o motivo de pensar assim.

Uma das justificativas, de um dos ministros, é a de que o jornalista é profissional da ‘liberdade de expressão’. E nesse aspecto, interpreta o tal ministro, ao exigir diploma para quem quer ser jornalista, o Estado restringe a liberdade de expressão. Em resumo: é uma conversa tão vazia quanto repugnante e revoltante, ainda mais por vir da mais alta esfera do Judiciário brasileiro.

Da mesma maneira que ninguém nasce aprendendo a fazer cirurgias, pilotar aviões, administrar impérios e empresas, uma pessoa também não vai entender o que é jornalismo apenas por inspiração. Ou pior: por acreditar que é autodidata no assunto.

Quando a Justiça arranca a obrigatoriedade do diploma para jornalista, ao mesmo tempo abre precedentes perigosos para a informação de qualidade. E se a gente pensar que a informação hoje é um dos mais importantes instrumentos democráticos deste país, com a mudança na lei o futuro chega a dar medo.

Para ser jornalista, não basta escrever bonito, falar elegantemente, ter uma voz fenomenal. A pessoa pode ter escrito duzentos livros, ter entrado pra Academia Brasileira de Letras, ter ganhado um Oscar. Mas nada disso faz dessa pessoa um jornalista. Nem no mais surreal dos mundos.

Juristas mais sérios

A vocação jornalística se dá por uma conjunção de fatores, assim como em qualquer outra profissão: necessita vontade própria, talento nato, sensibilidade profunda e técnica. E, até onde sei, técnica a gente aprende nos bancos escolares. Em se tratando de uma profissão, esses bancos então seriam a faculdade. Obviamente, a universidade não torna um jornalista completo. Mas é o portal para um mercado que tem a missão de levar de maneira séria e sincera as informações que vão mexer com milhares de vidas.

Quando um jornalista escreve ou fala sobre o trânsito, a violência, a política, o futebol, ele faz o que faz amparado por um critério fundamental: ser o mais neutro possível, ouvir e respeitar as opiniões dos entrevistados e, principalmente, apresentar uma reportagem que tenha lógica ou, no termo mais popular, que seja construída para o ‘interesse público’.

Essa receita, o jornalista só vai saber e compreender quando estiver na faculdade. No decorrer da carreira, é claro, o profissional vai aprimorar a experiência. Mas ele não sai do lugar se não souber o básico.

Para o bem de poucos, a Justiça brasileira, atraída por uma concepção irresponsável, irracional, inconsistente e injustificável, tenta fazer com que a imprensa fique burra ou talvez menos crítica e persistente. Alguém precisava avisar os juízes dos nossos tribunais que eles não estão acima do céu e da terra. Até porque julgar pessoas, casos, situações, é algo que qualquer ser humano sempre soube fazer muito bem. E sem precisar estudar. Mas longe de mim defender o fim da obrigatoriedade de diploma para o curso de Direito.

Sem a exigência do nível superior para os seus profissionais, a Justiça seria um fiasco. Quem sabe a universidade de amanhã nos beneficie com juristas mais sérios. Pois nada me tira da cabeça que só um ensino superior eficaz e correto pode dar a credibilidade e o respeito de que o sistema judiciário se diz tão merecedor.

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Repórter de TV, Mogi das Cruzes, SP

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