Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

DIRETóRIO ACADêMICO > OBSERVATÓRIOS NA ACADEMIA

‘A mídia ainda resiste à autocrítica’

Por Paulo Mondego e Thiago Campossano em 11/10/2005 na edição 350

A imprensa sempre foi considerada o quarto poder do mundo democrático. Porém, isso tem sido questionado. Devido à desunião desse conceito com a realidade, muito já se fala no quinto poder: a ‘fiscalização’ da mídia. E há exemplos desses movimentos em todo o mundo. São os veículos que criticam a imprensa e seus produtores, os media watchers.

No Brasil há alguns pioneiros na área. O jornalista Rogério Christofoletti, em entrevista ao Canal da Imprensa, conta que a implantação desses media watchers ‘é uma questão de justiça social, de cidadania, de direitos humanos’. Christofoletti tem 33 anos e é jornalista desde 1991. Mestre em Lingüística e doutor em Ciências da Comunicação, é professor da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), no curso de Jornalismo e no mestrado em Educação.

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De acordo com Ignacio Ramonet, a criação de um quinto poder, cuja função seria denunciar o superpoder dos grandes meios de comunicação, solucionaria o problema da cumplicidade da mídia em difundir a globalização liberal. Neste contexto, qual a importância dos observadores de mídia no Brasil?

Rogério Christofoletti – Os observatórios de mídia no Brasil – e em outras partes – podem ser a concretização de um quinto poder, conforme o próprio Ramonet. Não foi à toa que no Fórum Social Mundial de 2003 ele tenha proposto a criação de um global media watch, composto por observatórios de diversas partes do mundo. O raciocínio de Ramonet é o seguinte: os meios de comunicação já não exercem o poder – o quarto – como na idéia original, isto é, não mais fiscalizam os outros três. Não mais atuam como contrapoder. Por isso, é necessário pensar num quinto poder.

Existem pelo menos cinco observadores de mídia no Brasil, hoje. Qual a situação deles desde sua criação? Existe alguma semelhança com os internacionais?

R. C. – Cada uma das experiências brasileiras tem uma história e ritmo de desenvolvimento. Temos exemplos muito bem acabados – como o Observatório da Imprensa – e outros em vias de consolidação de formato e viabilidade. Penso que as nossas experiências por aqui ainda são poucas, mas muito ricas e muito importantes. Há terreno fértil para novas empreitadas. Na maioria dos países, também não é fácil desenvolver um sólido sistema de monitoramento da mídia. Exceções são os Estados Unidos – que já contam com uma intensa tradição nisso – e a França, um país com larga experiência no terreno da crítica e do desenvolvimento da intelectualidade.

Como os veículos de comunicação reagem em relação à atuação das críticas feitas à imprensa pelos observadores de mídia?

R. C. – Na maioria das vezes, há uma resistência imensa da mídia nacional em fazer uma autocrítica. É um comportamento padrão já denunciado por Eugênio Bucci em seu livro Sobre ética e imprensa, onde batiza esse conjunto de atitudes como síndrome da auto-suficiência ética. Aqui, em Santa Catarina, vimos colhendo uma experiência muito positiva com o Monitor de Mídia que, se não é ainda uma referência para os jornalistas, é acolhido, lido e respeitado. Nossos diagnósticos quinzenais chegam aos jornalistas, e editores de alguns jornais chegam a afixá-los nos quadros de redação. No conselho do leitor do Jornal de Santa Catarina, por exemplo, o Monitor de Mídia já foi citado em calorosas discussões. Esperávamos uma resistência maior da categoria, mas felizmente temos visto uma certa disposição – ainda pequena, é verdade – em se discutir qualidade e ética no jornalismo catarinense.

A maioria dos media watchers brasileiros é vinculado a universidades e por isso é produzida por estudantes. Você acha que os estudantes têm competência para trabalhar com crítica de mídia?

R. C. – Sim, tem sim. Os estudantes, os operários, os jornalistas, as donas de casa, os professores, todos são consumidores de informação e podem lançar um olhar crítico na direção da mídia. Têm o direito de se queixar, de demonstrar insatisfação, de clamar por retificações. Agora, um observatório de imprensa acadêmico tem o dever de oferecer uma leitura embasada em teoria, em parâmetros claros de análise. E mais: não ser punitivo, nem moralista. Mas propositivo, orientado a fornecer elementos que sirvam para um aperfeiçoamento do jornalismo em geral.

A possível falta de habilidade e competência dos estudantes não compromete a instituição de ensino que está vinculada ao media watchers para o qual ele trabalha?

R. C. – Não. Volto a dizer: os estudantes não estão sozinhos nessa. Há professores que os acompanham, e o grupo como um todo discute, pensa, argumenta. As leituras exercidas por um media watcher não são definitivas. Muito pelo contrário: ela deve ser um convite a um debate, a um diálogo.

Você é um dos pioneiros na criação dos observadores de mídia no Brasil. Já soube de algum caso em que estudantes sofreram retaliação de veículos de comunicação por terem feito críticas à imprensa?

R. C. – Por aqui, não. Aliás, temos uma ex-pesquisadora do Monitor de Mídia que desenvolveu um excelente trabalho por aqui, desvinculou-se do projeto, fez seu trabalho de conclusão de curso, formou-se e acaba de ser contratada pelo Jornal de Santa Catarina, um dos nossos objetos de análise. É um demonstrativo de que a crítica pode ser bem absorvida. E, claro, ela agora terá o seu trabalho também avaliado pelos pesquisadores do Monitor de Mídia. Não pára nunca…

Existe algum risco de os estudantes ficarem marcados pelos veículos de comunicação por causa das críticas feitas por eles à mídia?

R. C. – Existe sim, não vou negar. Mas penso que deve ser um risco calculado. Criticar não é fácil. Requer repertório, argumentos, raciocínios claros e sentido do propósito do que se está fazendo. Sempre digo a minha equipe: ‘Ok, vocês apontaram esse problema. Mas, na posição dos jornalistas, vocês fariam de que outro jeito?’ Quando a resposta é um silêncio, a coisa muda de figura. Não basta apenas apontar o dedo. Temos que pensar em saídas melhores, em soluções mais acertadas. Aí, sim, atuamos para melhorar.

Está sendo criada a Renoi. Explique um pouco do que se trata e qual o objetivo da rede.

R. C. – A idéia é simples: constituir uma rede de observatórios de imprensa nas universidades em diversas partes do país. Como é uma rede, não há uma cabeça, mas nós na trama. E cada um desses nós deve conter um site que faça a crítica de mídia de sua cidade, estado ou região. Cada nó da rede deverá alimentar um site que traga um mosaico nacional da mídia. Assim deve ser a rede. Já há experiências em andamento, e o Canal da Imprensa é uma delas. Há outros companheiros, como Gerson Martins, no Rio Grande do Norte, Avery Veríssimo, em Minas, Danilo Rothberg e Angela Loures, no interior de São Paulo, que estão iniciando seus trabalhos. Há muito mais gente envolvida, o que é empolgante.

Como você analisa a atuação dos observadores de mídia brasileiros?

R. C. – Não é nossa tradição fazer crítica de mídia, mas estamos com bons exemplos e bons resultados. Temos um longo caminho pela frente e uma mídia que carece de um olhar mais atento e crítico. Precisamos melhorar nosso jornalismo e a comunicação de um modo geral. Somos um país rico com um povo pobre e sem muito acesso a informação de qualidade. É uma questão de justiça social, de cidadania, de direitos humanos. Também é uma questão de qualidade de produtos e de ética profissional. Puxa! Há muita coisa em jogo. E os observatórios de mídia não são os protagonistas desse enredo, apesar de terem um papel importante.

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Estudantes do curso de Jornalismo do Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp)

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