Sábado, 22 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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DIRETóRIO ACADêMICO > DIPLOMA DE JORNALISMO

A necessidade da formação universitária

Por Muniz Sodré em 05/08/2008 na edição 497

Em fevereiro de 2007, a Newspaper Association of America anunciou, durante sua convenção anual em Las Vegas, o lançamento de uma campanha nacional para incutir no público leitor a idéia de que o jornal do futuro será uma ‘multiplataforma de informação’, o que implica, na prática, a junção empresarial e cultural do papel com a web. Daí, slogans do tipo ‘a internet é a melhor coisa que poderia acontecer aos jornais’.


Mas será essa também a melhor coisa que poderia acontecer aos jornalistas?


Esta questão tem alguma pertinência para o atual debate sobre a exigência de diploma universitário.


Em princípio, é preciso debater a hipótese de que essa nova face da informação pública possa pôr em crise a própria identidade do jornalismo clássico como mediação discursiva e como funcionalidade específica de um grupo profissional. Disto, um claro sintoma é a questão levantada por um arauto da chamada cibercultura: ‘Seria ainda necessário, para se manter atualizado, recorrer a esses especialistas da redução ao menor denominador comum que são os jornalistas clássicos?’


Cidadania e humanismo


A resposta, de certo modo, começa a ser dada pelos grandes conglomerados do jornalismo impresso, por meio da progressiva conversão empresarial do papel à eletrônica. Nada impede que o jornalismo troque de suporte preferencial, uma vez que os conteúdos informativos, na medida da independência de sua forma técnica, podem passar de um suporte para outro sem alterar substancialmente a sua natureza. A despeito do potencial midiático da internet, a digitalização em si mesma não é um medium, e sim um processo técnico (informático).


Veja-se o livro: mesmo digitalizado, continua a ser ‘livro’, isto é, a organizar seqüencialmente os conteúdos de acordo com a milenar forma códice (codex), embora ainda sejam grandes as dificuldades de leitura de textos extensos na tela do computador. Daí, as hibridizações formais, já praticadas por alguns jornais, entre a escrita tradicional e a escrita para a tela do computador, oferecendo ao público a opção de leitura de jornal entre resumos e textos maiores.


Ainda o livro: também não se pode passar por cima da evidência de que, em nossa modernidade, a forma códice (escrita unidirecional, páginas organizadas em cadernos e costuradas), depois chamada livro, impôs-se aos usos e aos espíritos como locus do conhecimento centrado, da leitura que constitui pastoralmente a cidadania, da produção do sentido e do real medidos pela escala do humanismo.


Nem produto, nem serviço


O mesmo se dá com o jornal. Pode trocar de suporte técnico, pode mesmo existir na complementação dos suportes (papel e eletrônica), mas continua impelido, como forma moderna e democrática da comunicação, pela ideologia humanista que garante a cidadania. Eventuais descaminhos não podem elidir a evidência de que a imprensa brasileira, por exemplo, jamais deixou, em seus 200 anos de existência, de estar presente, como parte essencial, nas causas que ajudaram a dar à nação a sua face atual – a abolição da escravatura (de cuja campanha participou a maioria dos jornais provinciais) e a criação da República. O jornalismo, no Brasil e no resto do mundo, reflete as questões públicas decisivas para os rumos da nação.


Como conceber hoje o funcionamento dessa instituição ‘quase-pública’, geradora da informação necessária ao cidadão para o pleno funcionamento da democracia, sem uma formação universitária, especializada, de jornalistas? Informação não é mero produto, nem serviço: é o próprio solo da sociedade em que vivemos, é o campo onde joga o cidadão. Se a garantia dessa formação adequada se espelha hoje no diploma, viva o diploma.


 


Leia também


Os defensores do diploma e seus debates imaginários – Maurício Tuffani


O STF e o jornalismo de qualidade – Alfredo Vizeu


A titulação é necessária? – Sérgio Murillo de Andrade e Maurício Tuffani

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Jornalista, escritor e professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro

Todos os comentários

  1. Comentou em 16/05/2010 Leonardo Lira Lima

    1. Solicitamos o obséquio de o OBSERVATÓRIO prospectar uma análise da cobertura dos fatos que aconteceram na Faculdade de Direito do largo São Francisco – FDUSP, quando houve presença de 1000 pessoas no Pátio das Arcadas em prol do RETORNO IMEDIATO E REABERTURA DAS BIBLIOTECAS DEPARTAMENTAIS DO MAIOR ACERVO JURÍDICO DA AMÉRICA LATINA.

    2. A Folha e o JN silenciaram quanto a dizer que as bibliotecas estão fechadas há cerca de 110 dias, em prejuízo alunos e professores. No entando, misteriosamente, surge uma pauta sobre ‘POLEMICA PARALISA DOAÇÃO MILIONÁRIA???’, querendo fazer crer que os alunos e seus professores do Largo são contra investimentos privados e se estapeiam por causa de delírios.
    Absurdo!: O impopular Reitor da USP vai à televisão expõr a Faculdade ao ridículo e coloca em risco a autonomia de gestão do diretor Professor Magalhães, muito querido pela comunidade.

    3.Vale lembrar inclusive que o acervo está correndo risco, haja vista, o prédio da Rua Senador Feijó aparentar ter todos os atributos de um cortiço, com ratos, baratas, vazamentos, animais mortos(leia-se pombas), sem contar que é questionável se o prédio ali aguentaria o peso de 160 mil livros.

    4.O Estadão está fazendo uma boa cobertura, assim como o portal R7. Há o blog ‘Cadê a Biblioteca?’ e o blog Movimento Pró-Acervo das Arcadas, da turma 182-Xi do Largo. está tudo no google.

    Atenciosamente.

  2. Comentou em 02/06/2009 NICOLA CENTRONE

    Olá
    Faz muito tempo que gostaria de levantar a questão em pauta no item Assunto./ Vendo o ‘festival’ da imprensa a respeito do trágico acidente de avião, fico me perguntando ( e passo a perguntar) qual o papel da imprensa? / Sera que é a estimular o sadismo, a concorrência ‘Ibopeana’, proporcionar um festival de informações sem qualquer sentido objetivo./ Informar com ‘precisão’ os exatos metros de altitude, a exata velocidade, o nome , profissão, cargo, filiação, qual a intenção ao pegar o avião, etc, etc., bem como entrevistar invasivamente parentes, saber se os presidentes tem alguma coisa pra dizer, ou ainda: quantas horas de voo tinha a aeronave, o piloto o co-piloto (se eram ou não experientes)/ A repetitividade de falas (num mesmo momento do jornal de TV)
    de jornalistas espalhados pelo mundo / Os cortes interrompendo entrevistados que estão sendo entrevistados, em função do ‘tempo’ da programação ( então para que foram chamados?) /Enfim, gostaria que se fizesse um programa convidando jornalistas e diretores para explicarem as razões do ‘canaval’ de informações, quando de um tipo de acidente como o e principalmente da aviação./ De minha parte acredito que esse tipo de jornalismo sensacionalista, sòmente serve para alimentar espiritos doentes (sádicos de tragedias)/ Portanto, gostaria de saber se o que pretendem com toda essa parafernalha de informações.

  3. Comentou em 02/06/2009 NICOLA CENTRONE

    Olá
    Faz muito tempo que gostaria de levantar a questão em pauta no item Assunto./ Vendo o ‘festival’ da imprensa a respeito do trágico acidente de avião, fico me perguntando ( e passo a perguntar) qual o papel da imprensa? / Sera que é a estimular o sadismo, a concorrência ‘Ibopeana’, proporcionar um festival de informações sem qualquer sentido objetivo./ Informar com ‘precisão’ os exatos metros de altitude, a exata velocidade, o nome , profissão, cargo, filiação, qual a intenção ao pegar o avião, etc, etc., bem como entrevistar invasivamente parentes, saber se os presidentes tem alguma coisa pra dizer, ou ainda: quantas horas de voo tinha a aeronave, o piloto o co-piloto (se eram ou não experientes)/ A repetitividade de falas (num mesmo momento do jornal de TV)
    de jornalistas espalhados pelo mundo / Os cortes interrompendo entrevistados que estão sendo entrevistados, em função do ‘tempo’ da programação ( então para que foram chamados?) /Enfim, gostaria que se fizesse um programa convidando jornalistas e diretores para explicarem as razões do ‘canaval’ de informações, quando de um tipo de acidente como o e principalmente da aviação./ De minha parte acredito que esse tipo de jornalismo sensacionalista, sòmente serve para alimentar espiritos doentes (sádicos de tragedias)/ Portanto, gostaria de saber se o que pretendem com toda essa parafernalha de informações.

  4. Comentou em 08/08/2008 luis flávio biolchini

    Sou contra a exigência do diploma, mas confesso que esse artigo pode desaguar em falácias ornamentais. Uma coisa é alguém se expressar livremente, até através de um jornal. Outra é essa pessoa trabalhar como jornalista 8 horas por dia. Da mesma forma, eu também não tenho a liberdade de me expressar ofendendo outrem. Penso que essa lei acaba sendo muito mal-interpretada no País, pois as pessoas pensam – não estou me dirigindo a vocês – que se expressar livremente é ofender todo mundo, construir argumentos ilógicos, trocando em miúdos, todo comportamento adolescente MTV.

  5. Comentou em 08/08/2008 sylvia moretzsohn

    Gostaria de dizer que o jornalismo é uma profissão. Uma profissão que depende das liberdades democráticas para ser exercida adequadamente (e, a rigor, à contra-corrente do interesse das empresas jornalísticas…), mas não se confunde com o direito constitucional da livre expressão de pensamento. Todos temos esse direito. Ao mesmo tempo, seria interessante pensar no seguinte: se eu escrevo uma carta a um jornal e esse jornal não a publica, posso acusá-lo de cercear meu direito? Claro que não (pelo menos, em princípio): é prerrogativa do jornal selecionar o que vai publicar.

  6. Comentou em 06/08/2008 eduardo lettieri

    Prezado Cleyton, vc confundiu alhos com bulgalhos. Colaborador não é jornalista, leia o artigo 5º ‘colaborador, assim entendido aquele que, mediante remuneração e sem relação de emprego, produz trabalho de natureza técnica, científica ou cultural, relacionado com a sua especialização, para ser divulgado com o nome e qualificação do autor’.

    Como essa lei é cafona!!!

  7. Comentou em 06/08/2008 eduardo lettieri

    Prezado Cleyton, vc confundiu alhos com bulgalhos. Colaborador não é jornalista, leia o artigo 5º ‘colaborador, assim entendido aquele que, mediante remuneração e sem relação de emprego, produz trabalho de natureza técnica, científica ou cultural, relacionado com a sua especialização, para ser divulgado com o nome e qualificação do autor’.

    Como essa lei é cafona!!!

  8. Comentou em 05/08/2008 luis flávio biolchini

    Além disso, Suzana, quem é teórico em jornalismo é teórico da comunicação e isso desqualifica o seu debate.

  9. Comentou em 05/08/2008 luis flávio biolchini

    Além disso, Suzana, quem é teórico em jornalismo é teórico da comunicação e isso desqualifica o seu debate.

  10. Comentou em 05/08/2008 SUZANA FONSECA

    O autor é teórico em comunicação e não em jornalismo. isto desqualifica o debate.

  11. Comentou em 05/07/2005 Márcio Costa Sá

    Respondendo à enquete do programa:

    As fontes de denúncias da imprensa devem ser mantidas em sigilo. A imprensa brasileira faz o papel da polícia: investiga.
    O cidadão brasileiro só tem acesso ao que acontece na política através da imprensa.

  12. Comentou em 05/07/2005 Márcio Costa Sá

    Respondendo à enquete do programa:

    As fontes de denúncias da imprensa devem ser mantidas em sigilo. A imprensa brasileira faz o papel da polícia: investiga.
    O cidadão brasileiro só tem acesso ao que acontece na política através da imprensa.

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