Terça-feira, 23 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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DIRETóRIO ACADêMICO >

A parcialidade na cobertura política

Por Camila Logrado em 07/07/2009 na edição 545

Pressupõe-se que o trabalho jornalístico seja o de transmitir a informação tal como ela ocorre. A partir dessa idéia é que grande parte dos receptores absorvem esse conteúdo como verdade absoluta, pois não tem ciência de todo o processo pelo qual a notícia passa até chegar a seu conhecimento. A linha editorial do veículo de comunicação é o principal modelador da notícia, pois cerceia o exercício jornalístico a fim de preservar os interesses defendidos pela empresa, embora esse não seja um empecilho para a produção da notícia.

No Brasil, a cúpula dos meios de comunicação é, majoritariamente, composta por representantes políticos, os quais têm por metas reafirmar-se na sociedade e dar vazão aos seus objetivos. A abordagem dada a determinados assuntos traz um pouco (ou muito) dessa ideologia, além de transmitir para o receptor uma realidade fragmentada. Visto que a linguagem nunca é neutra. Para Berger e Luckmann, ‘a linguagem constrói, então, imensos edifícios de representação simbólica que parecem elevar-se sobre a realidade da vida cotidiana como gigantescas presenças de um outro mundo’ (1999, p. 61). Seguindo essa mesma perspectiva, Michel Foucault em sua obra A Arqueologia do Saber, explana sobre o discurso e ressalta que vários deles podem referir-se à mesma coisa, porém são construídos visando atingir o seu público alvo, além de também depender de quem fala. O autor, ainda complementa, dizendo que o que está implícito nas orações revela muito mais do que parece ser. E então fala do conjunto de discursos:

‘… Esse conjunto é tratado de tal maneira que se tenta encontrar, além dos próprios enunciados, a intenção do sujeito falante, sua atividade consciente, o que ele quis dizer, ou ainda o jogo inconsciente que emergiu involuntariamente do que disse ou da quase imperceptível fratura de suas palavras manifestas’ (FOUCAULT, 2002, p. 31).

Irregularidade e desvio de verbas

Os enquadramentos dados a cada matéria pelo veículo em questão traduzem o pensamento anterior de Foucault, e faz perceber o quão explorado é esse artifício, já que ‘são, portanto, importantes instrumentos de poder’ (PORTO, 2004, p. 79). O autor Robert Entman assim conceitua:

‘O enquadramento envolve essencialmente seleção e saliência. Enquadrar significa selecionar alguns aspectos de uma realidade percebida e fazê-los mais salientes em um texto comunicativo, de forma a promover uma definição particular do problema, uma interpretação causal, uma avaliação moral e/ou uma recomendação de tratamento para o item descrito’ (ENTMAN apud PORTO, 1994, p. 294).

A análise das páginas destinadas à cobertura política do impresso baiano A Tarde, evidencia um pouco do que foi discutido anteriormente. O estudo se restringiu a matérias que versaram sobre o Poder Executivo estadual, no período de 8 a 22 de março de 2009. Ao todo foram selecionadas 12 notícias, e algumas delas tratam do mesmo assunto, porém com focos diferenciados, isto é, explicitando pontos de vista diversos.

A matéria de manchete ‘Tribunal contesta contrato do Derba’, do repórter João Pedro Pitombo, veiculada no dia 22/3/2009, relata sobre o trabalho realizado pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) a terceirizados do Derba (Departamento de Infra-estrutura de Transportes da Bahia), sem licitação. O principal foco da notícia é o das despesas do Estado com funcionários que não fazem parte do quadro operacional da autarquia. A capacitação desses profissionais pelo Senai sem ter havido o processo licitatório também é bastante debatido. Fica perceptível, após a leitura dessa informação, que os fatos são dispostos a fim de levar o leitor a crer que houve a irregularidade e o desvio de verbas. Como pode ser comprovado: ‘A terceirização cria um rodízio de mão-de-obra que é prejudicial ao serviço público. É questionável, até pelo valor que está sendo gasto’ (A Tarde, 22/3/2009, p. B8).

Uma medida cautelar

A matéria coordenada, ‘Quadro de funcionários é reduzido, diz TCE’, é uma continuidade da anterior e é como se fosse uma explicação. Porém nesta, o foco é explicando o porquê do investimento em terceirizados e não nos servidores. E então surge a justificativa de que isso decorre dos problemas da própria entidade, que, entre outros, inclui o de possuir poucos servidores em exercício, proveniente do alto índice de aposentadorias.

Enfim, ao analisar as duas matérias, nota-se o enfoque dado em cada uma delas. Na primeira, o destaque para o relatório do Tribunal de Contas do Estado (TCE), onde são explicitadas as opiniões do diretor-adjunto do Derba, Alberto Gordilho, do presidente da Associação Sindical dos Servidores do Derba (Asderba), Nilton Ramos, e por fim, de uma especialista em Direito administrativo, Carla Nicolini, avaliando toda a problemática. Enquanto na outra, é ressaltado o problema do excesso de aposentadorias, e então Gordilho é novamente ouvido, explicitando a dificuldade com os recursos humanos na autarquia. A primeira abordagem trouxe explicitamente alguns dados a fim de induzir o leitor a pensar em conformidade com o veículo, enquanto a outra não realçou um ou outro ponto – somente trouxe à tona as evidências do fato –, podendo assim o leitor tirar as suas próprias conclusões.

A notícia ‘Estado mantém contratos com investigadas’ versa sobre as supostas irregularidades das empresas que estão sendo investigadas por fraudes em licitações públicas. Ainda é discutido que o governo da Bahia fez o pagamento a seis dessas empresas, mas o procurador chefe da União na Bahia, Bruno Godinho, afirma que esses pagamentos referentes ao ano de 2008 não são ilegais e que o bloqueio de bens é apenas uma medida cautelar. Aqui não é vista uma prática tendenciosa, ou seja, a repórter não impôs ao leitor um pensamento baseado em suposição acerca do assunto em questão. Porém, a foto destaca Anna Guiomar, procuradora da UFBA, que teve seus bens bloqueados, com aspectos de acusada.

‘Prêmio de consolação’

Dando seguimento ao estudo das matérias de cunho político de A Tarde, nota-se, nas seguintes notícias, assim como nas primeiras análises aqui feitas, que o impresso não foi partidário. Com isso ele deu possibilidades para o leitor interpretar a informação utilizando-se de seus aparatos cognitivos. A matéria ‘Bahia vai perder R$ 88 mi sem regional da Infraero’, do dia 20/3, vem corroborar esta afirmativa. Ela trata dos prejuízos causados à Bahia provenientes da perda da Superintendência Regional Centro-Leste da Infraero, além de destacar a importância de Salvador com relação a Recife, sede da Regional Nordeste. O governador baiano Jaques Wagner é uma das fontes, e a que tem mais relevância, pois é mostrado todo o seu trabalho a fim de reaver a decisão da estatal.

‘Wagner e Chávez estudam parcerias’ é o título da matéria publicada no dia 18/3/2009. Ela trata do encontro entre o governador da Bahia Jaques Wagner e o presidente da Venezuela Hugo Chávez. O governador baiano foi ao país vizinho com a finalidade de buscar investimentos e parcerias venezuelanas para a Bahia. Além disso, o presidente da Venezuela despertou o interesse em criar vôos diretos entre Caracas e Salvador, o que amplia a relação e o turismo entre os dois lugares.

A fim de ratificar a idéia de que em alguns momentos o veículo salienta ou exclui alguns fatos, dá-se prosseguimento às análises. As matérias examinadas a seguir tratam da assunção do deputado federal Walter Pinheiro (PT) ao cargo de secretário de Planejamento do estado. Cada uma das 6 notícias focalizou pontos diversos, os quais serão aqui analisados. A primeira delas, publicada no dia 13/3/2009, cujo título é ‘Wagner deve anunciar hoje Pinheiro como secretário’, relata sobre os rumores da posse de Pinheiro, quem ele é, além de se referir a Ronald Lobato – ex-secretário da Seplan. Nesta, é enfatizada a idéia de que a admissão do deputado federal ao cargo serve de ‘prêmio de consolação’ por ter sido derrotado pelo prefeito João Henrique (PMDB) no pleito para a Prefeitura de Salvador. Concomitante a isso, a disponibilidade da sua vaga na Câmara dos Deputados dá a oportunidade ao ex-prefeito de Juazeiro, Joseph Bandeira – que foi derrotado por Isaac Carvalho – assumir o cargo.

Menosprezo à pasta

Nos bastidores, comenta-se que o ingresso de Pinheiro no secretariado fortalece a imagem política do governo e é, ao mesmo tempo, uma compensação pelo desgaste sofrido pelo parlamentar com a derrota para João Henrique Carneiro na disputa pela Prefeitura de Salvador (A Tarde, 13/3/2009, p. B2).

As fotos aqui trazem Ronald Lobato e Walter Pinheiro, porém é dada mais ênfase em Pinheiro, devido à sua postura no retrato, enquanto Lobato parece estar passivo. O tipo de enquadramento desta notícia é o episódico, pois está tratando de um determinado momento que é o da transição de secretários.

Na matéria seguinte, divulgada no mesmo dia e local, ‘Pasta vira `moeda´, diz cientista’, é utilizada a análise do cientista político Jorge Almeida. Percebe-se a mesma visão, o que pode ser comprovado ratificando a assertiva anterior mediante seguinte passagem:

‘Claro que seria por fins eleitorais. Se for confirmada, a entrada de Walter Pinheiro na Seplan é uma mostra que o governador deseja uma chapa com Pinheiro e Geddel (Vieira Lima, ministro da Integração Nacional) para disputar as duas vagas no Senado em 2010’ (A Tarde, 13/3/2009, p. B2).

Além disso, o texto retrata o menosprezo dado pelo governador Jaques Wagner à pasta, que, na opinião de Almeida, ‘é uma das mais importantes da administração’ (A Tarde, 13/3/2009). A Seplan faz projetos que também são incorporados por outras secretarias, além de ser o órgão que cuida das relações do Estado, nacional ou internacionalmente.

Enquadramento personalista

‘Secretário evita comentar sua substituição na pasta’ é outra notícia da mesma edição, e que relata o ponto de vista de Ronald Lobato. Aqui também são explicitadas as atribuições da secretaria em questão. É visto, então, que devido à abordagem, esta não traz indícios explícitos de parcialidade – defendendo um ou outro ponto de vista – a fim de influenciar o leitor a acreditar naquilo que está sendo dito.

Outra matéria, do dia 14/3/2009, de título ‘Pinheiro assume a Seplan’, versa sobre a substituição do cargo de Ronald Lobato por Walter Pinheiro. Há, nela, outra ‘confirmação’ de que a sua posse foi uma ‘troca de favores’ para a sua promoção nas eleições de 2010. Na foto utilizada nesta matéria que vem acompanhada pela legenda – Pinheiro: ‘Não preciso de secretaria para me eleger’ – vê-se a foto do deputado com feições de inocente. Com o intuito de afastar de si tal boato, Pinheiro se defende, dizendo: ‘Não preciso de uma secretaria para me eleger. Tenho um mandato de deputado federal vitorioso’ (A Tarde, 14/3/2009).

Dialogando com a primeira matéria aqui apresentada do dia 13/3/2009, que trata da Seplan e de Pinheiro, a notícia de título ‘Planejamento vira polêmica na AL’, publicada no dia 19 do mesmo mês e ano, também discute sobre a ocupação do cargo do deputado por Joseph Bandeira, o que é confirmado por meio das palavras do deputado Elmar Nascimento (PR): ‘Pinheiro só foi indicado como secretário para compensar a derrota de Joseph Bandeira (PT) nas últimas eleições em Juazeiro’ (A Tarde, 19/3/2009). A informação ainda corrobora a idéia de que o governador não está dando muita importância a essa pasta desde o início do seu governo, ainda mais agora quando optou por trocar o ex-secretário que tem conhecimento na área de planejamento, pelo deputado federal que tem formação técnica em telecomunicações. Neste fragmento, nota-se um enquadramento personalista, pois focaliza o currículo do atual secretário e do antecessor. Isso ainda é comprovado na matéria mediante a fala do deputado Gildásio Penedo (DEM), líder da oposição na Assembléia Legislativa, ‘como o novo titular do planejamento não tem conhecimento na área, a expectativa é que Pinheiro consiga utilizar sua experiência em orçamento público’ (A Tarde, 19/3/2009, p. B6).

‘Chefe de quadrilha’

E, por fim, a última matéria sobre esse assunto, do dia 20/3/2009, ‘Governador rebate críticas durante posse de Pinheiro’, também segue os mesmos parâmetros das comentadas anteriormente e reafirma mais uma vez sobre a assunção do secretário como estratégia política e como forma de ressarcimento pela perda na disputa para prefeito de Salvador em 2008. O que é perceptível com as leituras é a predisposição do veículo em tratar o assunto baseando-se em argumentos os quais vêem a troca de secretários pela ótica da permuta de privilégios eleitorais.

Nas edições analisadas foi notória uma postura característica da oposição – que se limita a criticar o trabalho desempenhado pelo governo –, deixando explícito para os leitores que têm conhecimento da linha defendida pelo veículo, que neste momento pode ter havido algum conflito entre eles. No entanto, embora esta análise tenha se limitado a apenas 15 edições, verificando a postura do jornal em momentos anteriores, percebe-se uma tendência contrária, ou seja, de apoio ao governo.

A notícia publicada no dia 20/3/2009, tem como título ‘José Dirceu defende aliança do PT com o PMDB na Bahia’. Ressalta a visita do ex-ministro José Dirceu a diversos estados para possíveis articulações em 2010. De acordo com A Tarde, na Bahia, ele busca uma aliança entre o PT e o PMDB, visando bons resultados para o Estado, bem como o seu apoio para a reeleição de Jaques Wagner. Além disso, a matéria enfatiza o histórico de Dirceu, relembrando alguns fatos passados, inclusive a sua participação no ‘mensalão2‘, o que caracteriza o enquadramento do tipo personalista. No texto, assim como na legenda que acompanha a foto de Dirceu ao lado de Jonas Paulo, é destacada a cassação do deputado. Podendo ser comprovada mediante passagem do texto: ‘Deputado federal cassado em 2005 e apontado como `chefe de quadrilha´ do mensalão no inquérito que corre sobre o caso no Supremo Tribunal Federal (STF), José Dirceu ainda mantém forte influência na legenda’ (A Tarde, 20/3/2009, p. B4).

Não há imparcialidade e neutralidade

Em um dado momento no texto, a repórter Lília de Souza utiliza-se do caráter persuasivo, quando conjetura a disputa entre Geddel e Wagner, fato que ainda não é comprovado. A seguinte passagem vem ratificar tal assertiva: ‘Até o momento, Geddel não definiu seu futuro político, apenas afirmou que não será mais candidato a deputado federal, dando margem para uma eventual candidatura contra Wagner’ (A Tarde, 20/3/2009).

Enfim, uma pequena parte das matérias aqui estudadas revela uma postura ‘normal’ do veículo em questão, ou seja, sem uma visível toma de posição. Porém, a maioria delas é explicitamente parcial, como pôde ser comprovado por meio das análises. Referindo-se a essas últimas, é identificado que A Tarde utiliza-se do discurso autoritário discutido por Loraci Hofmann, ‘esse discurso não abre possibilidades para que o interlocutor interprete a seu modo a realidade, pois o sentido único já está nele constituído’ (HOFMANN, 1995). De acordo com o jornalista Jorge Maranhão (1993), essa parcialidade é inevitável, pois da mesma forma que ocorre no âmbito político-econômico, ocorre também no comunicacional.

Não só os textos como também as fotografias utilizadas pelo veículo traduzem essa parcialidade, visto que ‘a imagem não é um signo, […] mas um texto, tecido misto de diferentes tipos de signos, e que, com certeza, nos fala secretamente’ (JOLY apud ISSLER, 2002, p. 88). O que fica evidente é que não há imparcialidade e neutralidade, princípios tão discutidos pelos profissionais de jornalismo.

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Estudante, Salvador, BA

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