Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

DIRETóRIO ACADêMICO > O DIPLOMA E A PROFISSÃO

A quem interessa um jornalismo fraturado?

Por Rogério Christofoletti em 23/03/2010 na edição 582

Enganou-se redondamente quem pensava que uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) resolvesse por completo as questões mais importantes do jornalismo como profissão. A sentença que fez cair a obrigatoriedade do diploma na área para a obtenção de registro profissional não sepultou a questão, e só permitiu mais visibilidade às muitas fraturas que ajudam a compor essa combalida categoria. Hoje, passados oito meses do veredicto do STF, as fissuras são tantas que nem mesmo as entidades que poderiam atuar como pontos de aglutinação conseguem algum sucesso.

Talvez em poucos momentos os jornalistas tenham estado tão desunidos e divergentes…

A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) lidera uma campanha pela valorização da formação profissional e orienta seus 31 sindicatos filiados a trabalharem nesse sentido. Os sindicatos aquiescem e fazem figurar banners em seus websites, enaltecendo a importância dessa formação. No entanto, já há sinais evidentes de que há furos no barco. O Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, por exemplo, já admite a sindicalização de não-diplomados. O Sindicato de São Paulo sinaliza que pode fazer o mesmo, e deve decidir sobre isso no dia 1º de abril. No Espírito Santo, o sindicato não aceitou a proposta e se nega a receber não diplomados entre os seus quadros.

No caso catarinense, a decisão é altamente contestável, já que o assunto não passou pelo crivo da categoria em assembleia, tendo sido discutido só entre os diretores. Este é um tema político ou administrativo? É uma decisão cartorial que se move por consequentes dividendos de novos filiados ou é um movimento político para fragilizar a presidência da Fenaj, exercida pelo também catarinense Sérgio Murillo de Andrade? Difícil responder, já que as decisões dessa diretoria são tão transparentes…

A confusão se espalha

Mas a fragmentação no campo do jornalismo vai para além do movimento classista. Em diversos estados, as incertezas são tantas que se corre de um lado para o outro. A Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, por exemplo, aprovou projeto de lei que obriga jornalistas que servem em órgãos públicos estaduais a terem diplomas na área. Em Roraima, projeto semelhante foi aprovado na Assembleia. No Amazonas, os deputados estaduais vetaram projeto do tipo, e em Mato Grosso do Sul, a Comissão de Constituição, Justiça e Redação da assembleia local deu sinal verde para a tramitação de um projeto de lei análogo.

Há projetos de emendas constitucionais que resgatam a obrigatoriedade do diploma tramitando na Câmara Federal e no Senado. Há divisões cada vez mais evidentes na categoria. Há divergências entre as unidades sindicais. Há cursos de Jornalismo fechando no país. Essas circunstâncias ajudam a compor um cenário complexo e emblemático na história da consolidação do jornalismo como uma profissão. É evidente que a falta de unidade fragiliza a categoria e não ajuda a sociedade a melhor compreender o jornalismo, sua natureza e suas atribuições. É evidente também que há flagrantes choques de interesses dentro e fora da categoria. Há quem adore ver o circo pegar fogo. Pior: há quem ache que se beneficia com isso. Mas ninguém lucra com um jornalismo fragmentado. Nem mesmo a classe empresarial, que poderia colher frutos com uma categoria dividida.

Numa lógica imediatista, os empregadores podem ganhar mais força nas negociações trabalhistas, pois enfrentariam oponentes em frangalhos. Mas numa lógica mais perene, apostar na deterioração da profissão é contribuir para o enfraquecimento do jornalismo como negócio e como atividade social. Sem auto-estima, sem contornos profissionais bem definidos, sem profissionais que nele acreditem, o jornalismo vai mal. Se se apresenta hesitante, o jornalismo não serve à sociedade, não interessa ao cidadão comum e, portanto, não encontra meios de se sustentar como prática de negócios.

E a saída?

Apostar no ocaso do jornalismo, no embaçamento das fronteiras entre a profissionalidade e o amadorismo, e na fragmentação dos profissionais que dele vivem, volto a dizer, não beneficia a ninguém. Nesta guerra, não há vencedores no seu final.

Onde está a luz no fim do túnel? Na busca razoável por redefinições para o jornalismo. A decisão do STF é uma solução jurídica para um impasse permanente na área. Mas essa saída jurídica não resolveu os problemas da categoria, só precipitou mais dissonância e incerteza. Se aprovadas, as propostas de emenda constitucional podem ressuscitar a exigência do diploma, mas não vão enterrar a discussão em torno da qualidade da formação desses profissionais, da sua necessidade e da sua efetiva colaboração para um jornalismo melhor. Se aprovada, uma PEC dessas é mais uma solução legal, mas não total.

A meu ver, a solução total conjuga esforços jurídicos, de marcos regulatórios, mas também culturais e políticos. É necessário discutir e discutir e discutir o que constitui o jornalismo hoje nas sociedades complexas. É necessário repensar funções sociais e políticas para o jornalismo no jogo da contemporaneidade. É inadiável enfrentar a crise de identidade (e não financeira) do jornalismo. Sem isso, estaremos apenas adiando. Como quem deixa para a edição de amanhã a pauta de hoje…

******

Jornalista, professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

Todos os comentários

  1. Comentou em 30/03/2010 Igor M. Rodrigues

    Ibsen, eu não estou errado em nada: não há mais critério formal para a profissão de jornalista. Basta agir como um, mesmo que ocasionalmente. Tanto é que foi decisão do TRF da 2ª região em relação ao Bispo – que já escreveu vários artigos para jornais! Não necessita nem de vinculo trabalhista, bastando escrever mediante remuneração, produzindo trabalho de maneira técnica, científica ou cultural, relacionado com sua especialização (vide Apelação em Mandado de Segurança 2001.02.01.038441 TRF2/RJ). Ou seja: jornalista colaborador, como Edir Macedo, tem direito à carteira de jornalista, e ser jornalista! A prática na profissão, graças ao STF e aos que defenderam o fim do diploma para ser jornalista, tornou-se uma questão aberta. E esse relativismo (que agora tenta taxar, de forma absolutista, quem é ou não jornalista) é uma forma de mea-culpa dos opositores ao diploma, que desejam contornar a besteira que pregaram no Tribunal maior. Se alguém passa a escrever para um jornal, e recebe por isso (mesmo que seja o dono da mídia), é jornalista e ponto final! Esse é o resultado prático da decisão do STF, corroborado pelos que defenderam o fim do bacharelado para jornalista…

  2. Comentou em 29/03/2010 Ibsen Marques

    Igor, você está equivocado. Para receber a carteira de jornalista é preciso sê-lo em primeiro lugar. O STF extinguiu a exigibilidade, mas não a prática da profissão. Aliás, sobre isso, jornalista não é aquele que faz faculdade de jornalismo; esse é bacharéu em jornalismo. Jornalista é o profissional que atua nessa área, que exerce essa profissão, felizmente agora, com ou sem o diploma de jornalismo, já que nada impede que um historiador, filósofo, sociólogo, geógrafo, biólogo, físico etc etc exerção a profissão e tomem contato com as técnicas de produção de material jornalístico. Se isso não fosse uma verdade, os EUA e os maiores países europeus já teriam optado pela exigência do diploma específico, mas não o fizeram. Outro fato é que o desempenho do jornalismo na grande mídia é pífio, entretanto, se não todos, a grande maioria é jornalista de formação o que me permite dizer que o diploma não é garantia de competência ou mesmo ética. A defesa do diploma é meramente corporativista, é só ver a autoria dos posts que são favoráveis à exigência do diploma. Sou favorável ao diploma, mas não sua exigência, afinal, há muita gente competente que teria que ser posta fora por esse critério, no Brasil e no Exteriror.

  3. Comentou em 25/03/2010 RENATO MENDES

    O retrocesso da inexigibilidade do diploma para o exercício da profissão é irreversível, pois a lacuna que se criou está sendo colmatada com medidas que podem deteriorar ainda mais a situação do jornalismo. Os agentes do campo jornalístico encontram saídas paliativas. É aqui que se esconde um dos problemas: os jornalistas não são agentes, são expectadores motivados por interesses pessoais, pouco representados por seus sindicatos, e sem a cultura de pensar a profissão. As grandes conquistas surgem das bases. A herança dos brandos costumes condiciona e torna-se visível em questões tão graves quanto esta. O aspecto positivo de toda a cena, é o processo de catarse que se inicia, mas muito ainda deverá piorar, até que o jornalismo entre em combustão, para ressurgir como fênix. Veja o caso do jornalismo Português, ou melhor, Lisboeta. Antes da primeira iniciativa da criação de um curso de jornalismo, promovido por Marcello Caetano, substituto de Salazar no regime de inspiração fascista, em 1968, e até 1979, quando é criada a primeira licenciatura pública, e ainda em ciências da comunicação, os jornalistas portugueses nunca tiveram formação. Até 79 o jornalista português foi esmagado e a classe achincalhada pelos donos do poder. Leia os jornais lusos de referência e veja a qualidade da informação, tire suas conclusões. Os retrocessos devem ser combatidos, com urgência. Sds de Lisboa.

  4. Comentou em 25/03/2010 RENATO MENDES

    O retrocesso da inexigibilidade do diploma para o exercício da profissão é irreversível, pois a lacuna que se criou está sendo colmatada com medidas que podem deteriorar ainda mais a situação do jornalismo. Os agentes do campo jornalístico encontram saídas paliativas. É aqui que se esconde um dos problemas: os jornalistas não são agentes, são expectadores motivados por interesses pessoais, pouco representados por seus sindicatos, e sem a cultura de pensar a profissão. As grandes conquistas surgem das bases. A herança dos brandos costumes condiciona e torna-se visível em questões tão graves quanto esta. O aspecto positivo de toda a cena, é o processo de catarse que se inicia, mas muito ainda deverá piorar, até que o jornalismo entre em combustão, para ressurgir como fênix. Veja o caso do jornalismo Português, ou melhor, Lisboeta. Antes da primeira iniciativa da criação de um curso de jornalismo, promovido por Marcello Caetano, substituto de Salazar no regime de inspiração fascista, em 1968, e até 1979, quando é criada a primeira licenciatura pública, e ainda em ciências da comunicação, os jornalistas portugueses nunca tiveram formação. Até 79 o jornalista português foi esmagado e a classe achincalhada pelos donos do poder. Leia os jornais lusos de referência e veja a qualidade da informação, tire suas conclusões. Os retrocessos devem ser combatidos, com urgência. Sds de Lisboa.

  5. Comentou em 27/02/2008 José Rodrigues

    Já faz 8 dias que assiti o SBT Brasil – A Edição das 22:00h.
    Foi meu último telejornal!

    Sou Eng. Agrimensor e acompanho toda a movimentação organizacional/diplomática do INCRA na ação de recadastramento dos imóveis nos 36 municípios que mais desmatam na Amazônia.
    Qual não foi minha surpresa ao escutar o Âncora – Carlos Nascimento – falando das regras do referido recadastramento e afirmar que no recadastramento das propriedades no INCRA, A PLANTA DO IMÓVEL TEM QUE SER FEITA POR UM ENGENHEIRO AGRÔNOMO.

    A certeza é:
    Pagaram para a reportagem distorcer uma informação.
    Não vi nos demais jornalismos!

    Confeccionar planta topográfica é atividade própria de Eng. Agrimensor ou Eng. Cartógrafo. Outros Engenheiros também a fazem como uma atividade Adicional ou escolha particular.

    A comunicação social do INCRA teria privilegiado uma classe do sistema CONFEA/CREAS? Enquanto clase, os agrônomos estão como pardais entre os pássaros!

    Eu postei, ainda na ‘fervura do sangue’ durante o SBT Brasil, uma mensagem à imprensa do SBT alertando sobre o equívoco.

    Inocente, esperei pela ‘correção’ na próxima edição (madrugada) e não tocaram no assunto. Mas ele finalizou assim: ‘Aqui você pode confiar!!!’

    Foi como um tapa e me chamando de idiota.

    Não me conformei com a mentira!

    A pergunta é: Quanto se cobra para distorcer uma informação assim??

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem