Segunda-feira, 18 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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DIRETóRIO ACADêMICO > HISTÓRIA SINTÉTICA

A reportagem e livro-reportagem no Brasil

Por Gabriela Weber de Morais em 27/04/2004 na edição 274

O trabalho sobre livro-reportagem, exposto no GT de Mídia Impressa do II Encontro da Rede Alfredo de Carvalho, tem como objetivo principal retomar alguns momentos da história tanto da reportagem quanto do livro-reportagem, como também expor contribuições que este veículo tem trazido para a mídia impressa do país. Como bem define Edvaldo Pereira Lima [Páginas Ampliadas, São Paulo, Unicamp, 1995], o livro-reportagem atua como um extensor do jornalismo impresso cotidiano, realizando um aprofundamento dos temas, algo que os veículos periódicos, premidos por condições próprias de produção, incluindo limitações de tempo e espaço, não são capazes de comportar.

Desta forma, para se compreender o atual estágio do livro-reportagem no país, torna-se essencial buscar as origens da reportagem no início do século 20. Lembrar da importância germinal de Os Sertões (gênero híbrido), como possibilidade de novo tratamento jornalístico. E também da importância de João do Rio nas suas crônicas urbanas, utilizando diferentes formas de captação. Um cronista que foi igualmente responsável pela humanização dos personagens, como revela Cremilda Medina [Notícia – um produto à venda: jornalismo na sociedade urbana e industrial, 3a edição, São Paulo, Summus, 1993].

Outro aspecto que merece destaque por ter influenciado a grande reportagem e, posteriormente, sua prática no veículo livro-reportagem é a herança deixada pelo Realismo Social do século 19. A descrição minuciosa das cenas, realizada por Flaubert, Balzac e Dickens foi incorporada pela narrativa jornalística do século 20, enriquecendo sobremaneira o impressionismo das cenas reportadas.

Reler a história

O primeiro veículo periódico no Brasil a conceder espaço privilegiado à reportagem foi a revista semanal O Cruzeiro, lançada em 1928. Apesar da adoção de critérios éticos duvidosos e certa superficialidade na linha editorial, ela merece atenção pelo seu pioneirismo, principalmente na década de 1950, época em que alcançou seu ápice.

Com a decadência O Cruzeiro a partir da década de 1960, surge em novembro de 1965 a revista Realidade para ocupar o espaço deixado pelo semanário de Assis Chateaubriand e pela falta de um texto contundente de sua maior rival, a Manchete de Adolpho Bloch. Realidade não tomou este espaço reproduzindo o modo de reportar das revistas até então existentes. Ao contrário, inovou, imprimindo características que até hoje inspiram repórteres no Brasil – como a universalidade temática, a liberdade de pauta, a priorização de personagens anônimos, o uso da observação participante como método de captação e o embasamento documental substancioso em algumas matérias.

Seguindo os passos dos ‘novos jornalistas’ americanos, os repórteres também bebiam nas fontes do realismo social para buscar o conteúdo para suas reportagens. Embora, não tenha atingido o nível de experimentalismo alcançado pelo new journalism, a revista Realidade representou o auge da liberdade estética na história do jornalismo brasileiro. Ainda assim, a revista não conseguiu superar algumas lacunas referentes à abordagem aprofundada de um único tema, exceto pelas edições especiais. Da mesma maneira que deixou de lado muitas vezes a contextualização por adotar o formato reportagem-conto. Logo, não chegou a ocupar o espaço jornalístico específico em que o livro-reportagem pode atuar.

E foi das redações da revista Realidade e do Jornal da Tarde, outro veículo de vanguarda no período, que saíram jornalistas para confeccionar livros-reportagem. Fernando Morais, por exemplo, escreveu na década de 1970 o detalhado relato sobre Cuba denominado A ilha (reeditado recentemente com atualização do autor). Outros nomes como Ruy Castro e Zuenir Ventura alcançaram igual reconhecimento produzindo livros como Chega de Saudade e 1968 – o ano que não terminou. Hoje, momento em que o livro-reportagem recebe lugar de destaque nas livrarias, especialmente na modalidade biografia, o desafio é continuar a consolidação no mercado editorial brasileiro e estimular o crescimento do debate acadêmico sobre o assunto para reler a história, suprir carências e estimular novas propostas.

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Repórter do Jornal de Santa Catarina, bacharel em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Maria

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