Quarta-feira, 20 de Março de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1029
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DIRETóRIO ACADêMICO >

A sociedade quer informação com ética e qualidade?

Por Heitor Reis em 17/03/2009 na edição 529

Quase todos preferem viver num mundo de paz e solidariedade etc., mas pouco fazem, no seu dia-a-dia, para que isto aconteça, geralmente vivendo no mais completo e absoluto egoísmo, consumismo, imediatismo, hedonismo etc.


Seguramente, se fizermos uma pesquisa, constataremos que a quase totalidade das pessoas irá nos assegurar que, pelo menos da boca para fora, prefere não ser enganada pelo empresário da mídia e patrocinadores: grandes capitalistas e seus capachos no governo. Nem quer que o jornalista por eles contratado seja usado para manipular a informação veiculada pela mídia.



Assim, imaginam que o diploma seja a garantia de tal propósito, como vem alardeando insistentemente a Fenaj – Federação Nacional dos Jornalistas. E a maioria da população acabou optando por sua obrigatoriedade, em uma pesquisa real:




‘A pesquisa Fenaj/Sensus apresentou números semelhantes à do Comunique-se, foi feita em todo o país e consultando toda a sociedade. Nela, dos dois mil entrevistados, 74,3% mostraram-se favoráveis ao diploma e 74,8% favoráveis a criação de um órgão que fiscalize o exercício da profissão’ [ver aqui].


Dogmatismo religioso e político


Ledo engano! A única coisa que garante a prática correta de um profissional (ou de qualquer pessoa) é a certeza de sua punição, caso infrinja a ética ou a lei.


O diploma de engenheiro de Sérgio Naya evitou que ele construísse edifícios que caíram e mataram seus moradores, os quais não foram convenientemente indenizados até hoje? O CREA evitou que isto acontecesse? Naya foi preso por isto ou vivia nababescamente em Miami?


O diploma de medicina e o CRM impedem que médicos cometam seus crimes e faz com que haja agilidade no processo antes que cometam outros mais?


O diploma de advogado e a OAB foram capazes de prevenir o furto de uns 200 milhões de reais pelo juiz Nicolau dos Santos Neto (Lalau) que vive em prisão domiciliar até hoje se não tiver morrido também?


No Brasil, o crime compensa! O constrangimento da punição é coisa extremamente rara em nosso país, em qualquer campo da atividade humana. Aliás, a Constituição Federal e a lei dos anos de chumbo que regulamenta a profissão criminalizam a deturpação da informação, com raros casos levados à justiça de fachada, que, por sua vez, demora anos para fazer o seu trabalho. Muito menos os empresários manipuladores da mídia!


Se o diploma fosse a solução, os países mais evoluídos do mundo adotariam sua obrigatoriedade. A natureza desta atividade é diferente das demais, por ser formadora ou deformadora da opinião pública, onde mais conta a ética pessoal do jornalista e do empresário, que o conhecimento adquirido na faculdade. Mas, na realidade, o que conta mesmo, é se a nossa sociedade tem feito para garantir ética e qualidade na informação, de fato, independentemente do diploma.


Praticamente nada! Com 74% de analfabetos e semi-analfabetos, cujo caráter foi formado dentro do dogmatismo religioso e político durante séculos, é quase impossível ir mais além.


Interesses comerciais e empresariais


Assim, temos em jogo nesta questão, não o diploma, mas o caráter do jornalista, individualmente, formado ou não, o caráter do empresário que privilegia o lucro em detrimento da verdade, e o caráter da sociedade como um todo, fruto dos valores praticados com cada ‘cidadão’, fazendo com que ela esteja interessada ou não em receber informação confiável. Na prática, a grande maioria é do tipo me-engana-que-eu-gosto.


A capacidade técnica do profissional pouco significa. O fundamental é analisarmos a serviço de quais os interesses o jornalista a coloca! O que tu preferes?


(a) Um jornalista formado e prenstituído com o empresário?


(b) Um jornalista formado que se recusa a trabalhar na grande mídia comercial, onde vale tudo para conseguir lucro, e não tem como divulgar o que produz, a não ser na rede mundial de computadores, ainda um privilégio de poucos?


(c) Um jornalista autodidata, como tantos no passado, quando não havia escolas para se estudar este conhecimento, mas também prenstituído?


(d) Um jornalista autodidata como tantos no passado, que seja honesto e não venda sua consciência no mercado capitalista, e não tem como divulgar o que produz, a não ser na rede mundial de computadores, ainda um privilégio de poucos?


Perseu Abramo estudou a grande imprensa e concluiu que ela é a inimiga do povo brasileiro justamente porque busca o poder decorrente da manipulação da informação. Mas quem faz esta manipulação? O empresário ou o jornalista que para ele aluga sua consciência, sua ética e seu caráter? [ver aqui]


Rafael Roncagliolo é sociólogo e jornalista peruano. Dirigiu grandes grupos de comunicação de rádio, televisão e impressos. Já presidiu a Associação Mundial de Rádios Comunitárias (Amarc) e constata a mesma manipulação de Perseu Abramo: ‘A liberdade de imprensa na América do Sul hoje é definida por níveis e está diretamente ligada aos seus contextos regionais. Não existe liberdade de imprensa completa. Acredito que, de acordo com seus países e suas realidades políticas, elas são maiores ou menores, entretanto, historicamente, vivemos três censuras: religiosa, política e comercial, a última que é encabeçada pelos grandes grupos empresariais que compram mais do que espaço publicitário, compram a liberdade de muitos meios, limitando-os a retratar aquilo que for de interesse comercial e que não vá contra os princípios empresariais. Isso é uma forma de censura’ [ver aqui].


Meros mercenários


‘Jean Daniel, diretor do semanário Nouvel Observateur, umas das mais prestigiosas revistas da Europa, diz que a crise levou o jornalismo a perder seus paradigmas e que a capacidade que o jornalista tem de fazer o mal é devastadora‘ [ver aqui; em espanhol].


Qualquer pessoa pode perceber que um empregado, em toda profissão, se não obedecer ao patrão, perde o emprego, mesmo quando ele ordena que se faça algo errado. E é, digamos, até natural, que, diante disto, o trabalhador pratique a autocensura, antecipando-se aos desejos de seu patrão, para não perder a boquinha. Com o jornalista é a mesma coisa…


Portanto, caso a sociedade estivesse realmente interessada em receber informação com ética e qualidade, deveria se interessar por algo que vá muito além da mera obrigatoriedade ou não do diploma: a relação escravocrata existente entre o patrão e o jornalista.


Se o diploma garantisse alguma coisa, Perseu Abramo jamais teria concluído que o trabalho dele produz a manipulação da informação, para atender à ética e a qualidade determinada pelo seu patrão, pois estudou exatamente um período em que vigorava sua obrigatoriedade.


Em função disto, concluímos facilmente que os profissionais da grande imprensa rejeitam conveniente a ética defendida pela Fenaj e praticam a de quem lhes paga o soldo. Desconheço que a Fenaj ou os sindicatos a ela afiliados tenha condenado publicamente um profissional que transgredisse os limites do bom jornalismo. Nem quem tenha ordenado a tal desatino. Na realidade ela desconhece ou conhece, mas demonstra o contrário, o fato de que parte de seus profissionais são meros mercenários a serviço da manipulação da informação.


Um tipo de funcionário público


Por outro lado, enquanto o profissional da comunicação que trabalha para uma empresa da mídia não tiver segurança para fazer seu trabalho, de forma independente e adequada, ele sempre reproduzirá a sede insaciável de lucro a qualquer custo, tão natural no ‘voraz animal capitalista’ (Delfim Netto).


Em termos éticos, ele sofre da mesma epidemia intrínseca à natureza humana que o animal socialista: a predominância da malignidade sobre a bondade potencial quando o poder, a sobrevivência e outros interesses particulares estão em jogo. Dane-se o interesse coletivo, público e social!


Portanto, se não houver um dispositivo legal que funcione, na prática, para defender o comunicador, o suficiente para lhe dar autonomia, sem a qual jamais fará um bom trabalho, ele continuará, como sempre fez, manipulando a informação para atender prioritariamente aos interesses de seu patrão, da classe empresarial e governamental, unidas no propósito único de explorar o operariado, o consumidor, o contribuinte e o eleitor. Ou servirá aos propósitos particulares dos líderes do proletariado, num regime socialista, já noutra modalidade de exploração do homem pelo homem.


Qualquer solução neste setor vai encontrar uma resistência por parte dos capitães hereditários que dominam atualmente o país, bem como terá muito pouco apoio da sociedade para sua consecução, mas vale a pena registrar algumas delas para a posteridade.


Uma possibilidade é de que o jornalista seja considerado como um tipo de funcionário público, mesmo sendo remunerado por uma empresa particular, com liberdade para escolher a pauta, não ser editado à revelia, tenha plano de carreira e remuneração assegurada de forma independente de seu patrão.


Coragem para dizer a verdade


Outra seria que toda empresa de comunicação, mesmo privada, tenha um conselho deliberativo composto por representantes dos acionistas, do Estado e dos movimentos sociais classe média e populares. Os representantes dos movimentos sociais populares sempre deverão estar em condição majoritária, procurando-se respeitar sua participação numérica e percentual na sociedade. Afinal, no atual momento histórico do país, os demais trabalham conjuntamente, em função do financiamento de campanha política por parte do poder econômico e da conciliação de interesses que a grande maioria da classe média geralmente tem com o grande capitalista.


Certamente, este assunto vai dar o que falar na Conferência Nacional de Comunicação.


Quem acreditar que estamos realmente em uma República ou numa democracia, está hipnotizado pelo sistema (preso numa matriz ou matrix), dominado pelos capitalistas, seus legítimos representantes no governo e pelo Estado que eles criaram para atender aos seus interesses. Assim, o sistema de ensino, tal qual a mídia, mantêm a população escravizada neste coronelismo intelectual, econômico e político.


Assim, como ela poderá querer algo que, geralmente, já pensa estar recebendo? Como irá querer uma democracia ou uma república de verdade, quando já pensa vivê-las em sua realidade atual?


Se alguém conhecer um(a) jornalista que tenha coragem para dizer a verdade e defenda estarmos numa ditadura do poder econômico (plutocracia, cleptocracia ou corporocracia), favor informar-me, pois gostaria de saber de quem se trata esta ave rara!

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Engenheiro civil

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