Segunda-feira, 16 de Julho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº995
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DIRETóRIO ACADêMICO > ENTREVISTA / TT CATALÃO

A vez do leitor

Por Allan Novaes em 05/04/2005 na edição 323

Carioca de nascimento, mas brasiliense por paixão, TT Catalão é um dos raros jornalistas cuja carreira profissional se confunde com a história da cidade na qual vive. Embora esteja hoje mais afastado da grande imprensa, atuando como consultor de programas de rádio e internet na área de cultura e cidadania, TT presenciou momentos importantes da história do Distrito Federal e do Brasil na redação do diário Correio Braziliense. Isso se deu especialmente durante a reforma gráfica e editorial do Correio (1994-2002), período que rendeu ao jornal prestígio internacional.

Além de editor, TT era coordenador do Conselho de Leitores do Correio – órgão composto, como o nome já diz, de leitores do jornal com autonomia, durante alguns meses, para criticar e analisar as notícias do jornal, bem como sugerir pautas e abordagens noticiosas. Paralelamente às reuniões do Conselho, TT era responsável por uma página intitulada ‘Correio DO Brasiliense’, feita inteiramente pelos próprios leitores, que publicavam notícias, artigos e até charges de sua própria autoria, e também editava a coluna ‘Desabafo’, espaço dedicado a frases e pensamentos dos leitores sobre os problemas da cidade – a coluna recebia cerca de 300 mensagens por dia e tinha os seguintes dizeres: ‘Pode até não mudar a situação, mas altera a sua disposição.’

TT ficou famoso pelo editorial intitulado ‘Para que serve um jornal?’ [ver abaixo], que foi capa do Correio em setembro de 1996. O texto, que virou um cartaz imenso na entrada da redação do diário, foi escrito como resposta do Correio a ataque do governador do Distrito Federal, Joaquim Roriz, que ameaçara fechar o jornal em pleno palanque.

Demitido do Correio após a saída de Ricardo Noblat e Paulo Cabral Araújo, TT Catalão, em entrevista à revista Canal da Imprensa, fala sobre o impacto do trabalho realizado pelo Correio Braziliense nos últimos anos, alfineta o desafeto Joaquim Roriz, ainda governador do Distrito Federal, e critica a inexpressiva participação do leitor nos produtos jornalísticos – ironicamente, no ano em que se comemoram os 20 anos de democracia no Brasil.

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No ano em que se comemoram duas décadas de democracia no Brasil, uma das primeiras lembranças que vêm à mente do brasileiro é a derrocada do regime militar e o fim da censura e da perseguição à imprensa. Contudo, episódios recentes mostram que a imprensa ainda não tem muitos motivos para festejar. A censura prévia praticada contra o Correio Braziliense em 23 de outubro de 2002, por exemplo, foi considerada o ‘mais grave atentado sofrido pela liberdade de imprensa’ no país desde o fim da ditadura. Até que ponto a imprensa vive numa democracia?

TT Catalão – Que saímos da barbárie, saímos. É um alento. Mas nenhum cidadão, com razoável dose de indignação e busca da justiça, deveria estar satisfeito com o estágio atual – para não cairmos naquele papo do cara que, na prisão, levava choque elétrico todo dia e sentia algum ‘alívio’ quando ‘só’ apanhava com socos. É horrível este mecanismo de consolo e sujeição ao ‘melhorzinho’ para narcotizar nosso impulso de exigir o máximo. Na imprensa, sair da barbárie é escapar da censura explícita e cadeia literal em grades e muros.

Porém, quem é capaz de afirmar a inexistência das censuras sofisticadas que isolam e tiram visibilidade e voz das cabeças dissonantes? São as novas fogueiras que ‘queimam’ na base, requintadamente lentas, técnicas, para isolar e não pedir trabalhos ao ‘alvo’ (por exemplo: os repórteres não recebem mais pauta para anular figuras que não interessam ao núcleo econômico e ideológico da empresa). Funciona tão bem a maquinaria que até a desconfiança da vítima sobre tal mecanismo logo é classificada como surto paranóico.

A outra contradição é o senso de espetáculo das coberturas e a necessidade de vender mais e mais para aquecer os negócios da empresa-jornal aumentando os riscos de promiscuidade com o poder, o cinismo para justificar isto (apregoam até ‘liberdade’ conseguida pela ‘independência’ econômica), a baixa aptidão para investigar e manter em pauta assuntos ‘indesejáveis’ e por fim o máximo em pirotecnias de design ‘modernosos’ e gracinhas de plantão para maquiar péssimos conteúdos pelo aerossol do descolado. Sem falar que a notícia quando vira mercadoria é sempre apresentada sem antecedentes, memória, contexto e muito menos com o mínimo de análise e reflexão.

A reforma editorial e gráfica do Correio Braziliense (1994-2002) é considerada por muitos jornalistas o grande exemplo de jornalismo independente. O Correio daquela época foi realmente um símbolo do jornalismo livre e comprometido com a democracia ou tudo não passou de um exagero publicitário?

TT. C. – O Correio 1994-2002 tem as suas contradições naturais de grande imprensa, vacilos de fechamento, carregamento de tintas inoportuno, deslizes na língua e afins, rusgas óbvias na relação patrão-empregado, condições de trabalho fora do padrão ideal, entre outras coisas. Mas sobrava um fator: a permanente celebração da inteligência e busca obsessiva de aprimoramento do trabalho. Isso é o que nos redime de inúmeros erros cometidos no percurso (até da armadilha, que caímos, montada pelo governo do Distrito Federal em deixar o Correio como ‘faccioso’ e ‘exagerado nas críticas unilaterais’ ao governo – um volume coerente com a fiel procedência das fontes e crimes cometidos pelos titulares do Buriti).

O fundamental era o absoluto clima de desafio interno em se superar e praticar algo muito ‘fora de moda’ na imprensa atual: aliar conteúdo (o mais difícil) ao elemento-surpresa da linguagem, a estética. O design no Correio não era o ‘estiloso’ do bonitinho de butique, tinha conceito, havia link concreto com a história que se pretendia contar. Não era nenhum truque, era vida. Tanto que depois dos prêmios ficava até difícil encaixar algumas idéias, pois o número de palpiteiros (justa vaidade, até) e ambições menores para ‘entrar na história’ atrapalhavam um pouco o garimpo da melhor idéia. Mas não era nada grave, apenas um teor competitivo interno que também estimulante – embora eu tenha aversão a disputas intelectuais e me recolhia nos acirramentos. Tudo era potencializado pelo talento humano. E o Noblat conduzia o processo com trancos e barrancos, generosidade, talento reconhecido no meio e um belíssimo e contagiante entusiasmo.

O seu texto-editorial ‘Para que serve um jornal?’, publicado em setembro de 1996, tornou-se um marco do bom jornalismo. Na atual conjuntura do jornalismo brasileiro, princípios do seu texto, como o ‘jornal serve para servir’, estão sendo aplicados pela grande imprensa?

TT. C. – O ‘Para que serve’ ficou, digamos, ‘histórico’. Foi uma honra tê-lo como pôster de dois metros na entrada da redação até alguns meses após minha demissão, em março de 2003 – pelo seu contexto de resposta frontal a um ataque virulento de Roriz ao jornal incitando em palanque sua população – perigosa atitude se contarmos com a sua liderança messiânica e irracional das ‘massas carentes’. Claro que o mérito veio de todo o clima de liberdade que o jornal transpirava. Senti-me autorizado a escrever. Tanto que fiz como minha coluna editorial da semana que saía aos sábados, mas decidi mostrar ao Noblat, pois assumia uma crítica institucional e ele saltou literalmente da cadeira para transformar o texto (na verdade escrito em 15 minutos – tenho testemunhas!) em capa pela aprovação eufórica da diretoria.

O ‘Para que serve’ é um desabafo gigante, romântico, com ares iluministas de utopia, que nem mesmo o Correio cumpria totalmente. Mas o clima é de grande projeto a ser perseguido sem o menor pudor de arriscar – que era um outro valor do Correio, na época.

Muito se fala de democracia e inclusão social em termos dos deveres do Estado com o cidadão, mas pouco se fala do compromisso da imprensa com o cidadão. Por isso, o seu trabalho com o leitor nas seções ‘Desabafo’ e ‘Correio DO Brasiliense’ podem ser considerados quase que pioneiros. Quais foram os resultados da sua experiência no Correio com seções e editorias que muitas vezes eram feitas inteiramente pelos próprios leitores?

TT. C. – Era a minha razão absoluta de ser. Realmente descobri minha legitimidade como jornalista ao escancarar a ponte com o leitor – ‘interatividade’ no Correio não era jogadinha de marketing, mas vínculo honesto, mesmo. O que para muitos seria ‘um saco’, para mim, uma dádiva receber e responder mesmo a centenas de leitores diariamente. E o jornal foi maravilhoso ao criar e ampliar a coluna ‘Desabafo’ em local nobre, ao lado do editorial, e ao dar uma página inteira ao ‘Correio DO Brasiliense’.

Quais desafios você enfrentou ao designar um espaço diário aos leitores?

TT. C. – Só no começo houve resistência. Depois os leitores fotografavam, escreviam mini-ensaios, artigos, ilustravam, enviavam tiras de histórias em quadrinhos, propunham e respondiam enquetes polêmicas da semana. Esta ponte era fundamental, pois a direção havia criado especialmente para mim uma ‘Editoria de Pesquisa e Informação’ que servia de interlocução com o arquivo geral do Correio para dar contexto às notícias e cadernos especiais – antológicas criações para retrospectivas do ano. O ponto principal era a participação dos leitores, mesmo, em opinião e proposição, e não apenas como platéia reativa.

A criação do Conselho de Leitores do Correio e a presença do ombudsman na Folha de S. Paulo, por exemplo, são exemplos raros da participação do leitor no cotidiano das redações. Por que se dá pouco espaço a essa empreitada jornalística?

TT. C. – Medo de ir fundo. Criar relações é se comprometer e isto dá um trabalho absurdo. E também falta de profissionalismo em assumir de verdade que são os leitores quem justificam produzir, imprimir e colocar no ar qualquer veículo de comunicação. Ouvidoria não é para ouvir queixas ou só dar satisfações. Conselho de Leitores é para oxigenar pautas, tirar jornalistas da redoma autoritária, mexer com os ‘gênios’ pelo retorno do cotidiano. As empresas usam a interatividade ou para malandragem que ‘aponta tendências do consumo’ ou para fachada que exerce o chavão medíocre da cidadania representativa. O canalha só quer ‘opinião pública’ para pautar sua agenda de engodos e jamais para mudar sua atitude. Daí tantos discursos ocos, sem veias com o testemunho vivo.

Qual é então a perspectiva de projetos que permitem ao leitor interagir diretamente com o jornal: expansão ou extinção?

TT. C. – Sinceramente, não sei. Posso estar equivocado pelo meu afastamento da área, mas nunca vi nada igual ao que fizemos no Correio. Virou tese na USP, até. Não vejo nada igual agora, nem nada no futuro.

Qual recado você daria aos jornalistas no ano em que se comemoram duas décadas da democracia brasileira?

TT. C. – Não desistam dos caminhos difíceis. Os atalhos são armadilhas que ‘às vezes não dão chances para a volta’. Quem tem de ser especial é você, não o seu cheque. E mantenham a permanente relação entre estética e conteúdo. Jornalismo também é linguagem e se alimenta de referências culturais. Muita curiosidade aberta para tudo. Disciplina. Leituras, leituras, leituras, pois a língua tem arquitetura e repertório se amplia e renova. E bote fé que ‘eles’ são muitos, mas não sabem voar.

Para que serve um jornal (*)

Um jornal serve para servir. Servir principalmente a uma cidade. Um jornal se for só papel serve para cobrir o chão quando pintamos a casa ou embrulhar peixe no mercado. Um jornal se for só negócio serve apenas para crescer em lucros, máquinas e construções. Um jornal se for mero símbolo, tradição e história serve para discursos pomposos mas ocos de compromisso com a vida. Um jornal grife funciona só para o marketing ou propaganda de empresa líder de mercados. Mas o que faz um jornal servir é algo além da mercadoria ou da imagem que projeta.

Um jornal não tem senhores, domínios, posses ou possessões. Um jornal serve quando não é escravo até do seu próprio sucesso. Então pra que serve um jornal, mesmo? Um jornal serve para publicar o que se fala, refletir o que se publica, aprofundar o que se opina sobre o publicado e ampliar TODAS as opiniões sobre o dito e o refletido.

Um jornal serve para servir ao seu eixo principal de credibilidade: o leitor. Um jornal serve para ir além da notícia quando busca suas relações, seu contexto, as circunstâncias que geraram o fato e até avaliar suas conseqüências. Um jornal serve para pensar. E ser pensado por gente livre e não administrado por máquinas servis. Um jornal serve quando desperta atitudes. Quando analisa os atos que sofre mas também é ator nada passivo. Serve quando é veículo dos muitos meios, modos, culturas e linguagens componentes de uma sociedade.

Serve e é estimulante e rico quando abriga e convive as contradições. E só estará vivo em intensa atividade se servir aos que o lêem e o mantenham. Um jornal serve quando não teme. Nem o conflito natural das divergências nem o confronto acintoso de quem tenta intimidá-lo. Serve quando se expõe até a equívocos mas busca avançar quando a prudência confunde-se com o medo. Um jornal serve como serviço público que é a definição mais básica de imprensa como instituição!

Um jornal serve para reagir, para admitir e apontar erros, para estabelecer todas as linhas de diálogos com todas as representações organizadas de uma cidade.

Serve também para o indivíduo que não adquiriu voz partidária, sindical ou até mesmo de classe tal a sua exclusão no convívio social. Um jornal serve também para emocionar, dar prazer, informar por inúmeros suportes do fato além do texto, deleitar, entreter, indignar, comover e demonstrar que vive intensamente o seu tempo e a sua região. Um jornal não é só um amontoado de linhas, textos, fotos e traços, um jornal serve quando se torna fundamental, preciso, precioso, indispensável para o que na verdade o mantém vivo: sua credibilidade.

Um jornal serve para reconhecer seus talentos e sua vocação maior de comprometimento com o seu serviço primordial: um jornal serve para servir!

(*) Publicado na capa do Correio Braziliense de 19/7/99, Brasília (DF)

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Secretário de redação da revista Canal da Imprensa e professor do Centro Universitário Adventista (Unasp)

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PRIMEIRAS EDIçõES > THE WASHINGTON POST

A vez do leitor

Por lgarcia em 01/07/2003 na edição 231

THE WASHINGTON POST

Dar espaço para que os leitores possam se manifestar é importante para que um jornal se integre mais à comunidade. Pensando nisso, o ombudsman do Wahington Post, escreveu sua coluna de 22/6/03 sobre as partes do diário em que o público pode dar sua contribuição. O caminho mais comum é a seção "Cartas ao Editor", que recebe cerca de 3.500 mensagens por semana. Cada seção específica também tem sua seção de cartas, e, especialmente quando há promoções, chegam muitas ao jornal.

Getler, no entanto, chama atenção para áreas do Post que pedem a participação criativa do público. Uma delas é o "Sunday Style Invitational", seção de humor em que o leitor pode sugerir concursos cômicos que serão respondidos por outras pessoas. Em uma publicada recentemente, a regra era enviar palavras que, com a mudança de uma letra, ganhassem novo sentido (alguém mandou, por exemplo, "errorista": integrante de seita islâmica radical que se explode em uma fábrica de manequins). O colunista observa que, em determinada ocasião, já reclamou do Invitational por causa do linguajar utilizado, mas assinala que, às vezes, a seção tem coisas muito engraçadas.

Uma das partes favoritas do ombudsman no Post é "A vida é curta/Biografia em hai-kai", inspirada na modalidade japonesa de poemas curtíssimos. Ali são publicadas histórias de vida de leitores com, no máximo, 100 palavras. Getler cita a de um homem que, na intenção de ser prestativo para a esposa, coloca nos frascos corretos o sal e a pimenta que haviam sido colocados inversamente. Quando finalmente termina o trabalho, sua mulher lhe pergunta por que não trocara apenas as tampas com os nomes.

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