Quinta-feira, 19 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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A vida começa depois dos 40, mas o respeito acabou

Por Fernando Horta Zuba em 23/06/2009 na edição 543

Durante muito tempo, filho de um veterano jornalista que sou e, diga-se de passagem, que não tem formação superior, passei noites inteiras discutindo com o ‘velho’ sobre a obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão. O ‘velho’, já calejado, cansado da labuta, que foi até correspondente de guerra, afirmava impiedosamente que o que valia mesmo era o talento, a vocação. E, confesso, por um momento acreditei. E tratei de requerer o meu registro ‘precário’.

O passo seguinte foi buscar um ‘lugar ao sol’. Pois também acreditei igualmente que, após mais de vinte anos acompanhando um experiente profissional, nos mais diversos segmentos da comunicação, como a redação do extinto Jornal de Minas, os estúdios das rádios Capital e Mineira, e diversas assessorias de imprensa, entre elas Fiemg e OAB-MG, além de outras tantas campanhas políticas, estava preparado para encarar qualquer desafio. Ora, tinha mais horas de viagem que muito piloto experiente e devidamente graduado, ou habilitado. Já sabia que era primordial escrever no lead quem, o que, quando e onde. Ouvir os dois lados. Bastava então colocar em ação a ‘prática e o talento’.

Quanta imaturidade, inocência e despreparo. Posso dizer sem medo, sem modéstia, que apanhei feito gente grande. Faltava muita coisa. O trabalho realizado pelo jornalista necessita muito mais do que experiência e o legado repassado pelo veterano, minha culpa, minha máxima culpa, não foi o bastante. A profissão de jornalista exige, sim, e em grandes doses, compromisso com a sociedade, responsabilidade, ética, dignidade e respeito. E sem técnicas, conhecimentos específicos e uma base sólida, é impossível exercer a profissão.

Desestímulo, desânimo, náusea

Fato é que resolvi estudar, conquistar não só a graduação, o diploma, mas entender do assunto. Os direitos e deveres e, principalmente, os reflexos do exercício da profissão. Daí vem um relator dizer que os danos a terceiros não são inerentes à profissão de jornalista e não poderiam ser evitados com um diploma. Que as notícias inverídicas são grave desvio da conduta e problemas éticos que não encontram solução na formação em curso superior do profissional. O ministro Lewandowski enfatizou o caráter de censura da regulamentação, que o diploma era um ‘resquício do regime de exceção’, que tinha a intenção de controlar as informações veiculadas pelos meios de comunicação, afastando das redações os políticos e intelectuais contrários ao regime militar. Ele não lê jornais! E quem ele pensa que está à frente dos sindicatos?

Num país marcado pelo analfabetismo, cerca de 20 milhões, tal atitude serve como desestímulo, causa desânimo, náusea, nojo. Jornalistas profissionais: *1969 / +2009

É hora de radicalizar

Filha: Olá, papai, bom-dia. Sobre aquele assunto que já estamos debatendo há alguns meses, passei a noite em claro refletindo. Afinal de contas, já tenho 17 anos e preciso me decidir.

Pai: Sim, minha querida, já não é sem tempo. Mas diga. O que decidiu?

Filha: Pois é, papai, após analisar a atual situação deste enorme Brasil, estes políticos, digamos, despreparados, a fome do mundo, as desigualdades sociais, a desinformação geral da população em assuntos básicos, corriqueiros e cotidianos. E quanta violência, quantas mortes, vidas que se perdem ainda na infância, abusos, preconceitos, drogas, tráfico de mulheres. Sem falar da situação da saúde e da educação.

Pai: É verdade, meu doce. Sinto-me orgulhoso e, ao mesmo tempo, angustiado, que já tão jovem conheça e se preocupe com as mazelas deste país, que mais parece uma sucursal do inferno!

Filha: Exatamente, é o que penso também. E acredito piamente que esta situação pode piorar. E chegamos a este ponto, posso afirmar, papai, por causa da certeza da impunidade que impera neste país. A coisa caminha para descambar de vez. Os homens que dirigem os rumos da população deveriam ser os primeiros a combater este alarmente caos, mas ao contrário, na verdade, são exemplos de indignidade, mau-caratismo, uma vergonha. As leis deveriam ser mais severas. Não falo em pena de morte, mas é hora de radicalizar, medidas enérgicas. Chega de atos secretos, de dólares na cueca, de corrupção, mensalão, nepotismo. Basta! Chega de miséria, fome, doenças. Esse inferno tem que acabar.

O diálogo infernal

Pai: Estou perplexo, minha amada filha. Percebo que você tem posição, postura. Aliás, sempre soube disso, você não foge à regra que marca nossa família. Está por dentro dos principais assuntos que atormentam esta nação. Tenho certeza que, seja qual for a profissão merecedora de sua escolha, será uma grande batalhadora. Uma graduação, um bacharelado, o diploma na parede, quanta satisfação. Saiba, filha, um cidadão consciente assim, igual a você, que procura crescer, buscar conhecimentos, na concretização de seus ideais, na realização de um sonho, faz a diferença. Pessoas com um curso superior somente enobrecem e enriquecem uma nação. Quanto maior o nível de instrução da população, maior a qualidade de vida do planeta, são reflexos. Você será preparada para contribuir para o melhoramento do Brasil em todos os aspectos e, acredite, o aprender é contínuo, ingressar na academia é só o início. Quero vê-la graduada, pós-graduada, mestre e doutora. Mas filha, estou agora ansioso, revele a sua escolha.

Filha: Isso, papai. Fico feliz de saber que concordamos. Nunca pensei em ser uma mulher, e compreenda, sem querer desmerecer às que escolheram ou não tiveram opção, enfim, uma mulher que vive na cozinha, no fogão, no tanque, que gasta seu tempo lendo revistas de moda, assistindo programas de fofoca ou escutando lorotas do tipo faça uma simpatia, e por aí vai. Como você disse, estou muito bem informada. Leio os principais jornais, assisto telejornais, escuto notícias. Sei e compreendo o que acontece. E é por isso que escolhi o que quero para o meu futuro. Quero ser jornalista profissional!

Pai: Minha filha, o dever me chama. Ficamos conversando e não percebi o tempo passar. O departamento de comunicação do STF acaba de enviar informações sobre a pauta do dia, tenho que acelerar. Um presidente que se esquece de suas obrigações não pode nem ser síndico de um prédio. Depois continuamos, até mais tarde! Inferno…

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Jornalista profissional

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