Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

DIRETóRIO ACADêMICO > ENSINO DE JORNALISMO

A experiência dos jornais murais em Alto Araguaia

Por Lawrenberg Advíncula da Silva em 07/10/2014 na edição 819

De um lado, presenciamos uma inevitável crise da imprensa escrita em escala global, causada, entre tantos fatores, pela mudança geracional entre os leitores de jornais nas últimas quatro décadas e pela inércia das próprias redações em se adequar às novas tendências do mercado editorial – convergência digital, transmidiação. O que, segundo Phillip Meyer (Os jornais podem desaparecer?, 2007) e Ricardo Noblat (A arte de fazer um jornal diário, 2010 ), coloca em risco toda a cadeia produtiva da notícia.

Enquanto de outro, registra-se a dificuldade de se produzir semestralmente jornais-laboratórios em cursos de Jornalismo em áreas semi-rurais do Brasil, onde a estrutura laboratorial é deficitária, senão aquém do mínimo sugerido para a aprendizagem teórico-prática da profissão, de acordo com as diretrizes curriculares nacionais do MEC (http://portal.mec.gov.br), quando se exige laboratórios técnicos especializados em permanente atualização.

Sob este dilema cada vez mais enfático ante o apogeu da informação digital, o jornal mural, modelo antes restrito aos ambientes da Comunicação Organizacional, evidencia como uma via útil para um novo saber-fazer no jornalismo impresso, ao se considerar suas condições de produção, edição e impressão e compará-las aos dos tradicionais jornais tabloides e standards, dos quais demandam um volume de trabalho maior. Mas, acima de tudo, porque de todos os impressos citados o jornal mural mais se aproxime do leitor da internet, habituado a leituras rápidas, efêmeras.

A constatação se dá a partir da experiência e uso do jornal mural enquanto ferramenta de integração social e de conhecimento no curso de Jornalismo do campus universitário de Alto Araguaia, cidade de 15 mil habitantes e de vocação ecoturística.

Bem como tem por referência e faz contraponto à história recente do mercado editorial da região, quando publicações locais como o Folha do Araguaia, O Popular e o Comtexto – todos conduzidos na época por egressos em Jornalismo– não tiveram o devido êxito, sendo que a maioria ficou inativa já nos primeiros meses de existência. E outras, mais tradicionais, como o jornal A Tribuna de Rondonópolis (cidade com mais de 180 mil habitantes), e as revistas RDM e Óptima (ambas da capital, Cuiabá), sobrevivem devido aos generosos patrocínios de empresários e empresas ligadas em boa parte ao setor do agronegócio.

Os primeiros jornais murais

Desde a criação do curso de Jornalismo na Universidade do Estado de Mato Grosso – Unemat, em 2005, surgiram pelo menos dez publicações marcantes. Dessas, deve-se destacar os jornais murais O Paredão, O Curioso, O Jornaia e, mais recentemente, Ainda sem nome.

Os jornais murais iniciais eram impressos numa impressora comum e em papel offset, com uma tiragem de 10 a 30 exemplares. Possuíam o tamanho próximo do A4 (21 x29,7cm), salvo exceção do primeiro deles, que era impresso em tamanho A3 (29,7 x 42 cm). A quantidade de páginas variava entre duas a quatro, dependendo da disposição das dobras e principalmente dos textos.

O Paredão, o mais antigo deles, desenvolvia reportagens densas e de viés literário, tal qual crônicas rebuscadas e artigos críticos, logo se diferenciando dos clássicos house organs das assessorias de imprensa e dos departamentos de MKT, dos quais privilegiavam em suas linhas editoriais matérias curtas e de cunho mais (auto)promocional do que realmente de interesse público (ou de públicos).

Pode-se dizer que havia uma disputa por pautas de abrangência muito mais da comunidade externa, do que do pequeno campus universitário, onde antes funcionava um colégio salesiano de padre, o Padre Carletti.

Mas foi o jornal O Curioso, nascido do engajamento de alunos do primeiro semestre do curso, que fez a produção laboratorial-acadêmica e local adquirir o status de independente e divergente à desconfiança e resistência de quem, influenciados (as) pela visão cosmopolita da profissão, sempre historicamente atrelou o exercício do jornalismo impresso aos grandes centros.

Da prática laboratorial ao protagonismo local

O jornal mural O Curioso abordava em suas páginas temas de interesse da região, sendo pioneira na adoção da Opinião Ilustrada enquanto seção fixa, a partir da publicação de charges bem-humoradas, contundentes e de bom apelo social perante a comunidade.

Em se tratando da linha editorial, as suas notícias contrariavam ao agendamento midiático local (uma retransmissora da Rede Record, a TV Integração, e uma rádio, a Aurora FM), caracterizado por uma cobertura tendenciosa e voltada a atender os interesses de sua classe dirigente, composta em grande maioria por empresários rurais.

O projeto gráfico de O Curioso sofreria mudanças significativas ao longo dos seus 14 meses de existência, com destaque à tipografia – de letras serifadas para não-serifadas – e o seu formato, que, à princípio, assemelhava-se aos informativos e tabloides, e depois assumiria uma estética idêntica ao folder. Do qual a disposição horizontal dos textos transmitia a mesma experiência de leitura do que nas páginas na web.

O jornal mural Ainda sem nome

Com um título provisório e uma filosofia de trabalho semelhante aos primeiros fanzines da década de 60 e 70 no Brasil, o jornal Ainda sem nome tem uma tiragem de 100 a 120 exemplares por edição, sendo pautado por assuntos de interesse acadêmico, mas de interesse público do município.

O grande diferencial da publicação é o rodizio de alunos-repórteres, do qual prioriza não somente as disciplinas teóricas-práticas, e também as humanas.

O contato com a rua, imperativo necessário a todo bom repórter, pelo menos segundo jornalistas como Audálio Dantas e Kotscho, é talvez uma das marcas máximas do tipo de cobertura feito pelo Ainda sem nome.

Da escolha da fotografia ao olho da reportagem da página 03, a identificação com as fontes não-oficiais propicia aos alunos de Jornalismo a experiência e possibilidade de refletir sobre a retórica da oficialidade, tão exaustivamente explorada pelas redações dos grandes jornais, vide Folha de S.Paulo e A Gazeta, em Cuiabá, capital de Mato Grosso.

Tal como, promove entre os acadêmicos de jornalismo um senso de protagonismo que vai além dos determinismos tecnológicos e instrumentais das escolas americanas de jornalismo, ao conjugar virtudes como o proativismo, a cooperação, o empreenderismo e uma visão mais humanizada de profissional, que tenha como engajamento a mudança social e a superação de impasses culturais históricos (estigmas, preconceitos).

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Lawrenberg Advíncula da Silva é professor de Jornalismo

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