Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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DIRETóRIO ACADêMICO >

Abordagem reflexiva sobre a estigmatização dos marginalizados

Por Camila Logrado, Daiana Cerqueira e Mariana Carvalh em 12/08/2008 na edição 498

O artigo propõe-se a analisar os efeitos dos discursos midiáticos na produção de estereótipos bem como os mecanismos utilizados pelos veículos de comunicação na cobertura da violência urbana. O centro das reflexões serão os livros Cabeça de Porco, de Luiz Eduardo Soares, MV Bill e Celso Athayde; Falcão – Meninos do Tráfico, de MV Bill e Celso Athayde; Estação Carandiru, de Drauzio Varella; e Elite da Tropa, de Luiz Eduardo Soares, Rodrigo Pimentel e André Batista, com o objetivo de investigar como a mídia contribui para realçar valores da classe dominante eqüidistantes da camada menos privilegiada, fruto da clarividente segregação social e étnica.

Para empreender a discussão, serão utilizadas como suportes teóricos as idéias de Sílvia Ramos sobre os cenários da violência e a amplitude das relações de poder estabelecidas entre a mídia e a periferia e, também, as considerações de Jorge Maranhão sobre a parcialidade dos mass media, que se limitam a divulgar informações de interesse das elites, subjugando as massas marginalizadas. Além disso, intentamos articular a discussão de Loraci Hofmann sobre a possibilidade de se construir a realidade e legitimar o poder coercitivo através do discurso autoritário. De acordo com a autora, este tipo de discurso é capaz de lançar ao interlocutor suas ideologias como verdades inquestionáveis e construir identidades influenciando diretamente nos atos comportamentais das pessoas. Enfim, outros referenciais teóricos fundamentarão os argumentos que serão aqui defendidos.

Introdução

A análise dos livros em destaque Cabeça de Porco [ATHAYDE, Celso; BILL, MV; SOARES, Luís Eduardo. Cabeça de Porco], Elite da Tropa [BATISTA, André; PIMENTEL, Rodrigo; SOARES, Luís Eduardo. Elite da tropa] e Estação Carandiru [VARELLA, Drauzio. Estação Carandiru] – permite enxergar a simbiose existente no campo da comunicação entre poder da linguagem e informação. Ambos constituem vultosas armas do jornalismo porque determinam a construção da realidade, visto que, de acordo com Michel Foucault (1996, p.10), o discurso representa poder. O filósofo afirma que o arcabouço discursivo reveste-se não só de formas de dominação como também pode perfeitamente suscitar interdições, garantindo uma fronteira entre separação e rejeição através da intencionalidade subjacente ao discurso para gerar a exclusão. Por isso, a exacerbada exploração desse mecanismo pelos profissionais do jornalismo tem gerado uma ‘cegueira ética na humanidade‘ [PENA, Felipe. Jornalismo Literário. P.13].

Então, não se pode duvidar da pujança exercida através da palavra, uma vez que a fala e a escrita – legados culturais importantíssimos – são os instrumentos propositalmente utilizados pela mídia para veicular informações dos diferentes tipos, construindo uma representação hegemônica da realidade circundante, de forma a provocar a inevitável alienação nos indivíduos que a consomem.

Além disso, a mídia parece um organismo vivo, funcionando como um espécime de animal psicolingüístico capaz de criar a realidade dos indivíduos, moldando as suas idiossincrasias por intermédio da difusão de ideologias, padrões, doutrinas, costumes, recursos iconográficos ou ainda pela condensação de informações auferidas pelos discursos autoritários veiculados pelos mass media, mostrando que a linguagem nunca é neutra. Assim sendo, ‘a linguagem constrói, então, imensos edifícios de representação simbólica que parecem elevar-se sobre a realidade da vida cotidiana como gigantescas presenças de um outro mundo’ [BERGER, Peter; LUCKMANN, Thomas. A construção social da realidade. P. 61] e a plasticidade desta na apresentação dos fatos imprime na população um forte desejo de adequar-se aos valores propagados a fim de ganhar notabilidade no panorama brasileiro.

Mídia imperativa, discurso autoritário

A disseminação de valores estereotipados e estigmatizantes tem a finalidade de restringir e moldar os sentidos enunciados provocando uma unilateralidade, sendo fruto da implícita objeção produzida pelos veículos comunicacionais. Logo, é a partir da decodificação imposta por eles ao receptor que a mensagem ganhará o sentido proposto e este passa a ter contato com uma realidade fragmentada. Esse processo de decodificação é interrompido quando as técnicas editoriais passam a condicionar a atividade jornalística, impedindo, assim, que haja a permuta de informações entre o transmissor (mídia) e o indivíduo, colocando em prática a relação estímulo-resposta. Para Ana Mercês Bock, uma das autoras do livro Psicologias [BOCK, Ana; FURTADO, Odair; TEIXEIRA, Maria de Lourdes. Psicologias: Uma introdução ao estudo de psicologia], as atitudes (predisposições) podem ser mudadas com a interferência do código verbal ou expressivo, levando o sujeito a assumir condutas éticas ou antiéticas. Assim, a mídia – uma agência de socialização – apropria-se do poder da palavra para manipular os indivíduos agindo diretamente na vida individual e coletiva.

Concomitante às concepções acima, Bock examina a questão da identidade. De acordo com ela, a formação identitária está diretamente vinculada ao processo de socialização no qual o ser humano começa a desenvolver suas particularidades, a visão de si mesmo e a percepção da sua realidade enquanto sujeito do processo. A identidade implica na capacidade de reconhecer a sua postura diante das vicissitudes da vida. Essa abordagem individual relaciona-se com a cultura, mas é suscetível a transformações com os avanços comunicacionais e, conseqüentemente, com a assimilação de elementos culturais divergentes mediados pelos mass media. O antropólogo Néstor García Canclini [CANCLINI, Néstor García. Consumidores e cidadãos: conflitos multiculturais da globalização] explica que os bens consumidos servem para hierarquizar e disseminar valores na sociedade; por isso, os indivíduos sentem necessidade de adquirir produtos, visando, não à satisfação pessoal, mas sim, à conquista de status.

A mídia classifica o público através de modelos estereotipados, que são denominados – a partir de uma perspectiva equivocada – de classes sociais. Diante dessas rotulações, a sociedade desperta para o consumo, para que este supra características suas rejeitadas pela esfera midiática, transferindo-a para um patamar em que acredita denotar prestígio, mesmo que para isso precise se desfazer de certas peculiaridades.

Assim, o indivíduo – de forma inconsciente e gradativa – passa a ignorar-se, descaracterizando-se, precisando reconstruir imediatamente sua identidade a partir dos elementos determinados pela grande mídia para que, então, possa garantir a modalidade perfeita outorgada por ela.

Uma das formas mais eficientes de tornar alguém invisível é projetar sobre ele ou ela um estigma, um preconceito. Quando o fazemos, anulamos a pessoa e só vemos o reflexo de nossa própria intolerância. Tudo aquilo que distingue a pessoa, tornando-a um indivíduo, tudo o que nela é singular, desaparece. O estigma dissolve a identidade do outro e a substitui pelo retrato estereotipado e a classificação que lhe impomos [ATHAYDE, Celso; BILL, MV; SOARES, Luís Eduardo. Cabeça de Porco. P. 175].

Ao analisar, no livro Cabeça de Porco, o estereótipo e o preconceito, Luiz Eduardo Soares mostra como o estigma, resultante do ‘olhar externo’, modela a identidade do indivíduo, reconfigurando-a, para que possa assumir a característica alocada pela sociedade preconceituosa. Assim, a transfiguração da identidade decorre da concepção problemática dos estereótipos, os quais têm assumido sacralidade na vida social, apesar de a priori não haver razão para tal legitimação. Os estereótipos estão diretamente atrelados às idéias preconcebidas a respeito de determinado assunto, pessoa ou imagem e podem gerar uma sistematização de ações que altera completamente a maneira pelo qual o outro passa a ser percebido em função da rotulação ou especificação dada a determinado grupo social. É o que se verifica no trecho abaixo:

[…] Não houve nada naquele elevador; nenhum crime foi cometido, nenhuma violência foi perpetrada; o que havia mesmo era o preconceito de dona Nilza, preconceito de cor e classe e até etário porque o estigma tem cara, cor, idade, gênero, endereço e classe social. Neste sentido, houve, sim, violência, mas apenas aquela que subjetivamente dona Nilza promoveu contra a imagem do rapaz [….] [ATHAYDE, Celso; BILL, MV; SOARES, Luís Eduardo. Cabeça de Porco. P. 182].

O relato anterior consta em Cabeça de Porco e faz alusão ao episódio que ocorreu no elevador onde se encontravam MV Bill, jovem negro, e dona Nilza, moradora de um bairro de classe média da zona norte do Rio de Janeiro. A partir de 1993, o problema da violência passa a se entrelaçar com a questão política, penetrando o campo da mídia. Além disso, os massacres da Candelária e Vigário Geral desencadearam, depois, uma série de conflitos, deixando a população insegura. Com isso, Dona Nilza, nutrida por sentimentos advindos da desconfiança, estabeleceu juízo improcedente da imagem do negro, desprovido de qualquer racionalidade.

Essa descrição aponta que os estereótipos não apresentam fundamentação alguma, pois são baseados em edificações equivocadas e previsões errôneas da realidade. A assertiva torna-se verdadeira à medida que se conhece o campo semântico do vocábulo estereótipo: ‘Originalmente, o termo estereótipo pertence ao vocábulo da editoração gráfica e refere-se à chapa ou clichê de chumbo fundido usados como fôrmas para moldar outras páginas a serem impressas, as quais reproduzem fielmente o padrão de uma matriz’ [RABAÇA, Carlos; BARBOSA, Gustavo. Dicionário de Comunicação. P. 247-248]. Portanto, estereotipar quer dizer estandardizar.

Eu já presenciei várias situações em que o estereótipo sai lá do fundo da mente, num salto, às vezes surpreendendo até quem abriga o preconceito. Antes do bandido, é o estigma que assalta a consciência. Por exemplo, diante de um jovem negro atravessando a rua, o motorista fecha rápido o vidro de sua janela. Eis aí a cena típica: uma reação reflexa, automatizada, que lembra experimentos pavlovianos – caricatos, previsíveis e mecânicos [ATHAYDE, Celso; BILL, MV; SOARES, Luís Eduardo. Cabeça de Porco. P. 187-188].

Para o antropólogo Luiz Eduardo Soares, não há como ignorar que nem sempre se conhece o suficiente para entender o contexto dos acontecimentos, como é o caso da violência. O ofuscamento da realidade alimenta expectativas correntes na sociedade por intermédio dos estereótipos, os quais, por sua vez, são manifestados por comportamentos agressivos, visões etnocêntricas e traços preconceituosos que acabam se convertendo na violência verbal e física. Everardo Rocha explicita em seu livro (O que é Etnocentrismo, 1984) que o etnocentrismo – característica inerente às pessoas egocêntricas – é a aversão aos valores de outrem supervalorizando os seus, já que estes divergem daqueles.

Seguindo essa perspectiva, Eva Maria Lakatos, co-autora do livro Sociologia Geral, discute os estereótipos. Estes podem ser definidos como elementos reforçadores da relação hegemônica existente entre a classe detentora de maior poder aquisitivo e os que são vítimas da falta de eqüidade na renda. Assim, um conjunto de fatores evidencia o mapeamento prévio de outrem, a exemplo da questão étnica, o papel social desempenhado, o modo de se vestir, de andar e de falar.

É possível ratificar que a cobertura estigmatizante da mídia já canoniza a violência e, além disso, é uma agravante desta, pois, à proporção que vai exaltando os valores sociais dominantes, anula injustamente os valores dos desfavorecidos e acentua ainda mais os conflitos existentes entre indivíduos ou categorias. Ao arquitetar o discurso autoritário [HOFMANN, Loraci. Do discurso enquanto constituinte da realidade], a intenção é conformar o público de que a mensagem é legítima e não comporta dois níveis de sentido, impossibilitando outra compreensão da realidade em que se vive. A solidez desse discurso é uma das razões que mantém a supremacia da elite e das instituições públicas, cuja função é proporcionar o bom funcionamento da estrutura social como um todo.

Disfunções do jornalismo

Como toda profissão, a atividade jornalística é regida por um código de ética, o qual estabelece que o dever do profissional é apresentar fatos, visando à ação social que esta função pleiteia, sem adulterar a maneira como ocorreram, nem expor as suas opiniões e interpretações sobre os acontecimentos. No entanto, a relação mútua mantida pela imprensa e por diversos setores ligados ao poder é objeto de interesse, principalmente quando a intenção é estigmatizar a juventude pobre, negra e oprimida. A leitura crítica pode ser reforçada no fragmento a seguir:

A pequena multidão que compareceu ao cemitério São João Batista para a cerimônia foi exposta a vexames e humilhações, exibida com irônico despudor pela mídia, vigiada e filmada ostensivamente pela polícia, tratada como um agrupamento de suspeitos. A imagem e o sentido transmitidos para a opinião pública omitiram o sofrimento e a morte, como se o cadáver de um homem não testemunhasse a vida suprimida de um homem, mas a reincidência criminosa dos que o choram [ATHAYDE, Celso; BILL, MV; SOARES, Luís Eduardo. Cabeça de Porco. P. 89]

A partir da ótica da cientista social Sílvia Ramos e da jornalista Anabela Paiva, quando se trata de coberturas jornalísticas de favelas e periferias brasileiras a afirmativa se torna ainda mais evidente. Estes territórios são sempre apresentados como palcos de violência e mercados distribuidores de entorpecentes. A prova disso está em um trecho de Elite da Tropa (p.28) [‘Quando a arena é a favela, os rituais são outros, menos sofisticados. Na praça de guerra não há espaço nem tempo para a solenidade e as ambivalências. O que era doce fica amargo, azeda e cai de podre’] que focaliza um círculo de negociações politicamente subdivididas em nome da consecução de alguma tarefa e, ainda mais, quando se trata de favelas, o soldado já tem um modelo único, radical, prescrito a fim de pôr em prática seu desígnio. A apuração da imprensa se restringe ao número de mortos em confrontos com a polícia e a quantidade de drogas e armas lá apreendidas.

As dificuldades e a cultura dessas populações – dentre outras características – são ofuscadas pelo estigma atribuído aos bairros periféricos, reflexo da discriminação e das desigualdades étnico-raciais remanescentes da escravidão implantada nos primórdios do Brasil.

A imagem estereotipada de que periferias e favelas são lugares geograficamente habitados por marginais e que a classe nobre se concentra nos centros da cidade é uma noção perversa, oriunda, inicialmente, das redações elitizadas. Este aspecto é notório quando um dos funcionários revela a Drauzio Varela a desconfiança de todos os presos sobre a imprensa no livro Estação Carandiru. Na opinião dos detentos, a imprensa distorce o que é dito, fazendo com que os presos e funcionários fujam dos holofotes.

Para Sílvia Ramos, essas abstrações da realidade têm por base a falta de conhecimento dos profissionais que atuam na cobertura desses espaços populares e também do distanciamento que os jornalistas têm com assuntos no que tange à realidade dos pobres. A autora ressalta que ‘os novos jornalistas são pessoas que conseguiram concluir o curso superior e, portanto, pertencem na maioria à classe média. Iniciam-se na vida profissional tecnicamente mais bem preparados. Por outro lado, trazem pouca ou nenhuma experiência relacionada ao cotidiano de moradores de favelas e periferias’ [PAIVA, Anabela; RAMOS, Silvia. Mídia e violência. P.78]. Os reflexos disso são os distintos tratamentos oferecidos na apresentação dos fatos, como retrata Márcia Cristina Ferreira em seu trabalho de conclusão de curso, ‘O Crime do Jornal’ [‘O Crime do Jornal’. Trabalho de Conclusão do Curso de Comunicação apresentado por Márcia Cristina Ferreira, na Faculdade 2 de Julho, no ano de 2006].

De acordo com ela, o negro sempre é caracterizado como marginal, visto sempre com repugnância, olhares sentenciosos, ocupando sempre uma posição inferiorizada nas narrações jornalísticas. Essa imagem do negro é herdada desde o tempo da escravidão, quando o trabalho árduo e pesado era característico dos escravos, pois na mentalidade do branco o escravo não tinha intelectualidade, e sim, força física. É perceptível que a trajetória de estigmas perpassa os limites históricos, instalando-se na contemporaneidade, como é flagrante na análise dos três periódicos da capital baiana, feita por Suzana Varjão [VARJÃO, Suzana. Micro Poderes Macro Violências: Mídia impressa/ Aparato policial]. A autora afirma que, na totalidade dos noticiários sobre violência, os afro-descendentes são simbolizados de forma pejorativa, enquanto o branco protagoniza a cena.

As ideologias impostas pela linha editorial cerceiam todo o trabalho jornalístico, resultando na diferenciação do tratamento dispensado a ricos e pobres criminosos. As vertentes da violência, assim como outros assuntos, têm prerrogativas diferentes, acarretando na parcialidade do veículo, o que evidencia que a reconstrução da realidade se dá por critérios de relevância. De acordo com o jornalista Jorge Maranhão, essa parcialidade é inevitável, pois da mesma forma que ocorre no âmbito político-econômico, ocorre também no comunicacional. Seguindo a análise de Maranhão, fica claro que o patamar mais alto de ambos os sistemas é ocupado pelas elites. Então, nota-se que há um modelo midiático já estruturado, o qual faz referências depreciativas aos indivíduos pertencentes às camadas submissas.

Vocês ficam me olhando com essa cara e resmungando, mas eu queria ver se fosse uma negrinha de cabelo pixaim, mal vestida. Duvido que me viessem com essas delicadezas. Atire em mim a primeira pedra quem jura que não faria galhofa da pobre coitada e não faria questão de contribuir com um pontapé para a surra na negrinha [BATISTA, André; PIMENTEL, Rodrigo; SOARES, Luís Eduardo. Elite da tropa. P.117]

A tese de Maranhão incide sobre os relatos feitos por Luiz Eduardo Soares, Rodrigo Pimentel e André Batista em seu livro Elite da Tropa. Do ponto de vista deles, a discriminação racial imperante na abordagem policial, salvo raras exceções, é incentivada pela mídia como forma de eficácia no combate à criminalidade. O predomínio das arbitrariedades cometidas pelos policiais no exercício da sua função é incalculável. Eles submetem a população pobre aos mais massacrantes constrangimentos morais e psicológicos. Precisam agir com bravura e com muita força física para manter a ordem social e assim, reprimir ou eliminar o ‘inimigo’. Isso demonstra claramente que esses estereótipos trazem atributos que acabam hierarquizando socialmente os grupos e causando ainda repercussões na vida cotidiana.

[…] A opinião pública não entendeu tanta dor e revolta. Nunca soube que policiais foram protagonistas do crime e do castigo, nem ficaram sabendo da vileza da pena. Para a sociedade brasileira, aqueles episódios obscuros se resumiam a mais um capítulo de nosso faroeste de opereta: mocinhos e bandidos, balas perdidas, a ordem subindo o morro, fardada [ATHAYDE, Celso; BILL, MV; SOARES, Luís Eduardo. Cabeça de Porco. P. 93]

Mercado consumidor

Inúmeros fatores fazem com que os indivíduos perpetrem a violência. Uma das razões é provavelmente a sedução mercadológica lançada pela mídia, sobretudo no campo das características físicas, como cor dos olhos, tipo de cabelo, vestimentas e outros elementos ligados à moda. As propagandas, as telenovelas e as mensagens publicitárias têm como pano de fundo o padrão ilusório de beleza que é endereçado, majoritariamente, aos jovens. Uma variedade de produtos convence o receptor sobre a necessidade de se homogeneizar. Em outras palavras, o fetiche desses produtos provoca na mentalidade das pessoas a chance de apagar seus apanágios fenotípicos.

Neste sentido, Muniz Sodré fala sobre a ‘esterilização do indivíduo’ [SODRÉ, Muniz. Claros e Escuros. Identidade, Povo e Mídia no Brasil. P. 233], que se refere à ideologia de branqueamento possibilitado por produtos de beleza com o intuito de transfigurar o negro em um branco nato. Não resistindo às pressões psicológicas e não gozando de um status quo que lhe permita desfrutar das sofisticações da sociedade de consumo, o jovem adentra o mundo da criminalidade, já que existe uma dificuldade de encontrar emprego. Desse modo, a incessante busca da população subalterna para alcançar os níveis oficiais da cultura dominante tem como conseqüência a inserção das crianças e jovens na vida criminal, o que para muitos parece predestinado.

A gente vive razoavelmente, dá para comer, beber, se divertir. Mas não é igual a um filho de mauricinho. Não é igual a um playboizinho que pode ir pra praia a hora que quiser com moto. Hoje em dia, não tem mais bicicleta para o menor, eles querem moto. Se eles entram para o tráfico, eles conseguem a moto. E eles conseguem isso com muita facilidade [ATHAYDE, Celso; BILL, MV; SOARES, Luís Eduardo. Cabeça de Porco. P. 212].

Os autores de Cabeça de Porco ratificam com o relato anterior que o estereótipo é fixado de forma violenta nos pobres, negros e favelados, e isso, indubitavelmente, dificulta o cotidiano desses indivíduos, pois um consenso dominante teoricamente inconsistente desqualifica tudo que se refere à grande massa de excluídos e exalta, colocando uma aura em torno dos produtos representantes do poder. Quando, efetivamente, são inseridos na marginalidade, esses jovens se vêem condenados pela própria mídia que os ‘incentivou’ a adentrar este mundo. Têm os seus rostos estampados em jornais e revistas, sujeitos ao julgamento público e eternamente estigmatizados como bandidos e drogados.

[…] A mídia remetia Márcio ao passado congelado, do qual ele mesmo hesitava em desligar-se; a opinião pública o reenviava ao estigma; a prisão e a pena remetiam Márcio à identidade da qual ele buscava afastar-se, para se reconstruir […] [ATHAYDE, Celso; BILL, MV; SOARES, Luís Eduardo. Cabeça de Porco. P. 108].

Após fazer a diagnose, vê-se que o domínio ideológico midiático baseia-se nas idéias aceitas por aqueles que detêm as forças econômicas. O pressuposto é de que existe um sistema aparentemente democrático, mas que tem raízes profundas que sustentam o estereótipo e o preconceito. Para combater tais fenômenos é preciso cindir interesses políticos e publicísticos de informação. Este é um requisito sine qua non para que a mensagem seja precisa, dando possibilidade ao público de conhecer os aspectos plurais étnicos, culturais e sociais que se constituem em um hiato existente entre a classe dominante e a dominada.

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Estudantes de Jornalismo, Salvador, BA

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