Terça-feira, 16 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1045
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DIRETóRIO ACADêMICO >

Análise da cobertura jornalística das eleições de 2008

Por Arthur Guimarães Neto em 31/03/2009 na edição 531

Introdução

O Tribuna da Bahia é, atualmente, o terceiro maior jornal da Bahia. Diariamente são publicados, em média, 25 mil exemplares entre a capital do estado e principais cidades do interior. Conhecido, principalmente, por ser um jornal de linha editorial política e por levantar a bandeira dos partidos de ‘direita’, o Tribuna da Bahia vem, desde 1969, ano da fundação, contribuindo para a construção ideológica dos baianos, sejam eles das classes A, B, ou C.

Não é de hoje que os meios de comunicação têm sido a forma mais eficaz para transmitir as informações à sociedade, seja por meios impressos, televisivos, virtuais ou radiofônicos. No entanto, para Mauro Wolf, em Teorias da Comunicação, a notícia no veículo impresso é a mais eficiente. Para tal afirmação, o autor compara a informação escrita com a televisiva:

‘As notícias televisivas são demasiado breves, rápidas, heterogêneas e acumuladas numa dimensão temporal limitada, isto é, são demasiado fragmentárias para terem um efeito de agenda significativo. As características produtivas dos noticiários televisivos não permitem, portanto, uma eficácia cognitiva duradoura, ao passo que a informação escrita possui ainda a capacidade de assinalar a diferente importância dos problemas apresentados. A informação escrita fornece aos leitores uma indicação de importância sólida, constante e visível, enquanto a informação televisiva tende, normalmente, a reduzir a importância e o significado do que é transmitido’ (WOLF, 2002, p. 148).

Portanto, é a partir da concepção de Wolf, quando evidencia a importância do jornal impresso para a formação da opinião pública, que serão analisadas as matérias do Tribuna da Bahia, publicadas entre os dias 1 e 15 de agosto de 2008, a fim de detectar os quadros narrativos e observar até que ponto o jornal foi imparcial na campanha eleitoral.

Análise

No dia 7 de agosto, o Tribuna da Bahia intitulou na matéria de capa ‘Pesquisa Ibope/TV Bahia mostra que João precisa crescer já’. Nesse caso, a pesquisa apontou o atual prefeito em terceiro lugar com 15%, atrás de ACM Neto, 29%, Imbassahy, 27%, e à frente apenas do petista Walter Pinheiro, na época com 6%. Dessa forma fica evidente a aclamação, exposta no título da capa, a favor do candidato do PMDB.

Sobre a pesquisa acima, o jornal, na terceira página, trouxe na matéria principal ‘Pesquisa Ibope cria divergência entre candidatos’. No texto, o autor abordou a polêmica causada pela pesquisa, sobretudo por conta de diferir dos resultados de outros institutos. Na ocasião, o Ibope ressaltava o crescimento nas pesquisas de ACM Neto e Imbassahy e a queda de João Henrique e Pinheiro.

‘A divulgação, ontem, de pesquisa do Instituto Ibope, contratada pela TV Bahia, aqueceu o meio público. O resultado, sem dúvida, agradou aos primeiros colocados ACM Neto (DEM), com 29% e Antônio Imbassahy (PSDB) com 27%, ambos empatados tecnicamente. No entanto, causou estranheza ao prefeito João Henrique, candidato à reeleição pelo PMDB, assim como ao petista Walter Pinheiro. A surpresa ficou por conta da queda de João Henrique de 19% na última avaliação feita pela Vox Populi, para 15% agora e na elevação dos índices percentuais de Imbassahy, antes com 21% e agora com 27%, um acréscimo de 6%. Na ocasião, ele e o prefeito estavam em empate técnico. Outro fato que chamou atenção foi a declinação ainda maior de Pinheiro, que antes estava com 7% e atualmente pontua apenas 6%’ (Tribuna da Bahia, 2008, p.3).

No decorrer da matéria, o jornal colocou em questão a credibilidade da pesquisa do Ibope. Para tal, deu voz ao prefeito João Henrique, que, por sua vez, lembrou da eleição para governador da Bahia, em 2006.

‘Vocês estão falando do Ipobe, aquele mesmo instituto que a dois dias da eleição de 2006, numa mesma pesquisa encomendada pela mesma TV Bahia, dava Paulo Souto ganhando no 1º turno com 51% a 41%? É desse Ibope que estão falando? Vale a pena relembrar o resultado nas urnas: Jaques Wagner ganhou no primeiro turno com 52% a 43%’ (Tribuna da Bahia, 2008, p.3).

Tom irônico

Na matéria ‘Pesquisas revelam surpresas para outubro’, do dia 11 de agosto, ficou ainda mais explícita a opinião do jornal em relação aos prefeituráveis. O texto afirmou que o horário eleitoral deveria estabelecer uma nova co-relação de forças entre candidatos. Assumiu, também, que ACM Neto e Imbassahy disparam na frente, mas destaca:

‘João Henrique, que disputa reeleição, continua, sim, no páreo. Menosprezá-lo, além de burrice, é desconhecer todo um leque de trabalho que ele tem a mostrar no horário eleitoral. E ele sabe fazer isso como ninguém. Dos candidatos que aí estão é o mais carismático. Além disso, o campo que a mídia o mimou já está quase sem as mimas que explodiam a todo o mundo. É, pois, fortíssimo concorrente não apenas ao segundo turno, mas a manter o mandato’ (Tribuna da Bahia, 2008, p.3).

Na mesma matéria, trouxe o seguinte sobre o candidato ACM Neto: ‘Neto, embora não o seja, representa o novo na cabeça do eleitor. Ele é novo no aspecto físico e na idade, mas cultiva, no seu íntimo, toda uma prática política tradicional que vem de berço’ (Tribuna da Bahia, 2008, p.3).

Sobre Imbassahy, relatou:

‘Já Imbassahy é tido como o já conhecido. Não é à-toa (sic) que seu slogan, salvo engano, é algo como `testado e aprovado´ (ou vice-versa). O eleitor entende e gosta dessa linguagem. Talvez a junção desses dois ingredientes – o novo que não é tão novo assim e o conhecido já testado – explique a preferência, por ora, que ambos desfrutam junto à sociedade de Salvador (Tribuna da Bahia, 2008, p.3).

Quando se referiu a Pinheiro, o periódico foi ainda mais irônico:

‘E Walter Pinheiro? Pinheiro carrega consigo a marca do PT. É natural que ele acumule uns pontinhos a cada nova pesquisa. Mas dificilmente vai surpreender como Jaques Wagner surpreendeu ao eleger-se governador do estado. O uso da imagem de Lula na campanha de Pinheiro tende a ajudá-lo. Mas uma reviravolta só seria exercida caso o próprio Lula, em carne e osso, fincasse uma de suas pernas em Salvador para declarar o irrestrito apoio ao petista. O presidente não tem nenhum interesse em acudir o companheiro. Aliás, a própria direção nacional petista mapeou as capitais onde o partido deve chegar ao segundo turno. Por razões que a própria razão reconhece (no caso é reconhece mesmo) não incluiu Salvador’ (Tribuna da Bahia, 2008, p.3).

Jogada eleitoreira

Já em 12 de agosto, o jornal trouxe na matéria principal da editoria de política as qualidades e defeitos dos candidatos. Ao abordar positivamente sobre João Henrique, disparou elogios:

‘Não há qualquer dúvida sobre a reeleição do prefeito João Henrique (PMDB). Ele reúne, numa única pessoa, duas qualidades perseguidas pelos políticos: é carismático e convincentemente um servidor que doa o próprio sangue em favor da cidade. Os dois primeiros anos sofreu nas mãos de adversários do então PFL que comandavam o estado. Mesmo assim segurou a peteca evitando um caos na cidade. Abandonado por legendas que prometeram-lhe fidelidade até a morte, soube dar a volta por cima e, com a filiação ao PMDB e a assunção de Jaques Wagner ao governo do estado, novos horizontes se abriram. Com Geddel Vieira Lima, assegurou recursos que garantem a Salvador, mais de 100 obras no atual momento, mas sinaliza encontrar dificuldades com o governo estadual, que tem seu próprio candidato ao palácio Thomé de Souza’ (Tribuna da Bahia, 2008, p.3).

Ao tentar negativar as qualidades do prefeito, o periódico atribuiu os males da cidade às administrações dos então parceiros nas principais secretarias.

‘Os erros iniciaram-se logo principio do governo. O loteamento partidário da prefeitura fez com que os partidos pensassem apenas no futuro de cada um e deixassem à cidade cega sem direito, sequer, a ver navios. A saúde se estraçalhou, a cidade sofreu com a falta de verbas e, por fim, ruiu o castelo que o próprio prefeito tencionava erguer para assegurar mais quatro anos no poder. A entrada bem vinda do esquema político de Geddel Vieira Lima possibilitou a injeção de recursos e aceleração de programas como os banhos de luz e de asfalto. No entanto, a mídia incutiu na cabeça do eleitor que o que se faz hoje poderia ser feito antes, dando a impressão de uma jogada eleitoreira’ (Tribuna da Bahia, 2008, p.3).

Filho adotivo de ACM

Para tomarmos como parâmetro de análise, vejamos o que a mesma matéria abordou, positivamente, sobre o candidato do DEM, ACM Neto.

‘O deputado ACM Neto vai ganhar a eleição, talvez no primeiro turno, porque demonstra espírito criativo e por sua tentativa de desvincular sua imagem da imagem de tradicionais políticos de cujo grupo fez parte, mas cujas práticas, se não condena publicamente, faz questão de ignorá-las’ (Tribuna da Bahia, 2008, p.3).

Ao negativar, relatou:

‘O deputado ACM Neto (Democratas) vai perder a eleição porque diz representar o novo enquanto todo o eleitorado sabe que lhe sobram-lhe teorias e faltam-lhe propostas práticas para resolver ou minimizar as questões mais angustiantes de Salvador. O parlamentar pode até fazer diferente, como promete na campanha, mas ainda estaria com suas raízes arraigadas numa forma arcaica de fazer e executar política. Um ponto negativo: a falta de experiência administrativa e o estilo conservador, admitido subliminarmente por ele ao considerar-se herdeiro natural da política ultraconservadora do avô – o ex-senador ACM’ (Tribuna da Bahia, 2008, p.3).

Em 15 de agosto, o Tribuna da Bahia expôs na capa ‘Geddel dispara contra Imbassahy’. Na foto, o primeiro apareceu com postura firme, como de ameaça. Já o último, revelou-se com olhar baixo, de forma submissa. Na legenda foi divulgado: ‘O ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, diz que obras de Imbassahy foram feitas pelos ex-governadores César Borges e Souto. Na matéria, o ministro questionou as realizações de Imbassahy enquanto este ainda era prefeito.

‘Por que depois de oito anos de gestão na prefeitura não transformou a saúde pública municipal? Por que não transformou a educação em Primeiro Mundo? Por que não asfaltou a cidade? Por que não iluminou Salvador? Por que não cuidou dos bairros populares da periferia? Por que não concluiu o metrô calça-curta? Por que não pagou as dívidas municipais? Ele não fez mesmo sendo filho adotivo do falecido senador ACM. E o que disse que fez, não foi ele, foram os governadores César Borges e Paulo Souto […]’ (Tribuna da Bahia, 2008, p.3).

Padrões de comportamento

No entanto, no mesmo dia, o jornal trouxe uma nota, na segunda página, intitulada ‘Saudado’. O texto tratou sobre a recepção do candidato João Henrique na caminhada no bairro do Comércio.

‘O candidato João Henrique foi saudado na manhã de ontem por empresários e ambulantes, durante caminhada no bairro do comércio. Acompanhado de candidatos a vereador, ele percorreu as Avenidas Miguel Calmon, Conselheiro Dantas, Estados Unidos, Grécia e Portugal, e visitou empresários da Associação Comercial da Bahia (ACB) e do Mercado Modelo. `Ele foi o único prefeito que deu oportunidade aos ambulantes. Sou admirador dele também pela sua simplicidade no trato com a população´, disse Erivaldo Ferreira, popularmente conhecido no Mercado Modelo como `Val do Café´. Para Wilson Pacista, que tem uma banca de revistas na Rua Conselheiro Dantas, `o comércio da Cidade Baixa melhorou muito com a revitalização. Está cada vez melhor´ […]’ (Tribuna da Bahia, 2008, p.2).

Após a análise dos trechos acima se verificou uma tendência peemedebista do periódico e ficou claro o quanto o candidato João Henrique, atual prefeito, foi privilegiado pelos editores. Portanto, para o desenvolvimento deste trabalho, se faz necessário tratar sobre o poder da imprensa na construção da realidade e, consequentemente, na formação da opinião pública.

A mídia, atualmente, é o principal propagador dos discursos constituintes da realidade. Isso significa que algo existe ou passa a não existir à medida que é discutido ou omitido nos meios de comunicação. Desse modo fica evidente o poder influenciador da mídia sobre a esfera pública no que diz respeito à mediação de interesses e a formação de opinião. Loracy Hofmann Tonus, em Do discurso enquanto constituinte da realidade, aborda os discursos produtores de realidade que são criados e disseminados pelos veículos de comunicação. Para a autora,

‘a forma como as idéias são veiculadas pela mídia passa a fazer parte da consciência individual e coletiva e interferem na construção do cotidiano ao determinarem padrões de comportamento, modos de pensar, agir e sentir’ (IDEM).

Hierarquização dos acontecimentos

Felipe Pena, em Teoria do Jornalismo, corrobora com essa análise e vai além. De acordo com ele, ‘a mídia é a principal ligação entre os acontecimentos do mundo e as imagens desses acontecimentos em nossa mente’ (2006, p. 142). Os meios de comunicação, na perspectiva de Pena, funcionam como agentes modeladores do conhecimento e, sobretudo, é um instrumento transformador de cognições individuais, isto é, da forma como as pessoas apreendem e aprendem as informações e formam seu conhecimento sobre o mundo (IDEM, 144). Em outras palavras, a mídia tem o poder de criar opiniões e posições: dicotomia fundamental no que se refere ao fluxo das políticas públicas.

De acordo com Norberto Bobbio, em Dicionário de política,

‘a opinião pública é de um duplo sentido: quer no momento de sua formação, uma vez que não é privada e nasce do debate público, quer no seu objeto, a coisa pública. Como opinião é sempre discutível, muda com o tempo e permite a discordância: na realidade ela expressa mais juízos de valor do que juízos de fato, próprios da ciência e dos entendidos. (…) A opinião pública não coincide com a verdade, (…) Mas, na medida em que se forma e fortalece, no debate, expressa uma atitude racional, crítica e bem informada. A existência da opinião pública é um fenômeno da época moderna: pressupõe uma sociedade civil distinta do Estado, uma sociedade livre e articulada, onde existam centros que permitam a formação de opiniões individuais, como jornais (…)’ (2000, p. 842).

Portanto, para que seja possível a existência da opinião pública, em uma esfera democrática é imprescindível a coexistência de um espaço público onde haja debates de interesse coletivo. E não é de hoje que a mídia vem ocupando esse lugar na sociedade. Mas, além de tornar o debate possível, os veículos de comunicação vêm exercendo o poder de ‘agendar’ os assuntos que serão discutidos pelos cidadãos. O Tribuna da Bahia, por exemplo, é um dos principais responsáveis, em Salvador, por essas discussões, essencialmente na área política. Daí a importância de analisar a cobertura do jornal a partir da teoria do enquadramento (framing), que é um prolongamento da teoria do agendamento (agenda setting).

Para Penna, a teoria do agendamento defende a idéia de que os consumidores de notícias tendem a considerar mais importantes os assuntos que são veiculados na imprensa, sugerindo que os meios de comunicação agendam nossas conversas. Ou seja, a mídia nos diz sobre o que falar e pauta nossos relacionamentos à medida que hierarquiza os acontecimentos e agenda nossos assuntos e concepções sobre eles (2006, p. 142).

Desdobramento de temas públicos

Juliana Freire Gutmann, em Quadros narrativos pautados pela mídia: framing como segundo nível do agenda-setting?, afirma que o agendamento postula a influência da cobertura noticiosa na visão da audiência sobre a importância dos temas priorizados e sugere que o público pode externar suas opiniões ou silenciá-las a favor da agenda predominante. Considera também que ‘os veículos de comunicação influenciam na construção da realidade social, modelando representações desta realidade de um modo particular’ (IDEM, 2006, p. 29).

Ao abordar a teoria do enquadramento, Gutman afirma que a idéia de framing

‘se relaciona aos ângulos de abordagem dados aos assuntos pautados pelos meios de comunicação. No âmbito dos estudos sobre os efeitos da mídia, o termo designa a `moldura´ de referência construída para os temas e acontecimentos midiáticos que, por sua vez, também é utilizada pela audiência na interpretação desses mesmos eventos. O frame seria justamente o quadro a partir do qual um determinado tema é pautado e, conseqüentemente, processado e discutido na esfera pública’ (IDEM, p. 30).

Em Jornalismo político brasileiro e a análise do enquadramento noticioso, Park (2003) exemplifica o que Gutman afirma a respeito do frame:

‘As pessoas apenas enxergam o mundo através de uma moldura de uma janela. Se a moldura da janela é muito pequena, as pessoas só enxergarão uma pequena parte do mundo. Se a janela da parede é voltada para o oeste, as pessoas apenas enxergarão o oeste. Em outras palavras, a mídia pode mostrar apenas uma pequena parte do mundo a partir de um particular ponto de vista’ (PARK, 2003 apud LEAL, 2006).

Nesta perspectiva, Gutmann faz a relação da teoria do agendamento com a teoria do enquadramento. Para ela, o ‘poder’ do agenda-setting está na priorização temática, na capacidade de apontar quais assuntos estarão entre as preocupações do público e só quando um enfoque começa a ser agendado, observa-se o funcionamento do framing como um domínio complementar. Em outras palavras, o framing é um desdobramento mais plausível do estabelecimento de uma agenda na esfera pública, ou seja, refere-se aos quadros narrativos criados para temas agendados.

Posturas deselegantes, aparências distantes

Partindo desta compreensão, notamos que a cobertura do jornal Tribuna da Bahia, através de seleção, ênfase e omissão de determinadas informações, enquadrou alguns aspectos de uma realidade percebida e os fez mais evidentes, de modo a promover definições, interpretações e avaliações demasiadamente particulares. Para tal conclusão, partimos da análise de Gutmann que propõe identificar, nos textos jornalísticos, os ‘pacotes interpretativos’ que oferecem significados às questões e a opinião pública.

Após análise, verificamos que o jornal tenta construir estereótipos dos candidatos. Isso fica ainda mais evidente quando cria a imagem de João Henrique como o ‘mais carismático’, ‘aquele que luta pela cidade’, ‘herói que não desiste’, ‘competente’ e, finalmente, ‘o preferido’ do governador do estado e do presidente da República. No entanto, ao se referir ao candidato do PT, Walter Pinheiro, o trata como o ‘abandonado pelos aliados’. Já ao candidato Imbassahy, refere-se como sendo o ‘testado e reprovado’ e o ‘incompetente’ que nada fez em oito anos. Em relação à ACM Neto, o veículo tentou intensamente desconstruir a imagem de ‘novo’ que o próprio candidato se atribuía na campanha. Além disso, vinculou ao prefeiturável a figura política ditatorial de seu avô, o senador Antonio Carlos Magalhães.

Identificamos, também, a construção simbólica dos candidatos pelo Tribuna da Bahia. Para tal, examinamos as fotografias publicadas durante o período analisado. Ao todo foram expostas 44 fotos, sendo 13 de ACM Neto, 10 de João Henrique, 11 de Walter Pinheiro e 10 de Imbassahy. Embora houvesse equilíbrio quantitativo na amostragem, ficou clara a posição do periódico em relação aos prefeituráveis no quesito qualidade. Por exemplo, das 13 fotos publicadas de ACM Neto, em 6 ele aparecia com o dedo indicador erguido, o que fazia lembrar um ditador. No dia 11 de agosto, na matéria ‘Pesquisas revelam surpresas para outubro’ foi utilizada a fotografia do candidato; na legenda foi exposto: ‘Neto tenta ultrapassar barreira histórica do grupo político ao qual sempre esteve atrelado’. No texto, afirmou: ‘Neto, embora não o seja, representa o novo na cabeça do eleitor’. Desse modo, fica evidente a tentativa de o jornal em frustrar os planos do candidato de desvincular sua imagem com a figura ditatorial de seu avô.

Ao divulgar fotos de Imbassahy e Walter Pinheiro, o jornal foi ainda mais severo. Por exemplo, das 11 fotos publicadas do candidato do PT, 9 foram consideradas negativas. Já com o Tucano, das 10 fotos expostas, apenas três representavam positivamente o candidato. Nos dois casos, a seleção das fotografias recaiu em olhares perdidos, posturas deselegantes, aparências distantes, desatentas e em ruptura com o contexto nos quais estavam inseridos.

Mapa eleitoral do PT

No entanto, ao expor o candidato João Henrique, o jornal foi muito cuidadoso. Todas as fotografias foram consideradas positivas: postura elegante, predominantemente de perfil, sempre sorridente, o que mostrava certa alegria e tranqüilidade. Além disso, mostrava-se sereno diante dos microfones, sempre com gestos leves e olhar firme.

Portanto, a seqüência de fotos publicadas, no período estudado, reforça os estereótipos e identifica ainda mais os temas denotativos do universo simbólico dos candidatos. De acordo com Gutmann, os quadros criados pela imprensa, através de ‘estereótipo’ e ‘imagem’, produzem a representação pública dos candidatos. Dessa forma,

‘os media noticiosos definem uma agenda de atributos para cada candidato na sua apresentação da campanha e os eleitores, a partir da sua exposição aos media e também com base em outras fontes, tais como o contato com a família e amigos, formam uma imagem de cada candidato’ (IDEM, p. 44).

Observou-se também que o Tribuna da Bahia reproduziu por quatro dias um mesmo discurso, a fim de ‘fixar a informação no leitor’. Nos dias 9 e 10, por exemplo, especificamente um final de semana, nos quais o jornal tem por costume publicar uma única edição, o periódico trouxe na matéria principal ‘PT não vê partido no 2º turno em Salvador’. Na fotografia, Pinheiro aparecia desapontado, lendo algo que por certo não estaria feliz em ver. Na legenda, explicou: ‘PT nacional não cita o nome de Walter Pinheiro entre os candidatos que irão ao segundo turno’. De acordo com a matéria, o mapa eleitoral desenhado pelo PT nacional não incluiu Salvador entre as capitais cujo candidato do partido à prefeitura chegue ao segundo turno. Para o PT, São Paulo, Recife (PE), Vitória (ES), Porto Alegre (RS) e Belo Horizonte estão entre os favoritos a disputar uma ‘cadeira na prefeitura’. Salvador, não.

Duas árvores frondosas

No dia seguinte, o jornal voltou a divulgar a mesma informação:

‘O presidente não tem interesse em acudir o companheiro. Aliás, a própria direção nacional petista mapeou as capitais onde o partido deve chegar ao segundo turno. Por razões que a própria razão reconhece (no caso é reconhece mesmo) não incluiu Salvador’ (Tribuna da Bahia, 2008, p.3).

Em 12 de agosto, o periódico trouxe na matéria principal, da editoria de política, ‘Wagner sinaliza distância da eleição na capital’. No subtítulo, afirmou: ‘Governador acha candidato do PT competitivo, mas reafirma que João e Imbassahy são da base. Ao lado da fotografia do Governador, na legenda, reforçou: ‘Governador torce por Pinheiro, mas reafirma que João e Imbassahy são da sua base’.

O leitor deve ter observado que o texto do subtítulo da matéria é quase idêntico ao da legenda. Coincidência? Talvez não devêssemos considerar dessa forma, principalmente porque é fundamental relevarmos a importância do assunto em questão para os prefeituráveis, visto que a população ‘vê com bons olhos’ a aproximação do futuro prefeito de Salvador com o governador e, conseqüentemente, com o presidente.

Portanto, fica claro o desejo do veículo em mostrar a fragilidade no relacionamento do candidato Walter Pinheiro com aqueles que deveriam ser seus principais aliados: Wagner e Lula. Isso fica ainda mais explícito no texto da matéria:

‘O sonho do PT baiano em consolidar de uma vez por todas o apoio do governador Jaques Wagner em prol da candidatura de Walter Pinheiro, que até então não demonstrou força na capital baiana, no que depender do próprio Wagner, pode não se tornar realidade’ (Tribuna da Bahia, 2008, p.3).

E reafirma: ‘(…) declarou, ressaltando que existem três candidatos que se colocam como de sua base – além do petista, o prefeito João Henrique (PMDB) e o tucano Imbassahy’ (IDEM). Por fim, no mesmo dia, na matéria em que abordava as qualidades e defeitos dos candidatos, ao se referir a Pinheiro, declara:

‘Seus principais cabos eleitorais, o governador Jaques Wagner e o presidente Lula sabem que ele existe, mas não se jogaram de corpo e alma na campanha. E nem o farão. Pinheiro, portanto, está desprestigiado junto aos guindastes que poderiam alavancar sua ida para a cadeira de prefeito. Wagner, inclusive, declarou pela enésima vez que, além de Pinheiro tem duas outras árvores frondosas como integrantes de sua base política: o prefeito João Henrique e o ex-prefeito Antonio Imbassahy’ (Tribuna da Bahia, 2008, p.3).

Opinião pública foi induzida

Dessa forma, pudemos notar a repetição forçosa do veículo com algumas informações. De acordo com Tonus (1995), os determinados modos de pensar do mundo deram-se invariavelmente da mesma forma: pela repetição do discurso. ‘Um discurso repetido por diferentes sujeitos individuais dotados de certa influência tem a capacidade de interferir no modo de pensar e agir do sujeito coletivo’ (IDEM). Portanto, para que determinadas ideologias sejam absorvidas pela sociedade, é preciso repeti-las até serem absorvidas e, assim, façam parte do senso comum, desencadeando, a partir daí, ações que contribuam para perpetuar os discursos.

Além disso, observou-se também que o jornal reforçou algo que os candidatos fizeram questão de discutir nos debates e propagandas eleitorais: a boa relação que supostamente teriam com o governador Jaques Wagner e o presidente Lula. Tal manifestação se deu por que na imprensa muito se discutia sobre a indispensabilidade do apoio do Governo e do País para uma boa administração do futuro prefeito de Salvador. A opinião pública foi formada e, a partir daí, os prefeituráveis se desdobraram a fim de mostrar que tinham bom relacionamento com os outros executivos. O que aconteceu foi que ‘a mídia havia afetado também os candidatos, que incluíram em suas agendas temas pautados pela imprensa’ (GUTMANN, 2006, p. 39).

Para Lang-Lang (1962),

‘os mass media, portanto, exercem a influência que têm, na medida em que são algo mais do que um simples canal, através do qual a política dos partidos é apresentada ao leitorado. Ao filtrar, estruturar e realçar determinadas atividades públicas, o conteúdo dos mass media não se limita a transmitir aquilo que os porta-vozes proclamam e aquilo que os candidatos afirmam […] não só durante a campanha, mas também nos períodos intermédios, os mass media fornecem perspectivas, modelam as imagens dos candidatos e dos partidos, ajudam a promover os temas sobre os quais versará a campanha e definem a atmosfera específica e a área de relevância e de reactividade que assinala cada competição eleitoral’ (LANG-LANG, 1962 apud WOLF 2002).

Penna (2006) faz uma reflexão a respeito da influência da mídia no agendamento dos políticos:

‘Na maioria dos casos, estudos baseados nessa teoria (agendamento), referem-se à confluência entre a agenda midiática e a agenda pública. Entretanto seus objetivos não são verificar mudanças de voto ou de atitude, mas sim a influência da mídia na opinião dos cidadãos sobre que assuntos devem ser prioritariamente abordados pelos políticos. No Rio de Janeiro, por exemplo, o assunto violência tem espaço diário nos jornais. Adivinhem de que tema os políticos mais falam?’ (IDEM, p. 144).

A partir desta análise verificamos que o jornal, além de pautar os assuntos discutidos pelos candidatos, induziu a opinião pública a acreditar que para uma boa administração do futuro prefeito seria indispensável o apoio de Wagner e Lula. Além disso, não mediu esforços em mostrar João Henrique como sendo o favorito do governo estadual e federal. Isso ficou evidente nas matérias publicadas entre os dias 9 e 12, nas quais se verificou, uma aclamação explícita, através de repetição de discurso, a favor do candidato do PMDB.

Considerações finais

Analisamos, ao longo deste trabalho, os ângulos de abordagem dados aos assuntos pautados pelo Tribuna da Bahia. Para tal, foram detectados os quadros narrativos presentes na cobertura daquele veículo de comunicação. A partir daí, notamos que através de matérias tendenciosas, manipulação de fotografias, seleção, ênfase e omissão de determinadas informações, o jornal ‘abandonou’ o tão almejado sonho jornalístico da imparcialidade.

É evidente que não pretendemos aqui criar utopia, crendo em um jornalismo absolutamente ausente de interesses, ou mesmo que não tenha o objetivo de estabelecer ou legitimar relações de poderes sobre a sociedade. Mas, desejamos um jornalismo cada vez mais ético e comprometido com a ‘verdade’, um autêntico porta-voz da opinião pública.

Referências bibliográficas

BOBBIO, Noberto et al. Dicionário de Política. Trad. Carmen C. Vaniale… [et al], rev. João Ferreira e Luis Guerreiro Pinto Cascais. 5.ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, São Paulo: Imprensa Oficial do Estado, 2000.

GUTMANN, Juliana Freire. Quadros narrativos pautados pela mídia: framing como segundo nível do agenda-seting?, 2006.

WOLF, Mauro. Teorias da comunicação. 7.ed. Lisboa: Editorial Presença, 2002.

LEAL, Plínio Marcos. Jornalismo político brasileiro e a análise do enquadramento noticioso, 2006.

PENNA, Felipe. Teoria do Jornalismo. São Paulo: Contexto, 2006.

TONUS, Loracy Holfman. Do discurso enquanto constituinte da realidade, 1995.

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