Domingo, 18 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

DIRETóRIO ACADêMICO > ENTREVISTA / JOSÉ GERALDO COUTO

Análise de um outsider

Por Leonardo Gorges e Pedro Dellagnelo em 16/09/2008 na edição 503

Há 20 anos na profissão, José Geraldo Couto deixou São Paulo há sete anos para curtir a tranqüilidade de Florianópolis. Daqui, ele escreve sobre esporte para a Folha sem a euforia de quem acompanha jogos de futebol no estádio nem as amarras de comentários pontuais.


Você se considera um outsider ao escrever sobre futebol, alguém que enxerga as coisas sem estar diretamente envolvido. Como você vê o choque entre a geração que está chegando ao mercado agora, que se baseia mais em estudos de jornalismo esportivo sem ter de fato chegado a competir, e a atual, que comenta mais baseada pela experiência pessoal?


José Geraldo Couto – As duas coisas contam. Porém, acho muito importante o fato de essa nova geração estar estudando o jornalismo esportivo, trazendo essa visão ‘de fora’, diferente. Houve uma grande evolução no jornalismo esportivo desde que cheguei ao mercado, há mais de vinte anos. Naquela época, a editoria de esportes era bastante menosprezada, colocada em segundo plano do restante da redação. Éramos considerados profissionais menos preparados. Isso mudou muito nos últimos anos; os jornalistas esportivos passaram a ser mais valorizados. O esporte em si deixou de ser marginalizado. Outra grande mudança positiva foi que pessoas de outras áreas começaram a escrever sobre esportes, enriquecendo a sua cobertura. O Nando Reis (O Estado de S. Paulo) e o José Roberto Torero (Folha de S.Paulo) são bons exemplos. Dentro da academia, isso também fez com que mais estudantes se interessassem pela área do jornalismo esportivo, sem qualquer tipo de condenação. A integração com as outras editorias hoje é muito maior.


Talento, a alegria do esporte


Quais os maiores problemas que você vê na atual forma como se cobre esportes no Brasil?


J.G.C. – A cobertura cotidiana de esportes, em especial do futebol, ainda é bastante tímida. Gira-se sempre em torno sempre das mesmas questões, como transferências de jogadores, contusões etc. Acredito que falte um pouco mais de investigação, reportagem mesmo. Gestão do esporte, problemas administrativos e políticos são assuntos com pouco destaque. A cobertura atual é muito superficial em sua grande maioria.


Paulo Mendes Campos escreveu certa vez que se, utopicamente, acabássemos com a figura do treinador, salvaríamos a pureza do futebol. Essa tese ainda é válida no futebol de hoje? As análises táticas estão acabando com o dito futebol arte?


J.G.C. – Essa frase surge mais como uma provocação. Ela vale para um viés específico, que é aquela parte mais lúdica do futebol, que se pratica nas escolas, com os amigos, nos campinhos de bairros. Nessa dimensão do esporte, quanto menos ele for cerceado por regras e táticas, melhor. No futebol profissional, entretanto, é fundamental que exista organização. O ideal, porém, é que essa tendência de estratégias e planejamento não sufoque o talento individual, a alegria do esporte. Essa eu acredito ser a grande questão, pois senão o futebol perde sua grande razão de ser e se torna um esporte extremamente burocrático. Perderia o apelo que possui hoje.


Discurso retórico


Estamos vendo hoje brigas entre os grandes grupos midiáticos para a aquisição dos direitos de transmissão dos eventos esportivos. Muito dinheiro em jogo. Ao mesmo tempo, pouco se investe no esporte de base. Há solução para esse dilema?


J.G.C. – A organização do esporte no Brasil hoje é muito influenciada pela mídia, em especial pela rede Globo. Isso é um abuso, uma distorção. A interferência da televisão não deveria chegar a esse ponto – de mudar calendários e horários de partidas. Quanto à questão do investimento, acredito que um bom lugar para se formar atletas, que gerariam resultados no futuro, sejam as escolas. Mas nem o seu papel mais básico – ensinar – elas têm feito, então fica complicado. Há a questão, também, de que surgem ícones para o desenvolvimento dos esportes, como o Guga no tênis, mas são casos efêmeros, que não têm uma continuidade. A falta de investimento de base é um sério entrave para o desenvolvimento do esporte no Brasil, sem dúvidas.


Jogos Olímpicos. Assim como o número de atletas brasileiros, a cobertura midiática dos Jogos é cada vez maior. O COI, Comitê Olímpico Internacional, é contra essa ‘gigantização’ olímpica. Há como ir contra essa tendência?


J.G.C. – É muito difícil. Cada vez os países mandarão mais atletas e os patrocínios também crescem. É um ciclo que dificilmente será quebrado. Acho que esse discurso do COI é puramente retórico. Não vejo onde e como eles podem coibir essa tendência, já que o esporte é, cada vez mais, uma grande fonte de renda e entretenimento.


A antimesa-redonda


Há autores que afirmam que o futebol brasileiro, e os esportes em geral, se tornaram produtos da indústria cultural. A espetacularização dos eventos e a mitificação do atleta podem afastar o leigo do esporte do dia-a-dia?


J.G.C. – Acho que acontece o contrário. Acaba-se atraindo pessoas que não têm qualquer tipo de proximidade com o esporte com essa espetacularização e mitificação dos atletas. Um exemplo grotesco disso seria o público feminino em geral, que não acompanhava muito, mas hoje acompanha notícias que não necessariamente envolvam o esporte, mas sim as celebridades que deles fazem parte. E acredito que isso possa, de algum jeito, fazer com que o esporte se dissemine. Talvez não da maneira mais correta.


A ‘falação esportiva’, conceito criado por Umberto Eco, defende que o esporte passa a ser um longo discurso da imprensa esportiva sobre ela mesma, entregando um produto pronto a um receptor passivo. O aumento de programas esportivos, em especial no modelo talk-show, cria um espectador mais ou menos crítico?


J.G.C. – Essa definição do Umberto Eco não deve ser interpretada como algo absoluto. Na contramão dessas mesas-redondas que giram em torno de si, também há tentativas de furar esse modelo. O Rocky Gol de domingo, da MTV, é um exemplo. Esse tipo de programa talvez torne o espectador mais crítico, já que é a antimesa-redonda. Mas é aí que surgem vocês, estudantes de Jornalismo, para propor mudanças a este modelo. A imprensa deve estar em constante evolução.

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Estudantes de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina

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