Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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DIRETóRIO ACADêMICO >

Análise de uma crítica

Por Heitor Reis em 04/11/2008 na edição 510

Como reação a textos que venho veiculando sobre a questão da obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão de jornalista, tenho obtido algumas respostas, uma das quais passo a analisar. Para quem ainda não tomou conhecimento do que já produzi sobre o assunto, sugiro alguns endereços ao final, onde incluo outros autores também.

Basicamente, minha tese se fundamenta em uns poucos pontos, aprimorados com o debate contínuo sobre a questão, que vem sendo realizado para o bem da sociedade:

1. Se o diploma garante a condição mínima de ética e qualidade na informação para a sociedade, como defende a Fenaj – Federação Nacional dos Jornalistas, como está a situação dos países que não adotam esta obrigatoriedade? Melhor que o Brasil, onde a obrigatoriedade foi imposta pela ditadura pseudo-militar? Igual ou pior? Como ainda não vi qualquer trabalho sobre o assunto, entendo que esta discussão ainda não esgotou todas suas possibilidades. Se alguém conhece algo a respeito, gentileza informar-me.

2. Em que a obrigatoriedade do diploma vai alterar a relação de trabalho entre jornalista e patrão? Ela é extremamente desfavorável ao trabalhador em geral, mas no caso da grande mídia, a ética do lucro imposta pelo patrão aos seus empregados vai repercutir na opinião pública, mais exatamente nas mentes de 74 % da população, que são analfabetos e semi-analfabetos, motivo pelo qual são incapazes de qualquer análise crítica do idioma que não compreendem.

Deturpação sempre haverá

3. Qual a qualidade dos jornalistas atuais, diplomados ou não? Eles defendem que o Estado brasileiro é uma república ou uma reparticular? Um Estado Democrático de Direito ou de Fato? Um Estado oligárquico e autoritário? Uma ditadura do poder econômico, plutocracia (governo dos ricos), cleptocracia (governo dos ladrões) ou uma corporocracia (governo das corporações)? Venho questionando publicamente o trabalho de alguns de nossos melhores quadros, mais exatamente André Trigueiro, Luiz Carlos Azenha, Silvio Caccia Bava, Hugo Studart e Vinícius Mansur.

4. O jornalista é vítima, cúmplice ou ambas as coisas, dentro do processo de manipulação da informação pela grande imprensa, conforme pesquisou Perseu Abramo e outros, considerando-a como inimiga do povo brasileiro, atuando como um partido político? Se o jornalista diplomado respeita a ética, quem fez a manipulação da informação para o patrão, após o entulho autoritário que exigiu o diploma? Mesmo após a obrigatoriedade ter sido aplicada por tanto tempo, em que ela contribuiu para reduzir a indecente e imoral manipulação da informação na grande imprensa brasileira? Ou para melhorar a qualidade da ética e da informação para a sociedade?

5. Não seria o caso de se exigir diploma e fiscalização de quem manda, ao invés de quem apenas obedece cegamente ao empresário da comunicação? Quem é remunerado para produzir comunicação, seja com diploma ou sem diploma, não agrega confiabilidade em relação a quem escreve por diletantismo, como demonstra a realidade dos fatos. A multiplicidade de visões de um único fato permite a possibilidade de nos aproximarmos mais da verdade, através do conhecimento e análise de todas elas. Deturpação haverá de ambos os lados, amadores ou profissionais, em função do buraco ser mais embaixo, na própria natureza humana [ver aqui].

Pessoas, fatos e idéias

Dentro deste processo, alguns de meus textos foram veiculados em um grupo virtual, que trata da comunicação de uma forma engajada e profunda, mantido pela PQN – Pão de Queijo Notícias, atendendo ao pedido de seu responsável. Trata-se de uma das mais brilhantes iniciativas destas Minas Gerais, que se manifestou inicialmente na forma de uma revista impressa de elevada qualidade visual, técnica e em seu conteúdo. É veiculada por várias unidades da federação, hoje também dispondo de uma agência de notícias que merece ser conhecida. Um inovador trabalho de equipe coordenado pelo profissionalíssimo jornalista Robson Abreu [ver aqui].

Foi neste ambiente com alto nível de relacionamento e simpatia que recebi mensagem iniciada assim, já em um outro nível:

‘Esse Heitor Reis é quem? Provavelmente, intuo, um engenheiro civil frustrado, daqueles que levaram pau em cálculo I, II e III tantas vezes que, pra não perder o bonde da história, resolveram fazer jornaizinhos de DCE durante a faculdade. Por conta disso, formou-se e, sem arrumar emprego na área, vislumbrou na incipiente `carreira´ de redator de pasquins universitários uma alavanca pra um futuro mais destacado. Fui preconceituoso? Fui, sim, mas acho que apenas me igualei a esse cara’ (Evaldo Magalhães – jornalista e professor universitário).

Logo na primeira linha, já podemos deduzir que o ilustre jornalista e professor universitário dá relevância e foco prioritário na identificação de pessoas antes das idéias que elas expressam, natural no academicismo.

‘O medíocre discute pessoas. O comum discute fatos. O sábio discute idéias‘ (provérbio chinês).

Engenhar e engendrar

Desde já, então, constato uma diferença em nossa forma de tratar com o mundo das idéias. Eu dou maior valor a analisar a idéia que me é colocada, considerando que as pessoas são falhas, inexperientes e instáveis, motivo pelo qual, mesmo que tenha um percurso notável, alguém de prestígio pode produzir algo falacioso, sofismas, tanto quanto um ilustre desconhecido. Pouco me importo com quem disse determinada coisa, mas com o conteúdo do que foi dito.

Devemos passar qualquer idéia no crivo da análise profunda e jamais acreditarmos em algo simplesmente porque foi um medalhão que o disse. Ninguém é perfeito! Por outro lado, notáveis que disseram coisas positivas também não devem ser desprezados e merecem a consideração em função do valor total ou pontual de sua obra.

‘Não há quem saiba tanto que não precise aprender e nem quem saiba tão pouco que não possa ensinar’ (provérbio popular).

Os melhores livros de administração de empresas nos afirmam que, numa equipe multidisciplinar para, por exemplo, produzir um novo modelo de automóvel, é importante colocar alguém que nada tenha a ver com este setor da economia, pois esta pessoa irá proporcionar uma visão diferente dos demais e contribuir para um resultado mais eficaz.

Num mundo complexo como o nosso, as disciplinas vão sendo misturadas e a compartimentalização do conhecimento vai ficando para trás. Já temos até bioengenharia! Engenharia genética… A estes, venho incorporando engenharia midiática, engenharia filosófica, engenharia espiritual, engenharia social etc.

Engenhar vai além do conceito superficial popularmente conhecido: conceber na imaginação; engendrar, idear, inventar; arquitetar (geralmente em segredo); conspirar, maquinar, tramar.

Engendrar vai ainda mais longe: dar existência a; formar, gerar; tirar ou surgir aparentemente do nada; criar(-se), produzir(-se), gerar(-se); conceber na imaginação; engenhar, imaginar, inventar.

A vida não é cartesiana

Podemos voltar mais ainda no tempo e veremos que os gregos tratavam de vários setores do conhecimento simultaneamente, sem qualquer constrangimento. Ali foram forjadas as bases de nossa civilização, exatamente em função da liberdade que havia para a criação sem formalismos acadêmicos.

Academia, aliás, que naquela época era exatamente o oposto do que é hoje. Temos, na realidade, em nosso tempo, uma linha de produção com o objetivo de abastecer o mercado com peças sobressalentes e inconscientes para o ambiente empresarial usufruir e maximizar seus lucros imorais e insaciáveis. Isto, quando a própria universidade ou faculdade não tem também por objetivo a mercantilização do conhecimento com o mesmo fim. Quando pública, visa à manutenção do sistema estabelecido (establishment) e da privatização do Estado, para atender prioritariamente aos interesses de uma elite privilegiada economicamente que o domina, quando não também aos do corpo docente [ver aqui].

Concluo que este professor jamais esperaria que um profissional de ciências exatas, insatisfeito com o mecanicismo e aridez de sua profissão pudesse abandoná-la e navegar em outros mares, como o fez o inquestionável Euclides da Cunha, cuja trajetória foi extremamente conturbada, até ser morto pelo amante de sua esposa, em um duelo [ver aqui

].

Temos engenheiro que virou ator e foi trabalhar no Casseta & Planeta. Outro, abandonou o curso de arquitetura para se tornar um dos maiores compositores do Brasil. Felizmente a vida não é cartesiana! Por outro lado, para cada um que atinge o sucesso público, há milhares que sucumbem no anonimato… É a inexorável seleção natural da espécie.

A política dos hormônios

Apresento o texto da crítica, abaixo, na íntegra, para ilustração de meus leitores. Espero que possam encontrar ali o que não me foi possível: uma argumentação racional e lúcida, demonstrando pontualmente alguma falha na linha de raciocínio que venho desenvolvendo e aprimorando, num processo dialógico com a crítica dos que me honram com sua avaliação.

Certamente que, por falta desta condição, o autor optou por criar uma cortina de fumaça emocional, através de uma desqualificação pessoal, e vagando aleatória e superficialmente sobre aspectos que não cogitei, esquivando-se de focalizá-los. Certamente, é uma peça exemplar do estilo de enfrentamento da realidade que acaba influenciando os discípulos deste jornalista e aos seus leitores. Sinceramente, não vejo como esta técnica possa contribuir para que tenhamos uma visão melhor deste assunto… E de outros.

Para quem ainda não conhece minhas aventuras e desventuras, segue uma síntese delas, para termo de comparação com as ilações do ilustre professor:

Como estudante de engenheiro civil na UFMG, tomei pau em várias matérias, por preferir estudar anatomia feminina de ninfetas da beleza tropical latino-americana e os decorrentes prazeres hedonistas da carne e do álcool, quase totalmente desinteressado por política que não fosse a dos hormônios.

Opção preferencial pelos pobres

Engenheiro de Planejamento de Projetos Industriais Sênior após 12 anos de trabalho na expansão da Acesita, onde fui trabalhar imediatamente após formado, decidindo por outras andanças, motivo pelo qual suspendi, mais recentemente, meu registro profissional.

Produzi relatório sobre os problemas da empresa e o divulguei na portaria da usina, tendo sido demitido, por este motivo, em reunião de diretoria, apesar de alguns elogios em minha folha profissional, bem como premiado em concurso de poesia da empresa, cujo jornal publicou alguns de meus trabalhos [ver aqui].

Livre como um pássaro, fui passarinhar nos EUA, onde tenho irmãos bem estabelecidos e acabei trabalhando como taxista, numa interessante forma de turismo cultural e lingüístico remunerado. Depois, como empregado doméstico de um bem sucedido construtor, onde meu irmão e cunhada tinham permanecido por uma década antes dele se tornar analista de sistemas, e ela, responsável pelos clientes latinos do Banco Itaú, em NY.

Pregador itinerante e independente da Bíblia com opção preferencial pelos pobres, sem criar uma nova denominação (igreja), criticando ostensivamente os erros das religiões em geral. Instrutor terceirizado do Sebrae-MG, através do Ibeids – Instituto Brasileiro de Educação, Integração e Desenvolvimento Social. Militante no movimento de rádios comunitárias, democratização da comunicação e Direitos Humanos. Gestor em Direitos Humanos pela Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República. Articulista da Federação Nacional de Associações de Imprensa (Fenai/Faibra) e da Agência Brasileira de Notícias (ABN).Membro do Conselho Consultor do Câmara Multidisciplinar de Qualidade de Vida (CMQV). Mais de 5.000 citações na internet, onde vários artigos ficam expostos à crítica pública, permitindo uma reavaliação constante e uma construção coletiva de seu aprimoramento, através de um contato direto com o leitor. Sempre escrevi como colaborador voluntário não remunerado, abdicando dos direitos autorais (esquerdos autorais, copyleft), priorizando a liberdade sobre os benefícios do capital e o preço que se paga para deles usufruir.

‘Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu’ (Darcy Ribeiro)

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Texto original, na íntegra

Querido Robson e amigos pequenistas,

Esse Heitor Reis é quem? Provavelmente, intuo, um engenheiro civil frustrado, daqueles levaram pau em cálculo I, II e III tantas vezes que, pra não perder o bonde da história, resolveram fazer jornaizinhos de DCE durante a faculdade. Por conta disso, formou-se e, sem arrumar emprego na área, vislumbrou na incipiente ‘carreira’ de redator de pasquins universitários uma alavanca pra um futuro mais destacado.

Fui preconceituoso? Fui, sim, mas acho que apenas me igualei a esse cara.

Alguém aí, por favor, dê ao Heitor um livrinho do Nelson Traquina, do Mauro Wolf ou do Dines pra ele tentar entender por que as notícias são como são? Acho que ele poderia até mesmo começar com uma definição de newsmaking via wikipedia. Sem problema.

Poxa, só não vê quem não quer ou quem é burro que a discussão não é sobre o diploma, mas sobre a regulamentação da profissão de jornalista. E que isso tem, em seu cerne, porquês muito mais complexos do que faz supor a ridícula alegação da garantia constitucional de liberdade de expressão (até mesmo pros biltres engenheiros).

Pergunto: será coincidência que quem municiou o MP paulista, no início dessa celeuma toda, com argumentações contrárias ao diploma tenham sido advogados ligados aos grandes grupos de comunicação? Não, óbvio que não!

O que os donos dos meios de produção (sorry, tayloristas) querem, meus amigos, é lidar com uma categoria amorfa, sem campo de conhecimento e de excelência definido e reconhecido, desprovida de identidade, sem sindicatos, nos quais se defendem, em nome dos associados, os ditames da ética e da boa conduta dos profissionais, além, é claro, de um aumentozinho salarial aqui e uma garantiazinha trabalhista acolá.

O que esses capitalistas querem (meu Deus, ilumine o Heitor sobre isso e diga a ele que, mesmo com a regulamentação assegurada e mesmo que ele escreva tão mal, nós vamos deixá-lo exprimir suas opiniões, sim, em qualquer jornal de bairro, na condição de colaborador ou qualquer coisa que o valha!) é aumentar lucros e reduzir perdas. E nada melhor pra isso que lidar com ‘operários de notícia’ oriundos de várias áreas, sem expertise acadêmica específica, sem regulamentação profissional, e sem sequer uma lufada do espírito de corpo que protege a eles mesmos e a todos, diga-se, ‘os que têm responsabilidade sobre a vida humana: médicos, químicos, físicos e engenheiros’ (Wolf, o Fausto, sei lá quando).

E tem mais: no momento em que as novas tecnologias permitem que qualquer debilóide sem conhecimentos técnicos, científicos e culturais sobre o campo da comunicação – aprendidos à base de muito treino, leituras e reflexão nas boas escolas do ramo – produzam conteúdo jornalístico (até você, Heitor!), é, a meu ver, cristalina a intenção dos velhos ricos e babões que comandam a nossa mídia. Pagar jornalistas graduados e pós-graduados pra quê, eles se questionam.

A propósito e pra terminar, uma analogia simples: desde que os bancos começaram a se modernizar, sob os auspícios da tal sociedade informática, há uns 15 ou 20 anos, já foram limados milhões de empregos no mundo. Hoje, com todo esse avanço da tecnologia, dos caixas automáticos ao home banking, o número de empregados é ínfimo e quem trabalha pro banco, cada vez mais, é o freguês. Portanto, não é de se estranhar que, livres de encargos e da rigidez das legislações trabalhistas, essas instituições apresentem lucros cada vez mais imorais.

No caso dos grupos de comunicação, que migram a passos desesperados pra internet (é a inevitável marcha da história, eu sei), os donos, podem ter certeza, querem a mesma coisa. Pra eles, o jornalismo colaborativo – que pra nós, do metiê, é um lance bacana e inspirador – ganha novos significados: o que pretendem, simplesmente, é produzir conteúdo às custas da audiência, desprezando a figura do jornalista como filtro, intermediário ou analista dessas informações.

Eles pensam: ‘Jornalista pra quê? Me dá um engenheirozinho desempregado aí, sem sindicato e sem categoria, ou mesmo um engenheirozinho que acha que sabe escrever e que sabe o que é notícia, que eu treino aqui mesmo e ponho pra trabalhar’.

Abs,

Evaldo Magalhães – jornalista e professor universitário

É meu amigo, concordo com vc. O pior é quando falam: ‘Poxa, vc cobra isso tudo para escrever uma lauda? (cerca de 120,00 de acordo com a tabela do Sindicato). Tenho um sobrinho que sabe escrever, vou pedir pra ele!’ Isso mata qualquer cidadão! (Robson Abreu, PQN)

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Engenheiro civil, militante do movimento pela democratização da comunicação e em defesa dos Direitos Humanos, membro do Conselho Consultor da CMQV – Câmara Multidisciplinar de Qualidade de Vida e articulista

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